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A escuridão pairava soberana sobre o coração duma caverna escondida no sopé de um morro, por trás de um denso bosque no país do Arroz. O ar ali era úmido o bastante para que se pudesse quase toca-lo, fazendo fios de cabelo agarrarem-se à testa, trazendo em sua essência o arroma de mofo, musgo e coisas há muito mortas. O único som que se fazia presente eram as gotas que de quando em quando abandonavam as suas estalactites para juntaram-se às estalagmites aqui e ali, numa sinfonia errática dum compasso dolorosamente lento. Nesse ambiente inóspito, onde o olhar treinado teria dificuldades para enxergar para além dum palmo, Orochimaru via tudo com clareza, focando-se numa pequena serpente albina salpicada de padrões vermelhos tão claros que confundiam-se com rosa. Dita serpente se afastava a um ritmo constante, apesar de um tanto lento, serpenteando com graciosa labuta por entre as irregulares rochas do terreno. O som do escárnio, na forma de uma risada, morreu na garganta do homem, sem sequer alcançar seus lábios. Poderia mata-la com um simples movimento de sua mão e ninguém protestaria, afinal, seria uma punição adequada pela audácia de retirar-se da presença de seu mestre sem ser dispensada, mas não o fez. Limitou-se a ver o corpo frio do réptil debater-se para longe pelo chão ainda mais frio, sumindo de seu campo de visão, até que o som dela retornando ao seu lar ecoasse pelo sistema de cavernas. Um sorriso de aprovação surgiu no rosto de Orochimaru. Por mais insignificante que a criatura fosse, sabia que não havia nele paciência para aturar incômodos como ela por mais tempo do que necessário. Novamente a sós no seu esconderijo predileto, seu olhar voltou-se para o pequeno pergaminho que a cobra insolente havia interrompido sua paz para entregar. O pequeno sorriso esvaiu-se de imediato. Era o relatório de um de seus muitos olhos e ouvidos, precisou de um segundo inteiro para recordar, através da singela assinatura de chakra no selo, que estes em questão viam e ouviam o que era feito e dito nas profundezas obscuras da Aldeia da Folha. Independente do que estava sendo relatado, não havia razão para adiantar em três meses o seu relato. As sórdidas ideias de como punir seu espião entreterem sua mente pelos breves instantes que Orochimaru levou para desfazer o selo e desfraldar o papel com qualquer que fosse a informação que Shimura Danzo estava compartilhando involuntariamente. Olhos ágeis varreram as letras em menos de cinco segundos enquanto a mente, ainda mais ágil, tentava assimilar seu conteúdo. Travou no instante que compreendeu. Releu o conteúdo para confirmar. E então releu de novo. E de novo. E de novo. E de novo. Era como se ler as mesmas palavras outra vez ajudasse sua mente à processar o peso do que ele estava relendo. E cada vez que ele passava os olhos por sobre a escrita apressada de seu informante, um sorriso maníaco se alargava por seu rosto. Entre a décima e a décima primeira releitura ele começou a rir. Entre a décima sexta e a décima sétima o riso tornou-se uma gargalhada com deixes de insanidade. Entre a vigésima nona e a trigésima ele teve que se dobrar para frente, abraçando seu abdômen e fechando um de seus olhos de tanto rir -sem parar de ler com o outro -, os restantes deixes de sanidade apagando-se por inteiro. Na quadragésima quarta ele enfim cessou a leitura e o gargalhar, concentrando suas forcas em recuperar o fôlego enquanto sua mente seguia euforicamente chafurdando no prazer que ele sentia por simplesmente estar vivo para viver esse momento. O pergaminho ebuliu em chamas amarelas vivas no exato momento que ele se recuperou, iluminando momentaneamente a caverna. Ergueu-se de seu assento, o ressequido e decomposto cadáver de seja lá o que fosse que havia morrido ali - ou as sobras que a natureza não havia clamado -, e pôs-se à andar. Percebeu então que seu espião havia escapado do destino de se tornar mais um assento nessa caverna. Murmurou uma melodia antiga enquanto caminhava pelo longo caminho até a saída. Sem pensar, pegou seu equipamento e sua roupa de onde havia deixado, a caverna lentamente voltando a performar seu papel. O breu quase perfeito e o silêncio quase absoluto isolando-o do mundo externo, esvaziando sua cabeça de frivolidades desnecessárias, criando o quadro em branco perfeito para maquinar seus planos. E ele tinha muito o que planejar. Entre um riso e um assovio sua mente repassava as informações, posicionava as peças e começava a move-las, cenário após cenário. Tudo era tão perfeito que por um instante temeu estar caindo em uma armadilha. Não, ele não tinha tempo para duvidar agora. Os prazos eram curtos demais, as distâncias eram longas demais, a janela de tempo entre um passo e outro estreita demais. Agora era a hora de arriscar tudo. Ele precisava ser rápido e silencioso, avançar por entre as brechas, deslizar por sobre as adversidades, abrir caminho até seu alvo e atacar no ponto fraco. Afinal, ele era uma cobra e essa era a hora de dar o bote. Parte de sua mente repassava o pergaminho pela enésima vez, as palavras chave queimando em sua cabeça. Uchiha. Revolta. Golpe. Raiz . Contra medidas. Danzo. Outra parte estava à ponto de se perder no oceano de possibilidades. Sharingan. Byakugan. Som. Nuvem. Arroz. Nove caudas. Uma terceira desenhava seus planos entre as duas primeiras, arquitetando suas ações, antevendo as reações, abrindo suas entradas, disfarçando suas saídas, avaliando ganhos e perdas, medindo cada risco e sacrifício. Qual seria seu ponto de extração? Em quanto tempo ele conseguiria infiltrar alguém numa comitiva estrangeira? Como ele o levaria pro lugar certo, na hora certa? O quanto ele conseguiria se aproximar sem ser detectado? Como ele enquadraria seu bode expiatório? Kabuto seria capaz de por o plano em prática a tempo? Como ele justificaria essa operação? E por baixo de toda a lógica, seu coração palpitava de antecipação à como tudo isso anteciparia seus planos em anos, como isso não só o fortaleceria como enfraqueceria muitos os seus inimigos de uma só vez. E principalmente, como ele conseguiria finalmente se vingar! Sua boca salivava com o mero pensamento. Tão ensimesmado estava, não percebeu a presença ao seu lado até que ela se pronunciasse. —Feliz já tão cedo, o que aconteceu, algum menininho se perdeu no caminho da creche? Fitou com desprezo a figura corcunda e sem expressão de Sasori, escondendo bem a face de madeira por debaixo de seu chapéu de palha e por cima do seu manto negro com nuvens vermelhas. —Hmpf!- foi a única resposta de Orochimaru à acusação esdrúxula, escondendo seu rosto por debaixo de seu próprio chapéu de palha e manto negro, tendo a decência de se envergonhar por ter sido flagrado com tamanho sorriso. —O que faz você por aqui? Fez questão de acentuar o amargor em sua voz. O fato de que Sasori sabia o caminho para seu esconderijo era uma ferida que não cicatrizava e doía em dias chuvosos. —O Grande Líder tem uma missão para nós. Devemos encontrar e eliminar um contato perdido que sabe demais nos arredores de Shukuba. —Oh, dois de nós pra aparar uma ponta solta?- questionou com um sorriso malicioso. —Ele sabe que estamos indo atrás dele, devemos esperar resistência. Além disso, o Líder não quer arriscar muito depois do que Kakuzu fez no último verão. Acenou em concordância, recordando-se do espanto que tivera quando, não satisfeito em matar seu terceiro companheiro de missão seguido, Kakuzu matou dois de uma vez. —Bom, essa missão veio em boa hora.- comentou casualmente, brincando com o anel em seu dedo como uma criança ansiosa esperando a mãe autorizar que ela saia para brincar. A cabeça de Sasori virou-se mecanicamente para ele, enquanto o corpo seguia se arrastando para frente. —Tenho assuntos a tratar em Konoha.- respondeu com simpleza a pergunta não dita. —Assuntos a trata, hein?- repetiu com desconfiança e Orochimaru pôde sentir os olhos do fantoche se estreitando sob sua figura. —Você não respondeu minha primeira pergunta.- apontou o corcunda. Ao que Orochimaru respondeu inicialmente dando de ombros, antes de exibir um sorriso maníaco que ia de orelha à orelha. —Digamos apenas que ventos fortes estão sobrando e o moinho está prestes à girar violentamente!

----- CHAPTER BREAK -----

As ruas estavam movimentadas, tão cheias que não tinha como alguém conseguir enxergar para onde estava indo sem parar de quando em quando e tentar subir em alguma coisa para espiar por cima das cabeças na multidão. Pelo menos não alguém tão pequeno quanto ele. Afinal, Naruto era apenas um garoto de seis anos, cujo topo da cabeça costumava alcançar apenas a barriga da maioria dos adultos, com exceção dos muito baixos ou muito velhos. Assim, subiu em uma cadeira que estava vazia próximo de uma lojinha que vendia Takoyakis, com cuidado para não cair, se equilibrando no móvel cujos pés de tamanhos desiguais o faziam balançar para manter-se de pé, e ainda tentando ser o mais rápido possível para não ser pego. Por cima das cabeças - das quais mais de duas lançaram-lhe olhares de desdém e ódio mal disfarçado -, Naruto pôde ver que o portão que ficava no topo de uma escadaria que dava acesso à um pequeno terraço estava aberto. Sorriu com sua sorte e saltou da cadeira. —Ei, moleque!- ouviu o dono da loja o repreendendo, correndo em sua direção, o fedor de polvo o acompanhando. Mas Naruto era mais rápido. Correu para as escadas o mais rápido possível, não que isso dissesse muito, pois com a rua tão cheia, correr era mais uma questão de saber quando andar e quando esperar, cortando pela multidão e pisando em poças com a destreza e o desprendimento que só uma criança seis anos tinha. Ou melhor, uma criança de quase sete. Há cinco dias de seu aniversário, Naruto tinha que ser cuidadoso e se esforçar para passar despercebido, o que ele detestava, mas não tinha o que ser feito. As pessoas na Aldeia da Folha ficavam mais hostis quando o aniversário dele estava perto, era melhor não chamar atenção. Por isso havia escolhido esse lugar, um sorriso singelo surgindo-lhe ao rosto conforme subia as escadas. Mesmo que não desse para vê-lo por inteiro da cadeira onde ele havia subido, Naruto sabia que esse terraço estava completamente vazio*. Dito e feito, passado o portão, algumas curvas depois ele encontrou-se a sós num espaço pequeno mas amplo o bastante para um garoto da sua idade. Pequenas explosão ressoaram pelo ar conforme os fogos anunciavam a paz*. De onde estava, Naruto conseguia ver o sol se pondo no horizonte, as nuvens cinzentas que haviam chuvido aquela manhã, parte da rua principal da aldeia, onde um mar de cabeças fazia a multidão que ele acabará de atravessar parecer pequena, podia ver a Torre Hokage, onde o vovô Hokage estava se encontrando com os ninjas de fora e podia ver também os rostos de pedra de todos os quatro Hokages. Seu sorriso se ampliou enquanto ele sentava, mal conseguindo manter a empolgação. Quando amanhecesse essa guerra iria finalmente acabar! Não que ele soubesse o que exatamente isso significava, já que ela já estava acontecendo desde que ele era novo demais para lembrar. Ele não saberia dizer como seria a paz, ou o que ela ia mudar na aldeia, mas parte dele tinha esperança de que as pessoas fosse parar de olhar para ele como se ele fosse o culpado dela. Talvez, quem sabe, eles parem de o odiar? — Só mais um pouco…- prometeu para si mesmo, as pernas balançando preguiçosamente de um lado para o outro em inquietude, corpo inclinado para trás enquanto ele via o dia acabar. De quando em quando seu olhar recaía sobre os rostos de pedra, deixando-o ainda mais inquieto. Mais cinco dias e ele teria sete anos, dos quais há um ele morava completamente sozinho, condição que ele havia prometido ao vovô Hokage que conseguiria cumprir como prova de responsabilidade para entrar na academia ninja e ele iria conseguir! Claro, ele teve algumas dificuldades aqui e ali, ficou alguns meses sem luz, não dava pra comprar comida o bastante - não que ele soubesse cozinhar -, e ele honestamente achava que recebia pouco, mas ainda assim ele conseguiu! Um ano inteiro morando sozinho e ele iria entrar pra academia! E então ele viraria Hokage! Quer dizer, ele iria, não iria? Podia demorar um pouco, mas era só uma questão de tempo! Riu para si mesmo, pulou sobre seus pés e começou a brincar sozinho, fingindo-se um ninja, imaginando seu futuro como Hokage, pensando em como o ninja da Nuvem deveria ser forte, mas mesmo assim o vovô Hokage conseguiria acabar com ele sem suar, fazendo poses de batalha, golpes de mentira e sinais de mãos desajeitados ou inexistentes. Na sua cabeça ele era o ninja mais poderoso do mundo, mas seu inimigo mortal, a sombra que o seguia para cima e para baixo, era o ninja mais perigoso do mundo, conhecia todos os jutsus que se havia para conhecer e conseguia o imitar com precisão, sempre capaz de esquivar de seus golpes e contra atacar rapidamente. Brincou, riu, lutou. Foi criança naquele terraço onde ninguém o via, com exceção de quatro pessoas na sombras, mas Naruto sabia que aquelas pessoas estavam lá, sabia exatamente onde elas estavam e se sentia confortável com elas o observando. Elas sempre faziam isso, mesmo que nem sempre fossem as mesmas quatro pessoas. Elas nunca se aproximavam demais, mas nunca se afastavam, só quando Naruto corria na direção deles, mas elas nunca iam embora de verdade. No começo, quando era menor, tinha ficado preocupado ao percebe-las seguindo o para todos os lados, mas acalmou-se ao perceber que elas também seguiam o vovô Hokage. Deviam protegê-lo e portanto deveriam estar de olho no futuro e melhor Hokage de todos os tempos. Em algum momento uma quinta pessoa se juntou as outras quatro nas sombras, apesar de que esta última estava mais distante e parecia não interagir com os outros quatro. Estranhou a princípio, mas não se perturbou por isso. Não que fizesse alguma diferença, no fim, todos o seguiram quando ele saiu do terraço, depois dele derrotar sua sombra. O que normalmente queria dizer que anoiteceu. Era tudo questão de imaginação. Andou sem rumo pelas ruas da aldeia, sorriso largo no rosto, traçando seu plano para se tornar o ninja mais forte do mundo. Ele iria se formar na academia bem rápido, aprenderia alguns jutsus legais, ia dominar todos os elementos antes de virar chunnin, talvez ele vire um mestre espadachim? Quem sabe. Em algum momento ele iria parar uma batalha ou salvar uma princesa, algo bem legal que todo mundo ia ficar sabendo pra ele virar Jounin e todo mundo se perguntar porque ele só não vira Hokage logo. É isso parecia certo. Faria isso em três anos para não apressar as coisas, depois ele iria curtir a fama por um tempo antes de finalmente aceitar ser Hokage. Parecia perfeito. Era claro que ele seria o melhor Hokage de todos os tempos, mas não tinha porque humilhar os quatro que vieram antes! Então tudo bem levar uns cinco anos pra chegar lá, certo? Deu uma risada, sem perceber que estava zanzando pelas ruas mais periféricas da aldeia, o chão de pedra dando lugar ao de terra batida, as paredes de cimento, com bom acabamento e constantemente limpas dando lugar às paredes de madeira com tábuas folgadas e algumas manchas que pareciam ser mais velhas que ele, os restaurantes e casas de chá dando lugar às casas com luzes apagadas de quem dormia cedo para trabalhar e bares sujos por onde alguém iria ocasionalmente cambalear para fora, cair e dormir ali mesmo. Até mesmo a iluminação parecia pior aqui, mais de um poste piscava como se lutasse para se manter aceso. Apesar disso, não se incomodou com a mudança de cenário, se limitando apenas á abaixar um pouco mais a cabeça e evitar contato visual. Passar despercebido era fácil para alguém tão pequeno quanto ele. Se realmente quisesse, ninguém o notava, exceto os quatro nas sombras. Foi quando ele parou abruptamente, piscando surpreso. Eles não estavam mais lá. Quando eles tinham ido embora? Teriam perdido ele de vista? Isso sequer era possível? Tinha acontecido alguma coisa? —Finalmente achei você, demônio! Congelou momentaneamente, engasgando com sua própria respiração por um breve segundo, uma leve careta surgindo em suas feições diante das palavras tão comumente sussurradas pelas suas costas sendo agora tão abertamente dirigidas à ele. Virou a cabeça em direção ao interlocutor, notando como ao seu redor, outros aldeões parecem ter percebido a cena e se interessado. Pelo menos três viraram o rosto em sua direção, os mesmo olhares de sempre nas expressões, com um toque de… satisfação? Mais de um parou para assistir o que estava para acontecer. Encarando agora quem o havia chamado, deparou-se com um grupo de quatro garotos e uma garota*, dos quais dois pareciam ter a mesma idade que Naruto, um parceria ser um ano ou dois mais novo, enquanto que os dois últimos, a garota inclusa, pareciam ser bem mais velhos. A vestimenta do grupo era singular. O mais novo, de olhos castanhos e cabelos escuros, vestia uma bermuda azul escuro simples que descia até o meio de suas canelas e uma camiseta branca de mangas curtas. Vestia também uma vaga incerteza no olhar e uma inquietude no corpo. Os dois que eram da idade de Naruto trajavam roupas semelhantes ao mais novo, porém mais justas, como se tivessem escolhido um número menor do que deveriam para vestir. Ou como se tivessem crescido demais debaixo daquela roupa, pensou uma voz intrusa em sua cabeça. Reparou que estes dois traziam na roupa remendos aqui e ali, costuras aparentes aonde o tecido havia rasgado ou se desfeito. Ambos tinham cabelos castanhos, porém um era desgrenhado e o outro era redondo tipo tigela. Apenas um dos dois vestia a incerteza e inquietude no olhar, porém nele estes eram mais acentuados. O outro ostentava um olhar confiante e um sorriso que prometia problema. Os últimos dois estavam vestidos do jeito mais estranho. Ele vestia uma camisa vermelha com o símbolo da aldeia estampado no peito, esta devia ser alguns números maior do que ele vestia, haja vista o fato de que a mesma descia até o meio de sua coxa, tampando assim parte da calça preta cheia de bolsos, que por outro lado parecia ser curta demais, deixando quase metade de sua canela exposta. Ele ainda trazia três lenços, um amarelo ao redor do pescoço, outro também amarelo amarrado no braço e o último, vermelho e desfiando, amarrado em sua testa, impedindo o cabelo espetado de cair sobre seus olhos verdes. Ela, vestia um vestido amarelo simples e surrado, dotado de alguns buracos aqui e ali, exibindo um pouco da pele da barriga, ombros e braços. O vestido claramente era grande demais para ela, forçando-a à amarrar partes do mesmo para que ela pudesse usá-lo sem pisar nele para poder andar. Usava também um óculos escuro grandes demais para seu rosto, indo do meio de sua testa até o meio de suas bochechas, cobriando completamente seus olhos, apesar de já estar de noite. Estes dois tinham no rosto a mesma expressão séria. —V-você tem certeza de que quer fazer, Chiba? A-a gente não deveri- começou o garoto incerto que era da idade de Naruto só para ser interrompido pelo mais velho. —Cala a boca, Chiharu!- latiu, a camisa vermelha esvoaçando enquanto ele virava para o garoto que tinha protestado. A expressão dos três mais novos se contorceu diante do nome proferido. —Se você não tem coragem pra fazer o que é certo pra honrar os seus pais você pode ir embora! Não deveria sequer ter vindo, aqui não tem lugar pra covardes! Concluiu sua afirmação voltando seu olhar de volta para Naruto, a raiva praticamente queimando por debaixo de sua retina, fazendo o loiro recuar um passo. —Ma-Mamãe não iria querer que eu desonrasse a memória do papai…- comentou incerto o mais novo dos cinco, olhando para o chão enquanto mexia na barra de sua camiseta. —Muito bem dito, Tetsu!- parabenizou o cabelo de tigela, o único que parecia estar realmente contente com toda a situação. —Dê ouvidos ao Tetsuyama, Takei!- ele abraçou o pescoço do que havia originalmente protestado, sorrindo um sorriso feio. —Além do mais, você sabe muito bem que não devemos questionar o grande Ikkyu, ele é o nosso líder, afinal de contas! Havia uma alegria fora de lugar na voz do garoto que desconcertava Naruto e, junto da proximidade, fazia com que o nomeado Takei se remexesse debaixo daquele abraço. —Miura!- comandou o mais velho, começando a andar lentamente na direção de Naruto. —Sim, sim, grandioso Ikkyu!- respondeu o sorridente, caminhando também, cercando o lado direito de Naruto. —Matsuyama.- mais uma vez comandou, ao que a garota silenciosamente respondeu começando a flanquear a esquerda do loiro, seu cabelo preto balançando junto do vestido ao redor dos ombros. Ela ainda não havia dito uma palavra, percebeu a criança enquanto recuava mais alguns passos, tropeçando numa pedra e caindo sobre a própria bunda. —Aonde pensa que vai, demônio?!- a voz era baixa, pouco mais que um sussurro, carregando veneno o bastante nas palavras para fazer um frio percorrer sua espinha e suas pernas tremerem. —Você ainda tem muito que pagar pelo que fez com nossas famílias!- rosnou por entre os dentes, estalando os dedos. —M-Mas eu nem te conheço!- gaguejou um argumento, olhos fixos em Ikkyu, que estava há uns sete passos de distância a frente. —Quem bate pode até não lembrar, mas que apanha nunca esquece.- disse pela primeira vez a garota num tom de voz tão baixo que por um momento Naruto se perguntou se não havia imaginado. Percebeu então que ela já havia se aproximado tanto que poderia facilmente agarra-lo sem precisar esticar totalmente seus braços. O coração bateu ainda mais rápido do que já estava batendo, seu estômago embrulhou. —Ma-mas o que foi que eu fi- Fechou os olhos com força com a dor que sentiu quando Miura, com um sorriso que exibia todos os seus dentes, pisou com toda a força em cima de sua mão direita, seus dedos se girando dum jeito estranho conforme ele girava o calcanhar. —Sh~~~~! Quietinho, demônio… !- um soluço morreu em sua garganta, seus olhos ardendo com lágrimas que estavam por cair, quando sentiu que com um agarrão fora erguido, seus pés não mais tocando o chão. Encontrou-se encarando Ikkyu olho no olho enquanto ele o segurava pelo pescoço. —Está na hora de pegar pelos seus crimes, não acha?- apertou seu pescoço, dedos afundando em sua traquéia e unhas arranhando sua garganta, impedindo que Naruto respirasse. —Tá me sufocando!- tentou alertar mas nem palavras e nem ar passavam pelo aperto. Tentou agarrar o punho do mais velho, mas sua mão direita estava dolorida demais para conseguir segurar com força e a esquerda estava agora em posse da garota, cujo agarre de ferro não se movia por mais que ele fizesse de tudo para se soltar. —Os adultos te deixaram solto pela aldeia, impune, por tempo demais! Mas isso acaba agora… —Ele tá chorando!- deleitou-se Miura vendo como as lágrimas do loiro fluíam quentes por suas bochechas. — O que vamos fazer com ele?!- notou de canto de olho que os outros dois haviam se aproximado também, cercando-o por todos os lados. —E se nós o matarmos!?- Takei e Tetsu se remexeram desconfortáveis com a ideia, Matsuyama franziu o cenho, mas para desespero de Naruto, Ikkyu parecia considerar seriamente a possibilidade. —Tenho certeza de que ninguém vai se importar se nós livramos de uma vez por todas da raposinha, talvez eles até nos agradeçam! —Chiharu!- advertiu Matsuyama, apertando seu pulso com ainda mais força, o que rendeu uma língua como resposta do garoto com cabelo de tigela. Chiharu, Chiba, Matsuyama. Ele tinha certeza de que já havia escutado esses três nomes em algum lugar, da mesma forma, estava certo também de que já vira os mais velhos, mas ele não fazia ideia de aonde. Ele não fazia ideia do que tinha feito, não tinha ideia do que fazer, só sabia que estava a mercê do grupo, indefeso e prestes a morrer sem saber sequer o porquê. Ao fundo, ele podia ouvir o vozerio dos cinco debatendo, mas não conseguia mais distinguir suas vozes ou suas palavras. Sua visão já estava escurecida, formas e cores embaralhadas, seus braços e pernas já estavam dormentes. Socorro! suplicou nos confins de sua mente, Eu não consigo respirar! Estava prestes a perder a consciência, o calor de suas lágrimas no rosto a única coisa que ele ainda conseguia sentir, imaginou ter ouvido ao longe uma risada maligna de escárnio que seria capaz de enviar calafrios à espinha se sua situação já não fosse tão desesperadora. Talvez fosse o Deus da Morte zombando dele? Não sabia e não descobriu, pois sntes que pudesse, sentiu algo acerta-lhe a bochecha. Sua cabeça automaticamente voou para trás, parando somente quando seu pescoço a manteve no lugar, estalando no processo, deixando para trás apenas uma sensação de latência e um certo formigamento. Fora atingindo novamente, desta vez no olho direito, a sensação anterior se agravando e sua visão momentaneamente indo da escuridão para um flash branco, antes de retornar para o escuro. Estou sendo socado, notou.  O terceiro soco acertou seu nariz em cheio, fazendo um crack estranho ressoar por sua cabeça e o enviando de volta para o branco, enquanto algo molhado atingia a lateral de seu corpo. Dessa vez, no entanto, ele não retornou imediatamente para o escuro, ao invés disso sua visão lentamente tomou a forma de pequenas pedras num chão de terra enlameado, seu corpo inteiro formigando, sua garganta ferida ardendo conforme ar fresco passava por ela mais uma vez. O último soco, de tão forte, o havia enviado alguns metros para trás, livrando-o dos agarrões. Também deve ter quebrado seu nariz, um vez que uma grossa torrente de sangue jorrava deste, misturando-se com lama, banhando sua camiseta preta. Não teve, porém, tempo para reclamar da lesão ou comemorar o fato de estar vivo, pois logo uma nova dor o afligiu quando um chute o acertou a lateral de seu peito, roubando de seus pulmões o pouco ar que havia respirado. Seguinte ao chute, veio outro, este nas coxas, outro um pouco acima da cintura, um terceiro mirava seu pescoço, sendo aparado por pouco pelo antebraço da criança enquanto a mesma fazia o que podia para se defender, no entanto a sucessão de pisões e pontapés seguiu incansável, de todos os lados, de todas as formas, de todos os cinco. Alguém precisa me ajudar!, pensou, uma vez que sua garganta ainda doía demais para gritar, Alguém, qualquer um! Seus olhos varreram o ambiente para além dos seus cinco algozes e ele percebeu então que estava sozinho. Precisamente falando, ele estava sozinho, pois ao redor do grupo, adultos iam e vinham, seguindo com suas vidas como se nada estivesse acontecendo. Algumas mães empurravam suas crianças menores, falando para elas não olharem, alguns homens não se dignavam a disfarçar, descaradamente virando seus rostos curiosos para a cena enquanto outros ao menos desviavam o olhar, envergonhados. Num beco mais escuro, algumas ruas a frente, um bando de bêbados ria ruidosamente, abertamente apontando para eles numa animada conversa entre si, talvez até mesmo fazendo apostas. ‘E se matarmos ele!? Tenho certeza de que ninguém vai se importar se nós livramos de uma vez por todas da , talvez eles até nos agradeçam!’ o peso das palavras de Miura afundaram como uma pedra na mente de Naruto, sua cabeça infantil tentando encontrar uma saída para essa situação enquanto no fundo ele estava certo que seria morto. A mesma risada maliciosa que ele tinha escutado antes retornou, ainda mais alta, quase um gargalhar ecoando por sua cabeça, o Deus da Morte o chamando mais e mais. De repente ele fechou sua mão direita - a mesma que havia sido pisoteada - enquanto tentava aparar um chute direcionado a seu rosto, conseguindo assim agarrar a perna que o chutava. Não era muito, considerando que parecia se tratar do menor dos cinco, Tetsuyama, sua mente o lembrou, mas ainda assim, era algo. Com uma força que ele não sabia possuir, Naruto empurrou Tetsuyama, derrubando-o e com uma cotovelada na lateral daquele que estava ao lado do pequeno - Takei, lembrou-se também - se levantou, abrindo caminho por entre o cerco e correndo tão rápido quanto suas pernas pequenas poderiam carregá-lo. —Ei, Demônio! —Aonde pensa que vai, raposinha?! Reclamaram Ikkyu e Miura, respectivamente. —Saí, moleque! —Vai acabar sujando minha roupa nova! Reclamaram também dois aldeões, apenas rostos na multidão. Naruto passou por eles sem olhar aonde estava, nem para onde estava indo, lágrimas e sangue caindo igualmente de seu rosto, corpo dolorido, respiração ofegante através de uma garganta que ainda ardia. Correu tanto quanto pôde, mas seus sentidos logo o informaram que seus perseguidores eram mais rápidos do que ele. Fez a curva na esquina seguinte, costurando por entre as poucas pessoas que ali estavam numa tentativa de atrasa-los, mas não adiantou muito, logo eles estavam se aproximando novamente. Ele precisava de ajuda e rápido, ele precisava chegar até alguém da polícia! Foi nesse pensamento que ele dobrou duas esquinas seguidas e entrou num beco que ele sabia que daria numa rua movimentada que era sempre patrulhada por um Uchiha ou dois. Qual foi sua surpresa ao descobrir que dito beco, que ele mesmo havia usado tantas vezes, aparentemente era agora murado, prendendo-o num beco sem saída cuja entrada já estava guardada por quem o perseguia. O que eu faço?!, pensou exaltado vendo que apenas Tetsuyama não havia chegado ao beco ainda. Ikkyu e Matsuyama sequer pareciam ter suado com a corrida. —Finalmente…!- começou Miura, tomando ar entre as palavras. —Não tem… mais pra onde correr… capeta! O sorriso lunático, sempre presente no rosto do castanho havia sido ofuscado pelas caretas que ela fazia tentando recuperar o fôlego. Naruto acharia engraçado se a situação não fosse tão trágica. Matsuyama foi a primeira a avançar, passos lentos adiante seguidos de perto pelos de Ikkyu. A mente de Naruto estava correndo a todo vapor, seu coração sendo o único capaz de acompanhá-la enquanto seus olhos reviravam o cenário em busca de uma possível saída. Com a adrenalina da situação colocando a dor de lado, levando o corpo ferido ainda mais para além de seus limites, Naruto se jogou na primeira oportunidade que encontrou. Era pequena, escura e um tanto assustadora, mas era o melhor que ele tinha: tratava-se de uma pequena fresta aonde haviam se quebrado duas das tábuas de madeira de uma pequena cerca que selava o vão que havia entre as paredes de duas casas a sua direita. —Merda!- xingou Ikkyu quando Naruto atravessou, sua bermuda rasgando e a madeira arranhando suas canelas de tão apertada que era a passagem. Ainda assim Matsuyama quase o segurou pelo pé, seu calcanhar escorregando pelos dedos da garota. Ele levantou com dificuldade, suas pernas doendo por onde a madeira arranhou, sentido-se quase esmagado entre uma parede e outra, a única fonte de luz sendo as luzes dos postes refletidas na parede aonde uma casa era mais alta que a outra. Avançou em meio a escuridão e sujeira, sentindo pingar gotas grossas de uma das calhas. Ouviu baixinho os guinchos de ratos por entre as pernas e escolheu não pensar nisso enquanto ele virava aonde a passagem acabava para frente mas seguia à esquerda. Por sorte, ele encontrou um tijolo quando esta acabou em uma outra cerca um pouco menor que a maioria dos adultos. Sentindo que eles não estavam próximos, ele subiu no tijolo e pulou para alcançar a parte de cima das tábuas de madeira e se jogou para o outro lado, caindo sobre alguns sacos de lixo que fediam a comida podre. Ergueu-se cambaleando e correu sem rumo pelas ruas que estavam à sua frente, dobrando esquina após esquina, correu até que suas pernas parecessem dormentes debaixo de seu corpo e só então se permitiu parar, colocando as mãos sobre os joelhos para recuperar o fôlego, a lateral de sua barriga doendo de tanto correr, isto é, para além de toda dor que ele sentia de ter apanhado. Só então, dando uma olhada melhor em si mesmo que ele percebeu o quão miserável ele parecia. Sua bermuda estava rasgada em mais de um lugar, sua camisa surrada e empapada de sangue e lama, um rasgo descia pela lateral de suas pernas aonde a madeira o havia arranhado, sangue escorrendo por entre seus dedos e pingando no chão. Isso sem contar as piores partes, como nariz que estava fazendo uma curva estranha e começava a inchar, seu olho direito que já estava inchado, forçando-o a enxergar apenas com o esquerdo, alguns de seus dentes da frente estavam claramente moles, sua garganta ainda ardia para respirar, assim como o seu lado esquerdo, aonde Matsuyama havia acertado um chute forte, doía muito cada vez que ele inalava. Um arrepio correu sua coluna quando sentiu a presença dos cinco à distância, correndo em sua direção. Percebeu então que seu sangue havia deixado um rastro no chão. Amaldiçoando a própria sorte, Naruto voltou a correr, a respiração pesada e corpo gritando em dor, como se apenas a pequena pausa que tivera o tornasse mais consciente do estado em que se encontrava e isso bastasse para intensificar a dor. Fazendo uma careta a cada passo, abandonou as ruas da aldeia, entrando uma região de mata, meio esperando que não notassem que ele havia ido por ali, meio esperando que eles desistissem da perseguição se tivessem que entrar na mata escura atrás dele, meio esperando que na escuridão da mata ele pudesse despistá-los com mais facilidade, meio esperando que poderia alcançar a ajuda antes deles o alcançarem, já que ele sentia, bem ao longe, a presença quinta pessoa que o havia seguido nas sombras naquele dia, imóvel em meio a floresta. Suas expectativas, no entanto, foram quebradas, uma a uma. Primeiro quando seus perseguidores não só perceberam seu rastro indo bosque adentro, como pouco pareceram de abalar com isso, partindo em sua direção quase de imediato. E então, apesar de - com toda a coragem de um garoto de quase sete anos - Naruto correr sem parar, mesmo sem conseguir enxergar nada a frente, ele não estava conseguindo despistar os cinco. Pelo contrário, a distância entre eles estava se fechando. Devia ter conseguido pôr talvez cinco minutos de vantagem sobre eles ao ter entrado naquele vão, agora, eles levavam cinquenta segundos para fazer o mesmo progresso que ele fazia num minuto inteiro, era apenas questão de tempo até que eles o pegassem. E por fim, como se não bastasse que eles estivessem tão perto, o caminho entre ele e seu salvador foi interrompido pelas grades de uma cerca, alta e imponente, que pelo que ele podia ver, apesar da escuridão, parecia se estender eternamente tanto para a direita quanto para a esquerda. Seu Salvador estava na floresta que continuava do outros lado, disso ele estava certo —Quê?! Só pode tá brincando comigo!, quem coloca uma cerca no meio da floresta do nada?!- reclamou, empurrando vigorosamente a grade para frente e para trás, como se isso fosse o bastante para fazê-la ceder. A verdade era que ele não queria atravessar essa cerca mais do que ele queria ser encontrado pelos outros. Absolutamente tudo parecia errado com a floresta a frente, ele conseguia sentir a energia da própria morte emanando em sua direção, além de duas presenças, uma ameaçadora e outra puramente maligna que estavam estacionadas em algum lugar além da que ele buscava por ajuda. Cada fibra de seu pequeno ser dizia ser uma péssima ideia seguir em frente. Porém, cada pensamento que ele tinha dizia que era uma ideia pior se deixar ser pego pelas outras crianças. Assim, no momento que seus ouvidos captaram o som de galhos se partindo a menos de um minuto de distância, saltou, dedos doloridos e inchados de uma mão parcialmente inutilizada buscando equilíbrio por entre os vãos do arame enquanto sua mão boa alçava o mais alto possível por cima de sua pequena cabeça, suportando todo seu peso sobre a grade e ao passo que suas pernas exauridas o empurravam para cima tão depressa quando podiam. Passou, em direção ao topo, por uma placa, que, por mais que ele não soubesse ler, conseguiu reconhecer vagamente o número quatro escrito duas vezes, causando-lhe um leve temor pelo presságio*. Ainda assim, não parou e pôde se orgulhar de seu condicionamento, pois alcançou o topo bem antes deles alcançarem a cerca. —SEU MERDA!- o grito de Ikkyu ecoando além da linha de arbustos de onde ele viera sendo o único sinal de proximidade dos cinco enquanto Naruto pulava para o outro lado com um sorriso satisfeito no rosto. Pousou em seus calcanhares. Porém pouso em falso. Ou escorregou na lama. Não saberia dizer. O que ele sabia é que ambos os pés foram ejetados para frente, seu peso recaindo sobre sua bunda primeiro, e então sobre suas costas, e por fim sobre a parte de trás de sua cabeça. Seu ouvido começou a zumbir e o mundo imediatamente apagou, o que por si só já era digno de nota, levando-se em conta o breu que já estava, mas logo a pouca luz do ambiente retornou, só que… estranha. Por um momento, Naruto se esqueceu aonde estava ou porque, mas no momento seguinte começou a se levantar, recordando de que estava fugindo, mesmo que ainda não lembrasse de quem ou porque. Ouviu o som de uma grade sendo escalada por múltiplas pessoas a sua frente, ou ao seu lado, ou atrás de si, estava confuso de mais para saber. É onde eles estão, pensou, recorrendo ao seu melhor sentido para sentir cinco presenças que estavam escalando em algum lugar perto, Estou fugindo deles, lembrou ao se apoiar no seu braço esquerdo, agora trêmulo pelo esforço da escalada. Vomitou ao transferir o peso de seus joelhos para seus pés, mas sua mente mal registrou tal fato, focando-se em voltar a correr para a escuridão. Ou andar bem desengonçadamente. Ou tropeçar para frente. Ou para trás. Ou para os lados. Seu senso de direção estava confuso de mais para saber. As presenças eram as únicas coisas realmente confiáveis. Cinco estão pulando bem perto, ameaças, sua mente recontou, Uma está parada, longe, minha salvação, tropeçou num galho, caindo sobre um de seus joelhos, arfou, sentido-se exausto e com sono, mas levantou e retomou seus tropeçou adiante ao sentir as cinco primeiras presenças se aproximando, Duas estão muito longe, sinistras, melhor evitar, fechou os olhos ao perceber que tinha sido alcançado, mas seus perseguidores haviam decidido manter uma curta distância, andando no mesmo ritmo que ele, Estou cercado, notou então uma infinitude de presenças hostis ao seu redor, Animais, concluiu, rezando para que um destes intervisse ao passo que seus tropeços o levaram ao meio de uma clareira. Suas orações não foram respondidas. Tombou ao sentir uma dor forte e aguda em sua perna esquerda. Olhou para baixo para vendo um objeto longo e parecido com um losango saindo de sua panturrilha. Uma kunai, reconheceu o projetil que estava enterrado a três dedos de profundidade na batata de sua perna, Eles são ninjas, lembrou, olhando para o grupo às margens da clareira, finalmente recordando de ter visto os dois mais velhos entrando e saindo da academia ninja mais de uma vez. O rosto de Matsuyama não demonstrava emoção alguma, uma kunai em cada mão, enquanto um sorriso maldoso adornava o de Ikkyu, um conjunto de shurikens em uma das mãos enquanto a outra estava projetada para frente, em pose de arremesso. —Na mosca!- comemorou ele. —MINHA VEZ!- gritou Miura, correndo para frente, rapidamente fechando a distância entre eles. Naruto simplesmente fechou os olhos, finalmente aceitando seu destino. Eu vou morrer, constatou. Sentiu o impacto dos golpes banhando seu corpo juvenil tentando proteger nada além da cabeça, o que não durou por muito tempo, a dor, sempre presente naquela horrível noite, agora já não estava, seu corpo jazia completamente dormente a mercer de seus carrascos, a risada maligna do Deus da Morte ecoando ruidosamente em sua cabeça. Não sabia por quanto tempo fora espancado, não importava, uma hora, no entanto, os golpes pararam. Ouso então abrir os olhos. De onde estava deitado, sua infantil forma batida contra o chão de terra enlameada, mãos trêmulas e uma pequena poça de sangue se formando ao seu redor, Naruto podia ver os cinco encarando-o satisfeitos. Conversavam algo entre si, mas a maior parte das palavras não eram discerníveis para ele em seu estado atual. —… deixar ele aí, os animais vão terminar o serviço.- decidiu o líder do bando, se ajoelhando ao seu lado e tomando o óculos que ele trazia na testa. —Estou pegando isso de volta.- disse num tom de voz neutro, com um olhar um tanto incerto, levantando-se. —Ha! Além de assassino é um ladrãozinho de merda!- riu um outro ao fundo e Naruto pôde sentir a saliva deste pousar em sua bochecha e escorrer por cima de seu nariz. Ele não havia roubado aqueles óculos. Havia os encontrado largados no chão de uma praça e esperado a noite fria de inverno cair até todos se recolherem para suas casas antes de pegá-los. Apesar de ter conseguido os óculos que queria naquela noite, ele preferia que o dono tivesse aparecido para que ele pudesse devolvê-los. Quem sabe ele pudesse fazer um amigo… —Vamos.- chamou Ikkyu Chiba indo embora, os outros o seguindo de perto. À excessão de Matsuyama, que permaneceu na clareira, encarando-o. Somente quando os outros já estavam longe ela suspirou, caminhando a passos firmes em sua direção e acertando um potente chute em seu rosto. Neste momento Naruto caiu na escuridão do inconsciente, apenas o chamado da morte ecoando enquanto sua mente esvaia. E então ele abriu os olhos, descrente de que ainda estava vivo. Seu corpo tão frio quanto a lama sobre a qual ele estava deitado, o sangue seco e a lua já muito alta na céu noturno sendo as únicas provas de que o tempo havia passado. Fez esforço para se sentar, cada parte de si mergulhada em agonia. Olhou para suas mãos, a direita seguia inchada mas havia agora um tom de roxo em seus dedos, a esquerda por outro lado tinha alguns cortes pequenos que já tinham casca e seus dedos estavam dobrados na direção errada. Ambas tremiam. Fechou ambas com força, fechando também os olhos com a dor que a ação causou. Abriu os, lentamente e com muito esforço se pôs de pé, percebendo então que seu calcanhar esquerdo também doía, ao ponto de que ele teve que apoiar seu peso todo no direito. O que ele faria agora? Se ficasse ali não teria chance contra os animais que ele podia sentir na floresta, mas neste estado não conseguiria escalar a cerca de volta e não tinha como saber se ele conseguiria dar a volta nela, já que não saberia dizer até onde ela ia, se é que era possível dar a volta em primeiro lugar. Talvez tivesse uma porta ou portão em algum lugar, mas de certo estariam trancados a esta hora. Meu salvador, lembrou-se. Sua única esperança era ele. Já era antes, como ele pode ser esquecer disso ele não poderia dizer, uma vez que ele só tinha entrado nessa maldita floresta para pedir ajuda aquele que o seguiu nas somb- Um arrepio percorreu sua espinha e seus olhos arregalaram tanto quanto o inchaço permitia. Ele estava sozinho na floresta, só ele, os animais e as duas presenças sinistras que ele havia sentido mais cedo. A diferença é que antes elas estavam longe, floresta adentro, no entanto agora elas estavam perto, entre ele e a aldeia e estavam lentamente se aproximando. Engoliu seco, sua garganta ferida reclamando de dor, ao que ele prontamente ignorou e começou a fugir, de novo, mancando em direção ao coração da mata, no que deveria ser a fuga mais lenta da história, que era acompanhada de perto pelo que deveria ser a perseguição mais lenta da história. Eles estão me seguindo?, não pôde deixar de se perguntar, mesmo sem deixar de mancar. Não teve dificuldade para evitar os animais, verdade seja dita ele tinha a impressão de os animais estavam tentando evitar os dois que o seguiam tanto quanto ele, não obstante teve dificuldade com o terreno. Mais de uma vez escorregou, tendo que confiar à sua perna ruim para manter-se de pé, chegou a tropeçar na raiz de uma árvore uma vez e teve que rastejar por baixo das raízes de outra árvore uma outra, vez esta na qual um galho ressequido de um arbusto causou um corte logo abaixo de seu olho esquerdo ao se levantar. Apesar de tudo, estava se saindo bem. Não estava se distanciando, mas eles - que agora ele estava certo de que o seguiam - também não estavam se aproximando, mantendo assim a distância relativamente inalterada, o que só atestava o quanto seus perseguidores desta vez eram lentos. Talvez eles desistam se eu conseguir mantê-los longe por muito tempo!, pensou usando-se de um otimismo que nem mesmo ele conseguia sustentar, tendo em vista que seu corpo aos poucos estava sendo as dores, Ou então eu posso aproveitar que os animais não se aproximam deles e procurar uma saída dessa floresta!, fechou os olhos conforme uma pontada de dor nas costas o afligia, Talvez eles só queriam ajudar… ! Tropeçou em algo, caindo de cara no chão. Soltou uma exclamação de dor, massageando seu dolorido nariz que a essa altura era uma pequena batata e abrindo os olhos. Congelou. Estava novamente em uma clareira, porém seus olhos estavam fixos nos olhos sem vida de um cadáver que jazia logo a sua frente. Recuou com um grito jogando-se para trás, assustado, se apoiando sobre suas mãos feridas. Sua mão esquerda pousou sobre algo rígido e frio. Virou sua cabeça e seu olhar recaiu sobre um outro corpo, este vestia uma máscara branca de cerâmica com detalhes em vermelho que deslizou para o lado sob o peso da mão de Naruto, revelando o olhar arregalado e a boca aberta do homem. A cabeça não se moveu um centímetro, apesar de um corte diagonal atravessar a garganta do homem, começando no ombro e terminando abaixo da orelha, sendo tão profundo que Naruto podia discernir na carne os dois buracos por onde deveriam descer o ar e a comida, o sangue acumulado ali escuro e grosso. Bile subiu pela garganta Naruto e se ele já não tivesse vomitado tudo quando caiu mais cedo, teria vomitado agora. Afastou-se da grotesca cena sem nunca tirar os olhos dos corpos, como se os mortos pudessem pegá-lo se desviasse o olhar, chocando-se com uma árvore nos limites da clareira, suas pernas, como que presas ao repetido movimento que fizeram para se afastar, seguiram chutando a terra para longe até ele eventualmente se erguer, suas costas arrastando contra tronco áspero. Não podia acreditar no que seus olhos estavam vendo. Pelo menos doze corpos estavam espalhados pela clareira que estava também pontuada aqui e ali por crateras, lascas de madeira e um murro de terra. Do lado oposto da clareira algumas árvores estavam carbonizadas, duas ainda ardiam e grossos galhos estavam perdidos pelo campo de batalha, um corte limpo visível aonde antes eles se ligavam às árvores. O chão estava banhado de vermelho, os corpos, alguns mutilados - destes, alguns com os rostos desfigurados com profundos cortes e perfurações -, outros com braços e pernas dobrados em mais de um lugar, alguns vestidos com roupas simples, outros completamente nus, estavam todos dispostos em três grupos, um cadáver nunca a mais de dez passos de distância do outro. Os que mais chamavam atenção eram as três figuras que trajavam uma armadura cinza e uma máscara branca com desenhos coloridos, estes estavam separados uns dos outros, porém rodeados pelo corpos de seus inimigos. O que Naruto esbarrou tinha uma espada quebrada na mão, a ponta quebrada enterrada no pescoço de um homem nu a sete passos de distância. Um outro, mais corpulento, teve sua máscara partida em três enquanto sua cabeça havia sido esmagada por um pedregulho que era maior que o dorso de Naruto, kunais e shurikens espelhadas por seu corpo, ao seu redor, três inimigos faziam brutalizados, com membros retorcidos ou dobrados nos lugares errados e kunais saindo de suas cabeças, um inclusive tinha o rosto virado pro céu apesar de estar deitado de barriga para baixo. O último ainda tinha sua máscara bem fixa ao rosto enquanto jazia recostado ao muro no meio da clareira, não estava sujo de sangue nem mutilado, a única coisa que denunciava sua morte sendo o buraco do tamanho de um punho em seu peito, pelo qual não sangrara pois o mesmo havia sido queimado até a carne ficar negra, espalhando um cheiro terrível por todo o local que apenas se somava ao cheiro de sangue. Naruto teve de cobrir boca e narina com as mãos, dificultando sua respiração que já estava entrecortada pelo choque do que ele estava presenciando. Foi então que ele ouviu o som de guizos, sua cabeça virando mecanicamente na direção de onde ele havia vindo apenas para testemunhar a chegada de duas figuras, uma alta e esguia, a outra baixa e larga, ambas trajadas com mantos negros pontuados com nuvens vermelhas e chapéus de palha que eram adornados com longas tiras de tecido branco que caiam abaixo da linha de seus ombros. —Kufufufu… ! Ora ora, vejam só o que temos aqui, parece que outra criança entrou no nosso caminho essa noite! E não é uma criança qualquer. Quem diria que essa floresta seria tão movimentada assim tão tarde…- disse a figura mais alta erguendo a cabeça o bastante para revelar a pele tão clara quanto a lua, a voz grave carregada de veneno e graça, olhos amarelos afiados fixos na forma infantil de Naruto, os guizos de seu chapéu ressoando a cada passo. —Hmpf! Seu cinismo me comove, mas há limites até mesmo para dissimulação.- reclamou o que estava a sua esuerda, com uma vez tão grave que fazia a do primeiro parecer aguda. —Não aja como se não tivesse planejado toda essa situação.- acusou fazendo apenas que um sorriso surgisse na face esbranquiçada de sua contraparte. —Quanta desconfiança. Ao contrário do que você pode pensar, eu não tenho nenhum prazer ou satisfação e acabar com vidas tão jovens.- defendeu-se sem realmente parecer ofendido ou incômodo com a acusação. Foi então que Naruto notou que um emaranhado de cobras descia pela manga de seu braço direito, seus corpos entrelaçados se debatendo uns sobre os outros no chão, engolindo o cadáver de Takei, seu rosto sem expressão, braços moles e peito estático sendo as únicas partes do corpo de seu agressor expostas pelo espesso véu de serpentes que se moviam como vermes sobre carne, o sangue que descia por sua testa e se espalhava por seu rosto o único indício de que ele sofrera alguma violência. Os joelhos de Naruto tremiam como se fossem roupa pendurada em dia de ventania vendo como alguém que o tinha feito sentir-se impotente havia encontrado seu fim. A mão branca do homem surgiu por entre as serpentes e, junto da outra, fez dois sinais que Naruto já havia visto outras crianças imitarem enquanto brincavam de ninja. Ele então agachou-se ao lado do pequeno cadáver e colocou dita mão em sua garganta, as cobras deslizando para fora do caminho, revelando as marcas de um pescoço quebrado. Dedos pálidos envolveram delicadamente o quebrado pescoço infantil e logo começaram a brilhar numa cor que jazia em algum lugar entre azul, verde e amarelo, como se o punho, e por extensão o pescoço, fossem envolvidos por um lençol que de tão fino transparecia e esvoaçava com a menor das brisas. E por alguns instantes nada, até que repentinamente o peito da criança voltou a ser mover, subindo e descendo vagarosamente, fazendo surgir o chiado duma respiração pesada por entre os lábios entre abertos. Por um breve momento Naruto achou que ele estivesse salvando Takei, mas algo estava estranho. Os olhos seguiam encarando o vazio, mortos, nenhuma expressão surgiu em seu rosto, ainda mais sangue começou a escorrer pela ferida na testa e seus braços se moviam apenas no compasso das cobras. Foi quando com um aceno satisfeito de cabeça do homem as serpentes se remexeram, contorcendo-se e apertando-se contra o corpo, retorcendo-o, esmagando-o, fazendo o som de ossos quebrando ecoar e uma careta surgir na face de Naruto. Depois de um longo minuto, as cobras se recolheram, subindo de volta pela manga do homem conforme o brilhou cessava, revelando a forma agora deformada da criança, cada centímetro de pele exposta avermelhada, até mesmo a esclera, antes branca, agora maculada com sangue. Fez então três outros sinais com as mãos e levantou-se, erguendo o corpo pela gola da camisa abarrotada com a mão que envolvera o pescoço. —Não se esqueça de apagar o seu.- disse simplesmente, dobrando os dedos médio e anelar da mão esquerda, encostando os na testa da criança, ao tempo que pressionava o mindinho e o indicador da mesma mão nas temporas. Logo um som estridente foi ouvido, mas fora isso nem mesmo os cabelos desgrenhados da criança pareciam ter reagido. —Eu não vou compactuar com isso mais do que já estou compactuando. Além disso, ele pode ter alguma utilidade ainda.- o maior lançou um sorriso irônico ao menor, mas este não percebeu ou ignorou prontamente. —Agora, o que você planeja fazer com ele? Foi então que Naruto sentiu algo o envolver e viu-se cercado por uma espécie de cauda mecânica que saia por debaixo das roupas do que estava a sua direita, dando três voltas ao seu redor, sua ponta afiada parando a um fio de cabelo da bochecha. De canto de olho era possível ver o corpo empalado de Tetsuyama, o mais jovem de seus agressores tendo a cauda atravessada por suas costas e saindo pelo peito. O toque frio e úmido da cauda em sua pele era a única coisa que mantinha Naruto de pé, a força de suas pernas o abandonando desde já, seu pulmão em descompasso, lágrimas que antes haviam secado voltando a umidecer suas bochechas —Você faz soar como se eu tivesse planejado tudo…- reclamou com um muxoxo. —Só viemos aqui porque eu tinha de fazer contato com um dos meus informantes e tinha que resolver uma questão na aldeia, uma ponta solta, digamos. Por acaso tivemos que lidar com a ANBU. —E por acaso você tinha uma coleção de corpos, que estava com você uma vez que você coincidentemente os colheu na tarde de ontem, e tempo livre o bastante para encenar uma batalha enquanto esperávamos pacientemente nesta maldita floresta até que seu contato retornasse.- deu bastante ênfase no esperar, sua cauda mecânica se apertando em resposta, ao que o outro simplesmente deu de ombros. —Sim, por acaso.- respondeu com simpleza. —E por acaso você resolveu apagar a mente deles… —A Folha tem um departamento de TI especializado em olhar a mente dos mortos.- interveio. —… com uma técnica do estilo raio.- seguiu acusando sem se incomodar com a intervenção. —As outras técnicas são inconvenientes e deselegantes demais, fazem muita sujeira e não ajudam a compor a cena.- defendeu se, arremessando com facilidade o cadáver que carregava para trás, como que se livrando da prova de um crime. O baque molhado que o corpo de Takei fez ao bater no chão, juntamente da maneira não natural como sua cabeça virava de um lado para o outro conforme o cadáver balançava fez o estômago de Naruto se revirar, fazendo subir mais bile por sua garganta, forçando-o a engolir seco o gosto amargo. —E por acaso um bando de pirralhos invade a floresta, vão embora, somente para dois voltarem horas depois. —Realmente, por acaso. Dois pequenos aborrecimentos que não valem o nosso tempo.- acenou em concordância, um olhar pensativo no rosto. —E por acaso depois de tudo isso ele está diante de nós, um de nossos futuros alvos e o único filho daquele homem. A princípio, uma careta de descontentamento surgiu no rosto albino, mas logo ela se tornou algo perverso, cheia raiva e rancor, seu olhar recaindo sobre Naruto como o de um predador. —Sim!- confirmou, o veneno de sua voz fazendo cada sentido de Naruto gritar. —Por acaso. O outro ser limitou a revirar os olhos e voltar a perguntar. —E o que você planeja fazer com ele agora? E como se não estivesse pronto para cometer um assassinato no segundo anterior, a resposta foi um simples dar de ombros. —Não sei, eu não planejei isso. Diante das palavras que suavam mentirosas até para os ouvidos de Naruto, seu companheiro simplesmente bufou e voltou a ser mover em direção à única criança ainda viva na cena. —Eu posso simplesmente apagar as memórias dele e poderíamos deixar ele em algum lugar da aldeia.- sugeriu. —Não duvido de suas capacidades de alterar a memória humana, mas a especialidade do clã Yamanaka é invadir a mente dos outros. Se formos descobertos, a nossa presença na Folha pode revelar a existência de nossa organização um pouco cedo demais, prefiro não arriscar à dar algo para Inoichi trabalhar.- argumentou voltando a andar também. —Seria mais prudente matarmos e apagarmos a mente dele, igual fizemos com os outros.- uma cobra silenciosamente começou a subir pela perna de Naruto, o frio de sua pele superando muito o frio do suor do loiro. —Sem consultar o Grande Líder? Isso é insanidade demais até mesmo para os seus padrões. —Hmpf!, o que você sugere?- apesar da aparente mudança de ideia, a cobra já havia subido seu peito e se alojado ao redor do pescoço de Naruto, se enrolando neste como um cachecol. —Vamos seguir com meu plano. Vou apagar a memória dele, só que ao invés de o deixarmos aqui, deixamos ele em alguma vilarejo qualquer que encontrarmos no caminho. Ele não vai ser lembrar de nada, vai ter a chance de ter uma vida normal até chegar a hora de pegarmos ele.- parou enfim, a menos de cinco passos de Naruto que pela primeira vez viu as mãos do homem que começou a fazer uma série de sinais, preparando se para apagar sua memória quando foi interrompido pela mão esquerda do maior. —Sem o consentimento do Grande Líder? Isso é insanidade demais até mesmo para os meus padrões.- retorquiu com ironia, um sorriso humorado no rosto enquanto parafraseava seu colega. —Além do que vai ser arriscado, não vamos conseguir ficar de olho por muito tempo sem nos expor, se não ficarmos de olho nele e ele acabar de volta na Folha tudo será em vão do mesmo jeito. —Zetsu não teria dificuldade para ficar de olho nele.- grunhiu, afastando as mãos do toque contrário, sua cauda apertando Naruto mais e mais, ao passo de que a cobra fazia o mesmo com seu pescoço, impedindo-o respirar. —Zetsu tem o cérebro de um brócolis e a capacidade de luta de um purê de batata, em três anos até mesmo essa criança deve ser capaz de derrota-lo. Zetsu não será o suficiente. —Você fala como se a necessidade de combate fosse assegurada!- irritou-se o homem com a cauda ao passo que a visão de Naruto começava a escurecer e seus membros adormeciam pelo sufocamento. —Você está sendo ingênuo ao imaginar que não haverá combate.- corrigiu o maior sem se intimidar pela irritação contrária. —Alguns dos clãs mais relevantes da Folha são especializados em rastreamento, mesmo que elimenos todos os rastros, se eles criarem uma força tarefa é impossível garantir que o garoto nunca será encontrado. Se tirarmos ele daqui, combate será algo necessário. A última coisa que Naruto ouviu antes de apagar foi o menor da dupla bufar enquanto dizia. —Certo, vamos leva-lo ao Grande Líder, ele decidirá. E então escuridão. E sons de gota. E a risada maligna que o acompanhará aquele dia. Uma voz tão profunda que fazia todo o seu ser balançar ecoou. 
Que dia, hein, pivete?
   
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   Numa caverna escura mal iluminada apenas por um conjunto de tochas moribundas fixas nas paredes, nove figuras permaneciam em silêncio funesto enquanto o líder avaliava a situação, uma décima escondia-se nas sombras, observando o desenrolar da cena. Das nove figuras, seis possuiam um aspecto fantasmagórico a sua imagem, como se não estivessem realmente lá. Todas as dez, a excessão de Naruto, que se encontrava desacordado, amarrado e amordaçado, e daquele que se escondia nas sombras, trajavam os mesmos mantos negros com nuvens vermelhas. Olhos dotados de anéis roxos fitavam a forma pequena da criança, alguns pequenos sinais da agressões que ele sofrera na semana anterior ainda perduravam em seu corpo. —Orochimaru, Sasori, expliquem novamente como uma simples missão de assassinato evoluiu para vocês efetivamente capturando o hospedeiro do Nove Caudas. Uma explicação satisfatória desta vez.- a voz do Grande Líder ressoou empostada pela caverna, o grave de seu timbre ressaltando a gravidade da situação. —Como já lhe disse, ó, Grande Líder,- repetiu Orochimaru, obviamente irritado por toda a repetição, mas sendo sábio o bastante para ocultar dita irritação. —pouco antes de eu ter ciência de nossa missão eu recebi o contato de um informante contendo informações de extrema relevância sobre eventos que estão para ocorrer na Folha, eventos estes que irão mexer com o balanço de forças nas nações elementais e abalar a estabilidade da Folha em si. Diante de tal informação eu tinha que averiguar se ela confere com a realidade, por isso, depois de termos concluído a missão, parti em direção à aldeia, Sasori me acompanhou por livre e espontânea vontade. Conseguimos realizar a invasão sem grandes intercorrências, apesar de termos enfrentado uma equipe da ANBU, confirmei a veracidade da informação e durante nossa fuga acabamos nos encontrando com três crianças, o Nove Caudas entre elas. Nos livramos dos outros dois, porém chegamos a um empasse quanto ao que fazer com o Nove Caudas, por isso decidimos trazê-lo até esse esconderijo para que o senhor decidisse. —Você espera realmente que eu acredite nisso?- questionou o Líder com um tom de voz perigosamente calmo. —Para ser justo, Grande Líder, ele de fato comentou a necessidade de ir à Folha antes da missão e nós de fato fizemos contato com um informante de dentro da aldeia. Qual é a informação que ele recebeu e qual é a natureza dela não são de meu conhecimento e a causalidade dos eventos que levaram o Nove Caudas à nossa posse é questionável.- assegurou Sasori, recebendo um leve aceno do líder. —Precisamos nos assegurar de que ninguém tenha sido capaz de seguir seu rastro.- falou uma mulher de cabelos azuis e olhos âmbar. —Zetsu.- chamou o Líder ao passo que Orochimaru se pronunciava. —Não existe um rastro para ser seguido!- protestou a cobra. —Ele fez um trabalho decente para encriminar a Nuvem pelo ocorrido.- corrigiu Sasori —Hmpf! ”decente”…- resmungou. —Não podemos arriscar.- disse simplesmente a mulher. —Ficarei de olho no que tem sido dito na Folha.- garantiu Zetsu, uma criatura humanóide meio planta, cujo corpo masculino se dividia entre metade totalmente branca e metade totalmente negra. —Isso pode ser interessante para nós. Se o conflito entre a Nuvem e a Folha for retomado a tendência é de que tenhamos mais trabalho.- comentou um homem alto, de ombros largos, com uma máscara cobrindo metade de seu rosto, deixando apenas seus olhos verdes menta contra sua esclera vermelha a mostra. Os olhos afiados de Sasori e Orochimaru captaram o leve franzir de cenho que ocorreu na face usualmente estóica da mulher de cabelos azuis quando este se pronunciou. O próprio homem pareceu não notar ou não ser incomodar, olhos rubro-esmeralda presos ao loiro que seguia desacordado. O Líder não havia percebido, olhar franzido e concentrado na figura de um outro homem, tão alto quanto o anterior, porém mais magro, trazendo nas costas uma espada tão grande e larga quanto si próprio, ataduras cobrindo as laterais da cabeça, uma cicatriz feia na bochecha esquerda, marcas vermelhas semelhantes à grades sobre a boca. Olhos cerrados em raiva mal contida. —O conflito entre Nuvem e Folha já dura seis anos*.- retomou o líder. —Eles tendo chegado à um acordo de paz após tantas tentativas, é inesperado vê-los retomando a luta tão rapidamente, mas se a Folha estiver realmente convencida de que a Nuvem está por trás do desaparecimento do Nove Caudas o conflito terá combustível para durar muitos anos mais.- avaliou ele. —Eles estarão convencidos.- garantiu Orochimaru. —Meu trabalho é impecável. —Decente.- corrigiu Sasori num tom de voz que apenas Orochimaru ouviu. —Talvez…- começou o espadachim, agora mais calmo, impedindo que a discussão iniciasse. —Dependendo de como as coisas andarem nos próximos meses, talvez o conflito até mesmo evolua para uma guerra aberta entre as duas aldeias.- o Líder fechou os olhos por um breve momento com as palavras. —Mas isso dependeria do acaso. Basta a Folha perceber que o Nove Caudas não está com a Nuvem para a sua motivação e moral morrerem. —Ele tem um ponto.- concordou o mascarado de olhos estranhos, para a irritação do espadachim. —O custo da guerra pode ser alto demais para manter se ela for sem sentido. —A Folha e a Nuvem são duas das cinco grandes nações elementais, o que quer dizer que assim como as outras elas não passam máquinas de guerra estruturadas sob a fachada de uma organização social pacífica.- começou a voz quebradiça e cansada uma mulher idosa que já vivera para além dos seus setenta anos, cuja pequena figura por trás do manto negro, apenas de enrugada e de bengala, era capaz de evocar respeito de cada um de seus colegas na Akatsuki*. —Esse tipo de organização só se mantém com base numa ordem hierárquica e meritocrática majoritariamente masculina, o que significa que quem manda são velhos orgulhosos demais para deixar alguém entrar em suas casas e tomar algo deles ou acusar um dos seus sem lutar por isso, orgulhosos demais os admitirem ter errado e teimosos demais para ouvir o bom senso e a razão na hora certa.- ela deixou o silêncio perdurar enquanto suas palavras eram absorvidas, olhos afiados - apesar enbranquecidos pela catarata - cravados no loiro desacordado. —O conflito será retomado, ele irá evoluir para uma guerra aberta entre as duas aldeias. A Folha descobrir que o Nove Caudas não está com a Nuvem não mudará nada. Um breve silêncio se seguiu enquanto os presentes contemplavam as palavras, durante o qual com um gemido Naruto acordou, vendo-se indefeso, cercado por seus captores e as seis figuras que brilhavam num translúcido tom pálido de azul. —Hotaru está certa. É perda de tempo nos perguntarmos o que as cinco grandes farão. Sua arrogância delata o rumo que suas ações tomarão e os inocentes pagarão o preço.- findou o líder, chamando a atenção de volta para si. —O que nos leva a questão do que fazer com o Nove Caudas. A tenção trouxe certa tensão para os ombros da mais jovem entre as mulheres, mas ninguém percebeu. Tal tensão era mais visível na face do espadachim e no próprio Naruto, objeto da discussão que estava para se dar. —Não há o que se discutir.- constatou Hotaru. —Nós extrairemos e selaremos a besta e depois jogamos o corpo na primeira vala que encontrarmos. Havia um certo gelo na voz da idosa que era capaz de fazer até mesmo Orochimaru estremecer. O espadachim estava prestes a argumentar com a mulher cuja cabeça não alcançava seu peito quando o outro falou. —Seria o mais lógico a se fazer…- concordou o homem de olhos verdes, apesar de que seu tom dava a entender que havia algo não dito. Orochimaru não poderia ser importar menos. Com tanto que extraiam a besta e se livrem de uma vez do garoto, sua vingança estaria completa. Fixou seu olhar no Grande Líder, cuja expressão estóica não revelava nada enquanto seus olhos arroxeados estavam presos ao garoto que tremia entre ele e Sasori. E então Sasori se moveu para frente, chamado a atenção do líder. —Se me permite, Grande Líder, gostaria de dizer que sou contra a extração do Nove Caudas.- opinou num tom plano como se falasse sobre o clima. Imediatamente todos os olhos estavam nele, inclusive os de Orochimaru, quem se sentia traído por seu parceiro. —Isso é inesperado. Por que motivo você se opõe a extração, sabendo que a extração de todas as bestas de cauda é o objetivo final desta organização?- a pergunta de seu líder escondia um perigo que Sasori via bem. —Não sou contra extraírmos o Nove Caudas, sou contra fazermos isso agora.- os olhos do líder se cerraram. —Elabore. —Minha filosofia de vida me torna uma pessoa impaciente, porém eu não sou hipócrita, por isso detesto esperar, mas detesto do mesmo jeito deixar que me esperem. Como resultado, eu considero que tanto se atrasar quanto se adiantar são sacrilégios que desrespeitam o tempo, o meu e o dos outros. Nesse caso, se estivesse tudo bem em se adiantar ao planejamento e pularmos a fase inicial de expansão, nós estaríamos capturando as bestas de caudas e seus hospedeiros, ao invés disso, estamos colhendo informações, arrecadando fundos e expandindo nossa infraestrutura e influência. Selar o Nove Caudas agora seria abrir uma brecha, uma chance para cairmos na armadilha de pensar que podemos pular a primeira fase, que plano é cauteloso demais, que ele é ruim. Ele não é. Ele não é nem tão cauteloso nem tão descuidado, não é tão rápido nem tão lento, ele está na medida certa, no tempo certo, eu não estaria aqui se não fosse o caso . Se nos adiantarmos, poderemos dar um passo maior que a perna e chamar atenção demais para nós, nos colocando numa situação adversa sem os fundos ou infraestrutura necessárias. E mesmo que só selemos o Nove Caudas e voltemos para o plano original, a dúvida estará plantada para sempre, nos fazendo duvidar da necessidade de nossa expansão e o plano perderá seu sentido diante da falta de confiança que depositamos nele. O monólogo foi seguido por um longo silêncio no qual o Líder considerava cuidadosamente cada palavra. —Honestamente, Grande Líder, eu não tenho nenhum problema em realizar qualquer missão, não tenho problema em matar quem quer que seja, mas em toda minha vida como ninja eu nunca tive que matar uma criança que fosse civil. Tanto quanto eu farei o que me for ordenado, não me sinto confortável com essa situação.- confessou o espadachim, fazendo a mulher mais velha revirar os olhos enquanto a mais nova se sentia aliviada com as palavras. O outro homem, no entanto, bufou uma meia risada de escárnio, fazendo-o por a mão no punho de sua espada, por mais de que, como estavam, um não conseguiria ferir o outro. —Kakuzu. —Sim, Grande Líder, nossos fundos ainda são apenas 37% do que precisamos para cumprir com nosso cronograma original.- informou o homem de olhos estranhos numa voz calma e grave, sem pensar, como se o dado estivesse gravado em sua mente. —Konan. —Nossa infraestrutura ainda é curta, restrita principalmente ao país da chuva, nossa influência está um pouco melhor do que isso, uma vez que a Aldeia da Chuva tem renome mesmo entre as cinco grandes, mas ainda tem muito a ser feito enquanto Akatsuki. Nossos serviços ainda são pouco solicitados pelas cinco grandes, até mesmo entre as aldeias menores nossos números não são muito favoráveis, restringindo nossa zona de influência à esfera não militar. O Líder acenou em reconhecimento às informações que a mulher de cabelos azuis dissera. —Além disso.- retomou Sasori. —O garoto pode ser útil. As capacidades dos Uzumaki os precediam, dentre as quais está uma habilidade sensorial acima da média, coisa que essa criança já demonstrou pela maneira como sentiu nossa presença mesmo enquanto nos ocultavamos.- os olhos das seis figuras estavam agora em Naruto que olhava fixamente para um ponto escuro da caverna aonde um homem de um olho só o observava da escuridão. Dita figura estreitou seu olhar solitário por debaixo de sua máscara e desapareceu em um vortex em pleno ar. Só então o garoto pareceu relaxar um pouco e voltar seu olhar para os outros presentes, fato que não passou despercebido por nenhum dos oito membros ali reunidos. —Mais um motivo para matarmos a criança. Os Uzumaki foram caçados por um motivo e se alguma vez as nações elementais acertaram foi na queda do Redemoinho. O mundo está melhor sem eles. Se vocês, crianças, não aguentam ver um pouquinho de sangue deixem que eu mesma faço.- afirmou Hotaru, o ambiente esfriando diante da frieza em suas palavras, sua intenção assassina podendo ser sentida mesmo ela não estando de corpo presente, fazendo a criança estremecer, um choro abafado por sua mordaça. —Não cabe a você decidir isso.- informou simplesmente Konan com uma voz neutra. —Nós não matamos por desejo ou prazer, matamos por dinheiro ou necessidade.- adicionou o Líder. —A morte desse garoto só se dará por nossas mãos se for pelo solene objetivo de extrair o Nove Caudas, e até que isso esteja decidido, ninguém tocará em um fio de cabelo dele. Duas mechas grisalhas balançaram ao redor da cabeça de Hotaru quando esta virou seu olhar frio para a cabeça alaranjada de seu líder. —Grande Líder, não me importo se a criança vive ou morre, mas se esperarmos que ela cresça, considerando seu pai, conheço um a contato que pagaria uma boa quantia em dinheiro na Aldeia da Pedra pelo cadáver.- ofereceu Kakuzu. Então a caverna se tornou silenciosa novamente, a exceção do âmbar de Konan, o olhar de todos estavam no homem de cabelos laranjas e olhos roxos, olhos estes que assim como os da azulada encaravam os olhos azuis da criança amedrontada. —O que você me diz, Konan?- algumas sobrancelhas se arquearam enquanto os olhares expectantes recaiam agora sobre a forma feminina que manteve-se em silêncio enquanto considerava toda a informação e suas opções. —Dentro de dois à quatro anos a primeira fase deve estar próxima de sua conclusão. A extração do Nove Caudas pode aguardar até lá. Isso nos dará tempo também para avaliar a sua possível utilidade para a organização e se for caso, a vida de Naruto Uzumaki poderá se prolongar até a conclusão de nossos planos. Até lá, não podemos arriscar que ele retorne para as mãos da Folha, portanto ele deve estar sempre acompanhado de um membro da Akatsuki ou em uma localização segura. Ao final do pronunciamento de Konan a cabeça mecânica de Sasori acenou, atestando sua satisfação com este arranjo. —Está decidido.- pronunciou se o Líder, fazendo Orochimaru crispar sua língua. —Se o Uzumaki vivera não tem porque eu estar aqui.- comunicou Hotaru. —Sensei!- tentou chamar o espadachim, porém foi em vão, uma vez que a forma da idosa desapareceu imediatamente após suas palavras. —Juuzou.- este virou-se para o Líder. —Você e Hotaru devem se dirigir pra as fronteiras do País dos Raios e aguardar novas ordens. —Sim, senhor.- respondeu desaparecendo. —Kakuzu, faça uma lista de ninjas da Nuvem que tenham uma recompensa por sua cabeça. Vamos dar uma pequena vantagem para a Folha retomar o conflito. —Sim, senhor.- desapareceu logo em seguida. —Orochimaru. —Sim?- questionou com uma certa impaciência que traía a sua insatisfação com o resultado final do encontro. —Não pense nem por um momento que você pode causar tudo o que causou por uma informação sem ter que compartilha-la.- informou/ameaçou o Líder com um tom de voz afiado e os olhos roxos cerrados. Um sorriso se abriu no rosto da cobra, seu humor melhorando de imediato ao recordar-se da informação. —Ah, sim, como poderia me esquecer! Trata-se de um potencial novo membro para nossa organização. —E quem seria esse? —Trata-se de um Uchiha. Um prodígio no melhor sentido da palavra. —Qual Uchiha?- quis confirmar, apesar de já ter um bom palpite. O sorriso de Orochimaru se expandiu de forma que doentia. —Dentro de alguns meses ele será o único!- declarou como se isso bastasse. Ainda assim, a declaração fez os olhos de Sasori se arregalaram ligeiramente e Zetsu assobiu. No entanto nem as expressões faciais de Konan nem as do Líder se alteraram, quase como se não tivessem ouvido. —Zetsu.- chamou por fim o Líder. —Vou ficar de olho.- garantiu o homem planta, desaparecendo. O Líder então voltou seu olhar para Orochimaru e ficou em silêncio por um breve momento, julgando suas ações e os benefícios delas. —Bom trabalho.- disse por fim numa frase curta, desaparecendo junto de Konan logo depois. Na caverna escura permaneceram Orochimaru, Sasori e Naruto Uzumaki.

----- CHAPTER BREAK -----

A noite era quente e não importa o quanto ele sentisse essa diferença, sempre o impressionaria o quanto o calor daqui era diferente do calor que se sentia no País do Fogo. Não País do Fogo o calor constante era abafado, sufocante e um tanto opressor, as árvores de suas vastas florestas faziam com que a umidade estivesse sempre presente, e tão contra intuitivo quanto pudesse parecer, não ventava o suficiente naquelas terras para varrer o suor das pessoas, muito menos para refrescar o calor que lá fazia. A descrição, pouco agradável, faz parecer com que as pessoas que lá habitam não deveriam suportar o clima, mas a verdade era que elas amavam, cresceram acostumadas com ele e ele fazia parte de seu ser agora, ao ponto de que quando estás tinham de arriscar suas vidas viajando para fora da Terra do Fogo não era anormal elas reclamarem do frio que fazia noutras terras*. Ele mesmo achava o clima da Terra do Fogo agradável, mas é como dizem, não há nada como a terra natal. Aqui, por outro lado, o calor e a umidade também eram sempre presentes, mas era mais agradável, relaxante, até mesmo terapêutico, alguns diriam. Mas o que poderia se esperar de um país chamado de País das Fontes Termais? Ele ainda achava um exagero que médicos receitassem que os enfermos se banhassem e até mesmo bebessem das águas escaldantes para tratar suas enfermidades. Exagerado e um tanto nojento. E ele ainda preferia a Terra do Fogo. Mas haviam muitas coisas boas nas Fontes Termais, muitas coisas que ele realmente sentia faltar na Terra do Fogo, pelo menos nos lugares em que ele ainda era permitido entrar. Aqui havia um bom sake por um preço razoável, mas lá também havia. Aqui havia bastante comida boa nas mesas, mas lá também tinha, e ele ainda achava particularmente nojento que o povo daqui tivesse a tendência de preparar as refeições com as águas das fontes das termas, as mesmas que as pessoas bebiam e se banhavam, conferindo um arromba certamente único apesar de duvidoso para os pratos. Ponto para Terra do Fogo. Aqui a privacidade era assegurada, mas até então em todo bordel que ele já visitou nas Nações Elementais era assim. Aqui um agradável aroma de incenso se fazia presente, sobressaindo-se ao cheiro das comidas, das bebidas e o peculiar cheiro das atividades mais adultas que eram realizadas nos quartos que ficavam num corredor a alguns metros mais atrás de onde ele estava sentado. O cheiro era realmente agradável, mas ele estava demasiadamente acostumado a associar tal aroma a templos religiosos para se confortável senti-lo agora. Aqui dava para ouvir o som do prazeres que as jovens mulheres que o cercavam ofereciam atravessando as paredes dos mesmos quartos de onde o peculiar cheiro exalava, o que realmente o agradava. Aqui a madame que gerenciava o bordel fez questão de afrouxar sua obi para afastar as abas de seu yukata, expondo o busto farto com que ela fora abençoada, movendo-se de modo a ressaltar os seios toda vez que ele a olhava. Mas nos bordéis do País do Fogo a própria madame estaria servido-o e bebendo em sua companhia. Qual era mesmo o diferencial daqui? —Ahn~~! Jiraiyinha! Conta de novo aquela história de como você derrotou um dragão d’água com uma bola de fogo do tamanho do salão da madame Matsumoto!- clamou uma jovem mulher de cabelos loiros, apertando seus seios contra seu braço esquerdo. —Conta, conta!- concordou uma outra de pele escura e cabelos claros, fazendo o mesmo com seu braço direito. —Uma bola de fogo tão~~ gran~de, deve ser muito quente, não? Só de pensar eu fico tão~~~ sua~~da…!- disse uma terceira que Jiraiya não conseguiria descrever, uma vez que esta última estava atrás do sofá em que ele estava sentado, mas pela forma que ela abraçou seu pescoço, pressionando sua cabeça contra os macios seios, Jiraiya sabia que ela era a mais abençoada do estabelecimento. —Gehe! Heheheh… !- ah, sim, as mulheres aqui eram mais oferecidas! Um ponto definitivo para o País Fontes Termais e um golpe duro para o País do Fogo. —Claro, claro, se vocês insistem!- respondeu Jiraya com o rosto profundamente corado enquanto secava outra vez seu o-choko, devolvendo-o para o masu, enquanto a mulher de pele escura servia mais sake, enchendo novamente o o-choko até que este transbordasse, enchendo assim a pequena caixa de madeira que o guardava e esvaziando o seu quinto tokkuri da ainda jovem noite. —Kanpai!- brindaram as três mulheres um tanto atrasadas, mesmo que não fossem beber. Elas desistiram de acompanhar seu ritmo dois tokkuris atrás. Não que ele se importasse. Sem que percebesse já estava recontando outra vez a história do dragão d’água, que nada mais era do que uma versão embelezada de quando ele derrotou um ninja da Névoa, vaporizando seu jutsu com uma grande bola de fogo durante a última Grande Guerra Ninja. Pobre garoto, havia sido recentemente promovido à Jounin e achou poderia derrota-lo! Desmaiou no momento que seu dragão d'água virou vapor devido a exaustão de chakra. Ao menos sua morte havia sido indolor. Jiraiya garantiu isso ao atravessar seu coração com uma kunai enquanto ele estava inconsciente. Não se podia ser misericordioso em tempos de guerra. Mas esses tempos finalmente chegaram ao fim, quem diria? Cinco anos de guerra, cinco de paz, uma tragédia incomensurável durante esta paz, com tantas perdas… incluindo a de seu aluno e sua esposa, cujas mortes ele não teve tempo de lamentar antes que viessem mais cinco anos de lutas e batalhas sem fim num conflito sem sentido movido única e exclusivamente pela ganância daqueles já tinham muito poder mãos. Não mais!, o mero pensamento de que agora eles finalmente teriam paz, uma possivelmente duradoura, era algo que de fato pedia uma longa comemoração, por isso, mesmo que ele estranhasse que o Terceiro não tenha entrado em contato neste mês que se passou desde que o tratado foi assinado, ele não reclamaria, muito pelo contrário, seu fígado que se prepare pois estas últimas quatro semanas eram só o começo e ele ainda tinha muitas mágoas para afogar. Essa é por vocês, Minato, Kushina! —Kanpai!- brindou entusiasmado, virando seu o-choko outra vez, as três beldades que o cercavam brindando com ele, sem beber, ao passo que a loira agilmente trocava o masu agora cheio por outro vazio, afastando-o para onde já haviam outros nove, todos cheios a ponto de transbordar. —Gargh! Hihihi~!- riu contente, devolvendo mais uma vez o o-choko ao masu vazio, a mulher a sua direita enchendo-o novamente, deixando-o transbordar para também encher o masu, deixando o novo tokkuri já por menos da metade. De onde ele estava podia enxergar claramente o franzir de cenho de madame Matsumoto*, preocupada, vendo como ele bebia seu sake mais caro sem qualquer cerimônia, como se fosse água. Ele também enxergava boa parte da pele de seu largo busto e tinha certeza de que eles pulariam graciosamente para fora de seu yukata se ela apertasse um pouco mais os braços contra seu abdômen. Jiraiya não chegou a perceber que o franzir de seu cenho se agravou quando surgiu uma quarta beldade, alta, esguia e de corpo sinuoso, de cabelos morenos e pele clara, vestindo um vestido tomara que caia que não cobria metade de suas coxas e exibia quase metade de seu busto. —Ora! Se não é Lendário Jiraiya!- reconheceu a recém chegada, se aproximando. —Espero que não se importe se eu…- ela não esperou uma resposta, sentando-se em seu colo, esfregando levemente o macio traseiro contra sua virilha e deitando as costas contra o corpo de Jiraiya, aconchegando-se e deitando a cabeça contra o seu pescoço, de modo que Jiraiya não precisava ser esforçar muito para ter uma visão privilegiada de seus seios, podendo ver até mesmo a pontinha rosada de suas areolas. —Estou tão cansada! Quando soube que você estava aqui na Vila das Oito Águas*, eu tive que vir para te ver!- disse ela no pé de seu ouvido, seu hálito quente aquecendo sua orelha esquerda, causando um arrepio que correu da cabeça aos pés, fazendo surgir um sorriso nos lábios da mulher ao sentir o poder que ela tinha sobre ele pulsando no meio de suas pernas. —Heh? —Mas olha só! —Que descarada! —Não tá vendo que o Jiraiyinha já tem companhia?! Indignaram-se as outras. —Calma, minhas queridas, tem Jiraiya o bastante para todas vocês! Não podemos simplesmente destratar uma dama que veio de tão longe do para me ver! Aliás, de onde a moça veio mesmo?- interveio o Sábio, tentando acalmar os ânimos ao passo que questionava tentando fazer seu sangue correr para algum outro lugar. E com uma breve e encantadora risada ela respondeu. —Vim de Sombracolina*!- afirmou com um sorriso jovial, as outras resmungavam ainda insatisfeitas com o atrevimento da quarta mulher, ao passo que Jiraiya franzia. —Uma viagem e tanto, a moça deve saber se cuidar muito bem, ou então é muito corajosa…- comentou, sabendo que um civil levaria três dias para realizar tal trajeto e estaria exposto aos perigos da estrada, como um infame culto religioso de fanáticos que havia por aquelas redondezas. —Ah, você não soube? Os Jashinistas já não estão mais por lá!- respondeu e prontidão, fazendo as três outras mulheres se sobressaltarem, só então ligando o nome do local. —Oh, e o que a senhorita fez com eles?- brincou, surpreso e curioso em partes iguais com a informação que até então era uma total novidade para ele. Ela riu. —Nada, besta!- respondeu com graça, dando um tapa de brincadeira no ombro contrário. Havia doído. —Pelo que eu soube, eles se mataram, ou foram mortos por um deles que enlouqueceu, o que francamente, dá na mesma!- informou dando de ombros, fazendo-o arquear uma sobrancelha com a indiferença contrária diante de uma informação tão macabra. —Além do mais, ninguém teria coragem de fazer nada contra mim, afinal…- e então aproximou-se para sussurrar a última parte em seu ouvido. —… eu sou um presente de madame Koizumi especialmente para você! Um outro arrepio percorreu seu corpo e todo o esforço anterior para manter sua circulação sanguínea fora de sua virilha provou-se fútil fazendo o sorriso da mulher se ampliar. Dessa vez ele sorriu de volta. —Oh? E eu poderia saber o porquê disso? Ela olhou nos olhos dele enquanto respondia. —Sombracolina não tem muitas fontes termais, o que, junto dos nossos amiguinhos religiosos, tornavam o vilarejo um pária nestas terras. Mesmo agora que eles se foram não temos muita renda, o que nos faz ter que gastar o que temos com muita sabedoria. Por isso, vendo um potencial cliente tão importante, madame Koizumi me enviou para te oferecer tudo o que você gosta: boa bebida, boa comida, boas mulheres…- ela deliciou-se ao vê-lo despi-la com os olhos por um breve momento. —E um ou dois segredos daqui e dali… No fundo daqueles olhos verdes Jiraiya não encontrou mentiras. Porém tampouco encontrou verdades. —Ho! Interessante…- ele desviou o olhar em direção à entrada do salão, onde era possível ver a madame Matsumoto fumando por suas ventas com o desenrolar da cena. A mulher em seus braços também olhou, seu sorriso ganhando tons de deboche e zombaria para a madame rival, mas o olhar de Jiraiya estava fixo na noite escura que ele podia ver pela janela ao lado dama de cabelos alaranjados. —E como eu posso encontrar essa tal madame Koizumi e você?- perguntou sem desviar o olhar da janela. Ela pôs a mão em seu queixo, forçando-o a olha-la novamente. —Você já me encontrou, bobo! Eu posso te levar lá.- afirmou com confiança, seus lábios roçando os dele. —Tão tentador quanto isso parece ser, eu tenho que ir agora… —Heh?!- protestaram as outras três mulheres, finalmente saindo do transe no qual a interação dos dois parece as ter colocado. —Parabéns, medonha, você espantou ele! —Que pena…- lamentou ainda em seu colo, abraçando seu pescoço. —Nesse caso, procure pelo Palácio de Madame Koizumi embaixo da cerejeira seca em Sombracolina que você nos achará. E se quiser ter mais disso…- fechou a distância entre os lábios em um beijo fervoroso, o sabor de menta nos lábios contrários encontrando o de sake nos seus. —Pergunte por Chie*. —Certamente procurarei.- disse levemente aturdido antes de se levantar, forçando-a a pular de seu colo para o sofá. Sacou de seu bolso algumas notas e deixando na mesa enquanto saia. —Deixei mais do que o bastante sobre a mesa para pagar pelas bebidas e pela companhia! Disse a madame Matsumoto enquanto passava por ela. Saiu do salão sendo recebido pela brisa salgada do mar sobre seu rosto. Mirou suas águas obscurecidas pela noite estendendo-se pelo horizonte por um breve momento antes de seguir seu caminho na direção oposta. Andou pelas ruas do vilarejo com calma, sem cambalear apesar da concentração de álcool presente em seu corpo. Por um momento ele lamentou não poder passar a noite com Chie, ela realmente sabia como causa uma impressão. Poucas vezes Jiraiya quis tanto visitar um lugar na vida quanto ele agora queria ir ao tal Palácio da madame Koizumi. Claro, haviam alguns quantos sinais de alerta. Que madame Koizumi tenha enviado alguém para oferecer serviços de espionagem tão abertamente era só o começo. Ir de Sombracolina até Oito Águas é facilmente uma viagem que levaria três dias para um civil, ainda assim Chie clama ter feito dita viagem assim que soube que ele estava ali, mesmo ele tendo chegado na tarde do dia anterior, o que quer dizer que ou ela não era umas simples civil ou eles sabiam de antemão que ele viria para esta vila. Talvez os dois. Mesmo para um ninja percorrer tal trajeto em tão pouco tempo seria desgastante para dizer o mínimo. Desgastante demais para estar tão apresentável assim que chegasse. Olhando em retrospecto, ela realmente não se portava como uma pessoa comum, sua postura impecável, a graça de seus movimentos, seu corpo torneado, a maneira meticulosa como ela o exibiu para seduzi-lo. A fria indiferença ao tratar de um massacre. Isso era outro grande sinal de alerta. ‘… gastar o que temos com muita sabedoria.’ recordou-se das palavras. Por mais que não a conhecesse, era seguro dizer que se tem uma coisa que essa tal madame Koizumi não era é ingênua. Na realidade, Jiraiya iria tão longe à ponto de assumir que a mulher deveria ser tão astuta quanto uma raposa. Não fazia sentido uma pessoa assim estabelecer sua base de operações tão próximo de um grupo extremista religioso tão perigoso quanto os Jashinistas, a menos que ela soubesse ou planejasse algo sobre isso.   Talvez ela seja tão perigosa quanto uma raposa de nove caudas, afinal. Só o deixava com ainda mais vontade de visitar este tal palácio. Era perigoso? Claro. Mas o que era a vida sem emoção? E o que poderia ser mais emocionante do que flertar com o perigo, leva-lo para a cama e provar de sua carne? Mas ele teria que investigar primeiro. O que aconteceu com os Jashinistas? Teria madame Koizumi os eliminado? Ela não soava como alguém capaz de tal, mas Chie deixou mais do que claro que Koizumi poderia ser mais do que aparenta… não. Mesmo que ela tivesse seus meios ainda era difícil imaginar alguém conseguindo eliminar os Jashinistas. Verdade seja dita, os custos e os riscos de tal operação tornava difícil acreditar que alguém sequer tentasse. Teriam eles realmente se matado? ‘… ou foram mortos por um deles que enlouqueceu, o que francamente, dá na mesma!’.   Isso fez Jiraiya franzir o cenho. Pior que um bando de pessoas com um parafuso solto reunidas em um só lugar era uma única pessoa muito poderosa sem parafuso algum zanzando por aí.  Ele teria que reportar isso para a Folha se esse for o caso. Ter alguém assim a solta elevava muito o nível de perigo das imediações do País das Fontes Termais. E pensar que alguém conseguiria enlouquecer ainda mais depois de já ter virado um Jashinista. Seria de se imaginar que esse poço teria fundo. Ele suspirou, parando seu caminhar em meio à uma estrada de terra cercada por mata um pouco mais afastada da zona povoada. —Vejamos… o que que o meu velho sensei tem para mim dessa vez que não podia esperar? Olhou diretamente para a máscara sem expressão de um ANBU que o encarava de cima de um galho de árvore. O mesmo que ele tinha visto pela janela do salão de madame Matsumoto. Ao seu redor haviam três outros ANBUs. Uma equipe inteira da ANBU para fazer contato e entregar uma mensagem que um gavião mensageiro poderia entregar facilmente pelas vias de contato normais? Isso deveria ser sério. —Temos ordens do Hokage.- anunciou o líder. —Hmpf!- bufou. —Mas já?! Vejo que Sarutobi sensei segue tão ranzinza quanto sempre! Ele poderia pelo menos me deixar aproveitar um pouco mais! Mal tem um mês desse que assinaram o tratado de pa- —O tratado de paz foi cancelado.- interrompeu, fazendo Jiraiya piscar algumas vezes diante destas palavras. —Como?- perguntou incerto, quase como se esperando que o líder da equipe dissesse estar brincando. Ele não disse. Na verdade, nenhum deles disse nada diante de sua surpresa, o que o enervou tremendamente. —O que aconteceu?! —A Aldeia Oculta da Nuvem se aproveitou do tratado para se infiltrar em nossa aldeia. Na noite que o tratado foi assinado o representante do Raikage se esgueirou até o condomínio dos Hyuga e tentou sequestrar a herdeira do clã, sendo morto pelo senhor Hiashi. Essas palavras afundaram como uma pedra no estômago de Jiraiya. —Bastardos gananciosos!- amaldiçoou, deveria ter suspeitado que fariam algo assim, era a mesma coisa que haviam feito com Kushina todos esses anos atrás, isso claramente era o feitio da Nuvem. —A com certeza deve ter feito exigências absurdas, mas Sarutobi sensei deveria ser capaz de manobra numa situação dessas sem dificuldades!- alegou, por mais que detestasse as implicações de tal afirmação. Sensei era um amante da paz tão vigoroso quanto ele, Jiraya sabia que ele faria o necessário para assegurar a paz depois de tantos anos de conflito. Não houve resposta, as quatro máscaras sem expressão o encaravam de cima para baixo, um mal pressentimento atravessando seu peito. —O que você não está me contando?!- exigiu. —O ataque ao condomínio Hyuga foi uma distração. Naquela mesma noite a delegação da Nuvem fugiu de nossa aldeia, matando três de nossas equipes na fuga, levando consigo o hospedeiro da Nove Caudas. Jiraiya sentiu o mundo desmoronar debaixo de seus pés. 
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 Aquele dia havia sido estressante demais para não ter reduzido em alguns anos sua expectativa de vida. Hiruzen estava certo de que em seu leito de morte ele amaldiçoaria este dia como um enfermo amaldiçoa a enfermidade que o flagela. Ainda assim ele teria que fazer valer a queda de cada fio de cabelo que esse dia lhe renderia. Afinal ele era o Hokage, era seu dever assegurar o melhor dos interesses da Aldeia da Folha, e como um amante da paz que era, ele estava certo de que assinar esse tratado era motivo mais do que o suficiente para suportar tal estresse. Mas ele estaria mentindo se dissesse que ele não preferia mil vezes a logística da guerra à logística diplomática. Gerir recursos - humanos e não humanos -, mover tropas, delegar as pessoas certas para as frontes certas, dominar uma região, fortificar, demolir, sabotar, neutralizar, assassinar, torturar. Entre mortos e feridos, Hiruzen lidava melhor em ter que destruir seus adversários do que em se preocupar em não ofende-los.  Em qual hotel a delegação deve ficar? O que eles irão comer? Há que distância eles ficaram do seu escritório? Quantos seguranças ele precisaria alocar? Quantos ele conseguiria alocar sem parecer suspeito? O quão arriscado seria alocar uma equipe da ANBU para manter vigia sobre seus convidados? Quem eles encontrariam? Com certeza não o Danzo. Qual seria o horário mais apropriado para o encontro? E o local? Tantas perguntas para cercar e proteger um embrião tão frágil de paz… Hiruzen claramente estava mais apto à guerra. Ele foi criado num clã voltado para o caminho militar e se formou como o soldado perfeito sob a tutela dos dois melhores neste ofício, afinal de contas. Mas sua aptidão natural para a guerra não era e nem podia ser o que mais importava. Ele era o Hokage e essa posição exigia que sacrifícios fossem feitos. Pelo bem de sua aldeia a paz teria de prosperar. Por isso ele tolerou o estresse das negociações de paz, por isso ele tolerou o assédio de Danzo e seus escudeiros para tentar dissuadi-lo de seu caminho pacífico, por isso ele tolerou todas as ponderações necessárias para sediar o encontro final para assinarem o tratado de paz em sua aldeia, por isso ele tolerou até mesmo o sorriso presunçoso e o olhar mesquinho de escárnio do Jounin que representava a Nuvem. Olhando de perto, o Jounin definitivamente havia perdido o sorriso, mas a presunção parecia simplesmente ter tomado o lugar da mesquinhez no olhar de seu cadáver. De certa forma, o corpo ainda parecia manter seu escárnio, como se zombando do Kage mesmo depois de morto. As carretas que os homens faziam diante da morte… Hiruzen balançou levemente a cabeça em reprovação, suspirando. Eu definitivamente estou velho demais para isso, não pôde deixar de pensar, vendo como ele deveria ter tomado mais precauções quando viu a expressão do homem enquanto assinavam o tratado, uma única equipe da ANBU para vigia-lo não bastaria e ele deveria saber disso. Ele precisava encontrar um sucessor rápido, Minato era quem deveria estar lidando com essa situação, mas infelizmente ele não estava mais aqui. Todo esse conflito não teria acontecido se Minato ainda estivesse vivo, ponderou com amargor. —O coração dele explodiu?- repetiu com calma as palavras do jovem Hyuga que o acompanhava, retomando a conversar depois de seu breve devaneio. Encontrava-se nos fundos de um dos dojos do condomínio, para onde o corpo do representante do Raikage havia sido levado após suas morte. Com ele haviam três outras pessoas, sendo estas um de seus conselheiros, Kasuga Nara - um de seus Chunins que trabalhava na gestão administrativa da Folha -, e o Hyuga em si. —Sim, senhor!- afirmou um tanto nervosamente o jovem. Hiashi exagerou. Mas seria de se pensar que um Jounin do alto escalão da Nuvem duraria mais do que um golpe dos Hyuga, talvez houvesse um toque de uma vingativa satisfação nestes pensamentos. —Como ele chegou até a jovem Hinata? —Não sabemos ao certo, creio que ele deve ter se aproveitado de um momento de desatenção de nossas patrulhas e usado uma rota pouco vigiada para se infiltrar pelo forro do teto da residência do senhor Hiashi…- o jovem Hyuga franziu o rosto em uma expressão de profundo pensamento, ao que Hiruzen acenou em concordância. Talvez ele fizesse jus ao título de Jounin, afinal… reconheceu, tomando nota do feito que era para alguém não só se livrar de uma equipe da ANBU sem levantar alarde, mas conseguir se infiltrar no condomínio que era guardado constantemente pelo Byakugan à ponto de quase suceder em raptar a herdeira de um dos clãs mais proeminentes da Folha. Ele não era alheio, no entanto, ao fato de que dita invasão fora muito facilitada pelo fato da maior parte dos membros da família secundária dos Hyuga ainda não ter retornado de seus postos na frente de batalha, assim como os Uchihas. Vendo como o inimigo parece ter tirado proveito dessa situação, Hiruzen não pôde deixar de se perguntar quem seria o informante. —E quanto ao restante da delegação? —Eles fugiram, senhor.- imediatsmente informou em tom austero um capitão da ANBU, saindo das sombras e se pronunciando pela primeira vez na cena. —Os seguranças foram mortos. Hiruzen acenou com a cabeça. —O esquadrão da ANBU destacadalo para vigia-los? —PMC, senhor.- a resposta curta fez o cenho de Hiruzen franzir. —Envie um esquadrão para rastreá-los imediatamente! Ordene que reportem informando a localização dos fugitivos assim que os encontrarem, mas que não engajem combate até a chegada de reforços a menos que estritamente necessário.   —Sim, senhor!- imediatamente o ANBU desapareceu. —Envie um gavião para o Raikage imediatamente! Não podemos deixar que essas notícias cheguem até ele através de seus homens. Informe de nosso interesse em seguir com o tratado e assegure que faremos o que for possível para garantir a paz. O Chunnin que o acompanhava pareceu travar, incerto por um segundo, antes de acenar com firmeza, porém sem convicção. —S-Sim, senhor! —Você ainda vai cometer a tolice de insistir na paz, Sarutobi?!- questionou com veemência Homura, recebendo de volta um olhar severo. —Desde quando prezar pelo bem estar dos aldeões e pela vida dos homens sob meu comando é tolice, Homura?- a voz saiu rouca. —Não existe paz unilateral, Sarutobi, e você sabe muito bem disso! É tolice persistir em manter um acordo de paz que só serviu para sermos apunhalados pelas costas!- elevou o tom de voz, fazendo os olhos do Hokage se estreitarem. —Você, que chama perseverança e sabedoria de tolice, diga-me, quem de fato é o tolo? A Nuvem traiu nossa confiança, mas sua traição não lhes rendeu nada além de morte.- pausou por um instante, ponderando os acontecimentos daquele dia em sua mente enquanto fitava o cadáver diante deles. —Não há porquê desfazer um tratado tão importante por um descaso de traição que não nos causou dano.- completou fazendo o conselheiro recuar dois passos, extasiado. —Você não pode estar falando sério!- balançou a cabeça algumas vezes em reprovação. —Realmente acha que o Raikage vai se desculpar pelos seus erros, e voltar atrás em sua decisão com o rabo entre as pernas só porque ele falhou uma vez?! Se prosseguirmos com o tratado tudo que estaremos fazendo é abrir as portas para que ele tente quantas vezes precisar até conseguir!- praticamente gritava ao final de suas palavras. —E que assim seja!- elevou por fim a voz, a rouquidão de suas palavras ecoando como um trovão naquele ambiente fechado, fazendo o jovem Hyuga se sobressaltar. —Você que lutou em todas as Grandes Guerras deveria saber, Homura, guerras não são algo que podemos nos dar ao luxo de começar simplesmente porque alguém nos destratou, desrespeitou ou traiu!- olhou diretamente noite olhos de seu antigo companheiro de equipe, decepção escorrendo por sua voz. —Talvez você tenha se esquecido por ter sobrevivido as três Grandes Guerras que passaram, mas guerras só trazem destruição, dor e pesar. Não importa o que poderíamos ganhar com isso, o preço não vale a pena.- suas duras palavras terminaram em um tom pesaroso, fazendo seu conselheiro se remexer em desconforto. —Você acha que isso fará com que só por um instante o Raikage hesite antes de marchar de volta para os campos de batalha uma vez que ele souber disso?- perguntou o conselheiro, seu tom de voz agora mais brando, enquanto apontava para o Jounin assassinado. Olhando de canto de olho para o corpo, Hiruzen negou com a cabeça, mas ainda assim, resoluto, ele respondeu. —Teremos que cortar através das intenções de guerra até chegarmos à uma paz duradoura. Nenhum dos dois lados ganhou nada em cinco anos de luta, nenhum dos dois lados ganhará nada com mais cinco anos da mesma.- suas palavras eram calmas e serenas, seu olhar lentamente vagou de volta aos olhos sem vida que o encaravam do chão. —Justamente por isso. O Raikage é ganancioso, ele tentará compensar os gastos com anos de luta em cima da morte de seu representante. Das compensações que ele exigirá não espere nada além do absurdo.- alertou, fazendo o Kage respirar fundo. —Encontraremos uma saída. Se não, esse que é o preço à se pegar pela paz, será também o preço que pagaremos.- fechou os olhos, entendendo bem o que isso significava. —Se buscarmos a justiça através do sangue toda vez que formos injustiçados, os mares do mundo serão vermelhos e em nossos campos só florescerão túmulos. —Sábias são as palavras de um verdadeiro líder.- louvou uma voz severa. Os três viraram-se para a entrada do dojo aonde um séquito de Hyugas, dos quais muitos pareciam ser mais velhos que o próprio Hokage, adentrava, sendo guiados por pela figura central de toda essa situação. —Meu caro Hiashi, pensei que tomaria a liberdade de passar a noite com suas filhas depois dos acontecimentos de hoje! Apesar de que eu realmente gostaria de te dizer pessoalmente para ao menos tentar manter o invasor vivo na próxima vez!- gracejou o Kage com um leve sorriso, por algum motivo achando que valeria a pena tratar com humor um Hyuga afim de aliviar a tensão do recinto. A expressão dos idosos do clã se agravou diante da menção de uma possível próxima vez, enquanto que o referido homem de construção robusta e rosto de traços fortes e sólidos, como que esculpido em rocha piscou algumas vezes, surpreso, antes de abrir um sorriso e dar uma leve risada. Sua atitude não era a única a gerar estranheza, já que inusitadamente ele trajava uma vestimenta preta simples, mais apropriada para um combate do que para formalidades, como ele costuma trajar, seus cabelos, sempre perfeitamente alinhados, estavam agora soltos e molhados, alguns quantos fios recaindo por sua testa e cobrindo parcialmente seus olhos. —Lamento ter conduzido-o ao erro, senhor Hokage.- disse mantendo o sorriso, tirando seus cabelos de caminho, revelando o selo da gaiola presente em sua testa, fazendo tanto o Hokage quanto seu conselheiro franzirem a testa. —Meu irmão de fato está com a senhorita Hinata e a senhorita Hanabi.- informou. Não passou despercebido pra Hiruzen como isso parecia desagradar alguns dos idosos do clã Hyuga. —Hizashi! Eu não sabia que você já tinha voltado!- conseguiu reunir coragem o bastante para falar o Hyuga que acompanhava o Kage. —Ko.- cumprimentou o gêmeo do líder do clã. —Retornei mais cedo, cheguei por volta de uma hora atrás, estava no banho, me preparando para dormir quando soube do ocorrido. —Temos assuntos importantes para tratar.- interveio um dos anciões, de rosto severo e cabelos tão brancos quanto seus olhos, tão baixo ele era que mal passava da cintura de Hizashi. Este era o mesmo que o havia louvado ao entrar. —Retire-se.- não se dignou sequer a olhar para o jovem enquanto este reverenciava os anciões de seu clã e o Kage antes de se retirar. —Perdoe-me a gafe, Hizashi, mas tanto quanto é apenas natural que se confunda o líder do clã Hyuga com seu irmão gêmeo, estou certo de que não estou confundindo os anciões da família principal…- o real significado das palavras de Hiruzen não passou despercebido por Hizashi, cujo sorriso se ampliou levemente. Por outro lado o cenho de Hiruzen seguia franzido. —Para um membro da família secundária dos Hyuga comparecer diante de mim cercado pelos anciões da família principal… —Hizashi deve tomar o lugar de Hiashi e pagar por suas ações, seja já quais forem as consequências.- colocou indo direto ao ponto um dos anciões, cujo corpo corcunda era sustentado por uma bengala. A expressão de Hiruzen se agravou. —Estamos cientes que a maneira descuidada que Hiashi lidou com o invasor pode ter graves repercussões para a aldeia, no entanto não podemos perder o líder de nosso clã por conta de um erro dessa natureza.- seguiu outro que parecia ser o mais jovens dos anciões, as rugas ainda estavam por despontar em seu rosto e a pele parecia recém ter começado a se acumular em seu maxilar. Sua altura sendo similar a de Hizashi fazia parecer com que este seria o mesmo dentro de vinte anos. —Muito menos arriscar que o Byakugan caia nas mãos do inimigo.- concordou Homura, arrancando exclamações de concordância dos idosos. —Hizashi é da família secundária.- adicionou outro, morando o horizonte. Ironicamente este deveria ser cego, se o jovem Hyuga com o selo na testa o guiando pelo braço indicava alguma coisa. —Seu dever é dar a vida pela família principal!- argumentou o único não idoso entre os membros da família principal presente, talvez sendo mais novo até que Hizashi, uma expressão grave no rosto enquanto ele empurrava a cadeira de rodas daquele que provavelmente era o membro mais velho do clã Hyuga. —Não pudemos deixar que o clã Hyuga seja motivo de mais alta de guerra!- afirmou o mais jovem dos anciões. Durante todo esse tempo Hiruzen manteve seus olhos fixos em Hizashi e este, por sua vez, retribuiu a atenção com o olhar e o sorriso sempre presente em seu rosto. Era quase como se ele estivesse em paz. —Você entende o que isso pode significar, Hizashi?- perguntou Hiruzen quando o silêncio já havia se estabelecido por um longo minuto. —Sim, senhor.- sua resposta foi calma e solene. Antes que alguém pudesse falar Hiruzen tornou a questionar. —E você está disposto a sacrificar a própria vida por isso? —Tudo pela minha aldeia e pelo meu clã.- a simples resposta continha uma firmeza inabalável. —Como é de se esperar.- declarou Homura, recebendo um carranca do Hokage em resposta. —Afinal é o dever e a honra de todo membro da família secundária se sacrificar pelo bem da principal e garantir o futuro de seu clã.- concordou o de bengala. —E da aldeia.- acrescentou Homura. —E a da aldeia.- entoou em concordância o jovem ancião. Hiruzen sufocou um grunhido. Talvez ele pudesse deixar Homura aos cuidados do clã Hyuga, uma vez que ele parecia se dar tão bem com seus anciões. —E a seu filho, Hizashi?- quis saber o líder da Folha, pegando o mencionado desprevenido, seu sorriso falhando pela primeira vez. —Se não me falha a memória, você tem um filho apenas um ano mais velho que a pequena Hinata. Como ele ficará? De acordo com os registros a mãe dele faleceu no parto, ele ficará bem sem você?- Hiruzen não iria tão longe à ponto de dizer que sabia de cada detalhe de cada subordinado, mas ele tinha o hábito de ler o registro e a história de pelo menos cinco de seus subordinados todo dia antes de dormir e depois de acordar, o histórico de um ninja de tanto destaque quanto Hizashi não seria difícil de lembrar. Esse hábito o ajudava a se lembrar que guerras se lutam para se chegar a paz e não a morte. Se seus conselheiros também cultivassem este hábito sua vida seria muito mais fácil. —O garoto ficará bem.- interveio o menor do séquito. —O clã cuidará dele.- sua voz era rígida, não deixando espaço para debate. Hiruzen por outro lado sabia bem como o clã planejava cuidar. Muito o impressionaria se o pequeno já não tivesse um selo em sua testa. Pele primeira vez naquele noite Hizashi franziu o cenho e por um breve momento Hiruzen se questionou se os anciões ofertaram a garantia de que não poriam o selo em seu filho para convencê-lo. Por mais que a chantagem baixa o irritaria até os ossos, a possibilidade de um Hyuga da família secundária nascer e morrer sem viver sob o selo o consolava. Mas descartou a ideia. Se ele não era ingênuo o bastante para acreditar que os anciões cumpririam tal promessa, Hizashi com certeza não seria. —Neji é um bom garoto, forte e inteligente, ele ficará bem. Tenho fé que meu irmão cuidará bem dele.- seu tom era firme para dar força as palavras de reafirmação, mas a carranca em seu rosto recusava-se a se desmanchar. —Se essa é sua resposta final.- concordou por fim Hiruzen, desejando mais do que nunca que pudesse tragar seu cachimbo sem ser desrespeitoso com a residência dos Hyuga. —Pensei que o senhor Hokage estaria aliviado que uma solução simples se apresentasse tão prontamente tão rápido…- comentou pelo primeira vez o mais velho em sua cadeira de rodas, sua voz moribunda repleta de chiados, vagarosamente abrindo os olhos naquele rosto que era mais ruga que expressão. —Eu não posso em sã consciência permitir que um de meus homens faça tamanho sacrifício sem estar em paz consigo mesmo.- repreendeu secamente o Kage, fazendo surgir um fraco porém reconfortante sorriso nos lábios de Hizashi. —Mas isso facilitará muito as renegociações.- Homura foi rápido em assegurar, quase como se não quisesse ofender os anciões. —Só temos que resolver uma questão: quem ficará a cargo de liderar as tropas Hyuga no fronte uma vez que o sacrifício se Hizashi seja efetivado? —Se Hizashi à de se sacrificar para reafirmar o tratado de paz, não será necessário que as tropas voltem a marchar pelos campos.- interrompeu Hiruzen antes que a conversa enveredasse para este lado, seu tom era régio e sua palavra era final. —Bom…- prosseguiu Homura, levemente abalado pela firmeza da voz do Hokage. —Neste caso, garantiremos que sua morte seja rápida e indolor. Deverá morrer honrosamente dentro dos muros da Folha e não em uma aldeia inimiga, seu corpo poderá ser entregue depois de devidamente tratado e velado.- assegurou o conselheiro, fazendo parecer que estava preocupado com o respeito à imagem e a honra do líder das tropas Hyuga, ao invés de garantir que a Nuvem não pudesse arrancar seus olhos com ele em vida, estudar ou modificar seu selo ou colher seu sêmen enquanto este ainda estivesse fértil para inseminar o Byakugan em território inimigo. Homura sabia ser muito mais sútil que Danzo quando queria, a sorte de Hiruzen é que sua convicção em medidas mais extremas não era inabalável como a do Falcão de Guerra, caso contrário ele certamente seria o mais perigoso de seus conselheiros. Apesar de sua sutileza, sua real intenção não passou despercebida, era o que apontava o modo com que o sorriso de Hizashi vacilou. Suas palavras renderam também um aceno de aprovação do não ancião, do menor ancião e do de bengala, um olhar estreitado do mais jovem ancião, um cenho franzido do membro da família secundária e um leve sorriso do ancião cego que este guiava. O cadeirante simplesmente fechou os olhos e recostou sua cabeça na cadeira, o chiado de sua respiração sendo a única prova de que ainda vivia. —Não precisamos nos precipitar. A essa hora o gavião mensageiro sequer levantou voo ainda.- garantiu ele, tentando reconfortar o pobre homem. —Nós podemos esteriliza-lo ainda em vida, assim levateremos menos suspeitas do que se o fizermos depois.- o cego, fazendo a expressão de Hizashi se contorcer. Hiruzen estava prestes a rechaçar tal ideia quando um ANBU surgiu ao seu lado e sussurrou um pequeno relatório em seu ouvido. —Vocês estão certos disso?!- perguntou alguns tons acima do que ele esteve durante toda a conversa, fazendo franzir a expressão de cada um dos presentes. —Sim, senhor!- confirmou com firmeza o ANBU. —Lidere o caminho. O ANBU desapareceu logo em seguida ao passo que o Hokage virou-se para os Hyugas. —Os senhores terão de me desculpar, mas a nossa pequena reunião terá de ser interrompida por hoje. Espero estar constatando o óbvio, mas não façam nada sem a minha explícita aprovação. Para todos os registros essa conversa nunca aconteceu.- ele então virou-se para seu conselheiro. —Você está dispensado por hoje. Tire o resto da noite de folga e só venha ao meu escritório no fim da tarde de amanhã. Isto é uma ordem.- e com essas palavras o Hokage desapareceu.  
.•>X<•.
   Surpreendentemente a noite estava mais movimentada do que o dia, pessoas indo para lá e para cá, o som de risos e gargalhadas superando qualquer outro ruído. Até mesmo artistas de rua, algo raro na aldeia nos últimos anos, faziam-se presentes, cuspindo fogo, fazendo malabares e truques de mágica. Tal era o estado de euforia que até mesmo a mais recatada das mulheres andava aos tropeços, um sorriso largo no rosto corado, yukata semi aberto e seu terceiro tokkuri em mãos. E isso já passando de uma e meia da manhã. Definitivamente nenhuma alma dormiria na Aldeia da Folha está noite. Não era surpresa que as ruas cheirassem à álcool, os becos à urina, a multidão à suor e as lojas à incenso. Não que isso a incomodasse. Em um ambiente tão conturbado, porém também tão alegre, ela se sentia deslocada. O caos e a conturbação eram constantes em sua vida, mas estes estavam mais relacionados ao calor da batalha, os gritos de guerra, o rugir dos jutsus sendo lançados, os som de ossos se partindo, os berros de dor, o borbulhar ecoando pela garganta de um homem se afogando com o próprio sangue, o último suspiro de um inocente ou as últimas palavras de um companheiro. Até mesmo na silenciosa calma da noite, aonde ela se escondia antes de sua ninjato perfurar o coração de um alvo, havia um caos que não habitava o ambiente, mas em sua mente.  Nos momentos de batalha, aonde a cacofonia da morte pairava e ela era só um instinto assassino fatiando a carne de seus inimigos até não haver mais nenhum, ela se sentia mais em paz do que nas noites que ela tinha que trazer a morte ao pacífico recanto em que seus alvos repousavam na hora de seu assassinato. Nestes momentos sua lâmina parecia pesar como se a Aldeia da Folha inteira estivesse equilibrada em sua ponta, tudo que ela via era a morte, tudo que ela ouvia era dor e tudo cheirava à carne podre. Ainda assim como a soldado que era, ela se tornava o próprio aço de sua espada e cortava a vida de seus alvos com o peso de uma aldeia inteira no balançar de sua lâmina. Não por menos sua vida cheirava a sangue. Mas ela não podia se dar ao luxo de expressar tais pensamentos mórbidos. Por isso que quando suas amigas chamaram sua atenção, tirando-a de seus devaneios e perguntando se estava bem, ela simplesmente sorriu e disse que sim. Seu sorriso, uma máscara de carne e osso que ela tinha mais dificuldade para vestir do que a de porcelana, era falso e imperfeito, aquelas que a acompanhavam, amigas de longa data, conseguiam ver através dela como alguém veria o sol raiando à meia noite. Ainda assim elas não perguntaram. Ela não comentou. Resolveram arrastá-la para um bar que havia a três quadras descendo a rua. Ela se deixou arrastar. Da mesma forma que se deixou ser arrastada para fora de casa. Ela estaria mentindo se dissesse que gostaria de sair. Elas estariam mentindo se dissessem que não sabiam. Ainda assim elas tentavam e ela era grata por isso. Assim ela se sentia ao menos compelida à tentar. Muitos dos seus colegas de organização não faziam sequer isso, vivendo de suas missões e se escondendo da sociedade entre elas, mal deixando suas casas, seus nomes virando aqueles que lhes foram designados ou simplesmente quatro letras: ANBU, enquanto os rostos por debaixo da porcelana dissolvem-se até as máscaras virarem suas verdadeiras faces e suas faces virarem meras máscaras que eles vestem enquanto anseiam pela próxima ordem, uma nova oportunidade para falharem em se matar. Mas não ela. Ainda não. Seu rosto ainda não havia virado uma máscara e sua máscara ainda não era seu rosto. Ainda. Devia isso à elas e não teria como retribuir. Era isso que significava amizade, certo? Sentaram-se e pediram algo mais forte do que normalmente pediam. Ou melhor, elas pediram, pois ela preferia estar sempre sóbria. Hábito de sua profissão. Que ela só tivesse dezesseis anos de idade e legalmente falando ainda não pudesse consumir bebidas alcoólicas era só um detalhe. Ainda assim, isso não a impediu de aproveitar a noite, deliciando-se com um suco de laranja e camarões fritos, enquanto elas bebiam shochus e comiam unagis. Não por menos o lugar cheirava a fritura, álcool e frutos do mar. Como sempre, as piadas sujas da mais extrovertida das três a fez rir ao ponto de trazer lágrimas aos olhos enquanto que a outra, a mais velha do trio, tecia comentários assertivos demais para serem confortáveis, como o fato de que os petiscos deveriam ser fritos para disfarçar o óbvio fato de que não tinha como ter frutos do mar na aldeia sem ser de maneira duvidosa, já que ela ficava no meio do continente. Isso a fez poupar a carne dos últimos dois camarões, mas não havia o que ser feito quanto aos outros três que já haviam sido devorados. Apesar do arrependimento, ela sentia-se grata pelo comentário da amiga, pois ela sendo a mais responsável, compreensiva, cuidadosa e amorosa das três, sempre encontrava uma forma de entender e ajudar as duas independente do quão desafiador isso possa ser. A verdade é que as duas não passavam de pacientes permanentes dela, a figura materna que as ajudava a curar seus danos psicológicos. Que as três estivessem de folga na mesma noite, mesmo sendo elas três ninjas de nível Jounin, sendo duas de campo e uma com uma função de comando em um dos setores administrativos da aldeia, com o tratado tendo sido assinado naquela tarde, era um completo milagre. E ainda assim, por mais que ele estivesse aproveitando a companhia de suas amigas, o bote salva vidas que a mantinham sã, ela não conseguia se desligar completamente do trabalho nem por um segundo. Por isso não demorou para ela sentir a movimentação dos Jounins e equipes da ANBU pulando silenciosamente por sobre os telhados e soube imediatamente que algo estava errado.  Olhou para o lado de fora do bar, encarando o topo do prédio imediatamente a frente, assistindo os vultos passarem sobre ele sem se demorar. De repente um único ANBU parou em seu trajeto e ficou lá, em cima do prédio, encarando-a de volta. Não foram trocadas palavras nem gestos, ainda assim a maneira como aquela máscara branca como o rosto de um panda* pintado em preto a observava bastou. Ela desapareceu do bar e antes que percebesse ela também estava pulando sobre os telhados, sua máscara, sempre de prontidão por debaixo de suas roupas, já encaixada frente à seu rosto, um véu frio ao toque cobrindo suas preocupações de maneira convidativa. Ela ansiava por poder sentir esse toque de novo, sentia-se nua sem ele em seu rosto e agora que ele esteva lá, ela podia respirar aliviada, como se só agora o ar entrasse em seus pulmões. Ela não estava mais aguentando sua folga. O trajeto que ela poderia fazer de olhos fechados, de onde quer que ela esteja na aldeia, não levou mais do que seis minutos para ser feito. Logo ela pousou na frente do QG da ANBU. Da sua equipe, dois já estavam lá, aguardando no pátio em estado total de alerta como se estas fossem suas ordens. O terceiro e último pousou ao seu lado ao mesmo tempo que ela e não se demorou, se alinhando com o restante da equipe. O QG, um prédio alto e largo, sem janelas com excessão dos dois últimos andares, construído contra uma das faces da montanha aonde o monumento dos Hokages foi esculpido, ligado ao restante da aldeia apenas por uma única estrada de terra, era, normalmente, um local de calma e ordem. No entanto, neste momento ele fervilhava. ANBUs iam e vinham, chegavam e partiam, alguns literalmente pulando do terraço diretamente para o pátio antes de saírem em desabalada carreira floresta adentro, as muitas portas do térreo não ficavam fechadas por mais de um segundo antes de uma equipe passar correndo por elas sem se incomodar com a sensação delas batendo contra seus corpos em alta velocidade. Em meio a este caos, o único local que aparentava ter ordem e disciplina era o pátio, aonde outras equipes se reuniam em formação junto da sua. Não perdeu mais tempo e se lançou em direção ao prédio, pois por mais que estivesse de máscara, ainda vestia roupas civis. Não espantou-se nem um pouco ao ver que pelo lado de dentro o caos era ainda maior do que pelo lado de fora, com documentos e mapas sendo arremessados de um lado para o outro, cada ninja correndo em uma direção diferente, cada um com o objetivo a cumprir, desviando uns dos outros em corredores estreitos e labirínticos. Chegou ao grande hall, um imenso espaço aberto, tão grande quanto o pátio exterior, no meio da edificação, erguendo-se até o terraço, uma gigantesca clarabóia cobrindo o teto. E aqui as coisas pareciam ser mais caóticas, o volume de ANBUs correndo de um lado para o outro era tamanho que ela pôde ver de canto de olho que os membros do alto escalão que estavam discutindo algo pendurados no teto de um dos andares, sendo essa a única forma de estar parado sem atrapalhar o fluxo constante de ninjas. ‘Não se deve correr no Quartel, da mesma forma que não se deve correr em hospitais. Então, a menos que estritamente necessário, limite se a andar quando estiver no QG.’ No fundo de sua mente ela não podia deixar de achar irônico que Babuíno, o orientador que havia lhe dado essa bronca no seu primeiro dia, estava agora correndo de um lado ao outro do prédio tão rápido que estava deixando rachaduras na parede em que ele pisava. Pulou por entre as paredes e colunas, uma vez que não haviam escadas nem escadarias no QG da ANBU, alcançado assim o terceiro andar, onde ficavam os vestiários. Não se demorou. Abriu seu armário num movimento rápido, fazendo o metal reclamar e ranger, tirou de dentro dele sua armadura, suas armas e seu manto, arremessou todos os itens para o alto e despiu-se de seus trajes atuais antes que seu uniforme começasse a cair. Arremessou suas roupas civis para o alto, vestindo seu uniforme antes que este tocasse o chão. Trajada, pegou suas roupas ainda no ar e as jogou dentro de seu armário, fechando e trancando num só movimento antes de deixar o vestiário. Toda essa ação levou dez segundos. Ela ainda se surpreendia que mesmo depois de tantos anos, seu uniforme, assim como este prédio, não cheirasse a nada. Pulou para o térreo e correu pelo mesmo caminho que viera. Menos de três minutos depois de ter entrado no QG ela estava uniformizada no pátio, seus demais companheiros de equipe flanqueando suas laterais, levemente mais atrás e seu capitão à frente. Cada equipe estava disposta da mesma maneira, cercando as laterais da sua e também a retaguarda, e não demorou para que o pátio estivesse lotado equipes à disposição, cada ANBU encarando o QG, aguardando ordens. Era notável como apesar de haverem ali pelo menos três dúzias de equipes apresentadas, o local seguia silencioso o bastante para ouvir o farfalhar das copas das árvores conforme o vento soprava por elas. —O que aconteceu?- ouviu um de seus companheiros de equipe perguntar ao outro à suas costas, numa voz tão silenciosa que ouvidos menos treinados confundiria com o som das folhas balançando nos galhos das árvores. —Não faço ideia.- respondeu o outro no mesmo volume, ela não precisava virar-se para saber que apesar de conversarem, seguiam imóveis. —Eu soube que o tratado de paz virou conto de fadas.- prosseguiu aquele à sua esuerda. —Ha! E já não era antes?- respondeu com uma leve risada de descrença o da direita, e ela não poderia concordar mais com a opinião. Apesar da risada, a conversa ainda não havia perturbado o silêncio. —Pelo que eu ouvi, tentaram roubar alguns documentos importantes da Torre Hokage, segredos do alto escalão. Falaram até que morreu uma secretária. —Com toda a segurança que tinha lá? Acho difícil acreditar…- ela compartilhava do ceticismo. —Bom, a outra versão que eu ouvi é que invadiram a residência dos Hyuga e tentaram sequestrar a herdeira do clã.- isso a fez franzir a testa por debaixo da máscara. —Mesmo com todos aqueles olhos de guarda por lá? Não, invadir a Torre Hokage é mais crível.- ela, por outro lado, era cética quanto as duas opções, preferindo acreditar que o motivo era outro. —Talvez tenha morrido mais gente… —É, talvez…- a voz a sua direita estava prestes a continuar, mas o leve pulso de chakra de seu capitão a fez entender que era hora de encerrar a conversa. —SILÊNCIO!- latiu a ordem, alto o bastante para que sua voz abafada pela máscara ecoasse pelo pátio. —SIM, SENHORA! imediatamente responderam não só os seus companheiros de equipe, mas todos os ANBUs presentes, em uníssono, a resposta sendo seguida por nada além de um sepulcral silêncio, até mesmo as árvores parecem ter se calado, suas vozes agora um tímido farfalhar que por vezes se ouvia ao longe. Por baixo de sua máscara seu rosto queimava em arrependimento, quis envergonhar seus companheiros, fazendo o esquadrão inteiro ouvi-los serem repreendidos pela segundo em comando de sua equipe, mas ao invés disso expôs-se ao ridículo, perturbando o silêncio gritando uma ordem que ela não tinha autoridade para dar para membros da organização que não eram subordinados à ela. Até mesmo alguns superiores, capitães de outras equipes, responderam ao grito, jocosamente acatando à sua ordem. Podia sentir o olhar de seus companheiros de equipe e colegas de quartel queimar em sua nuca. Sua vergonha a mortificou por três longos minutos até que o superintendente do turno surgiu a frente do esquadrão e começou a bradar ordens, enviando diferentes unidades para diferentes locais com diferentes missões. Logo o pátio ficou dois terços mais vazio. —O restante de vocês me acompanhem até o campo de treinamento 44! Não tiveram tempo de responder uma vez que o superintendente já havia saído. Logo estavam acelerando em direção a aldeia, pulando sobre os galhos das árvores por um breve minuto antes de pularem sobre os telhados. Passaram pelas ruas desertas, depois pelas mal povoadas, enfim as movimentadas, aonde a festividades seguiam madrugada adentro. Passaram a cem metros do bar que estava com suas amigas, de relance notou que elas já não estavam lá e sabia que suas folgas também haviam sido revogadas. Um minuto depois ela avistou os corpos de quatro ANBUs jogados numa viela escura a trezentos metros de onde eles passaram. Seu cenho franziu. Nenhum dos ANBUs comentou e ela não estava certa se eles haviam visto. Pensou em reportar, mas preferiu calar-se para evitar de se constranger outra vez. Dez minutos depois eles chegaram à região de mata, voltando a saltar por cima dos galhos e menos de três minutos depois eles chegaram à cerca que delimitava a Floresta da Morte. Redobrou sua atenção ao notar sinais de violência no chão da floresta. Antes que percebesse, o superintendente e todos os quarenta e oito ANBUs pousaram nas árvores ao redor de uma grande clareira. A cena que presenciavam só poderia ser descrita como uma completa carnificina. Nenhum do recém chegados ANBUs reagiu visível ou audivelmente, mas ela não pôde evitar de cerrar os punhos. Abaixo uma força tarefa de mais de quinze ninjas médicos e analistas do Departamento de Inteligência examinavam e registravam os quatorze corpos que figuravam o resultado final de uma brutal batalha. O cadáver deformado e completamente arroxeado de uma criança sendo o que mais chamava a atenção por destoar tanto no local. Dos ANBUs mortos na cena, não havia um que ela não conhecesse.  Ela reconhecia a máscara de urso despedaçada do gentil homem que fora o capitão da primeira equipe que ela participou, sua cabeça esmagada por um pedregulho. Ela reconhecia a máscara de lebre de seu instrutor de kenjutsu, sua ninjato estilhaçada, sua garganta cortada e seu rosto exposto. Ela reconhecia máscara de pardal que se formou na mesma turma que ela com um buraco em seu peito. Ela reconhecia a máscara de tsuru que fora um de seus orientadores em seus primeiros dias, enforcado em uma árvore, seu corpo pendurado a cinco metros do chão, tantas arma penetrando seu corpo, a ponto de fazê-lo parecer um porco espinho. Todos eles foram importantes pra a sua formação como a ANBU que ela era, todos eles a ajudaram a desenvolver suas habilidades até o limite de seu corpo. Todos eles estavam mortos. Eles não mereciam isso!, cerrou a mandíbula com força, fazendo ranger seus dentes, Não mereceriam! Fechou os olhos, hiperventilando, tentando retomar o controle de suas emoções. ‘Raiva, tristeza, dor e pesar. Sua lâmina não sente nada disso, então por que você há de sentir? Se você não for como sua lâmina ela falhará, lembre-se bem disso.’ foi a reprimenda que ela recebeu de Lebre após o primeiro treino dela depois de perder um companheiro pela primeira vez. ‘Não se permita sentir nada enquanto estiver usando sua máscara. Quanto mais você sentir, mais árduas serão suas missões e mais curta será sua vida.’ foi a orientação que Tsuru lhe deu antes de colocá-la em uma equipe. ‘Dome suas emoções ou elas domarão você, se você perder o controle durante uma missão, acabou’ alertou Urso antes de saírem da aldeia pela primeira vez. Nada disso estava ajudando a a retomar o controle. ‘Respire.’ seguiu as orientações de sua amorosa amiga. ‘Eu sei que você está raiva, e você tem todo o direito de estar, mas a raiva não fará nada por conta própria e não te levará à lugar algum.’ foi na mesma semana que ela tinha perdido seu primeiro companheiro de equipe. ‘O passado é imutável, não importa o que fizermos. Não significa que devemos esquecê-lo, mas nos agarrarmos a ele não nos ajudará, e encontrar culpados pelos erros que passaram não servirá de nada.’ o erro que custou a vida de seu companheiro foi dela. A culpa também. ‘Tudo que podemos fazer é internalizar nossos sentimentos para senti-los mais tarde, nos concentrarmos para fazer o que podemos agora e honrar a memória deles mais tarde.’ ela relaxou o punho. ‘Então concentre-se, faça o que tiver de fazer agora e honre-os meus tarde.’ e assim ele repetiu. Faça o que tiver que fazer agora e honre os mais tarde, faça o que tiver que fazer agora e honre os mais tarde, faça o que tiver que fazer agora e honre os mais tarde… E então abriu os olhos. Só agora ela percebeu que o próprio Hokage estava na clareira, junto comandante da ANBU e dos líderes da Divisão de Inteligência e Análise - respectivamente Ibiki Morino e Inoichi Yamanaka - e um Chunins do setor administrativo. Sua outra amiga, a extrovertida das pessoas sujas, também estava lá como a número dois da Força de Tortura e Interrogatório. No momento que seus olhos se cruzaram ela sorriu meio torto e deu um aceno inquieto. Algo estava deixando-a nervosa, mas o que poderia ser? Por debaixo da máscara o sorriso foi retribuído, mas não mais que isso. —Bom trabalho silenciando o pátio.- ouviu uma voz a sua direita. —Hm?- virou-se, não reconhecendo a voz, sendo recebida pela máscara de tigre fitando a clareira.—S-Sim, senhor! Obrigada, senhor!- agradeceu, amaldiçoando sua súbita gagueira e a distração que a impediu de identificar a voz do superintendente. Este por sua vez apenas saltou para a clareira, indo diretamente ao comandante da ANBU. Ela suspirou. —Como você está?- dessa vez não precisou se virar para saber quem falava. —Capitão? —Você os conhecia, não? —Sim, senhor…- havia um toque de melancolia que ela falhou em ocultar em sua voz. —E então, como você está?- tornou à repetir. —Operacional.- foi a resposta automática, quase desprovida de emoção. Três segundos de silêncio se passaram até que ele inssitisse uma vez mais. —Você está bem? Com um outro suspiro ela respondeu. —Bem ou não, farei o que puder por agora. O luto pode vir depois…- alegou com convicção, porém sem firmeza. —Muito bem dito. Se você os conhecia, você sabe qual era a missão deles?- ela negou com a cabeça. Tais assuntos eram sigilosos e era etiqueta da ANBU não perguntar ou contar sobre as missões de suas equipes ou unidades para outros ANBUs, a menos que necessário. —A missão deles era vigiar, guardar e se necessário escoltar e proteger o hospedeiro do Nove Caudas. Cada músculo dela se enrijeceu e ela automaticamente virou o rosto para seu capitão, sua máscara de vespa a encarando. —Você sabe o que isso quer dizer? —Sim, senhor…- sua voz soava tão mortificada quanto ela estava. —O senhor Hokage enviou duas outras equipes para procurarem o garoto na aldeia, até agora nenhuma delas retornou. Informou virando seu rosto de volta para a cena macabra ao passo que ela simplesmente acenou, ainda extasiada. —O time de análise está fazendo uma investigação preliminar, mas ao que tudo indica, todos os corpos passaram por um processo de desfibrilação cerebral que destruiu a maior parte da massa cinzenta. Eles vão tentar ter mais sorte no laboratório, mas há pouca esperança de que tenha sobrado algo para analisar, e o que tiver sobrado provavelmente será um emaranhado de informações desconexas. Dessa vez ele suspirou enquanto ela mirava seu olhar para os médicos que trabalhavam abaixo. —Tudo que eles podem fazer aqui e agora é registrar tudo e tentar montar uma reconstituição. —As equipes que foram enviadas para procurar o garoto…- começou ela, meio incerta, fazendo Vespa virar-se para ela. —Elas estão cientes dos corpos dos ANBUs pelos quais passamos no caminho? Um silêncio desconfortável se estabeleceu pelo minuto seguinte. —Aonde você viu esses corpos?- perguntou em tom plano. —Em um beco escuro a meio quilômetro do hospital. Pela rua que corta pelo distrito comercial, das flores e o da madeira… —Aquela que é sempre movimentada?- havia um toque de descrença na voz de seu capitão. —Não, aquela que passa por trás, com o caminho mais longo, cortando também pelo distrito do ferro, que termina no Portão 5… Ele a encarou por outro longo minuto, talvez de maneira pensativa? Por fim suspirou e acenou. —Bom trabalho…- disse em tom distante. —Você sabe porque eu te disse tudo o que te disse?- perguntou acendendo para baixo com a cabeça. —Não, senhor. —Pelo mesmo motivo que eu te requisitei para silenciar o pátio. Você pode ser a segundo em comando da minha unidade, mas logo você estará liderando uma unidade própria, Gato. Quando essa hora chegar, você não poderá duvidar de si mesma. Se o capitão não confia em si próprio, como ele pode esperar que o resto da unidade confie nele? E com essas palavras saltou para a clareira. Ela observou seu capitão em silêncio, incapaz de reagir ou esboçar um pensando diante de suas palavras, enquanto ele se aproximava do Hokage, do comandante da ANBU e do superintendente, trocando algumas palavras entre si. O olhar do Hokage recaiu sobre ela, fazendo a enrijecer-se, enquanto que o comandante falava algo pelo comunicador em seu pescoço, seu capitão retornava para os galhos das árvores e o superintendente desaparecia da cena. Eventualmente ela relaxou ao perceber que o Hokage já não a via, parecia apenas ter se perdido em seus pensamentos enquanto a olhava. Este transe se quebrou quando o comandante, após ouvir o seu comunicador, informou ao Kage. O Hokage respondeu apenas cinco palavras, desviando olhar para a cena de batalha. O comandante pôs a mão de volta no pescoço, falando algo, enquanto que com a outra ele fez três simples gestos. Imediatamente todas as equipes perfilaram-se no chão da floresta, uma do lado outra, enquanto o comandante ainda terminava sua comunicação. Alguns médicos pararam trabalho por um breve momento para observar a ação, mas logo Inoichi estava sobre eles, fazendo-os retomar os trabalhos. Assim que o comandante tirou o dedo de seu do pescoço uma nova equipe surgiu, pulando das árvores e pousando de joelhos a poucos metros da dupla de comandantes. —Relatório! —Vão em frente.- solicitou com uma voz rouca o Hokage. —Nós conseguimos identificar e refazer os últimos passos do garoto, senhor! Pelos relatos, ele foi avistado correndo desorientademente pela rua cinco do distrito essa estrela, porém nenhum aldeão relatou ter visto ele sendo seguido, senhor! Gato franziu o cenho. Os endereços não faziam sentido. —Estão certos de que a descrição confere com ele?- questionou Hiruzen. —Sim, senhor! Um garoto de sete anos, aproximadamente um metro e vinte de altura, loiro, de olhos azuis, cabelos espetados e seus marcas de nascença semelhantes a bigodes de gato em cada bochecha! Os lábios de Hiruzen se apertaram em uma linha fina. —Prossiga. —Não foram relatados qualquer sinal de ferimento aparente no garoto, mas encontramos manchas de sangue em uma aldeã que alegou ter se chocado com ele. Segundo ela, senhor, ela não reparou no sangue, o confundindo por lama. A expressão de Gato se agravava conforme o relato parecia fazer menos e menos sentido. —Apesar disso, conseguimos identificar uma trilha de sangue e fomos capazes de segui-la com sucesso, senhor! —E aonde termina essa trilha de sangue? —Em uma clareira a dois quilômetros daqui, senhor…- a voz soava incerta, como se temerosa do significado de seu relato. —Dentro da Floresta da Morte…- comentou distraidamente o comandante da ANBU. Uma intenção assassina macabra e sufocante lavou a clareira, travando todos ali presentes e privando-lhes de suas respirações. Ela durou apenas três segundos - o tempo que levou para reavaliar os acontecimentos daquele dia, os significados, suas opções e decidir o melhor curso de ação - e logo uma sintonia de arfadas ouviu-se em uníssono. —Ibiki, Inoichi.- nomeou o Hokage, sem dar tempo para que alguém se recupere de sua pequena demonstração de poder. —Sim, senhor!- gritaram em uníssono, assobiaram e desapareceram, levando consigo os ninjas da Divisão de Inteligência e os médicos. —Mande gaviões para todos os comandantes que ainda não retornaram. Precisamos fechar as fronteiras do País do Fogo. —Sim, senhor!- acatou o Chunnin e estava prestes a sair quando o Hokage falou novamente. —E envie um falcão para interceptar o gavião de mais cedo. Aquele mensagem não pode chegar ao Raikage.  —S-sim, senhor!- e desapareceu. —Alinhem-se.- ordenou o comandante para a equipe recém chegada —Senhores…- começou o Hokage virando-se para eles uma vez que a última equipe de perfilou. —A Aldeia da Nuvem traiu nossa confiança e usou de nossa boa fé para realizar um ataque coordenado. Como podem ver, quatro de seus companheiros encontraram seu fim nesta floresta. Contabilizando as baixas em outros pontos da aldeia, em uma estimativa conservadora, nossas perdas totalizam vinte e cinco vidas, das quais doze eram de seus companheiros. O Kage deixou um breve silêncio se estabelecer enquanto eles processavam esta informação, observando os diferentes animais dispostos nas máscaras a sua frente. —O dever dos senhores é garantir que eles paguem pelos crimes que eles cometeram hoje nesta aldeia. —SIM, SENHOR!- a resposta dos cinquenta e dois ANBUs ao seu alto comandante ecoou pela floresta. —Ótimo.- o olhar de Hiruzen desviou se para os corpos. —Da delegação que passou por nossos portões, dois pereceram aqui. No entanto, nenhum dos demais mortos nessa cena foi visto nos arredores da aldeia, o que indica que uma equipe se infiltrou durante a noite. O olhar de Hiruzen recaiu sobre Gato por um breve segundo antes dele continuar. —Temos informações que nos levam a crer que eles se infiltraram pelo Portão 5. Duas equipes devem investigar e descobrir como eles agiram, sua rota, seu plano de ação, seu efetivo, suas capacidades e qualquer possível contato que eles possam ter realizado dentro da aldeia. Ao final de suas palavras, o comandante apontou com dois gestos rápidos as equipes designadas. —Sim, senhor!- gritaram os oito, mas estes não se moveram. —Duas equipes devem investigar qualquer presença ou ação desconhecida da Nuvem dentro do País do Fogo. Possíveis esconderijos, bases de operações, rotas de fuga, linhas de suprimento, aliados. Eles não surgiram do ar, uma operação de apoio seria necessário para um ataque deles e nós precisamos descobrir o máximo possível e porque não ia detectamos antes  —Sim, senhor!- responderam as equipes selecionadas pelo comandante desta vez, ainda sem se mover. —Duas equipes devem analizar esta floresta em busca de qualquer vestígio ou informação sobre os inimigos e iniciar uma perseguição imediatamente. —Sim, senhor!- Gato lamentou que sua equipe não tenha sido uma das selecionadas para esta missão. —Uma equipe deve localizar e informar ao líder de cada clã da aldeia sobre nossa situação, bem como convocá-los para uma reunião emergencial dentro de uma hora. —Sim, senhor!- a equipe selecionadas desta vez estava a direita da de Gato. —Uma equipe deve investigar tudo que envolva este garoto.- ordenou olhando para o cadáver da criança. —Seu nome, endereço, parentesco, sua relação com Naruto, com a Nuvem, com os eventos desta noite e qualquer coisa que indique as circunstâncias de sua morte.- seu olhar afiado voltou para as equipes. —Investiguem de casa em casa, de aldeão à aldeão se for preciso, por todos os meios necessários. Estamos oficialmente em estado de exceção. —SIM, SENHOR!- a equipe selecionada pelo comandante pareceu responder com mais afinco. Gato achava um exagero. —Quatro equipes devem partir imediatamente para o País das Fontes Termais e montar uma base de operações com o único objetivo de assegurar a posição da Folha sobre a região e minar qualquer presença que a Nuvem tenha por lá. Por todos os meios necessários. Roubem, matem, sabotem, sequestrem, chantageiem. Reduzam cidades à cinzas se necessário. O tom de Hiruzen era frio como a lâmina de um assassino. —Sim, senhor!- responderam todos os dezesseis selecionados. Gato não era uma deles. —Quero que um relatório semanal de seu progresso seja enviado à uma dos nossos postos avançados de inteligência.- adicionou se dirigindo diretamente as quatro selecionadas agora. —As equipes que concluírem suas missões devem reportar diretamente à mim e se juntar as equipes no País das Fontes Termais. Caso cruzem caminho com algum ninja da Nuvem, abatam sem hesitar e reportem a localização de seus corpos. —Sim, senhor!- responderam todas as equipes. Hiruzen respirou fundo, deixando o ar frio da madrugada se assentar entre os ANBUs antes de prosseguir. —O fruto final dos esforços da Nuvem foi terem sucedido em raptar Naruto Uzumaki, uma criança doce, gentil e inocente, hospedeira do Nove Caudas. Se por algum acaso do destino encontrarem alguém que suspeitem se tratar de Naruto Uzumaki, façam o que estiver ao seu alcance para confirmar sua identidade e resgata-lo. —Sim, senhor! —Dispensados. —Senhor, sim, senhor!- e com isso todas as equipes designadas se foram, deixando na clareira apenas Hiruzen, o comandante e a equipe de Gato. O Hokage calmamente andou até parar na frente de Vespa. Com um gesto simples de mão do alto comandante seu capitão girou em seu calcanhar, deixando Gato, a segundo em comando, frente a frente com o Kage. Por dez longos segundos não houve movimento, enervando-a debaixo do olhar penetrante de seu supremo líder. E então ele se moveu, sacando de seu haori branco um pergaminho e estendo-o à ela. Gato tomou o pergaminho com as duas mãos. —Neste pergaminho estão informações e o último paradeiro conhecido de Jiraiya. Como nosso melhor ninja sensor, posso confiar que será capaz de encontra,-lo? —Sim, senhor...- sua voz soou baixa e calma, desprovida de qualquer pressa, firmeza ou convicção. —Quando o encontrar, informe de nossa situação e diga que eu preciso que ele volte imediatamente para a aldeia. —Sim, senhor.- sua voz carregava mais certeza desta vez. —Para essa missão, você será a líder da equipe, seus companheiros e o seu capitão deverão simplesmente prestar apoio ao seu serviço, entendido? —Sim, senhor!- respondeu mais rápido do que gostaria, tentando disfarçar com seu afinco a sua surpresa. —Bom…- o silêncio reinou por um minuto. —Dispensados. —Senhor, sim, senhor!- e com isso a última equipe desapareceu. Um longo silêncio se estabeleceu, ao ponto de que os sons da floresta voltaram a ser ouvidos pelos dois que ainda estavam na clareira. E então o comandante falou. —Com sua licença para falar, senhor, eu ainda era recém formado na ANBU durante a terceira guerra, uma de minhas primeiras missões foi na Névoa, durante a resposta ao episódio Nohara…- os olhos de Hiruzen recaíram sobre o segundo em comando da ANBU. —Desde aquela época eu não vejo o senhor tomar atitudes tão efusivas… nem mesmo durante os últimos cinco anos… Hiruzen virou seu olhar para a copa das árvores. —Os últimos cinco anos nada mais foram do que uma dança de sangue, um cabo de guerra quase. A Nuvem avançava e nós os empurravámos de volta. Eles passavam dos limites aqui e nós respondimos a altura acolá.- ele suspirou e começou a andar. —Eles nos testaram no nosso momento mais frágil para ver se iríamos ceder e nós respondemos no campo para demonstrar nosso força.- parou no limite da clareira. —A teimosia do Raikage custou muitas vidas dos dois lados… mas até então isso nada mais era do que uma criança testando a paciência de um adulto.- virou se para o comandante. —Agora é guerra. O comandante simplesmente acenou. —Sinta-se livre para tirar o resto da madruga de folga. E desapareceu. O comandante ficou só na floresta por um minuto, considerando as palavras de seu líder. Considerou então a permissão para folgar. Mas permissão não é ordem. Ele o seguiu. 
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  A essa altura, seu escritório era mais fumaça do que ar, a luz que adentrava pela janela às suas costas fazendo pouco ou nada para penetrar a nuvem que pairava sobre sua mesa. Quantas vezes ele havia reacendido seu cachimbo nas três horas que ele estava ali? Ele não saberia dizer. Não se importava tampouco. A reunião emergencial que havia começado às quatro da manhã durou até às oito, contando com o comparecimento até mesmo de Hiashi. Informar aos líderes dos clãs sobre os acontecimentos da noite anterior foi algo fácil de se fazer, guia-los à um consenso e ao mesmo mediar a eterna disputa de ego e orgulho entre Hyugas e Uchihas? Nem tanto. Ao menos o bom senso dos demais líderes facilitou o fluxo da discussão, e uma vez que o motivo pelo qual eles foram tirados de suas camas tão tarde foi registrado por suas mentes sonolentas houve pouco espaço para rinhas. Apesar disso, a reunião mudou pouco do que já estava decidido e pouco fez para acalmar os nervosos de Hiruzen. Quando ele saiu da sala do conselho às oito e vinte seis da manhã, ele esperava que algum fato relevante já tivesse sido descoberto pela ANBU, mas nada. Não havia sinais de que alguém forçou passagem pelo Portão 5, o que indica que os invasores passaram por entre as patrulhas. Como eles sabiam os horários das patrulhas dos portões? Como eles sabiam trafegar pela aldeia? Isso não queria dizer que necessariamente havia um informante, claro que não, afinal, o Portão 5 é um portão destinado para cargas comerciais, mas por mais que um comerciante pudesse vender essas informações, mas que comerciante saberia que os Hyugas não estavam com seu efetivo total? A aparência ou como encontrar o Naruto? Os padrões da segurança interna da aldeia? Teria de haver alguém de dentro os ajudando.  E ainda havia questão da criança misteriosa, cuja conexão nebulosa com estes eventos ainda o perturbava. Os motivos de ela estar lá e de ela ter sido morta de uma maneira tão brutal o intrigam, o fato de que a equipe da ANBU designada para descobrir essas informações não ter sucedido ainda o enervava. Não deveria levar tanto tempo para se descobrir algo sobre uma criança desaparecida na Aldeia da Folha. Muito menos para a ANBU. Mas havia algo estranho em tudo isso, ele só não sabia precisar o que. Algo na maneira como os ninjas morreram naquela batalha, a disposição dos corpos na clareira, a brutalidade presente em cada pequeno detalhe, era como encarar uma assinatura sem conseguir discernir as letras ou identificar o nome. E como se oferecendo a resposta para todas as suas questões, a porta de seu escritório se abriu, os passos da pessoa que entrou sem bater ecoando contra o piso de madeira. Desviou o olhar dos documentos que estava lendo para encontrar os olhos afiados de Danzo. A expressão de seu antigo companheiro de equipe era severa, a cicatriz em seu queixo distorcida como se ele tivesse algo azedo em sua boca. Hiruzen suspirou exausto. Ele sabia o que o Falcão de Guerra diria, sabia que ele o acusaria de ter sido negligente e descuidado ao aceitar a entrada da Nuvem em sua aldeia, e Hiruzen iria admitir que ele estava certo. Em menos de oito horas ele teria de fazer duas das coisas que ele mais detesta: declarar guerra e dar razão a Danzo. E não era nem meio dia. Quando o silêncio alcançou o terceiro minuto ele falou. —O Nove Caudas foi sequestrado.- ouso informar o óbvio com sua voz ríspida. Hiruzen poderia retorquir ou lembrá-lo que o nome dele era Naruto, mas ao invés disso ele simplesmente respondeu. —Eu sei.

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