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Language:
Português brasileiro
Stats:
Published:
2022-09-13
Words:
1177
Chapters:
1/1

Sozinho

Entire Work

Work Text

Eu sorri ao ver o jeito com que Gon me olhava agora, seria até cômico, se não fosse trágico ver aqueles olhos que eu sempre amei me fitando com ódio. Eu queria dizer isso a ele, mas aquela discussão já havia se estendido demais, e não havia o que ser dito que já não fora dito antes, ainda assim Gon queria continuar discutindo:— Killua, não precisa ser assim, eu sei como você se sente...— Não, você não sabe. Você nunca soube Gon, você nunca parou para pensar como eu me sinto toda vez que você toma a decisão sem pensar nas consequências, você nunca parou para pensar em tudo que eu abri mão para está ao seu lado, mas quer saber, tô cansando disso.— Mas eu ainda te amo.— Eu também te amo! Só que amor “só” não basta. Eu só tô cansado Gon... Eu gostava de estar no banco do carona e ir para onde quer que você me levasse, mas já deu, eu quero poder ir aonde eu realmente quero está.— E você não quer mais estar ao meu lado? É isso?— Não! Eu quero! Só não hoje, nem amanhã...— Se não é hoje e nem amanhã então quando será? Você está tentando terminar comigo é isso?— Eu não sei. Eu só preciso de um tempo, eu preciso ficar sozinho ou eu vou morrer sufocado aqui.Gon ficou estático enquanto eu jogava minhas coisas dentro de uma mochila, eu sentia por aquele jeito de olhar que ele queria me segurar aqui e impedir o amigo/amante de deixá-lo sozinho naquela pensão, mas não o fez. Ele apenas ficou me olhando daquele jeito que ele olha quando está furioso, ele me encara como se eu fosse um inimigo ou algo assim.— Não me olha assim — pedi.— E como você quer que eu te olhe quando você está jogando toda a nossa história fora? Quer saber, se você quer ir eu não vou te segurar, mas também não esperei por você!— Tudo bem, você nunca espera de qualquer forma...Ele me olhou como se quisesse me matar, mas eu estava cansado, então apenas deixei o quarto em silêncio e antes que chegasse ao fim do corredor, escutei o som de vidro se quebrando contra parede. Provavelmente aquele foi o som de meu porta-retratos se partindo... Respirei profundamente e segui em frente, não havia por que voltar por causa de cacos de vidro, afinal.Eu deveria ter guardado aquela foto...Nela meu eu de 12 anos estava sorrindo, ao lado de outro menino de 12 anos que também tinha um sorriso radiante. Éramos inseparáveis, animados e estávamos felizes, mas tudo isso tinha sido há oito anos quando decidimos fugir de casa...Naquela época, nem Gon e nem eu imaginávamos todas as agruras que passamos para viver por conta própria, todos os perigos que enfrentamos ou todas as vezes que dormimos ao relento ou passamos fome. Nenhum de nós podia imaginar que acabaríamos nos tornando mais que amigos, que daríamos o primeiro beijo um no outro, que perderíamos a virgindade juntos... Nenhum de nós dois acreditaria se alguém nos contasse que um dia um dos dois sairia e deixaria o outro pra trás, mas eu
estou fazendo isso agora.Eu queria chorar, mas em vez disso peguei o primeiro ônibus e fui para o litoral, precisava esfriar a cabeça, precisa respirar, sobreviver, ou melhor, precisa viver! Eu não estava vivendo há anos, apenas orbitando em torno de Gon, fazendo o Gon queria fazer, indo aonde Gon queria ir, comendo o que Gon gostava de comer, mas e quanto a mim? O que Gon fazia por mim, afinal?Nada...Os dias felizes pareciam um sonho longínquo.Na janela do ônibus, eu podia ver projetar cenas da nossa adolescência aos poucos perdendo a cor. Eu olho no reflexo do vidro e vejo que meus olhos azuis já não são os vivazes olhos de outrora, assim como todos os meus sonhos havia ficado no passado como uma bonita pintura surrealista, bonita sim, mas confusa e repleta de elementos fantásticos com ares oníricos, a realidade, no entanto é feia e desbotada.Quando o ônibus parou próximo à avenida litorânea, eu desci, caminhei pelas ruas calçadas de pedras e parei em uma bodega. Comprei chicletes, cigarros e uma garrafa de destilado barato cuja marca eu nunca ouvi falar. Guardei os tênis na mochila quando cheguei à praia, e com os pés na areia caminhei em direção ao mar.Era um finzinho de tarde e tudo que eu mais queria era me embriagar até esquecer de todo o pesadelo que a minha vida havia se tornado. Sentei na areia, acendi um cigarro atrás do outro intercalando as tragadas com goles diretamente no gargalo, mas a embriaguez custava a vir. No fundo, eu sabia que havia furos no nosso enredo, apenas não queria aceitar que no meu íntimo eu nunca acreditei verdadeiramente em tudo que Gon dizia sobre nós dois.Eu nunca consegui acreditar nessa poesia vazia...Mas eu sei que ele me amava, do jeito dele, ele amava, porém antes ele amava a si mesmo, aos seus próprios sonhos e metas, e bem, eu cansei de vê-lo pelas costas e seguir cegamente seus passos.Eu esqueci de mim mesmo no caminho. Tudo era ele, mas eu não posso ser só uma sombra!E eu ainda o quero ao meu lado, mas não hoje, nem amanhã...
Um dia quem sabe.Um gole após outro e uma leve tontura na cabeça, e corpo ardendo e as malditas lembranças daquele puto gostoso me fazendo gemer como uma cadela. Pensar em nós dois coloca um riso de escárnio nos meus lábios agora relaxados, mas não alivia o peso no meu coração e a agonia no estômago. Que porra eu estava vivendo? Um maldito mix de filme pornô, comédia pastelão e cine trash? Eu tô farto desse roteiro de merda! Melhor começar a escrever uma nova história enquanto há tempo.Cansei de ser coadjuvante da minha própria vida, e ele não pode ser meu eterno protagonista!Não pode, mas o pior é saber que eu quero que ele seja, eu quero estar com ele, só não hoje, nem amanhã...Hoje ele é apenas mais um dos meus problemas, e eu já tenho problemas demais!Desse jeito eu vou acabar definhando… Ainda mais…Sem chance! Eu vou sobreviver sem ele!Nem que seja na força do ódio!Tomo um gole, acendo o último cigarro e olhei para o mar. Que vista linda! Mas sinto-me enjoado. Olhar o movimento contínuo das ondas quebrando na areia me dá náusea, mas fechar os olhos e lembrar o “amor” que tive me deixa igualmente nauseado.Ignoro o mal-estar e assovio um trecho de High by the beach, “eu quero ficar chapado na praia”, eu realmente quero e vou beber enquanto o tempo passa lentamente e o brilho desse dia maldito se vai.Tomo o derradeiro gole direto do gargalo, olho o sol se pôr no horizonte e rio, mas não há qualquer felicidade no meu riso, é só a minha empáfia me impedindo de chorar.

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