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O gosto de sangue, o zumbido no ouvido direito, o olho esquerdo inchado que bloqueia sua visão quase completamente.

De longe Bucky consegue ouvir a plateia ainda gritando e torcendo dentro do estádio, por um segundo sente seu cérebro pulsar e se pergunta se deveriam estar soando tão distantes assim ou se o último gancho de direita que tomou no queixo acabou “embaralhando seus miolos de vez”, como sua avó costumava dizer. Ela com certeza estava se revirando no túmulo nesse momento.

James cospe saliva e sangue no meio fio, passando a língua pelos dentes para garantir que não perdera nenhum. Não. A pele da sua nuca arrepia com o frio e a adrenalina e a frustração.

Segundo lugar. De novo. E de novo. E de novo.

Ele era bom.

Ele era muito bom e ele sabia disso.

Um lutador de merda não pegaria segundo lugar. Mas um lutador ótimo pegaria o primeiro.

A touca que cobre o cabelo curto está úmida pelo orvalho e faz seu corpo arrepiar ainda mais, encostando-se no capô do carro enquanto espera o melhor amigo – que fingia estar sendo arrastado até suas lutas como motorista, mas sempre era o último a sair da arquibancada enquanto gritava xingamentos a quem quer que tivesse derrotado James na noite – Bucky sente o ar se condensando ao seu redor, o que é normal com a temperatura tão perto de zero, mas em uma parte de si mesmo ele acha que é seu sangue fervendo nas veias que o faz chiar como uma chaleira.

- Você tá um lixo.

Seu corpo inteiro grita quando tenta virar o pescoço na direção da voz.

Está escuro, sua visão está praticamente toda comprometida e o rapaz também usa o capuz do moletom sobre os cabelos. Mesmo estando há pouco mais de dez metros do desconhecido, Bucky não conseguiria distinguir nem a si próprio naquelas condições.

- É porque você não viu o outro cara.

- Você quer dizer o primeiro lugar?

Ele entorta o nariz, o que causa um espasmo de dor que embrulha seu estômago. Um pouco de bile se mistura com a saliva que cospe pela segunda vez e, por um segundo humilhante, o lutador tem certeza que vai vomitar aos pés do intrometido. Ele respira fundo, assistindo os últimos espectadores deixando a arena na esperança de que algum deles seja Sam.

- Eu te conheço? - finalmente parece estranhar a casualidade com que o outro o abordou, mas não dá para culpá-lo pelo raciocínio lento, seu cérebro vinha pedindo socorro há mais de uma hora - Você tava vendo a luta ou o quê?

- Eu peguei uns pedaços depois da metade, mas acho que você já não estava lá essas coisas. Quem é seu treinador?

- Sou autodidata.

O desconhecido solta uma exclamação que James não sabe se deve interpretar de forma positiva ou negativa, por isso resolve ignorar. Mas é difícil quando sente um par de olhos escaneando seu corpo – principalmente um corpo praticamente inútil que demoraria alguns dias para começar a reagir e faz com que o rapaz se sinta muito mais exposto do que deveria - ele tenta se virar por completo na direção dele, mas sua visão está turva e sente os membros amolecerem.

Entre vomitar ou desmaiar na frente do desgraçado, Bucky escolhia a morte.

- Você já ouviu falar na Shield? É uma academia, pros lados do Harlem– se tivesse forças, James teria rolado os olhos, mas nem sequer isso consegue – Se qualquer um dos caras tivesse visto essa luta, saberiam exatamente como consertar cada um dos erros que você cometeu.

- Não preciso de um recrutadorzinho de merda vindo falar que eu perdi a luta porque cometi erros.

- Não, um recrutadorzinho de merda falaria pra você dar uma passada na academia porque você

quase

não cometeu erros.

Talvez seja o zumbido no seu ouvido direito, ou seu cérebro de ovo mexido, ou os dentes intactos que mesmo assim parecem latejar dentro da sua boca.

Talvez fosse porque ele estava tão cansado de segundos lugares.

Ou talvez fosse isso mesmo que Bucky pensa ter ouvido. Talvez aquele cara na sua frente, sem nome e sem rosto, tenha sido o único na noite inteira que realmente achava que ele poderia ter vencido aquela luta.

- Então você é um recrutadorzinho de merda? - ele escuta a risada estrondosa de Sam e consegue ver um vulto correndo na direção do carro.

- Não - aparentemente o rapaz também ouviu, porque passa por James na direção do próprio carro do outro lado do estacionamento – Mas também não sou cego.

- Ainda.

- S.H.I.E.L.D - ele soletra, virando para trás com o que parece ser um sorriso irônico que desperta em Bucky uma vontade muito genuína de terminar de quebrar a própria mão - Vou avisar que você vai passar por lá semana que vem.

- Vá a merda.

O outro solta uma risada mais alta, continuando o caminho como se de alguma forma aquela conversa tivesse sido uma confirmação do interesse de Bucky no que quer que ele estivesse oferecendo. O lutador tenta dar uma retrucada sarcástica, mas agora Sam já alcançou o carro e começa a reclamar de algo que alguém disse e a enxaqueca iminente deixa sua língua mole.

Os dois entram no carro – Bucky dizendo para si mesmo que não estava casualmente checando o retrovisor só para ter certeza de que o cara existia mesmo e que não era uma alucinação, ele realmente não tinha cabeça para lidar com alucinações naquele ponto da sua vida – Sam continua falando sobre como o outro cara, fingindo não lembrar seu nome, era um rato escocês sujo.

- Quem era aquele? - James estava tentando manter os olhos abertos, o que exigia tantos neurônios que a voz de Sam entra por um ouvido e sai pelo outro – Bucky, ei, cara!

Com duas estaladas de dedos em frente ao rosto, Bucky volta para o mundo real com uma tomada de fôlego muito bem audível. Consegue sentir os olhos do melhor amigo cravados em seu rosto, um misto de preocupação e medo exalando dele, mas escolhe ignorar. Sabe muito bem o que Sam, assim como toda a sua família, seus colegas do trabalho e seus antigos relacionamentos falavam sempre que o cérebro de Bucky tinha alguns apagões pós luta. Desde seu tempo no exército, apostando dinheiro em lutas clandestinas com os colegas de dormitório.

Segundos lugares não são ruins, mas ele não duraria muito mais neles naquele ritmo.

- Eu tô legal, só me distraí.

- Certo, claro – ele aperta mais o volante, fingindo estar concentrado na estrada, porque Sam também sabe muito bem que o melhor amigo não quer falar de derrotas e aposentadorias naquele momento – Enfim, quem era o esquisito?

- Hã?

- No carro, falando com você antes de eu chegar.

- Ah, é, aquele cara – realmente não era uma alucinação, Bucky se sente comicamente aliviado – Nem ideia, deve ser um desses caras que trabalham nas academias de boxe furrecas que tentam arrastar os perdedores pra lá.

- Por que será que tem tanta academia de boxe se metendo no MMA?

- Porque eles são uns abutres.

- Ele te deu um cartão?

- Nah – e mesmo se tivesse dado, James provavelmente teria jogado fora – Ele só me disse o nome e que fica no Harlem.

- Ah, eu sou do Harlem!

- Uau, eu nem imaginava – o corpo de Bucky começa a desligar e ele se pergunta se conseguiu realmente parecer tão sarcástico quanto gostaria - Não é como se você trouxesse esse assunto à tona sempre que pode.

- Vai se foder, Barnes.

Ele solta uma risada que reorganiza suas costelas e arranca um gemido de dor. Sam olha pelo canto de olho, tentando não demonstrar que ficou nervoso por um segundo, e muda para a quarta marcha. Quanto mais cedo chegarem – e mais cedo enfiar dois inflamatórios na garganta do melhor amigo junto com uma boa dose do “chá cura-tudo para todas as mazelas da vovó Wilson” - mais cedo Sam vai poder parar de se preocupar com a sanidade do outro.

Sempre que Bucky entra em casa consegue sentir sua energia vital escorrendo pelos ralos entupidos e pelas janelas emperradas. Tudo é velho, tudo range, tudo cheira a mofo. Não que esperasse coisa muito melhor em Nova York tendo como renda muitas e muitas e muitas lutas fracassadas e o salário patético de barman – principalmente porque, com o rosto sempre inchado e o olho roxo, as gorjetas estavam cada dia mais raras – mas pelo menos, tendo Sam como colega de apartamento, não estavam enfiados em um bairro como... Bem, o Harlem.

O sofá é tão convidativo que Buck sequer considera ir para o próprio quarto, seu corpo simplesmente tomba como um brinquedo inflável esvaziando. Um dos sapatos ficou na entrada mesmo, o outro cai ao seu lado no tapete da sala, ele não consegue tirar o cinto e o moletom fica preso em sua cabeça quando começa a se debater em um acesso repentino de claustrofobia.

Sam corre ao resgate – fazendo questão de deixar sua gargalhada ecoar por todo o prédio, apesar de já ser duas da manhã - ajudando-o a tirar a própria roupa como se fosse seu querido e amado pai. James não reclama, principalmente quando o outro volta com seu edredom e seu pijama, não fazendo questão alguma de convencê-lo a ir para o próprio quarto antes de continuar a esquentar a água para o chá.

- Você quer ver alguma coisa? - Bucky pergunta entrecortado, tentando tirar a calça jeans sozinho e voltar a se enrolar na coberta.

- Você sempre quer assistir alguma coisa depois das suas lutas, mas dorme nos primeiros dez minutos e depois fica reclamando que eu terminei de assistir sem você.

- Então... Isso é um sim?

- Inferno.

Ele abafa a risada conforme escolhe algum programa particularmente ruim para fingirem assistir enquanto Sam traz o chá milagroso e os dois comprimidos que seriam responsáveis por curar todos os seus problemas. E, como previsto, Bucky sente os olhos pesando em quinze minutos e começa a afundar no conforto indescritível daquele sofá que, em outros momentos, parecia o mais duro do mundo.

Está quase dormindo de vez, um sono muito bem-vindo, quando escuta a voz de Sam falando alguma coisa no fundo. Ele pisca algumas vezes, com a pálpebra que consegue abrir, e solta um resmungo para que repita.

- Eu disse que talvez ir visitar aquela academia não seja uma ideia tão terrível.

O resmungo se torna um grunhir irritado. James com certeza não tem cabeça para ter aquela conversa agora, mas ele sabe muito bem que se disser isso Sam vai dar uma resposta espertinha sobre como “Bucky nunca tem cabeça pra nada, por isso luta MMA”.

- Eu não quero saber de um monte de merdinha no meu pé, Sam.

- Você nem sabe como eles são - o rapaz parece frustrado – Pelo amor de Deus, Bucky, você só tem 25 anos, acha mesmo que ninguém no mundo consegue te ensinar alguma coisa

nova

?

- Acho.

- Você é um imbecil – Sam quase fala alguma coisa a mais, James consegue sentir no seu olhar, mas engole as palavras quando se levanta - Você vai morrer dentro de um ringue porque é cabeça dura demais pra procurar ajuda.

- Morrer em um ringue não é ser um imbecil.

- Ninguém... - Sam respira fundo e engole mais palavras, essa não era a primeira briga em que ele fazia isso - Você não é o seu pai.

- Eu sei disso.

- Não, você não sabe – James o olha de baixo para cima agora que o melhor amigo parou de pé bem na sua frente, o rosto coberto pelas sombras em contraste com a televisão atrás de si - Você não é o seu pai, Bucky, você pode chegar tão mais longe. Para de tentar ser como ele.

- Eu não vou morrer na porra de um ringue.

- O que você acha que seu pai dizia?

Bucky quer dizer que não sabe. Quer berrar, jogar o sofá para o alto, pular da janela. Quer gritar na cara de Sam que ele não tem a menor ideia do que seu dizia, porque seu pai nunca disse nada para ele. Porque seu pai estava morto há 25 anos e nunca diria nada para James, absolutamente nada, independente de quantas vezes ele falhasse naquelas malditas lutas.

Mas Sam não fica na sala para ouvir, porque ele também não está com cabeça para discussões. James sente muita raiva, uma raiva primal que faz seu estômago se contorcer e sua garganta se fechar. Raiva de seu pai, porque não estava ali e foi tão egoísta ao ponto de morrer dentro do ringue. E raiva de si mesmo, porque ele estava ali e, ainda assim, parecia determinado a superar o pai em todos os aspectos, inclusive no próprio egoísmo.

Ele repete na sua cabeça que não é seu pai.

James Barnes não é seu pai, nunca seria seu pai.

James Barnes não vai morrer na porra de um ringue.

----- CHAPTER BREAK -----

Bucky era da Costa Oeste, sabe? Dos lados de Los Angeles que não aparecia nas revistas. Tinha tios na cadeia, primos que morreram em brigas de gangue, tinha segurado sua primeira arma antes mesmo de aprender a dirigir. Ele sabia como era a rua, sabia bater e apanhar, sabia sobreviver.Vendo assim, o Harlem não parecia nem um pouco diferente do seu próprio bairro na sua cidade Natal. Era quase como se estivesse indo visitar sua avó depois durante as férias que tirava no exército. Mas, de alguma forma, ainda sente um friozinho no fundo da barriga, como se estivesse entrando em território inimigo.Ele confere o celular uma terceira vez, tentando não deixar na cara que está tão perdido como acha que está. O endereço no GPS indica que ele chegou ao seu destino, mas do outro lado da rua tem apenas um terreno baldio e na sua frente a porta alta de aço parece mais a entrada de um armazém abandonado do que uma academia de boxe, mesmo a mais furreca delas.Agora James se sente realmente estúpido. Por qual razão ele deu ouvidos a um desconhecido que nem sequer sabia o rosto parado em um estacionamento logo após perder uma luta? Pelo amor de Deus!Sam estava certo, ele precisava urgentemente parar com as concussões antes de seu cérebro começar a escorrer pelos ouvidos.Na verdade, não!Sam foi justamente quem o convenceu a ir para lá em primeiro lugar. Bucky estava determinado a ignorar completamente a proposta ridícula do cara, mas ele tinha que falar sobre seu pai e sobre morrer.O desgraçado do Sam Wilson, era ele sim quem ele deveria culpar!Se ele colocasse suas mãos naquele pescoço não tinha homem no mundo que o tiraria de lá, ele seria enterrado junto com o cadáver do melhor amigo para poder continuar o estrangulando no além-túmulo, era isso que Sam merecia.- Você vai entrar ou...?Ele dá um pulo que parece ter saído diretamente de um desenho animado ao sentir o garoto cutucando seu ombro e se vira pronto para sacrificar mais umas sinapses do seu cérebro. Mas então encontra um menino, que não devia passar dos seus quatorze anos, usando um moletom de aranhas e apontando para a porta do tal armazém.- Entrar? - ele olha ao redor de novo - Aí?- Você é o cara novo, não é? Da luta da semana passada? - alguma coisa na expressão de Bucky deve dar a entender que sim, porque agora o garoto está gesticulando com a mão para que o siga conforme abre a porta – Eu sei, também falei pra eles que a entrada podia dar uma melhorada, mas sabe como é, né, o Harlem.Bucky consegue pensar em no mínimo três referências muito constrangedoras quando finalmente pisa dentro da academia.Tatame, octógono, canvas. Parece um mundo novo, cheirando a couro e produtos de limpeza. O tal garoto não parece nem piscar ao desviar de sacos pendurados e pular sobre uma mulher se alongando no chão, mas Bucky ainda segue parcialmente paralisado, sem ter muita certeza se ainda estava no Harlem.- Peter, o que eu já disse sobre trazer cachorro de rua aqui pra dentro?- Não é um cachorro dessa vez, Clint – o garoto responde emburrado para o homem do outro lado da academia, recém-saído dos vestiários - É o novato.A mulher e o tal Clint trocam um olhar rápido, subindo juntos no ringue sem se darem ao trabalho de se apresentarem ou perguntarem seu nome. James tenta ser racional, mas sente um impulso muito grande de simplesmente virar as costas e ir embora. Ele não precisa de meia dúzia de mauricinho vendo o jeito que ele chuta e soca, definitivamente não precisa disso.- Eles são assim mesmo – Peter murmura, continuando a guiá-lo até os fundos – Depois que o Nick apresentar você direito eles começam a se soltar, você vai ver, demorou mais de um ano para decorarem meu nome.- Mais de um ano? Você começou a treinar quando, aos onze?!Peter para de andar e o encara com a mais completa descrença em seu olhar, deixando Bucky até um pouco culpado pela pergunta descabida.- Poxa, cara, eu tenho dezessete anos – reclama baixinho.James começa a se desculpar – de uma forma muito mal elaborada, que é como normalmente acontece quando ele não se prepara mentalmente para conhecer novas pessoas – mas sua ficha parece finalmente cair quando, vendo de relance um sobretudo preto na sala dos fundos, questiona:- Nick você quer dizer um Nick qualquer, certo? - Peter arqueia uma sobrancelha para ele – Obviamente você não está falando do Nick Fury, está?- Ué, é claro que sim, quem você acha que treina o...- Ah, então você realmente veio!Nick Fury.Nick Fury em carne e osso, bem na sua frente, de tapa-olho e carranca e sobretudo.Bucky sente cada pelo do seu corpo se arrepiar e por um milésimo de segundo ele quase faz algo realmente constrangedor – como pedir um autógrafo ou simplesmente desmaiar – mas consegue se recompor aos poucos, tentando fingir não estar tremendo ao estender a mão para cumprimentá-lo.- James Barnes – ele engole o “senhor” trêmulo que subia pela sua garganta.- Nick Fury – ele aponta para os dois lutadores que ainda treinavam no ringue – Aqueles são Natasha e Clint que, por alguma razão - seu tom de voz agora é alto e faz com que ambos parem automaticamente - estão treinando juntos apesar de eu já ter dito que não quero boxeador misturado com artes marciais!- A gente só tava aquecendo – Clint justifica, apesar disso corre até a lateral onde deixara suas coisas para calçar as luvas.- E o Peter Parker você já conheceu.- Acredita que ele achava que eu tinha quatorze anos?! - o garoto soa enfurecido e joga as mãos para o alto.- Acredito.Ele cerra os olhos para o mais velho, prestes a falar algo que se arrependeria amargamente na próxima vez que treinassem juntos, portanto apenas bufa alto e segue resmungando até os armários onde deixara suas roupas.- Imagino que você deve estar um pouco confuso, não é, Barnes?- Bem, acho que “um pouco” seja até muita gentileza comigo – o rapaz ri, passando a mão pela nuca e olhando ao redor – E se aquela ali for a Natasha que eu acho que ela é e você é o Nick Fury que eu acho que você é, então eu definitivamente não estou só “um pouco” confuso!- É o que acontece quando o Cap é quem sai para achar pupilos – Natasha passa por eles com uma toalha pendurada nos ombros e dando meia risadinha – Ele é péssimo em introduções.- Eu nem sei quem fez a introdução! - Bucky espera do fundo do coração não ter soado tão exasperado quanto se sentia – Estava escuro e metade do meu olho ficou na mão daquele cara, eu não tenho ideia de quem era a sombra que falou que eu deveria dar uma chance pra esse lugar.- E ainda assim, aqui está você.Ela tem um sorrisinho escondido atrás da toalha que passa pelo rosto, mas Bucky percebe porque ele infesta seus olhos como uma piada interna. De alguma forma, ele sente que ela o entende, assim como Clint ou Peter ou Nick. Mesmo tentando manter uma cara de mal, com as marcas dos fracassos bem evidentes em cicatrizes pelo seu rosto, Bucky não consegue ignorar o pensamento de que ele não era o primeiro a aparecer por ali agindo como se nunca fosse se submeter a um lugarzinho como aquele.E quando é Natasha Romanoff, com seus três anos consecutivos como portadora do cinturão da categoria feminina, Bucky não tem outra escolha além de levá-la em consideração. Pelo menos só um pouquinho.- Olha, eu não quero parecer um babaca, mas eu só não tenho ideia do que está acontecendo, ok? - apesar de olhar para Nick, Bucky quer que isso fique claro para os outros três - Esse cara chegou em mim, mencionou esse lugar e sumiu. Então me desculpa se eu estou demorando um pouco para processar que o treinador secreto da Romanoff e do Barton está parado bem na minha frente.- E do Rogers.Bucky reconhece a voz no mesmo instante, sentindo uma pontada na base da sua cabeça, como se perfurasse seu crânio diretamente até o cérebro. Ele se volta incerto na direção da entrada, onde vê de longe o desconhecido da semana passada caminhando até eles, só que agora a ficha de James começa a cair e ele se dá conta, com uma lentidão preocupante, que o tal desconhecido é o fodido do Steve Rogers, o Capitão.Na cabeça de James ele está tendo um ataque nervoso ao vivo, na frente das maiores lendas que o UFC já apresentou. Mas, na realidade, ele continua com a exata mesma expressão congelada em seu rosto conforme acompanha o recém-chegado com o olhar, não conseguindo nem começar a formar um único pensamento.Steve Rogers. Steve Rogers. Steve Rogers.Quando Bucky foi promovido no exército e começou a treinar a sério, cinco anos atrás, Steve Rogers vencia seu primeiro campeonato, na idade inimaginável de meros vinte e dois anos. Primeiro de muitos, invicto, Steve Rogers nunca sequer beijou o tatame, muito menos foi nocauteado.E ele estava andando na sua direção, como se fossem velhos conhecidos.Bucky não quer parecer um completo psicopata, mas começa a sentir suas mãos tremerem conforme seu cérebro - terrivelmente devagar – processa o que está acontecendo ali. Rogers, Barton, Romanoff, na sua frente, treinando, com Nick Fury. É como se ele tivesse de fato morrido na sua última luta e fosse parar no céu lado a lado com seus ídolos.E que porra ele estava fazendo ali?!- Espera! - finalmente ele chega à conclusão óbvia, fritando seus neurônios - Você me chamou de lixo!- Não acredito que você disse isso pra ele – Peter voltou do vestiário e agora participa da discussão com uma expressão indignada.- Eu não disse – Rogers olha feio para o mais novo ao deixar suas coisas na lateral e se aproximar deles – Eu disse que você tava um lixo.- Filho da puta...- E também disse que você cometeu alguns erros.- Steve, para – Natasha não soa nem um pouco convincente com o sorrisinho irônico permanente.- O que? Você tá ficando irritadinho? - Steve chega mais perto e Bucky consegue ver o corte no seu lábio inferior, a cicatriz na sua sobrancelha, um hematoma feio na sua maçã do rosto e, por um segundo, sente como se olhasse em um espelho – Quer resolver isso no ringue, novato?- De novo isso – Clint solta um bocejo entediado.- Steve...- Calma, Natasha, vamos ver o que o cara novo acha – Nick finalmente interfere na discussão, se colocando entre Steve e Bucky – James, você quer fazer um test drive com o Capitão?Bucky se lembra de quando começou a lutar, treinando na garagem de sua avó depois da escola. Depois, de como assistia às lutas aos domingos no dormitório no exército, dizendo para si mesmo que seria plenamente capaz de derrubar Steve Rogers se fosse ele dentro daquele octógono. Todas as brigas de rua em que se metia, todas as vezes que acertava um soco em um cara duas vezes o seu tamanho e via Steve Rogers do outro lado dos seus punhos, Steve Rogers cuspindo sangue, Steve Rogers indo para o chão.Não que Bucky odiasse o outro, sinceramente ele sequer o conhecia. Era mais do que isso. Steve Rogers era o campeão, provavelmente um dos melhores que já existiu. Se era para sonhar, então Bucky sonharia alto. E em seus sonhos ele era o primeiro e único a nocautear Steve Rogers.E que tipo de idiota negaria a chance de subir naquele ringue com o maior dos últimos tempos? Mesmo que Bucky se recuse a admitir isso em voz alta, parte de si se sentiria honrada até mesmo de tomar uma boa surra do Capitão.Quando James começa a tirar a própria jaqueta, enrolando uma faixa emprestada no punho e tentando relaxar os ombros, precisa usar muita força de vontade para tentar se concentrar nos próprios preparativos apressados e não encarar o homem ao seu lado tirando o moletom e se alongando.James conhecia Steve Rogers como a palma da sua mão, tinha decorado cada uma das suas lutas, sabia recitar exatamente quantos ganchos e diretos tinha dado na sua última luta defendendo o cinturão no ano anterior. Era como assistir um fantasma bem na sua frente se preparando para dar um belo chute na sua bunda.- Você tá beleza? - Peter pergunta baixinho, vindo trazer um protetor bucal que estava guardado – Eu sei que ele parece meio assustador pesando um milhão de quilos, mas a parte boa é que ele é destro.- Oi?- Você é canhoto, não é? Sua mão esquerda é mais nervosa que a direita – ele aponta para a forma como Bucky abre e fecha a mão direita, sentindo as unhas cravando em sua palma, aparentemente ele tinha mesmo subestimado o baixinho - Nós canhotos nos adaptamos aos destros, mas os destros não se adaptam aos canhotos. O lado esquerdo dele sempre é o mais vulnerável.Bucky já tinha reparado isso antes, que as únicas vezes que Steve realmente teve problemas em uma luta foi quando o oponente focava em cruzados de esquerda, mas nunca passou pela sua cabeça que ser canhoto seria uma vantagem contra o melhor do mundo. Chegava a ser quase cômico.Eles tiram seus sapatos e sobem juntos no ringue, batendo os punhos fechados contra suas pernas e pulando de um lado para o outro. A adrenalina faz os ossos de Buck derreterem, ele se sente leve e agitado, como se fosse a primeira vez lutando em toda a sua vida.Steve, do outro lado, parece confortável, provavelmente já tinha lutado mais vezes em cima daquele exato ringue do que seria capaz de se lembrar. Aquela academia era parte dele, uma extensão da sua casa. É só quando seus olhos se cruzam que Bucky se dá conta de como o Steve Rogers na sua frente não tem absolutamente nada a ver com o Capitão que assistia na televisão, aquele era seu habitat natural, Steve era a porra de um predador.- Tenta durar pelo menos o primeiro round, Barnes – sua voz soa engraçada por conta do protetor bucal, mas James apenas grunhe.- Vá à merda, Rogers – Steve solta uma risada ao ouvir o xingamento, arrancando um segundo grunhido do moreno, ele sente os pelos da sua nuca arrepiarem.Quando o round começa, é como se tudo se movesse muito devagar, exceto os socos de Steve. Esses são bem rápidos.Bucky desvia do primeiro, mas demora demais para retomar a posição e toma um direto. Seu cérebro roda e estala, reiniciando as funções. Steve parece estar testando o terreno, porque agora dá uma distância entre os dois e saltita pelo ringue.Bucky deixa que ele recomece a investida de novo. Jab, jab, desvio, cruzado de direita. Isso se repete por pelo menos vinte segundos, Steve gostava de cruzados, ele sempre se preparava para o desvio. Mas ele também era mais lento com a mão esquerda, não controlava muito bem suas joelhadas. Talvez porque treinou boxe boa parte da vida, mas a força absurda de sua parte superior deixava sua parte inferior extremamente exposta.Na quarta vez que Steve investe, Bucky sabe exatamente a ordem que vai acertá-lo. Tudo fica muito lento, ele vê o punho de Steve na sua direção. Para baixo, para a esquerda, para baixo. E é no terceiro cruzado de direita que ele enxerga perfeitamente o que Peter falou, a abertura que Steve deixa na sua lateral. Bucky se abaixa rapidamente, só precisa de dois socos nas costelas esquerdas para ouvir o arfar alto escapando dos pulmões do maior. E um gancho, perfeitamente posicionado, que arranca exclamações dos espectadores.Steve cambaleia para trás, os olhos desfocados, mas Bucky está determinado a não dar um segundo para que recupere o fôlego e mira em suas pernas. O som do corpo pesado caindo contra o tatame arranca mais reações do lado de fora, mas Bucky não percebe isso, usando tudo de si para enrolar seu corpo ao redor do tronco largo e posicionar os braços no pescoço de Rogers.Mas Steve é forte. Ridiculamente forte. Ele sente seu corpo sair e bater no chão repetidamente, o peso de Steve pressionado contra si, quase arrancando um grito. Bucky solta seu pescoço e tenta virar de bruços, se arrastando para escapar da sequência de cotoveladas que fazem suas costelas rangerem contra seus músculos. Ele percebe tarde demais que ficar de costas para Steve foi um erro amador.O corpo do mais velho cai por cima do seu, sentindo o peito ofegante pressionando suas costas, a pressão do peso dele sobre si arrancando o restante de fôlego que sobrou em seus pulmões. Os grunhidos e gemidos dos dois se misturam com o bater das mãos conforme Steve tenta agarrar seu pescoço e Bucky se esforça para virar o corpo em qualquer outra direção que tire a barriga de Steve da base das suas costas e bloqueie suas pernas. O oxigênio vai desaparecendo rápido demais e James aceita que vai desmaiar – porque parece muito mais aceitável do que as batidinhas no chão - porém, antes disso, Nick soa o sino e o round acaba.Cinco minutos. James Barnes sobreviveu cinco minutos no ringue com Steve “Filho da Puta” Rogers.O corpo do outro sai de cima do seu e ele se vira de barriga para cima, arfando por ar. Steve caminha para as cordas, como se não fosse nada demais. James tenta dizer para si mesmo que ele tem absoluta certeza que viu os olhos dele se cruzarem quando acertou seu gancho de esquerda, mas vendo o rapaz tomando água e falando algo com uma risada para Natasha, começa a duvidar de si mesmo.Ele se ergue devagar, os ossos do seu corpo são absolutamente contrários a isso, e movimenta os ombros quando finalmente está de pé. Não estava nos seus planos realmente lutar hoje – principalmente porque tem certeza de que alguns dos seus órgãos ainda não se recuperaram totalmente da última derrota – mas nenhuma parte do seu corpo se arrepende. Nem mesmo as partes que com certeza ficarão muito roxas amanhã.- Você é rápido - Steve chega até ele antes de descerem do ringue – Muito rápido.- E você é lento.O loiro parece quase ofendido por um instante, abrindo e fechando a boca algumas vezes como se estivesse tentando não soltar um palavrão.- Mas você é muito grande, então imagino que seja por isso – Bucky não quer soar como se estivesse o elogiando, mas também não quer parecer arrogante agindo como se tivesse vencido a luta. Ele sabe que foi salvo pelo gongo no sentido mais literal possível.- E você é canhoto, isso foi diferente – ele olha de cara feia para Peter, que finge estar muito interessado no telhado do galpão - Quase sem erros.Bucky trava o maxilar e seus dentes protestam agressivamente. Ele quer jogar na cara de Steve que deixar seu flanco esquerdo exposto também foi um erro, que nem mesmo o melhor do mundo conseguia fazer uma luta perfeita, que na verdade nem sequer deveria estar ali ouvindo outro lutador apontar dedos na sua cara, afinal Steve não era o treinador de absolutamente ninguém.Mas a verdade é que não tem forças para isso agora, sua cabeça está doendo e ele precisa urgentemente de água e café. James passa por Steve, descendo do ringue meio atordoado. Não pela luta em si, mas pelo que acabou de acontecer.- E então? - pela forma como Nick pergunta, Bucky acha que deveria ter uma resposta, mas apenas encara o mais velho sem muita reação - Você vai entrar?Peter está ao seu lado e ele sente o garoto vibrando, como se tentasse muito segurar as palavras dentro da sua boca.- Talvez – Bucky vê Natasha ajudando Steve a tirar as faixas de suas mãos, ele se dá conta que ainda está usando as suas e começa a tirá-las também - Vou poder dar uma coça nele mais vezes?Nick solta uma risada e bate com a mão espalmada contra suas costas, arrancando um grunhido que James tenta engolir, mas sabe que falha miseravelmente. Peter o acompanha até os fundos, pulando de um lado para o outro como se nunca tivesse visto um lutador antes. Bucky acha até meio engraçado que, entre Rogers, Romanoff e Barton, é justamente ele quem o garoto está cercando.- Cara, você foi tão rápido! - exclama, ajudando o outro a encontrar o pó de café e ligar a cafeteira – Ele veio bum e você pst pst zum, eu nem conseguia olhar. Achei que por você ser assim mais magrelinho ia tomar um capote, mas ele só te acertou meia dúzia de socos, isso foi o máximo. Tudo bem que tecnicamente você só acertou dois nele, e quando você derrubou ele no chão ele subiu em cima de você igual um travesseiro, mas na real que você foi muito maneiro!- Não tenho certeza se você tá realmente me elogiando...- Você tem que me ensinar aquilo, pra baixo, na barriga pow pow, e um gancho!- Não tem muito o que ensinar – Bucky murmura, sentindo o cheiro de café fresco esquentar seu corpo todo – Na hora você só sente.- Uau, tão maneiro!James não tem muito contato com garotos na faixa etária de Peter, então não consegue evitar achar muito engraçado como os olhos do garoto parecem brilhar a cada coisa que ele fala. Do outro lado do galpão Clint e Natasha voltaram a treinar, aproveitando que Nick está ocupado repassando algumas coisas com Steve para dar outra bronca neles, e Bucky se sente estranhamente confortável.Ele nunca teve um parceiro de treino antes. Bem, não exatamente nunca, isso era um pouco injusto com Sam, mas nunca alguém realmente no seu nível que o fizesse sentir que estava crescendo. Vendo as duas duplas tão imersas no próprio mundo, James não consegue evitar sentir um pouco de inveja e talvez, só talvez, começar a entender o que Steve quis dizer na noite que se conheceram sobre como todos na academia teriam opiniões pessoais sobre sua luta. Quando treinavam juntos, eles ajudavam um ao outro e se ajudavam no processo, era completamente diferente da solidão quase terapêutica entre Bucky e seu saco de pancadas.Mas Peter está ao seu lado, os olhos cintilantes e pernas agitadas, parecendo um cachorro com energia demais esperando para sair para passear. Ele solta um risinho, jogando para o garoto um par de aparadores e acenando.- Quer treinar?O mais novo abre um sorriso largo de orelha a orelha e corre até ele, nem se importando com o café pela metade que deixou sobre a bancada.Mesmo pequeno e bem mais novo, Peter é surpreendentemente ágil.Demoram algumas rodadas, e Bucky acerta alguns socos na barriga do outro sem querer, até sincronizarem os ritmos entre eles. Mas, em vinte minutos, é como se já tivessem lutado juntos por eras. O garoto aprende rápido e é esforçado, apesar de ainda não se comparar à rapidez com que Bucky desfere os golpes, porém é uma boa forma de manter o sangue fluindo e fazer com que o mais velho se sinta mais à vontade em um lugar ainda bastante desconhecido.Quando Bucky se dá conta já passou um bom tempo desde a hora do almoço e precisará entrar no trabalho em duas horas. Se despede rapidamente de Peter, que continua explodindo de energia como se tivessem acabado de começar o treino. Natasha e Clint acenam para ele com a cabeça, um reconhecimento da sua existência que o enche de orgulho, já Steve e Nick se afastam do saco de pancadas enquanto ele continua recolhendo suas coisas rapidamente.- Já vai? - o treinador pergunta.- Tenho que entrar no trabalho às cinco.- A gente te espera amanhã, então.- Se ele não amarelar – Steve ri alto, fingindo não observá-lo se afastar.- Vá à merda, Rogers.A risada alta some junto com o som dos socos contra o couro e dos tênis guinchando no chão assim que a porta se fecha atrás de si. Bucky quer parecer muito legal e descolado, como se aquele fosse apenas mais um dia normal na sua vida, mas seu coração explode no peito e, apesar do frio, seu corpo parece borbulhar dentro do casaco pesado. A ponto de deixar suas bochechas até coradas, como se fosse um garoto novo na cidade descobrindo um mundo completamente novo. Ele ainda não consegue acreditar que estava realmente na mesma academia dos maiores nomes do cenário atual.Viúva Negra. Gavião. Capitão. Bucky.Bem, talvez ele precisasse trabalhar um pouco no seu apelido...

----- CHAPTER BREAK -----

- Eu não acredito que você realmente não vai me levar pra conhecer seus novos melhores amigos.

Já é a terceira vez que Sam reclama do assunto enquanto preparam o jantar – ou melhor, Sam prepara o jantar enquanto Bucky massageia os tornozelos inchados depois de quase quebrar o próprio pé ao acertar um chute no cotovelo de Natasha – e o outro se esforça muito para ignorá-lo, porque não aguenta mais justificar que a academia é um lugar sério e não um meet and greet para ele pedir autógrafos e babar em cima da Romanoff.

- Faz só duas semanas, cara, nem eu me sinto à vontade ainda – o que não é totalmente mentira, apesar de a maior parte do tempo cada um estar tão imerso no próprio mundo que chegam a esquecer da presença de outras pessoas, mas Sam está bufando e Bucky não quer brigar – Olha, se acontecer de ter um jantar ou uma confraternização eu juro que te levo, ok? Mas você não pode só aparecer na academia assim do nada.

- Tá.

Apesar de soar resignado, a forma como sacode os ombros em frente ao fogão deixa claro que a ideia de eventualmente – mesmo apenas de forma hipotética - conhecer a grande ídolo Natasha Romanoff é o suficiente para convencê-lo.

- E como tá sendo? - pergunta quando Bucky começa a colocar a mesa - Você sempre chega em casa tão cansado que a gente nunca mais teve tempo de conversar.

- É incrível, mas ao mesmo tempo é um pouco frustrante, mas com certeza é ótimo, de um jeito meio desagradável, mas realmente é NOSSA - eles estão se sentando e apesar de sorrir da forma despreocupada de sempre, Sam consegue ver nos olhos do melhor amigo que ele está segurando alguma coisa – Tem esse garoto lá que mal saiu das fraldas, mas ele é muito bacana e tem me ajudado a me adaptar. Não sei exatamente como encarar o fato de precisar da ajuda de um moleque, mas ele já treina com eles desde que nasceu, eu acho, então tudo bem.

- Como é o nome dele?

- Peter Parker, carinha bem engraçado, acredito que ele vai ser realmente alguma coisa quando começar a competir.

- E os outros?

- Bem, a verdade é que o Nick tá focando toda a sua atenção no Steve Rogers ultimamente, pra temporada, então o Clint e a Natasha passam a maior parte do tempo treinando juntos, eles não são muito abertos a novatos – Bucky brinca com os grãos de arroz no seu prato, querendo não parecer afetado – Quer dizer, eles são amigos desde pequenos, meio que não tem pessoa melhor pra treinarem, é como se estivessem lutando com um espelho.

- Aposto que estão é com medo, sabem que vão levar uma sova se tentarem treinar com você.

Bucky solta uma risadinha contida, agradecendo com um olhar por Sam estar do lado dele mesmo nessa situação.

- Mas eu queria treinar mais, com Nick, com... Você sabe,

ele.

- Você já chamou Steve para treinar?

- Bem, tecnicamente não - a boca torta de Sam deixa claro que ele sabe muito bem o que se passa pela cabeça do amigo – Desde que ele me deu aquela surra no primeiro dia eu fiquei meio, sabe, inseguro...

- Você seria muito estúpido se não ficasse inseguro depois de lutar com o Capitão, Bucky.

- Eu só... Eu não sei se deveria realmente estar lá.

- Bucky, Steve Rogers te encontrou em um estacionamento depois de uma competição de rua – ele murmura baixinho “que você perdeu” como se James tivesse esquecido da fatídica noite – E pediu pessoalmente para que você fosse conhecer a academia secreta onde ele treina com seu treinador secreto e seus amigos secretos que são todos nomes gigantes do cenário da luta com treinadores secretos que na verdade é o mesmo treinador secreto do Steve “Maldito” Rogers!

A forma exasperada, quase indignada por precisar estar apontando o óbvio, com que Sam cospe as palavras tem o efeito desejado, entrar na cabeça muito muito

muito

dura de James. Na verdade, ele mesmo vinha tentando se convencer nas últimas semanas que, se fosse um caso perdido como se sentia, não faria sentido algum Steve ter saído do seu caminho apenas para tentar convencê-lo a aparecer naquela tal academia.

Ouvir outra pessoa colocando em voz alta essas exatas palavras do seu subconsciente faz a coisa toda parecer um pouco menos assustadora.

- Acredita que o garoto me chamou de magrelo? - muda de assunto, tentando manter o clima do jantar amigável e não começar uma das discussões sem motivo que eles frequentemente tinham – Magrelo! Eu tô quase com 90kg.

Sam solta uma risada alta, voltando para a mesa com seu copo.

- Você tem que entender o lado dele, se eu passasse o dia todo com o Capitão também teria uma concepção deturpada do tamanho das pessoas.

- Acho que ele deve ter mais de 1,90, o cara é um tanque – os dois contemplam o físico de Steve nas próprias mentes, genuinamente impressionados.

- Falando nisso, você nunca me contou como foi a luta em detalhes, quero saber de tudo.

Bucky solta um gemido e se contorce sobre a cadeira.

Lembrar da luta fazia seus músculos repuxarem sobre a pele, mesmo que tecnicamente ele não tenha perdido. Mas ainda tem a memória vívida do corpo do Rogers sobre o seu, o peso pressionando seu peito contra o chão e tomando seu fôlego, a claustrofobia crescente conforme se dava conta que aquele homem gigantesco tinha total controle do tatame.

- Eu nunca vou contar pra ninguém sobre essa luta – murmura, enfiando um pedaço de frango na boca – E nem eles, vão todos morrer com esse segredo.

- Eu te odeio.

- Eu vou sobreviver.

Os dois limpam a cozinha juntos, reclamam mais um pouco do porte inumano do Capitão - e de como ele é particularmente insuportável - e conversam sobre os tempos no exército. Sam sempre fazendo questão de jogar na cara dele como, depois da promoção para sargento, o outro o deixou sozinho e abandonado em meio aos cabos.

Bucky tenta rir, mas a verdade é que falar dos seus tempos no exército sempre o deixa meio para baixo, de uma forma que faz com que se sinta tão egoísta e estúpido e pequeno, por isso muda de assunto rapidamente perguntando sobre o emprego de Sam, a garota com quem estava saindo recentemente, sobre sua série favorita ou alguma música nova do Kendrick Lamar.

- Você realmente deveria pedir para o Rogers começar a treinar com você - Sam fala, conforme se arrumam em frente a televisão com uma caneca de chá e duas cobertas, uma para cada – Tenho certeza que ele precisa tanto quanto você.

- É, claro.

- De verdade, Bucky, quantos caras que desviam rápido igual você tem por aí? Se ele te acertar, acerta qualquer um – ponderando por um segundo, Sam exclama: - Você é igual a mosca de Karatê Kid!

James olha para ele com uma careta.

A mosca de Karatê Kid.
Ele poderia viver sabendo que não era o Senhor Miyagi, talvez chamar ele de LaRusso seria um pouco exagerado, mas a mosca? A porra da mosca?!
- Minha nossa, valeu.

- Eu tô falando sério, imagina só, rápido igual uma mosca.

- Eu vou te mostrar a mosca...

Sam recua com uma risada quando o outro levanta o punho cerrado na sua direção, arrancando mais resmungos e um barulho irritado do melhor amigo.

Durante as próximas duas horas de filme Wilson tenta – muito mal – convencer Bucky de como ser a mosca de Karatê Kid era uma posição muito honrada no patamar de lutadores, até o outro o mandar a merda e resolver ir dormir de vez.

Apesar de passar os três dias seguintes ainda ruminando aquele título terrível - a

mosca,

pelo amor de Deus! - Bucky também vinha ruminando a ideia inicial, sobre perguntar a Steve se poderiam treinar juntos, ao invés de esperar que o mais velho simplesmente acordasse uma bela manhã determinado a trocar socos com ele (e depois amaldiçoá-lo por perceber que ele não tinha recebido essa benção naquela manhã em específico).

Entretanto, Bucky não tinha um ego tão elevado – apesar de algumas opiniões contrárias - a ponto de achar que seria digno de interromper Nick Fury para oferecer seu humilde treinamento ao rapaz, por isso a ideia ficou apenas pipocando na sua mente nesses últimos três dias, fazendo com que sentisse cada vez mais coceira pelo corpo.

Finalmente no final de semana ele encontra Steve sozinho ao chegar na academia meia hora antes do normal. Bucky já tinha reparado como o outro era sempre o primeiro a chegar e o último a ir embora, mesmo nos dias corridos, o que fazia com que se sentisse ainda mais autoconsciente sobre seus horários bagunçados.

James tentava muito não se culpar, afinal enquanto sua paixão por MMA não colocasse comida na mesa teria de se contentar com apenas seis horas de treino por dia e noites no bar de mauricinho em que trabalhava.

- Caiu da cama, Barnes? - o outro brinca ao perceber que chegaram juntos, o céu azul escuro escapando pelas janelas.

- É...

A verdade é que James vinha pensando sobre chamá-lo para treinar com tanto afinco que simplesmente acordou três horas antes do seu horário habitual e não conseguiu mais dormir, decidindo pelo menos fazer algo útil com as horas de sono perdidas. Conseguir alguns minutos a sós parar finalmente conversar com o outro também parecia uma boa forma de aproveitar a situação.

- Rogers - começa, logo em seguida se dando conta que passou tanto tempo tentando se convencer a pedir ajuda em primeiro lugar que nem sequer tinha planejado como faria isso - Você... Hoje...

Steve arqueia uma sobrancelha para ele, pressionando os lábios em uma tentativa genuína de não rir de como ele parecia tão horrorizado com o mero ato de falar seu nome, porque sabia que o rapaz - já bastante desconfortável - se fecharia em completo constrangimento se a mera ideia do outro estar rindo dele passasse pela sua cabeça.

- Você não costuma treinar com o resto do pessoal?

Não era bem o que Bucky queria dizer, mas foi o que conseguiu. Já era um total de muitas palavras a mais do que dissera a Steve nas últimas semanas.

O Capitão, por outro lado, parece entender exatamente onde ele queria chegar com tão pouco. Apesar de ridiculamente grande, Steve não era só músculos.

- Tecnicamente o Clint deveria treinar só com o Thor, Nick odeia que os pugilistas fiquem se misturando com a gente porque acaba mais atrapalhando do que ajudando, mas como ele está com o joelho machucado e ele e a Nat são, sabe, daquele jeito, eu acabei sobrando – ele dá de ombros – O Peter costumava me ajudar antes, mas aparentemente ele gosta mais do seu estilo.

Bucky pisca algumas vezes, como se tivesse visto um pedacinho de Steve Rogers que ele deixou escapar sem querer.

Esperava que o melhor do mundo falaria sobre como os outros alunos da academia não estavam no seu nível, sobre como o único capaz de ensinar alguma coisa a ele era Nick Fury, o maior campeão dos anos 90, sobre seu talento sobrenatural e sobre como ele tem mãos tão grandes que partiriam os ossos de qualquer pessoa com que praticasse – talvez essa última parte fosse um pouco criação própria de James.

Mas uma coisa que definitivamente não esperava era o sorrisinho resignado de Steve e o dar de ombros, como se estivesse até meio magoado por estar treinando com

literalmente

o maior lutador dos últimos anos porque um menino de dezessete anos tinha virado melhor amigo de Bucky.

- Quer treinar comigo?

Bucky não sabe por que sua voz soa tão tímida, é até meio idiota. Mas o Capitão não parece achar idiota, no mesmo momento deixando sua jaqueta sobre o banco – apesar de Fury ter dado um grande sermão na semana passada sobre ter um vestiário justamente para que não encontrasse jaquetas jogadas em bancos – e pegando rapidamente os aparadores.

- Quer começar batendo ou apanhando? - o mais velho pergunta.

- Como se você conseguisse me acertar – Bucky zomba, tomando os aparadores da mão dele e entregando as faixas – Tudo o que tem de grande, tem de lento.

Steve entorta a cabeça de leve, achando curioso como Bucky mencionava seu tamanho pela terceira vez. Quer dizer, Steve sabia que era realmente grande, mas isso parecia ser um assunto particularmente sensível para o moreno.

Provavelmente para alguém com pouco mais de 1,80, como era o caso do Barnes, a sensação de ser tão menor do que outro cara era novidade. E uma novidade bastante incômoda.

- Pronto?

Bucky bate um aparador contra o outro, um sorriso de canto surgindo nos lábios quando se posicionam. Steve concorda, sacudindo os braços e relaxando os ombros, ambos sentindo a estranheza da situação os deixando um pouco mais rígidos do que o normal.

Demora apenas três socos para James se dar conta que estar naquela posição contra Steve era mesmo muito diferente de estar no ringue com ele. Ou talvez fosse porque, depois de quase um mês juntos, a presença do outro tinha se tornado muito menos intimidadora do que naquele primeiro dia.

O peso do corpo de Steve ainda assombrava seus pesadelos mais obscuros, mas agora vendo seus socos – que pareciam quase em câmera lenta – ele não parecia muito diferente de qualquer outro lutador, quase como um ser humano normal.

- Muito lento! – reclama depois de alguns minutos, batendo contra a testa de Steve com o aparador - Você está se segurando?

- Claro que não!

- Você está! - Bucky soa ofendido, se afastando dois passos do outro e fazendo uma careta – Seu merda!

- Ei, eu só tô dando um tempo pra gente se adaptar, não quero...

- O que? Me machucar?!

- Bem...

- Eu luto também, Rogers, não ia ser a primeira vez que apanho de alguém maior do que eu – Bucky sibila, se lembrando o porquê de falar tão mal do grandalhão para o colega de apartamento – Eu não quero treinar com um merdinha meia bomba, se não for para me levar a sério, então volta a treinar com o Fury.

- Eu te levo a sério, eu lembro como te encontrei – Steve sobe o olhar para o corte em seu supercílio, agora praticamente cicatrizado, se lembrando perfeitamente de ser o responsável pelo sangue que escorria pela metade de seu rosto no último round da luta – Desculpa, ok? Não vou me segurar.

- Eu não acredito em você - Bucky abaixa os braços, se sentindo muito menos empolgado com aquele treinamento do que meia hora antes – Vamos apostar.

- Lá vem.

- Se você conseguir acertar minha barriga três vezes hoje, eu...

- Você o que?

- Não sei, mas você vai ganhar uma coisa, em algum momento.

- Eu escolho o que vou ganhar – Steve complementa, olhando para além de Bucky conforme elabora seus pensamentos – E eu tenho o dia todo para acertar você, enquanto a gente estiver treinando juntos.

- Eu saio às três, então você tem até lá.

- Fechado.

Steve aperta sua mão, ainda coberta pelo aparador, e a sacode, de uma forma muito cômica que teria feito o Bucky usual soltar uma bela gargalhada, mas nada o deixa mais pilhado do que uma boa e velha aposta.

Quando Nat e Clint chegam, vinte minutos depois, os dois ainda estão treinando. Quando Fury chega, às oito, os dois ainda estão treinando. Quando Peter chega, depois das nove, eles ainda estão treinando. E quando todos eles param para o almoço, eles ainda estão treinando.

- Será que aconteceu alguma coisa? - Clint pergunta, vendo sua comida esquentar no micro-ondas.

- Nem adianta olhar assim pra mim, Natasha – Peter ergue as duas mãos, uma segurando seu sanduíche - Eu não sei de nada, já considero nossa relação muito íntima por poder chamar ele de Bucky.

- Ele fala pra todo mundo chamar ele de Bucky.

Peter faz uma cara feia para Nick, pronto para começar uma discussão séria sobre a importância da sua amizade na vida do Barnes, quando um grito ofegante e frustrado vem da parte de fora da cozinha, atraindo os três até a porta como vizinhos fofoqueiros.

- Lento. Lento. Muito lento! - Bucky está batendo com o aparador na nuca de Steve enquanto ele se contorce, tentando proteger a parte de trás da cabeça - Você é uma vergonha.

- Chega! - ele grita – Chega, uma pausa, preciso comer.

- Por que você tá falando como se eu tivesse te obrigando a treinar, seu cagão? - Bucky reclama, abrindo o velcro com os dentes – Faz meia hora que eu implorei pra você me liberar e você ficou chorando que queria continuar.

- Eu já acertei uma.

- Uma de três ainda é zero.

Bucky pisca para ele por cima do ombro, deixando os aparadores sobre o banco e indo em direção à cozinha, onde agora os outros quatro fingem estarem concentrados demais em seus almoços da forma mais artificial possível.

Clint arregala os olhos para Peter, apontando Bucky com a cabeça e movendo a boca em uma ordem para que vá sondar o outro. Nick aproveita para sondar seu próprio aluno, enquanto Natasha obriga o colega a sair da cozinha, sabendo muito bem que o garoto contaria tudo a eles depois.

- Ei, Bucky, não quero parecer que eu tô curioso nem nada – Peter dá uma risadinha, mas ele não era muito bom em mentir – O que tá rolando entre você e o Cap?

- A gente fez uma aposta.

- Ah, sim – Peter senta em uma das cadeiras, olhando ao redor – O que significa...?

- Ele ganha alguma coisa que quiser se conseguir acertar mais dois socos em mim – Bucky sorri para o mais novo, como se essa fosse uma ideia inimaginável - Ele é lento demais.

- E o que você ganha? Sabe, se ele não acertar?

- Eu? - só nesse momento Bucky se dá conta que estava tão empolgado com a ideia de treinar com Steve Rogers, e tão irritado por ele não ter levado o treino a sério no início, que se esqueceu completamente de tirar vantagem – Nada, eu acho.

- Sorte a dele, então.

Bucky ri, batendo com o punho fechado contra o de Peter, o garoto realmente sabia como aumentar a autoconfiança de alguém.

Meia hora depois, quando Peter está contando uma história meio esquisita sobre esse colega de turma da sua escola, Steve aparece na porta da cozinha com as faixas já nos punhos e uma expressão diferente no rosto, como se tivesse passado o almoço trancado no banheiro dando um discurso motivador para o espelho. Ele cruza os braços e encara Bucky, fazendo o outro sentir um incômodo diferente na nuca quando seus pelos se arrepiam.

- Beleza garoto, você termina de me contar amanhã - ele passa por Peter bagunçando seus cabelos.

- Boa sorte, Bucky.

Steve olha para Peter por cima do ombro, fazendo o mais novo erguer as mãos, e para a forma como Bucky sorriu, batendo com os punhos fechados contra as coxas e pegando os aparadores que deixara sobre o banco.

- Parou de chorar? - Bucky provoca, outra vez dando a risadinha de canto. Steve percebe como ele fica muito mais sorridente, mesmo de forma passivo-agressiva, quando não está perdendo.

- Mais dois.

Quando Peter conta a Clint e Natasha a razão de estarem tão focados no treino hoje, a dupla solta uma risada, como se já imaginassem o que acontecia. Depois disso, nenhum dos três consegue realmente se concentrar nos próprios assuntos.
 
A cada gemido ofegante, cada reclamação, grito ou baque, suas cabeças viram rapidamente na direção dos dois, que continuam completamente vidrados um no outro nas duas horas seguintes.

Bucky solta um arfar reclamão quando Steve o acerta pela segunda vez, faltando exatamente dois minutos para o fim do tempo estabelecido. O despertador do seu celular soa, trazendo uma risada vitoriosa que faz a cabeça de Steve latejar.

Ele não consegue acreditar que realmente perdeu uma aposta para o novato.

Peter comemora com Bucky, apoiando um dos braços no ombro do outro – como se a diferença de altura não deixasse a posição bem desconfortável - e fazendo piadinhas com a expressão frustrada do Capitão.

- O dobro ou nada.

Steve se ouve dizendo, sem ter a menor ideia de onde surgiu esse espírito competitivo repentino.

- Oi? - Bucky arqueia uma sobrancelha, endireitando a postura – Como assim o dobro ou nada? Não tem o que dobrar!

- Bem, então... Se amanhã eu ainda não conseguir acertar você três vezes, você vai poder pedir alguma coisa.

- Qualquer coisa?

- Qualquer coisa.

- E a contagem de hoje vai estar zerada, você vai ter que me acertar três vezes amanhã.

- Isso.

Bucky olha para Peter, como se o garoto tivesse um ponto de vista que valesse a pena ser explorado, mas ele apenas dá de ombros. Desde a hora do almoço ele vinha pensando sobre aquilo, sobre como fez uma aposta com Steve sem de fato falar o que queria caso ele perdesse. Parecia tão estúpido.

- Fechado.

Steve apenas acena com a cabeça, passando as costas da mão sobre o rosto suado e virando as costas. Bucky não entende muito bem porquê, de repente, o outro parecia tão irritado – a aposta era só uma forma de garantir que realmente dariam tudo de si no treino, afinal – mas a verdade é que não tem tempo para ficar analisando cada microexpressão do colega de treino. Ele se despede rapidamente dos outros alunos, correndo para o ponto de ônibus com a energia completamente renovada, como se não tivesse acabado de passar seis horas trocando soco com Steve Rogers.

E vencido.

Infelizmente, na manhã seguinte, essa energia toda desapareceu tão rápido quanto surgiu, sobrando apenas seus braços terrivelmente doloridos e a sensação de ter se metido em uma grande furada. Bucky realmente deveria seguir mais vezes o conselho de sua avó e “sair enquanto estava por cima”.

Ele até considera inventar uma desculpa - uma doença extremamente contagiosa, um acidente de trânsito, talvez forjasse a própria morte - mas a ideia de Steve Rogers no conforto de sua casa, sorrindo para si mesmo imaginando que Bucky tenha amarelado por sua causa, faz com que o outro engula dois comprimidos e tranque a porta de casa com força ao sair.

Como sempre, Rogers já chegou, só que dessa vez parece já ter passado um bom tempo treinando, apesar do seu relógio acabar de marcar seis da manhã.

- Você passou a noite aqui, é? - Bucky brinca, deixando o copo de café que comprara no caminho sobre o banco conforme vai tirando sua jaqueta, mas Steve não parece estar aberto para gracinhas – Nem fodendo.

- Eu não passei a noite toda – responde, deixando o saco de pancadas para trás e passando os dedos pelos cabelos já úmidos de suor - Só o fim da noite.

Bucky engole a saliva, desviando o olhar de repente. Ele não quer deixa transparecer que a ideia de Steve completamente obcecado pela aposta – que era uma coisa bem boba, ele repete pela enésima vez para si mesmo – entre eles faz com que sua barriga dê uma volta completa. Também não tem certeza se é uma volta boa ou ruim, por isso evita cruzar olhares com o outro conforme se prepara para continuarem o treino do dia anterior.

Steve acerta o primeiro soco em uma hora, antes mesmo de qualquer uma das testemunhas chegarem, arrancando um arfar de Bucky que quase o faz tossir. Ele se curva de leve sobre o próprio tronco, encontrando os olhos de Steve o observando de cima para baixo. Repentinamente, o lutador que já parecia tão grande está muito maior, como se seu corpo subisse sobre si novamente, igual na primeira vez em que lutaram.

O medo de ter cometido um erro que Bucky sentiu ao acordar agora se torna uma certeza.

Ele deveria ter fingido estar doente.

O homem na sua frente não é o Steve Rogers com quem treinou no dia anterior, é como se ele tivesse evoluído em todos os aspectos em uma única noite de treino. Seus socos ainda são lentos – mas não tão lentos quanto da última vez – mas estão mais estáveis, mesmo depois de três horas, seu ritmo mudou muito pouco. Bucky se sente até ofegante só de observar a resistência do Capitão, afinal o moreno, por mais que continue mais rápido que ele, começa a cometer pequenos deslizes e sente seus braços demorando um milésimo de segundo a mais para responderem aos comandos do seu cérebro.

O segundo soco o acerta antes do almoço, arrancando um grunhido – mais pela irritação do que pela força do soco em si. Steve sorri para si, do alto de um pedestal que Bucky não notou ter aparecido entre eles, e se curva levemente para murmurar:

- Cuidado, você tá ficando meio lento,

Bucky –

James pisca por um segundo, era a primeira vez que o Capitão não o chamava pelo sobrenome, além disso a forma como parecia estar se deliciando com a ideia de derrotar o mais novo faz com que sua voz saia como uma provocação carregada de ironia. Steve não é assim, ele nunca fazia provocações durante a luta, nunca dava risadinhas ou brigava com seus adversários fora do ringue, mas Steve também nunca perdia, então talvez Bucky realmente estivesse trazendo à tona partes suas que ele não tinha a menor ideia do que significavam – Digo, Barnes.

Corrigir a forma como o chamava – principalmente quando o próprio Bucky pediu a todos que o chamassem de Bucky – parecia ainda mais curioso, Steve limpa a garganta, como se estivesse constrangido por ter se deixado levar, o que faz com que Bucky lembre que é apenas mais um cara na sua frente. Afinal de contas, quando pediu para treinar com o Capitão ele não esperava vencer todas.

James bate um aparador contra o outro, pulando algumas vezes no lugar e se preparando para começarem o último round. Em uma hora e quarenta e oito minutos, ele oficialmente perde.

Steve solta um grito, encarando Bucky com os mesmos olhos de bicho que tinha na primeira vez que subiram no ringue. Mas, dessa vez, Bucky não sente seu corpo arrepiar, na verdade sua garganta vibra baixinho e seu próprio olhar reflete a expressão animalesca de Steve, mais um pouco e ele provavelmente rosnaria para o mais velho.

- Vai me morder, Barnes? - Steve brinca, dando mais um passo na sua direção que faz com que Bucky pareça até menor.

- Se é o que você quer – Bucky dá de ombros e Steve para, seu rosto tem uma expressão completamente nova, se não o conhecesse Bucky diria que ele parecia um pouco envergonhado - Você pode pedir o que quiser, Rogers.

Ele observa Bucky mais um pouco, o moreno está tirando as luvas com os dentes de novo, suor escorre pelo seu maxilar e ele parece terrivelmente exausto, mas de uma forma que faz com que ambos queiram continuar lutando. Steve sabe exatamente o que pedir.

- Vamos passar uma noite juntos.

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