Actions

Work Header

Coracao Selado

Entire Work

Work Text

- O senhor Aberforth Dumbledore está na sala e deseja falar com o senhor. - Abernathy anunciou.

Grindelwald imediatamente fez uma cara de desgosto:

- O que ele veio fazer aqui? Me dizer que o casamento não vai mais acontecer?  Que todo o tempo e dinheiro que investi desceram pelo ralo? - Grindelwald resmungou - Isso tudo eu já sei!  Bem que você poderia ter dito que eu estava viajando…

- Eu teria feito isso mesmo se ele não tivesse deixado claro que te seguiu quando o senhor chegou na fazenda. - Abernathy explicou, um pouco desconfortável pela admoestação injusta.

Ok, Grindelwald estava gostando cada vez menos daquilo.

- Pelo visto não tenho muita escolha além de receber este senhor, não é verdade? - disse por fim -  Diga a ele que vou em um instante.

- Sim, senhor.

Com um suspiro de desagrado, Grindelwald andou até o lavabo, lavou rapidamente as mãos e o rosto, penteando os cabelos loiros para trás com os dedos antes de atravessar o longo corredor que separava seu escritório da sala, sentindo as tábuas de madeiras cederem um pouco sob o peso das suas botas.

Aberforth estava sentado no sofá de couro da sala, parecendo um pouco desconfortável. Também, pudera, para alguém que havia acabado de perder a irmã nas circunstâncias em que aquele homem havia perdido, a decoração da sua casa não era exatamente a das mais agradáveis: dezenas de fotos emolduradas de cavalos premiados estavam espalhadas por todas as paredes, na mesa de centro, diversos troféus, muitos deles na forma de cavalos. Até o enorme tapete marrom era decorado com cavalos. E, para coroar, uma grande peça de xadrez de cavalo preto estava posicionada bem ao lado do sofá, pertinho de onde Aberforth se encontrava.

Grindelwald ainda não entendia muito bem por qual motivo Aberforth Dumbledore estava ali e não em casa chorando a morte da irmã. Ainda assim, ele se dispôs a interromper seus afazeres para recebê-lo e até lhe ofereceu uma boa taça de Xerez, sentando-se na poltrona de couro preto antes de comentar:

- Eu sinto muito pela sua perda, Sr. Dumbledore, mas espero que entenda que esta lamentável tragédia acaba por inviabilizar o nosso acordo… isso sem contar com todos os prejuízos que, inevitavelmente, sofrerei.

Aberforth engoliu o vinho e soltou ar pela boca ruidosamente, depois tomou a garrafa para si e se serviu de mais uma dose sem pedir licença.

Um verdadeiro alpha em cada um dos seus movimentos.

- O senhor deve saber que, desde o falecimento dos meus pais, eu me tornei o único responsável por dois ômegas… - Aberforth disse, num tom amargo de quem carrega um jugo pesado demais - um irmão um pouco mais velho do que eu e… minha agora finada irmã mais nova, Ariana.

Gellert assentiu com a cabeça:

- Não tive a oportunidade de conhecer seu irmão, mas cheguei a cruzar com sua irmã Ariana uma vez, antes do nosso acordo, e estou de prova que a moça era um verdadeiro diamante: belíssima, de excelente família e refinada educação, sem dúvidas uma ômega perfeita. - bebeu - Não por acaso, era tão disputada pelos alphas mais ricos e poderosos da cidade.

- Também não foi por acaso que, dentre todos os pretendentes, eu escolhi justamente o senhor para desposar a minha adorada irmã. - Aberforth respondeu.

- Fico lisonjeado. - Grindelwald respondeu - Uma lástima que ela tenha nos deixado tão repentinamente. E da maneira como aconteceu… realmente uma grande fatalidade…

- Eu não acredito em fatalidade. - Aberforth respondeu, parecendo mais sombrio do que nunca - O acidente que minha irmã sofreu… ele não teria acontecido se as pessoas próximas a ela tivessem sido suficientemente diligentes.

Grindelwald coçou o queixo, desconfortável, tudo o que ele não desejava era ter qualquer conhecimento sobre as circunstâncias que envolviam o falecimento da ômega prometida em casamento para ele. A menina havia quebrado o pescoço caindo do cavalo, lamentável, sem dúvidas, mas Grindelwald gostava de focar somente no resultado prático das coisas e isso incluía até mesmo as tragédias: algumas semanas de luto para a família da moça, mais algum tempo procurando outra esposa digna dele e muito dinheiro perdido no processo.

- Pois eu vim aqui para lhe fazer uma proposta. Como forma de compensar pelos transtornos que a perda da minha irmã lhe causou.

- Uma proposta? - a sobrancelha direita de Grindelwald se levantou - Que espécie de proposta?

Aberforth esvaziou sua taça e a colocou de lado, molhando os lábios antes de continuar:

- Meu irmão Albus. É solteiro e um pouco mais velho, mas ainda tem idade e está perfeitamente apto para o casamento. - propôs - A bem da verdade, não é tão bonito quanto Ariana, mas acredito que possa ser um substituto digno pra ela.

Gellert olhou para o outro homem por alguns segundos, sem saber o que dizer. Havia sido pego totalmente de surpresa. Com certeza, havia certas conveniências em manter o acordo de casamento com a família Dumbledore, pois grande parte dos preparativos já estavam bastante adiantados e ele não perderia uma verdadeira fortuna desmarcando com fornecedores e devolvendo presentes valiosos que havia recebido, presentes estes que incluíam até um cavalo bastante caro que Gellert estava com muita raiva por ter que abrir mão.

Mas, assim como as conveniências, também existiam muitos inconvenientes.

- Um ômega masculino? - perguntou.

- Não é do seu agrado?

- Não, não é isso… - Grindelwald retrucou - para ser franco, eu estou me casando com um único objetivo que é… ter filhos. E dizem por aí que é bem mais difícil um ômega masculino engravidar do que um feminino…

- Tolices! - Aberforth comentou, mal humorado - Posso garantir que Albus é saudável e perfeitamente capaz de lhe dar filhos.

- Eu não sei… não gosto muito da ideia de depender dele entrar no cio. As mulheres não têm esta limitação, então tudo é um pouco mais fácil.

- Quanto a isso, o senhor sabe como são os ômegas… normalmente, a mera expectativa do casamento já é suficiente para despertar seus feromônios e, eles entram no cio já na noite de núpcias.

- De fato, eu já ouvi várias histórias a este respeito.

- Ademais, Albus pode não ser tão bonito quanto Ariana, mas tem todas as melhores qualidades da irmã. É saudável, inteligente e muito bem educado. - Aberforth falou.

Mas Grindelwald não estava totalmente convencido:

- Quantos anos tem?

- Vinte e cinco.

Um ano mais velho do que ele. Não era o ideal, mas nada preocupante.

- E, se tem tantos predicados, por que não casou até hoje?

Aberforth pigarreou, subitamente desconfortável. Pelo visto, ele havia feito a pergunta certa:

- Ele nunca quis se casar. - explicou - Gosta mesmo de ficar na fazenda em companhia de livros e cavalos.

- E o que o fez mudar de ideia? - Grindelwald perguntou, mas já imaginava a resposta.

- As circunstâncias. - Aberforth respondeu com uma franqueza cortante - As circunstâncias.

De fato, a família Dumbledore sempre foi muito influente na cidade, mas era fato amplamente conhecido que não andavam muito bem das pernas financeiramente. Com certeza, Aberforth via o casamento como uma tábua de salvação para o seu confortável estilo de vida.
Mas Grindelwald não se importava em pagar o preço que fosse por um bom ômega e a fama de Ariana a precedia, enquanto ninguém nunca havia ouvido falar desse irmão mais velho e recluso. E se fosse feio? E se tivesse alguma doença? E se fosse estúpido ou incapaz de manter uma conversação mínima?

- E aí, o que me diz? - Aberforth esfregou as mãos de ansiedade - Aceita?

- Ainda não sei…  preciso pensar um pouco no assunto.

- Olha… por que não vem à minha fazenda amanhã e dá uma olhada nele pessoalmente, sem nenhum compromisso? Vai ver como não lhe ocultei absolutamente nenhum detalhe.

Grindelwald ficou alguns segundos em silêncio, pensativo. Não faria mal se ele desse uma rápida olhada no sujeito, faria? Provavelmente ele ainda iria dispensá-lo no fim das contas, mas pelo menos Aberforth não poderia acusá-lo de não tentar.

- Está bem, está bem. - falou, finalmente - Estarei na sua casa amanhã, ao cair da tarde, tudo bem?

- Perfeito! - Aberforth comentou, satisfeito, o bigode grosso se levantando junto com o seu lábio superior num sorriso extremamente esquisito - Vou até mandar matar um porco em sua homenagem!

- O amigo é muito gentil. - Gellert respondeu, batendo nas costas de Aberforth enquanto ele se levantava do sofá, pensando que ele provavelmente lamentaria o porco desperdiçado no final das contas.

Quando Aberforth finalmente partiu, Grindelwald chamou por Abernathy, que não demorou a surgiu na entrada da sala.

- Chamou, senhor? - Abernathy perguntou, segurando o chapéu na mão.

- Peça para Vinda separar um terno mais bem ajeitado para amanhã. - Grindelwald falou, enquanto estendia a mão para um estojo de prata em cima da mesa, de onde retirou um cigarro de palha.

- Qual é a ocasião, doutor? - Abernathy pediu.

- Vou conhecer um pretendente. - falou, pensativo. 
  
Albus estava lendo na sala quando ouviu o barulho do motor da caminhonete do seu irmão se aproximar e então pneus cantando numa freada brusca e o som de porta abrindo e se fechando.

Desde a morte de Ariana, a chegada de Aberforth sempre fazia o ventre de Albus gelar.
Seu relacionamento com seu irmão sempre fora complicado, mas, nos últimos tempos, a convivência entre eles se tornara bastante penosa, para dizer o mínimo, com Albus não raras vezes falhando em seus melhores esforços para não provocar a fúria do irmão. 
Sem dúvidas, a tática mais eficiente de todas era o silêncio. Mas, ainda assim, acontecia de Aberforth se irritar mesmo quando Albus não fazia absolutamente nada além de enfiar seu nariz em um livro e permanecer calado.

E, por isso, Albus fechou o livro que estava lendo assim que seu irmão se jogou no sofá e começou a tentar tirar as próprias botas. Por alguns instantes, Albus apenas o olhou lutar contra seus calçados sem se mexer do lugar, mas seu irmão logo se irritou com isso também.

- Não tá vendo que eu estou precisando de ajuda aqui? - Aberforth perguntou, irritado, e Albus levantou-se de um pulo para puxar as botas dos pés inchados do irmão.

Aberforth era mais novo do que ele, mas trabalhar longas horas debaixo do sol quente somado ao grosso bigode que cultivava e o corte de cabelo antiquado o faziam parecer muito mais velho do que realmente era. Soltando um suspiro exausto, ele se recostou na cadeira e deixou todo o esforço de puxar as botas para o irmão.

- Como foi? - o ômega se atreveu a perguntar, caprichando num tom que só poderia ser chamado de subserviente. O tom mais apropriado para falar com Aberforth nos últimos tempos.

- Separe a sua melhor túnica. Aquela azul clara com bordados prateados que mamãe te deu no seu aniversário deve servir. - Aberforth respondeu, soltando um gemido de alívio quando seu calçado finalmente saiu do pé com um barulho seco - Grindelwald virá te ver amanhã.

O ventre de Albus mais uma vez foi tomado por uma sensação gelada:

- Me ver? - ele perguntou, já puxando a outra bota.

- Sim. Eu fui até lá com a intenção de me desculpar por todo o transtorno que o cancelamento do casamento causaria a ele, mas, no caminho, acabei pensando: eu tenho dois irmãos ômegas. Então fiz a proposta e ele ficou de pensar.

A bota caiu no chão. Albus encarou Aberforth nos olhos, uma fúria fria tomando todo o seu corpo, mas quando ele abriu a boca para protestar, seu tom de voz era calmo como sempre:

- Abe… você não pode fazer isso comigo.

- Posso sim, Albus!  - Aberforth retorquiu, irritado - Posso sim!

- Você deu sua palavra! Pra mim! Para o meu pai! - Albus persistiu.

- Sim, é verdade que eu disse que iria manter o combinado maluco entre você e o meu pai, mas a circunstâncias eram outras, Albus! Ariana estava viva e era garantia de um bom casamento e você poderia viver da sua criação de cavalos. Agora não temos nem Ariana e nem os cavalos. E sabe o que temos de sobra? Dívidas! Com todos os fornecedores do casamento, sem contar a hipoteca dessa fazenda, e até dívidas com o funeral.

- Você vai me vender para aquele homem! - Albus o acusou diretamente, já sem
se importar em ser cuidadoso ou subserviente.

- Vender?! Quando era a Ariana quem ia se casar você não usava palavras tão duras! - Aberforth respondeu, certeiro.

Albus abriu a boca, mas a resposta óbvia ficou presa na sua garganta. Ele não poderia dizer que ela, ao contrário dele, queria se casar, porque seria uma meia verdade. Sim, Ariana queria se casar, mas não com um total desconhecido. Sua irmã nutria os mesmos sonhos de qualquer jovem da sua idade: queria conhecer alguém, se apaixonar e só então se casar.

Albus tinha sido um egoísta! Simplesmente não dera a mínima se Ariana estava se sacrificando pela família ou não. Tudo o que importava para ele era se dedicar aos estudos e aos seus cavalos. Mais nada. Só agora ele podia sentir na própria pele o horror que era ter o seu destino decidido daquela forma por outras
pessoas, sendo uma delas um completo estranho.

- Abe… eu não vou me casar com este homem! - Albus finalmente falou, determinado - Por favor, ligue para ele e diga que o acordo está desfeito, ou então…

- Ou então o quê? - Aberforth quis saber - O que você vai fazer? Fugir? Faça isso e em questão de horas você estará batendo na minha porta de novo em companhia de algum policial. Você é só um ômega e eu sou o alpha responsável por você. E se eu digo que você vai se casar, então é isso: você vai se casar!

- Eu posso até não fugir, mas você sabe que posso perfeitamente fazer esse homem, Grindelwald, desistir de mim. É fácil demais, tudo que eu preciso fazer é falar as palavras certas, ou melhor, as palavras erradas.

Aberforth levantou-se do sofá tão rápido ao ouvir aquela frase que Albus não teve tempo de reagir antes que seus cabelos compridos fossem violentamente puxados pelas mãos grossas do seu irmão. Inclemente, ele puxou Albus para perto de si e com uma voz terrivelmente fria, ameaçou:

- Experimenta fazer isso! Atreva-se a me desafiar dessa maneira e você verá com que facilidade um alpha consegue esmagar um ômega!

Albus não conteve uma risada, enquanto se livrava do aperto agressivo da mão de Aberforth com graciosidade:

- Você realmente acha que me intimida com esse tipo de ameaça? - perguntou, suavemente.

- Claro que não. - Aberforth respondeu, debochado - Você não se intimida com nada, não se importa com nada! Você é capaz de arruinar a sua família e, ainda assim, só pensar em você o tempo, maldito seja! Você não dá a mínima se o patrimônio dos nossos pais acabar nas mãos dos bancos, desde que você esteja confortável, cercado de livros, trocando cartinhas com seus adoradores de cavalos!

- Isso não é verdade… - Albus falou muito baixo.

- É verdade sim! E se você estragar o encontro de amanhã, vai me provar o que eu já sei, que você só se importa consigo mesmo e ninguém mais!

Aquilo pareceu calar Albus de uma vez por todas. Encolhendo os ombros, derrotado e sem forças para continuar aquele embate, ele simplesmente deu as costas para Aberforth e se trancou em seu quarto.

Sentindo-se acorrentado ao destino que antes era da sua irmã, ele pensou que talvez aquilo fosse um merecido castigo. As lágrimas brotaram no canto dos seus olhos e por mais que ele tentasse secá-las com as costas das mãos, elas teimavam em descer pelo seu rosto.

Naquela noite, Albus sequer tentou dormir, sabia que não conseguiria. Assombrado pelos últimos acontecimentos, ele só pensou que não havia mais nenhuma esperança de ser feliz. 
  
Gellert Grindelwald se olhou no espelho enquanto ajeitava a gravata azul, se achando meio idiota por estar se arrumando tanto. Quanto mais ele pensava em todo aquele assunto, mais se convencia de que a coisa certa a se fazer era rejeitar a oferta de Dumbledore e procurar outra boa família com uma ômega disponível para casar.
Esse negócio de casar com o irmão de sua falecida prometida não parecia ser de bom agouro.

Mas Gellert era homem de uma palavra só e, uma vez que havia se comprometido a ver o tal ômega, então era exatamente isso que ele faria.

- Estou bem, Abernathy?

- Muito elegante, patrão. O ômegazinho vai cair de amores.

- Não estou nem aí se ele vai cair de amores ou não. - falou - só quero botar um ponto final digno em toda essa história. Vamos lá?

- Sua caminhonete está pronta. - Abernathy respondeu, solícito.

Mesmo sendo vizinhos, Gellert precisou de alguns bons minutos chacoalhando numa estrada de terra até chegar na propriedade dos Dumbledore. Uma fazenda que trabalhava principalmente com criação de cabras entre outras coisas. Gellert ouvira falar que eles mantinham uma pequeníssima criação de cavalos, mas nada digno de nota, ou os teria visto em alguma das inúmeras competições e leilões das redondezas. 
Gellert estacionou a caminhonete na porta da Casa Grande. Um cheiro de carne de porco
assada invadiu suas narinas assim que ele desceu do veículo. Aberforth foi pessoalmente ao seu encontro no minuto seguinte, um sorriso de satisfação entortando o seu rosto enquanto ele apertava a sua mão com um pouco de força demais.

- Que bom que veio, amigo Grindelwald!

- Dei minha palavra e aqui estou.

- Garanto que não vai se arrepender e nem perder a viagem.

- Isso veremos.

- Bebe alguma coisa? Um vinho? Um uísque?

- Um uísque seria muito bom, obrigado. - Gellert respondeu, apesar da sua vontade de ver o tal ômega sem muitas delongas e se livrar logo daquilo.

- Albus já está terminando de se arrumar. -
Aberforth informou como se pudesse ouvir seus pensamentos.

Trinta minutos de conversa completamente vazia se seguiram e Gellert se descobriu perfeitamente incompatível com aquele homem nos mais diversos aspectos. Aberforth e ele eram alphas, é verdade, mas as semelhanças realmente acabavam por ali, em todo o resto era como se fossem feitos de outro material.

- Bem… acho que vou lá verificar o motivo de Albus estar demorando tanto. - Aberforth finalmente falou, batendo com as duas palmas da mão no colo, quando a sua criatividade para assuntos aleatórios pareceu se esgotar - Com certeza ele está caprichando um pouco demais na arrumação.

Aberforth levantou-se do sofá e pegou o lado direito do corredor com passos muito duros. Logo em seguida, Gellert ouviu um barulho de porta batendo. Minutos então se passaram em completo silêncio até o barulho de vidro quebrado fazer os ombros de Gellert pularem de susto.

Mais alguns ruídos abafados e, minutos depois, Aberforth estava de volta à sala, puxando outra pessoa firmemente pelo pulso.

- Este aqui é o meu irmão Albus. - Aberforth apresentou e Gellert reparou que ele precisou apertar um pouco mais o pulso do outro rapaz antes dele responder.

- Muito prazer. - Albus falou, muito baixo, sem sequer olhar na direção dele.

Gellert olhou atentamente para aquele ômega: era tão ruivo quanto seu irmão mais novo, mas, ao contrário dos fios ressecados e foscos do
alpha, seus cabelos eram mais compridos, bem brilhantes e macios, e estavam presos numa longa trança. Outra semelhança física com o irmão eram os olhos. Ambos tinham olhos muito azuis e expressivos, mas o olhar de Albus transmitia uma melancolia tão profunda que era nítido demais que ele não queria estar ali.

Gellert então reparou na suntuosa túnica azul, toda bordada com fios prateados, no lenço que ele mantinha em volta do pescoço, nos dedos compridos enfeitados com anéis e até nas botas de salto alto que aquele ômega usava. De fato, Albus não era tão bonito quanto sua falecida irmã, mas não deixava de ter uma presença marcante. Gellert não poderia negar que ele o achava… interessante. Incomum. Até exótico.

- Como você pode ver, ele é bem saudável. - Aberforth comentou, segurando a cabeça de Albus de um jeito tal que Gellert teve a nítida sensação de que ele iria apertar o maxilar do irmão para mostrar-lhe os dentes a qualquer momento - É um pouco magro, é verdade, mas é só porque os homens da nossa família são altos demais.

Gellert olhou para Albus novamente, mas ele imediatamente desviou o olhar. Alheio ao desconforto do irmão, Aberforth deu-lhe um tapinha nas ancas e afirmou:

- O senhor me disse que sua principal preocupação era ter filhos, então veja só isso. Estes quadris foram feitos para carregar muitas crianças!

Mas Gellert não estava mais prestando atenção. Ele apenas observava aquele rosto delicado de ômega, achando-o tão terrivelmente infeliz por estar ali que era até um pouco ofensivo para o seu ego.
Ora, Grindelwald não era um cara qualquer, muito pelo contrário: ele era um dos melhores partidos da região. As famílias mais tradicionais até matariam para que ele desposasse seus ômegas. Ele definitivamente não precisaria se casar com alguém tão nitidamente infeliz por estar diante dele.

Mas, ao invés de recusá-lo de uma vez, Gellert se pegou mais e mais intrigado por ele:

- Eu gostaria de conversar um pouco com  seu irmão… - Gellert falou, fazendo o ômega olhar na sua direção pela primeira vez, surpreso.

- Oh, não. O senhor vai me desculpar, mas eu não permito que meus ômegas conversem a sós com alphas, assim, evito surpresas desagradáveis.

- Assim o amigo me ofende… - Gellert comentou, esperando conseguir deixar Aberforth desconcertado, sem sucesso.

Ao invés de responder, Aberforth apenas puxou o lenço que Dumbledore mantinha envolvido no pescoço, expondo-o para Gellert sem muita gentileza:

- É assim que eu garanto que meus ômegas cheguem ao casamento sem nenhuma marca.

Talvez este fosse um equivalente a mostrar os dentes: mostrar pescoço para provar que aquele ômega era intocado. Gellert achou a atitude de Aberforth desnecessariamente grosseira, mas, ainda assim, não foi capaz de evitar cheirar o ar ao ver aquele pescoço. Sentiu o perfume daquele ômega muito, muito suave, quase impossível de perceber, mas estava lá e Gellert não podia dizer que não era bem agradável.

- Fique a vontade para fazer qualquer pergunta para Albus, não vou interferir. - Aberforth falou, decidido - Mas não posso permitir que vocês dois conversem a sós.

Pois bem. Albus era bonito o suficiente, mas Gellert se preocupava pouco com isso. Seus motivos para casar eram de ordem prática.

- Muito bem, Albus. Me desculpe a franqueza, mas você não parece exatamente encantado em me conhecer. Eu realmente não me importo se você está feliz ou não com tudo isso, o que realmente me interessa é saber o seguinte: você está mesmo disposto a se casar comigo? Ou devo temer a humilhação pública de ser abandonado no altar?

Albus fez alguns segundos de silêncio durante os quais os nós dos dedos de Aberforth ficaram até brancos de tanto que ele apertou seu pulso, antes de responder:

- Estou disposto a me casar, sim, senhor…

- Muito bem… - Gellert falou, pensativo - só mais uma pergunta: como o seu irmão bem lembrou, o meu objetivo principal com este casamento é ter filhos. Você sabe o que vai precisar fazer quando se casar comigo, não é mesmo?

E o rosto de Albus imediatamente adquiriu uma coloração quase tão avermelhada quanto o seu  cabelo. Ele baixou os olhos, envergonhado, sem sequer ter coragem para responder aquela pergunta.

- Ele sabe perfeitamente bem como essas coisas funcionam. - Aberforth finalmente respondeu no lugar dele e Gellert achou melhor acreditar nas palavras de Aberforth e não insistir ou o pulso de Albus ia acabar quebrando.

Gellert olhou longamente para aquele ômega. A decisão de não aceitar o acordo parecia balançar depois de conhecê-lo. Albus não era de todo ruim e realmente seria bem mais prático e menos dispendioso se aceitasse se casar com ele. No mais, Gellert apenas queria ter herdeiros que levassem o seu nome e nada mais. Não tinha pretensões românticas, nem nada do tipo. Albus era de boa família e erudito, parecia ser capaz de educar bem sua eventual prole.

- Muito bem. - ele finalmente falou - Parece bom o bastante para mim.

- Excelente! Mantemos o casamento para o fim do mês então? - Aberforth propôs, satisfeito - Assim não precisaremos cancelar o que já foi encomendado e a festa toda se mantém como antes, o que me diz?

- Parece bom.

- E acredito que seja tempo o suficiente para que ele produza os feromônios necessários para estar prontinho para o senhor na noite de núpcias.

Os ombros de Albus pularam ao ouvir aquela frase e ele olhou para o irmão, parecendo muito triste e indefeso, mas, ainda assim, não disse nada.

Interessante.

Gellert se perguntou se aquele ômega era mesmo tão manso e subserviente a ponto de se deixar arrastar contra a vontade daquela maneira, mas algo naqueles olhos azuis brilhantes lhe dizia que não.

O que era então? O que fazia se submeter à vontade do irmão daquela maneira?

Pelo visto, ele teria que casar para descobrir.

- E agora vamos comer! - Aberforth falou, esfregando as mãos - O porco já deve estar pronto e motivos não faltam para festejar!
  
Albus acompanhou os outros dois sem dizer uma palavra, sentindo seu coração gelado em seu peito. Até agora, ele ainda mantinha uma esperança de Grindelwald não gostar dele e recusar aquela proposta de casamento, mas, ao contrário de as suas expectativas, ele acabou aceitando substituir um ômega pelo outro como se ele e Ariana nem pessoas fossem, mas simples mercadorias.

O casamento agora era inevitável.

Do lado de fora da casa, um porco inteiro rodava lentamente sobre o fogo. Albus olhou na direção dele, sendo subitamente tomado por uma vertigem. Sentiu-se como se ele próprio fosse nada mais do que um porco, abatido e espetado numa lança para deleite dos alphas.

Mas tudo que ele poderia fazer agora era fechar os olhos e tentar não desmaiar ao se deixar rodar sobre as chamas do seu próprio destino.

----- CHAPTER BREAK -----

- Maninho, eu posso cavalgar o Trovão?

Trovão era a nova aquisição da fazenda. Comprado com muito sacrifício, era um alazão muito bonito que Albus estava tratando de domar, pois nunca havia sido montado na vida e era grande e bem arisco.

Ariana se apaixonou perdidamente pelo animal no momento em que colocou os olhos nele e, desde então, repetia a mesma cantilena todo o santo dia.

- Ele ainda não está pronto, Ari. - Albus respondeu o mesmo que costumava dizer todos os dias - Só mais um pouco.

- Já tem quase uma semana nisso! - Ariana respondeu, impaciente - Você sabe muito bem que eu já posso segurar esse cavalo!

Mas Albus não estava convencido:

- Ainda assim você pode cair e se machucar. Em pouco mais de um mês será o seu casamento, já pensou se você acabar tendo que se casar com um braço quebrado?

Uma sombra se formou no rosto de Ariana pela simples menção ao casamento e o coração de Albus pesou no seu peito. Mas antes que ele dissesse alguma coisa, a sombra já havia sumido e a expressão de Ariana voltara a ser a mesma de sempre.

- Eu não vou me machucar, eu juro! - Ariana respondeu, caprichando no tom de voz especialmente cunhado para fazer o irmão se compadecer - Eu vou tomar todo o cuidado do mundo. Deixa, vai? Deixa?

Albus respirou fundo:

- Está bem… - concedeu, querendo muito fazer sua irmãzinha feliz - mas, por favor, não saia do cercado, combinado?

- Ai, eu te amo, maninho! -  Ariana falou, pulando no pescoço de Albus e enchendo o seu rosto de beijos.

- Ok, ok, já chega. - Albus riu - Peça para o Jacob selar o bicho para você, sim?

- Tá bom! - ela respondeu, saltitando na direção do estábulo.

Quando os médicos confirmaram o falecimento de Ariana, Albus se trancou no quarto para chorar as lágrimas mais amargas e sentidas de toda a sua vida. 
Era tudo culpa dele! Se ao menos o seu coração não tivesse amolecido quando ela lhe pediu para montar aquele cavalo! 
Mas Albus confiou em Ariana e confiou no cavalo que ele mesmo havia domado. Achou sinceramente que não haveria riscos se ela galopasse com cuidado pelo cercado.

Albus jamais poderia imaginar que Ariana deixaria o cercado, contrariando as suas determinações, e nem que um inesperado estampido vindo do outro lado do rio seria o suficiente para assustar o animal e fazê-lo disparar até encontrar um obstáculo qualquer e tentar atravessá-lo, sem sucesso.

A visão do acidente que se seguiu foi difícil de digerir mesmo para os trabalhadores mais durões da fazenda: a jovem e delicada Ariana caída morta no chão de terra e o cavalo se debatendo por cima dela, ferido e assustado, mas ainda vivo.

Aberforth chegou horas depois, quando Albus já estava fechado no quarto e Tina e Queenie terminavam de lavar e preparar o corpo para o velório.
Primeiro, Albus ouviu um grito e, poucos minutos depois, o barulho de um tiro. Fechando os olhos, soube imediatamente que o cavalo estava morto.

Mais um ou dois minutos se passaram antes de um segundo estampido se ouvir e então um terceiro. Albus levantou-se na cama, tremendo dos pés a cabeça:

- Não… isso não…

E como se quisessem confirmar suas terríveis suspeitas, Tina e Queenie entraram correndo no quarto, as duas aos prantos:

- O senhor Aberforth… ele… ele… - Queenie começou a falar, mas não foi capaz de continuar, Tina então puxou o braço de Albus e continuou a frase que a irmã havia parado no meio:

- … ele está matando todos os cavalos do estábulo! Faça alguma coisa, por favor!

Em desespero, Albus correu até o estábulo com todas as forças das suas pernas, cada novo estampido arrancando um pedaço do seu peito. Mas, quando finalmente chegou lá, Aberforth já estava na última baia.

- Pare! Por favor, pare! - Albus berrou, ofegante, se agarrando com tudo ao braço do irmão para tentar impedi-lo de mirar um potro sujo e assustado, olhando, horrorizado, para o corpo da mãe do animal. Os respingos de sangue pelas paredes da baia, bem como a enorme poça vermelha que empapava o feno do chão completavam aquela visão digna de um filme de terror.

- Decidi que não vamos mais criar cavalos. - Aberforth respondeu, sombrio.

- Não, por favor, não machuque eles! Machuque a mim! Atire em mim! - Albus gritou, aos prantos, ainda tentando puxar o braço do irmão.

Pelo menos um ele conseguiria salvar! Pelo menos um!

Mas Aberforth apenas se livrou dele com um ágil movimento de braço, mirou com precisão e atirou no pequeno animal antes de jogar o rifle no chão e partir dali sem olhar para trás, deixando Albus sozinho com suas lágrimas.

Albus aguardava, sentado num banco, enquanto Queenie terminava de trançar seus cabelos. Tina abotoava as mangas da túnica nupcial branca, verificando cada detalhe para que Albus ficasse perfeito.
 
- O senhor está ficando tão bonito! -  Queenie elogiou enquanto enfeitava os seus cabelos, mas seu sorriso empolgado se apagou quando viu duas lágrimas deslizarem pelo rosto de Albus.

- Ai… por favor, não fique assim! - Tina pediu preocupada - Hoje é seu dia especial, o mais feliz da sua vida…

- É isso mesmo! O senhor deveria estar feliz, isso sim! Por que tem chorado tanto? - Queenie perguntou, parecendo agoniada - Por acaso não gostou do noivo? Mas eu o vi quando ele veio te conhecer… o Sr. Grindelwald é bem bonitão!

- Fica quieta, Queenie!! - Tina repreendeu, beliscando o braço da irmã.

- Ai, o que eu falei de mais? - Queenie se queixou, acariciando o braço dolorido.

Era uma boa pergunta aquela que Queenie havia feito a ele. Ele gostava do seu futuro marido? Por mais que pensasse no assunto, Albus não conseguia encontrar uma boa resposta. Ele sequer conhecia aquele homem o suficiente para gostar ou desgostar dele. Sim, com certeza, ele era bem bonito, talvez até bonito demais, chegava a ser até intimidador, com seus belos cachos loiros e seus olhos azuis claros cortantes. Com certeza, parecia combinar muito mais com Ariana do que com ele. Ariana sim, era muito delicada, tinha traços finos e lindos cabelos claros como a luz do sol, enquanto Albus era apenas… Albus. Um ômega comum demais, nem bonito, nem feio, nada digno de deslumbramento com seus traços marcados e um pouco magro demais.

Mas Grindelwald, ao que parecia, não se importava tanto com beleza física e deixara muito claro que tinha outras prioridades durante o único encontro que tiveram. Acima de qualquer coisa, Grindelwald queria ter filhos.
Parecia muito óbvio que ele sequer o encarava como um ser humano e sim como uma égua reprodutora, pela qual estava disposto a pagar um bom preço, com a intenção de criar uma boa linhagem.

- Acabei o penteado. - Queenie falou, arrancando Albus dos seus pensamentos.

- Acho que é hora de fechar a parte de cima da roupa então. - Tina falou, levantando as próprias mangas.

A túnica de Albus era repleta de minúsculos botões, que vinham desde o peito até o pescoço, e Tina tratou de fechar os botõezinhos com alguma dificuldade, respirando pesado para reunir toda a sua paciência e concluir aquela tarefa o mais rapidamente possível.

- Tudo pronto! - Tina comentou, animada, ao fechar o último botão - Venha ver neste espelho grande o quanto você está bonito!

Albus então andou até o espelho preso numa das portas do guarda-roupa e se olhou. No reflexo, ele até parecia outra pessoa, vestia uma túnica nupcial branca muito brilhante, toda trabalhada em pedraria e seus cabelos trançados estavam cuidadosamente presos e enfeitados com minúsculas joias, nos braços e dedos, mais joias brilhantes de vários tamanhos completavam uma visão bem impressionante.

A maioria dos ômegas talvez se sentisse feliz por se ver tão diferente e bonito no espelho, mas não Albus. O que Albus sentiu foi um líquido ácido subir pela sua garganta.

Sob o olhar chocado das duas empregadas, correu para o banheiro onde pôs-se a vomitar ruidosamente.

Estarrecidas, Tina e Queenie correram atrás dele para ampará-lo.

- Está tudo bem. - Queenie comentou rapidamente quando Albus parou de vomitar - Não estragou nem a roupa e nem o cabelo. Só precisamos lavar bem a sua boca e o seu rosto e tudo ficará bem.

Tina não tinha tanta certeza disso. Enquanto amparava Albus nos seus braços, ajudando-o a se limpar, ela não pôde deixar de sentir pena por tudo que o irmão mais velho do seu patrão  passara nos últimos tempos. A morte da irmã, a perda dos cavalos, um casamento forçado… tudo isso ao mesmo tempo! Parecia que estava sendo demais para ele. E até mesmo ela, uma alpha, podia entender os motivos do abatimento de Albus.

Quando os três saíram do banheiro, com cada uma amparando um dos braços de Albus, encontraram Aberforth de pé no meio do quarto:

- Está pronto? - perguntou, nitidamente desconfortável num terno preto um pouco apertado para o corpo dele - Está quase na hora.

E como Albus não respondia, Tina deu uma última checada nele, só para se certificar de que não faltava nada, antes de responder:

- Ele está prontinho.

- Muito bom, muito bom… vamos indo então. - Aberforth falou, já dando alguns passos em direção a saída.

- Abe… - Albus o chamou, suavemente - Por favor…

- A resposta é não, Albus. - Aberforth não permitiu que ele continuasse e logo deu as costas para ele - Vamos de uma vez, já estamos muito atrasados! E trate de beliscar essas bochechas, você está parecendo um fantasma. 
  
A tenda do casamento havia sido montada do lado da Casa Grande da Fazenda dos Grindelwald e estava lotada de convidados. Gellert não havia economizado recursos para montar uma festa digna do seu sobrenome, com tudo o que houvesse de melhor. A tenda aonde aconteceria a cerimônia havia sido enfeitada com muitas velas e flores e, contígua à ela, uma segunda tenda, ainda maior, havia sido preparada para o banquete que ocorreria após o casamento, com várias mesas circulares enfeitadas com toalhas bordadas e arranjos grandes de flores.

Parado na tenda menor, em frente ao espaço reservado para os noivos, diante de todos os convidados, Gellert não pôde evitar a ansiedade pela chegada de Albus, afinal de contas, todas as melhores figuras da sociedade estavam ali presentes e seria realmente constrangedor se aquele ômega não aparecesse.

Se perguntou pela milésima vez se não teria sido melhor procurar por um ômega que realmente quisesse se casar com ele.

- Eles chegaram! - Abernathy falou no seu ouvido, fazendo Gellert respirar muito mais aliviado, apesar de todo o nervosismo pelo casamento ainda se manter.

Segurando o braço do irmão, Albus caminhou na direção de Gellert como um cordeiro caminharia na direção do próprio sacrifício.
Mas, apesar de não sorrir, Albus parecia muito calmo, digno, como se estivesse…resignado.

Olhando para Albus pela primeira vez desde o dia em que o acordo fora firmado, Gellert podia ver com clareza porque ele não havia sido capaz de recusar a proposta de Aberforth. Havia algo em Albus que o atraía, algo que ele não saberia explicar. Alguma coisa estava muito bem escondida por trás daquele rostinho plácido e do jeito aparentemente manso daquele ômega e Gellert queria muito descobrir  o que era.

Sem sorrir, mas ainda assim claramente satisfeito, Aberforth entregou seu irmão para Gellert e ele se inclinou para beijar suavemente a ponta dos dedos de Albus antes de falar em seu ouvido:

- Você está muito bonito…

E o rosto de Albus adquiriu uma leve coloração rosada que Gellert achou adorável.

Gellert não largou a mão de Albus durante toda a cerimônia. Durante os primeiros minutos, ela parecia muito fria, denunciando o nervosismo que o ômega fazia questão de não demonstrar, mas, com o tempo e o contato com a pele quente de Gellert, foi ficando morna e, quando o cerimonialista finalmente os declarou casados, o encaixe das mãos já estava tão confortável que Gellert até se ressentiu quando Albus afastou a sua com delicadeza.

Sob os aplausos e cumprimentos dos convidados, os dois seguiram para a tenda onde seria realizada a comemoração, enquanto todos os demais convidados foram direcionados para seus respectivos lugares numa das mesas para aproveitar o banquete que em breve seria servido.

- Vamos, precisamos cumprimentar os convidados. - Gellert falou, colocando uma taça de champanhe na mão de Albus antes de encher a sua - Há muita gente importante para os meus negócios, de modo que eu agradeceria se você fosse o mais gentil possível com eles, ou que pelo menos não me envergonhasse.

- Não se preocupe, farei o meu melhor. - Albus respondeu, muito sério  - Afinal, o senhor pagou bem caro por esta mercadoria e seria uma pena se ficasse decepcionado logo no primeiro dia.

- Não pense que suas palavras me ofendem... - Gellert respondeu sem alterar o tom de voz, apontando na direção de uma das mesas - Se eu te comprei, é sinal de que o senhor estava à venda.

Albus encolheu os ombros:

- Não por minha vontade.

- Veja pelo lado bom. - Gellert falou, muito sério - Pelo menos agora o senhor está livre daquele que te vendeu.

- Mas não do que me comprou.

- Não é como se eu estivesse esmagando o seu pulso agora, não é verdade? - Gellert perguntou, mal humorado, mas, antes que Albus pudesse responder alguma coisa, ele já estava recebendo os cumprimentos efusivos de um convidado.

Albus de fato não o envergonhou, muito pelo contrário. Cumprimentou os convidados com muita gentileza, e se mostrou bem agradável durante toda a conversação, sem se dignar, contudo, a olhar uma única vez na direção dele. Erudito, sabia falar sobre praticamente qualquer assunto com maestria, mostrando que não, ele não era nada estúpido e que sim, sabia conversar muito bem.

Gellert só não tinha tanta certeza se Albus gostaria de conversar com ele sobre qualquer assunto que fosse.

Não que ele fizesse tanta questão assim de conversar.

Quando o banquete foi finalmente servido, Gellert o levou pelo braço até a mesa reservada aos noivos e Albus viu um prato ser colocado na sua frente: lombo de porco assado com pancetta crocante, batata doce confitada e alho.

- Não vai comer? - Gellert perguntou ao se dar conta de que Albus não tocava no seu prato.

- Estou sem apetite.

- Se fosse você, eu comeria. - Gellert sugeriu antes de enfiar um farto pedaço de porco na boca, mastigar sem pressa e engolir - Vai precisar de energia para mais tarde.

Albus não disse nada, apenas fechou os olhos diante da sugestão de Gellert, mas o gesto de desagrado não fugiu à percepção do alpha:

- Eu acho que deixei bem claro quais eram as minhas intenções com este casamento, não deixei?

Albus estendeu a mão para sua taça d’água:

- Se for o caso, acredito que as nossas núpcias terão que ser adiadas.

Gellert olhou para Albus:

- Como é que é?

- Lembro-me bem que o senhor disse que queria ter filhos. - Albus bebeu um pouco d’água - Acontece que eu não estou no cio.

Gellert abriu a boca, perplexo:

- Seu irmão me garantiu…

- Meu irmão estava enganado.

Gellert colocou os talheres na mesa.

- Venha comigo. - falou, friamente.

- Para onde?

- Para o quarto.

- O quê? Agora? Por que?

- Sim, agora. - e Gellert se levantou da cadeira e, logo em seguida, puxou a cadeira de Albus pra trás para que ele também levantasse.

Os dois deixaram a tenda e caminharam apressados na direção da casa e, uma vez lá dentro, Gellert indicou o caminho, subindo um lance de escada e atravessando um longo corredor, até chegarem a um quarto no interior da casa.

- Nosso quarto. - Gellert explicou enquanto trancava a porta - seu irmão já mandou suas coisas, estão todas arrumadas no armário.

Albus olhou em volta. O quarto era amplo e de decoração simples. Alguns armários, uma poltrona, dois criados-mudos, um tapete oval e uma cama bem grande que parecia não se encaixar muito bem com o posicionamento da decoração. Pelo visto, Grindelwald pensara em todos os detalhes, até havia providenciado uma cama suficientemente grande e agora o móvel pairava entre os dois, exigente, fazendo a tensão de Albus aumentar ainda mais.

Gellert olhou para o ômega e havia gelo no seu olhar:

- Tire a roupa. - ordenou, seco.

Albus deu um passo atrás:

- O quê?

- Você ouviu.

- Eu já te disse que não estou no cio, não acredita em mim?

- Não! Tira a roupa!

Albus olhou para o marido por alguns instantes, como se esperasse que Gellert se desse conta de que aquilo era um absurdo, mas ele parecia irredutível, parado ali, de braços cruzados, apenas esperando que obedecesse àquela ordem espúria. Humilhado, os dedos trêmulos de Albus procuraram o primeiro botão da túnica e tentaram abri-lo sem muito sucesso.

Exasperado, Gellert observou Albus abrir os botões lentamente e com nítida dificuldade até perder de vez a paciência, dar três passos na direção dele e puxar a parte de cima da túnica com tanta força que os botões pularam para todos os lados, expondo todo o pescoço e um pedaço do peito de Albus.

Branco de susto, o ômega não moveu um único músculo quando Gellert se inclinou para cheirar o seu pescoço, apenas fechou os olhos e  estremeceu ao senti-lo próximo daquela região tão sensível.

- Nada… - Grindelwald grunhiu, se afastando - Cheiro nenhum!

Gellert deu alguns passos irritados pelo quarto, chutando para longe uma lixeira que encontrou pelo caminho e, sem dizer nada, saiu do quarto, batendo a porta atrás de si ruidosamente.

Suspirando, Albus retirou a túnica rasgada e a roupa de baixo, ficando completamente nu. Um espelho de corpo inteiro do lado da cama chamou a sua atenção e ele andou na direção dele, olhando o seu reflexo por alguns segundos antes de retirar todas as joias e desfazer o penteado.

Por último, retirou a aliança de casamento do dedo e atirou-a longe.

Uma nova vida começaria para ele amanhã. Preparado ou não, Albus teria que enfrentá-la.

----- CHAPTER BREAK -----

Albus virou numa ruela muito escura, onde encontrou um sobrado caindo aos pedaços. Respirando fundo, subiu uma escadinha de ferro, tentando ignorar o barulho desconcertante que ela fazia a cada degrau vencido.

Sabia que escapar da fazenda pelas costas de Aberforth para vir se meter no local mais obscuro da cidade era um risco considerável para um ômega não marcado, mas era isso ou ter que se submeter aos apelos dos seus próprios hormônios. 
Seu casamento estava marcado para a semana seguinte e Albus já podia sentir seu corpo reagir frente à mera expectativa de se unir a um alpha, m
as ele não estava disposto a se submeter à humilhação de implorar a um alpha por um pouco de alívio.

No final da escadinha de ferro, encontrou uma porta de madeira semi-apodrecida e apertou o botão da campainha ao lado dela três vezes antes de perceber que ela estava quebrada.

Bateu na porta com força e esperou.

Um homem muito baixo e descabelado, vestido com um roupão felpudo e listrado de vermelho, preto e amarelo abriu a porta para ele, sorrindo largo ao vê-lo.

- Entre, entre. - ele falou, abrindo mais a porta para Albus passar, olhando com cuidado para todos os lados antes de bater a porta.

Albus olhou em volta: o lugar era realmente digno da clandestinidade do que aquele homem fazia ali. Era escuro, sujo e bem desagradável, decorado com móveis quebrados e empoeirados, um cheiro terrível de comida apodrecida dominava todo o local.

- Mundungus Fletcher, seu criado. - o homem estendeu a mão depois de limpá-la num pedaço de pano encardido - É claro que um Dumbledore como o senhor dispensa apresentações… mas não se preocupe, a discrição é essencial para o meu trabalho.

Albus apertou a mão estendida, sorrindo amarelo, mas na cabeça dele havia apenas um interesse:

- Você tem o que eu preciso?

Mundungus fez uma cara infeliz:

- O senhor sabe, né? Supressores são proibidos por estas bandas, então é muito difícil conseguir um cuja a aplicação não seja tão dolorida e que realmente funcione.

- Eu só preciso que funcione. - Albus falou, atirando uma bolsa cheia de dinheiro vivo na direção do homem.

Fletcher pegou o dinheiro e o escondeu no casaco rapidamente antes de continuar a falar:

- Huum… bem corajoso, não? -  deixou escapar um assobio de admiração - Bem… se dor não é um problema, então acho que posso te ajudar. Vem comigo.

Albus o seguiu com cautela, olhando para todos os lados, desconfiado. Mundungus abriu uma porta e fez um sinal para que ele entrasse numa sala de azulejos brancos muito encardidos, onde havia uma cadeira reclinável de couro rasgado e uma mesinha de ferro do lado.

- Sente-se ali. - Mundungus falou e Albus obedeceu imediatamente. O homem mexeu nas engrenagens enferrujadas da cadeira para que ela se reclinasse com um rangido desagradável e então revirou um armário atrás de alguma coisa - Não se preocupe, o material é todo descartável.

Albus duvidava muito que aquilo fosse verdade.

Uma seringa com um líquido âmbar e uma agulha grossa e muito grande surgiu na mão de Mundungus:

- Você precisará de uma dessas por mês. - ele avisou.

- Me ensine a aplicar.

- É bem difícil aplicar sozinho.

- Eu me viro.

- Está certo… - Mundungus se inclinou na direção de Albus e seus dedos ásperos beliscaram a pele do pescoço - a agulha deve entrar… aqui.

E Albus fechou os olhos quando o líquido foi injetado no seu pescoço, sem
conseguir conter as lágrimas quando uma dor aguda se espalhou por toda a região.

- É uma dor danada mesmo… - Mundungus comentou, solidário, enquanto passava um algodão embebido com álcool no local onde ele havia espetado a agulha.

- Desde que funcione… - Albus comentou, sua voz deixando claro a dor que ainda sentia.

- Oh, sim, isso eu posso garantir. - Mundungus deu uma risadinha - Nada de cios enquanto você estiver usando essa belezinha. Quantos você vai querer?

Albus tocou o pescoço dolorido:

- Quantos você tiver para vender. 
  
Albus acordou sozinho na manhã seguinte. Horas de vigília, esperando pelo retorno de Gellert até cair dormindo de pura exaustão para só acordar, assustado, quando o sol já atravessava a janela do quarto, ao sentir um peso ao seu lado da cama. Um cheiro fortíssimo de álcool invadiu suas narinas e ele não resistiu a olhar discretamente para o lado: Gellert estava deitado de costas para ele, ainda com a roupa do casamento e parecia dormir profundamente.

Aliviado, Albus fechou os olhos e, de tão emocionalmente exausto, voltou a dormir quase que de imediato.

A primeira coisa que viu ao acordar foi  sua aliança de casamento, a mesma que ele havia atirado longe na véspera, agora em cima do criado-mudo. Albus a ignorou por completo e foi direto para o banheiro onde tomou um longo banho de banheira, tentando esvaziar a mente e relaxar um pouco na água morna.

Ao final, se embrulhou num roupão felpudo e saiu do quarto ainda secando o cabelo numa toalha, tão distraído que nem reparou que Gellert estava no quarto, olhando fixamente para ele.

- Minha nossa, você me assustou! - Albus colocou a mão no peito quando sua visão periférica bateu na figura loira parada na porta.

- Bom dia. - Gellert falou - Você não vem tomar café da manhã?

- Não estou com fome, obrigado. - reparando que Gellert havia deixado de lado o tratamento de senhor.

- Você já não comeu nada ontem, não é bom ficar tanto tempo sem nada no estômago.

Albus olhou para Gellert por alguns segundos:

- Preocupado com a mercadoria?

Gellert revirou os olhos de impaciência:

- Por que você insiste em se dar este tratamento?

- Gosto de dar os nomes certos às coisas.

- E onde estaria o erro em dizer que estou preocupado com o bem estar do meu ômega? - Gellert rebateu, enquanto caminhava pelo quarto.

- Eu não sou seu. - Albus respondeu, friamente.

O olhar que Gellert deu na direção do seu pescoço ao ouvir aquela frase foi tão intenso que Albus sentiu como se ele fosse pular em cima dele e mordê-lo ali mesmo, mas, de alguma forma, ele se conteve. Num instinto, Albus jogou sua toalha sobre os ombros na tentativa de esconder o pescoço o máximo que pôde.

Gellert então desviou o olhar e andou até o criado-mudo de Albus, onde pegou a aliança de casamento abandonada, antes de responder:

- De fato, apesar de sermos casados, você ainda não é meu. - disse - E eu não pretendo te tocar, muito menos te marcar enquanto você não estiver no cio, me implorando por isso. Por favor, retribua a gentileza se comportando como o ômega casado que você é.

Ato contínuo, ele estendeu a aliança para que Albus a pegasse. Hesitante, o ômega pegou a aliança na mão do alpha e a colocou no dedo sem dizer uma palavra.

- Obrigado… - Gellert falou - E agora, se arrume e desça para tomar café da manhã. Imagino que o receio da minha companhia esteja afetando o seu apetite e vou tratar de privá-lo dela por alguns minutos. Depois, quero te mostrar a propriedade e apresentar os empregados.

Albus assentiu brevemente, mas antes que Gellert partisse, perguntou:

- O senhor não acha que seria mais… conveniente se nós dois tivéssemos quartos separados? Eu não preciso de um quarto grande e…

- Não, não acho. - Gellert interrompeu, bruscamente.

- Por que não? Nós dois teríamos mais privacidade.

- Você fica aqui. - Gellert reforçou - Comigo.

Após dizer isso, Gellert bateu a porta do quarto, deixando Albus sozinho. O ômega deixou escapar um suspiro antes de se vestir com uma túnica colorida, tomando o cuidado de enrolar seu pescoço com um lenço para não gerar nenhum tipo de comentário indesejado. Se manter as aparências era tão importante para Gellert, então ele não se oporia. Mas, claro, sua colaboração iria até o momento em que isso pudesse servir de moeda de troca.

Saiu do quarto e andou meio perdido pela casa, até uma belíssima governanta vir sorridente ao seu encontro:

- Bom dia. Meu nome é Vinda e o Sr. Grindelwald me incumbiu de te ajudar em tudo o que senhor necessitar.

- Ah, olá, Vinda. É um prazer. Agradeço pela gentileza. - Albus sorriu para a moça.

- Vamos comer alguma coisa? - ela convidou, gentil - A mesa do café da manhã está a sua espera.

- Obrigado, mas não vou comer nada.

- O que o senhor gosta mais de comer? - ela
insistiu - Eu posso preparar qualquer coisa que o senhor quiser…

- Sei que o seu patrão está preocupado, mas eu realmente não quero comer nada agora. - Albus assegurou - Estou enjoado e sem apetite.

- Enjoado? - Vinda perguntou e a cara de “já?” que ela fez falou por si só.

- Não esse tipo de enjoo. - Albus apressou-se a dizer, mas, pelo visto, não com a convicção necessária para convencer a governanta - Ok, eu acho que vou comer alguma coisa então.

Mastigando os ovos mexidos preguiçosamente, Albus se perguntou se não havia sido manipulado por Vinda, mas deixou a dúvida de lado quando ela trouxe uma éclair de chocolate tão bonita, tão bonita, que, mesmo estando um pouco enjoado, ele não foi capaz de resistir.

- Vejo que Vinda cumpriu a missão de te fazer comer um pouco. - Gellert comentou, satisfeito, ao entrar na sala e ver Albus mastigando o último pedaço do doce. Atrás dele, vinha outro empregado, bem baixinho e com um chapéu de cowboy na cabeça.

Albus limpou a boca com um guardanapo, admitindo a derrota:

- Ela sabe bater onde mais dói. - comentou, sorrindo para a governanta.

- E é por isso que minha querida Vinda nunca falha numa missão. - Gellert falou, orgulhoso - Nem ela e nem o meu amigo Abernathy aqui. - e ele bateu no ombro do empregado, que retirou o chapéu e se inclinou respeitosamente para Albus.

- Muito prazer, Sr. Grindelwald. Conte comigo para o que precisar. - Abernathy falou, solícito.

- Então comece por não me chamar de Sr. Grindelwald. Albus está ótimo.

- Sim, sim, senhor. - Abernathy apressou-se a falar.

- Ai, a parte do senhor também não é necessária, afinal de contas, eu sou só um ômega, não é mesmo?

- Você é meu ômega. - Gellert logo intercedeu - E os meus empregados vão te tratar com todo o respeito que um ômega meu merece.

Em respeito ao acordo que os dois haviam feito no quarto, Albus decidiu não fazer nenhum comentário.

Gellert então fez questão de mostrar todos os cômodos da casa para Albus.

- E esta é a maior suíte da casa. - ele falou, ao abrir a porta do último cômodo, no final do corredor.

- Pensei que a maior suíte fosse a sua.

- A nossa é a segunda maior. - Gellert explicou - Este era o quarto dos meus pais. Você deve saber, né? O que aconteceu…

Albus sabia. Todo mundo na cidade sabia e Ariana lhe contou no mesmo dia em que ele voltou, depois de anos longe da cidade. Os pais de Gellert tinham morrido tragicamente num naufrágio quando ele tinha apenas dezesseis anos, deixando uma enorme fortuna nas mãos do menino.

Albus olhou para o interior do quarto. Tinha toda cara de que não havia sido mexido desde a partida dos seus últimos ocupantes, o que tornava a visão do cômodo bastante melancólica.

- Eu sinto muito. - Albus falou, sincero.

- Seu irmão me contou que vocês também perderam os pais muito cedo. - Gellert respondeu, ainda olhando para o quarto - Temos isso em comum.

Oh, sim. Aberforth gostava de contar que seus pais haviam morrido muito cedo e deixado dois fardos pesados para ele carregar. O que ele não gostava tanto de contar é que o pai tinha morrido na cadeia depois de se vingar de uns sujeitinhos que haviam atacado sua mãe. Tampouco gostava de falar que a mãe deles havia morrido num hospital psiquiátrico anos depois. As tragédias dos Dumbledore, ao contrário das dos Grindelwald, eram impublicáveis.

- Vamos? - Gellert finalmente perguntou, fechando a porta do quarto - O que você quer ver primeiro? Gosta de cavalos? Que tal conhecer o estábulo?

Se ele gostava de cavalos? Albus gostava mais de cavalos do que qualquer outra coisa no mundo!

- Não… me mostre qualquer outro lugar, sim? - foi a resposta que ele se ouviu dando a Grindelwald, contudo.

Nunca mais permitiria que usassem os animais que ele tanto adorava para atacá-lo. Este ponto fraco, ele manteria escondido o máximo que conseguisse.

Gellert nem tentou esconder uma expressão de desagrado, como se o desinteresse de Albus pelos cavalos o atingisse de alguma maneira, mas não fez comentários, limitando-se a mostrar o resto da propriedade a Albus.

- Espero que você aprenda a gostar daqui. - Gellert falou, por fim - acho que já te apresentei todos os empregados, mas falta o mais importante de todos, ele deve estar lá pelos estábulos, venha.

Caminharam lentamente até um cercado contíguo aos estábulos onde um homem fazia gestos amplos com a mão enquanto mais três empregados puxavam um belo cavalo castanho extremamente reativo.

- Anton! - Gellert gritou, fazendo o homem se voltar na direção deles e acenar - Venha aqui, por favor!

O homem fez um sinal para que os outros empregados segurassem o cavalo enquanto corria na direção deles.

- Quero apresentar… Albus, este é o feitor dessa fazenda e responsável pela administração de todas as minhas propriedades, Anton Vogel. Ele trabalha aqui desde os tempos dos meus pais.

O homem fez uma reverência tão profunda que Albus imediatamente a interpretou como zombeteira. Sem parecer se dar conta da tensão que se formava entre eles antes mesmo de trocarem uma só palavra, Gellert continuou:

- Anton, este é…

- Ah, seu ômega dispensa apresentações, patrão. - ele falou com um sorriso de canto de boca - Não há quem não comente na fazenda sobre a chegada de Albus Dumbledore, agora Albus Grindelwald… realmente uma presença que chama a atenção por si só.

- Só Albus está ótimo. - Dumbledore falou, desconfortável com o jeito que aquele homem olhava para ele. Uma mistura de desdém, zombaria e… algo mais.

- Tudo bem, senhor. Estou aqui à sua disposição caso precise de alguma coisa, nem que seja de alguém para te levar na cidade para o senhor comprar umas roupas bem bonitas que nem essa que está usando agora.

- Sei muito bem o caminho do centro da cidade, obrigado. - Albus recusou, gentilmente.

- Ah, mas não fica bem um ômega casado andar sozinho por aí, não é verdade, Gellert?

Gellert pareceu ter sido pego de surpresa pela pergunta, como se ainda não tivesse pensado sobre aquilo e então, optou pelo caminho mais fácil:

- Ah, sim, claro… é até mais seguro ir acompanhado.

- Não será preciso. - Albus insistiu, sem gostar nada do rumo daquela conversa - De qualquer maneira, eu não costumo sair muito de casa, no máximo vou até a biblioteca pegar alguns livros emprestados de vez em quando.

- Ah, essas coisas que esses ômega de hoje dia fazem… eu não entendo mais nada, vou é voltar para o trabalho. - Vogel comentou e Albus se perguntou se aquele sujeito considerava que ler não era coisa para ômega.

- Este cavalo novo tá dando trabalho, hein? - Gellert comentou antes que Vogel se afastasse.

Se Albus ainda estava com alguma dúvida sobre gostar ou não daquele homem, ela se acabou por completo no momento em que ele puxou o chicote  e respondeu:

- Um pouco. Ele não aceita montaria. - falou e então bateu o chicote na própria mão - mas eu vou ensinar para ele quem é que manda aqui e garanto ao senhor que ele vai entrar na linha rapidinho.

Albus não pôde evitar uma expressão de puro horror:

- O senhor pretende… bater nele? - perguntou.

- Ué, mas é claro! Vai entrar no relho até ser domado. - Vogel respondeu como se fosse muito óbvio.

Albus olhou para Gellert, como se esperasse algum tipo de intervenção, mas ele apenas falou:

- Anton sabe o que faz…

E os olhos de Albus demonstraram tanto assombro que Vogel percebeu e, com uma risada, comentou:

- Vocês ômegas não entendem muito desse tipo de coisa. Natural. Melhor olhar para o outro lado para não ficar muito impressionado.

Foi a gota d’água. Uma fúria silenciosa tomou conta do espírito de Albus, mas sua voz saiu calma como sempre quando ele falou:

- Eu posso domar este cavalo.

Os dois alphas olharam para ele com expressões de assombro muito parecidas, Vogel desatou a rir:

- O senhor? - Vogel perguntou entre as risadas - Oh, não… o senhor vai me desculpar, mas isso não é assunto de ômega. Na minha humilde opinião, não gosto nem de ver ômega montar. É perigoso demais. Veja a tragédia que aconteceu com a pobre da sua irmã…

Ouvir aquele homem falar da sua irmã provocou uma repulsa tão grande no coração de Albus que ele imediatamente virou a cara para ele, procurando apenas o olhar do seu marido:

- Me deixa domar esse cavalo. - pediu, seus olhos tão cheios de expectativa que Gellert ficou imediatamente desconfortável:

- Mas, Albus… você pode se machucar… se quiser montar, tenho muitos cavalos bastante dóceis, você pode escolher o que quiser…

- Não quero montar. Quero domar este cavalo. - e então ele olhou para o alpha - Senhor Grindelwald… por favor…

Por alguns segundos, Gellert pareceu um pouco indeciso, até soltar um suspiro conformado e consentir:

- Muito bem, mas se você se machucar só uma vez, a brincadeira acaba.

- Isso não é uma brincadeira e eu não vou me machucar, não se preocupe. - Albus respondeu.

A expressão de Vogel era a mesma de um adulto que vê uma criança tentar fazer qualquer coisa avançada demais para a idade: curiosa e divertida, como se de antemão já esperasse que o ômega fosse falhar. Albus desejou como nunca que ele engolisse aquele sorriso cheio de dentes.

- Sua túnica não é adequada para montaria. - Vogel sugeriu, ainda com um sorriso no rosto.

- Não se preocupe com isso.

E Albus então pulou o cercado com tanta desenvoltura que arrancou um assobio de admiração de Vogel.

- Parem de puxar. - Albus pediu aos demais empregados.

- Mas, senhor…

- Eu cuido dele. - Albus falou, muito seguro.

Os empregados olharam na direção de Vogel e ele fez um gesto desdenhoso para que obedecessem. Só então eles largaram as rédeas e deixaram o cavalo totalmente livre

- Seu ômega vai acabar levando uma bela de uma mordida. - Vogel comentou com Gellert ao ver Albus esticar a mão na direção do animal para que ele o cheirasse.

- Hum… não tá parecendo… - Gellert respondeu com um meio sorriso e, quando Vogel olhou de novo, o cavalo já estava aceitando um carinho.

- Hum… que sorte… - Vogel comentou.

- Ele parece saber o que está fazendo. Está muito tranquilo. - Gellert comentou - O cavalo deve sentir isso…

- Sente nada… - Vogel comentou, balançando o chicote - Mas isso aqui, eu posso garantir que ele sente muito bem…

- Albus não parece estar precisando.

- Isso aí é fácil. Quero ver ele conseguir montar. Esse cavalo já botou no chão dois peões, por isso que eu estava prestes a tratar do assunto pessoalmente.

- Estou vendo que vocês conseguiram selar o cavalo. - Albus comentou de onde estava, sem deixar de acariciar o animal.

- Com algum custo. - Vogel respondeu.

- Posso imaginar…

Albus então apenas levantou o pé, como se fosse pisar no estribo, mas somente aquele simples movimento fez o cavalo empreender uma fuga.

- Ele está bem assustado. - Albus comentou e Vogel não conteve uma risadinha.

Durante longos minutos, Albus apenas levantou a perna ao lado do animal de novo e de novo, para que ele se acostumasse com o movimento. Vogel acompanhou tudo com um ar divertido, dando uma risada saborosa ao vê-lo dando pulinhos ao lado do cavalo.

- Pelo visto, seu ômega não vai desistir tão fácil de brincar de cavalinho. - Vogel comentou, mordaz - Tenho muito trabalho… você me chama se acontecer alguma coisa.

- Pode deixar. - Gellert respondeu, distraído, mais preocupado em olhar os movimentos de Albus.

O tempo passou e quando Vinda os chamou para o almoço, Albus recusou o convite, forçando Gellert a dar de ombros e ir sozinho, já convencido de que Vogel tinha razão sobre o ômega não conseguir domar aquele cavalo, mas ser teimoso demais para admitir isso. A essa altura, Albus apenas levantava a perna e colocava o pé no estribo, sem fazer força, mas o cavalo reagia nitidamente mal.

De volta para casa, Gellert foi almoçar e tratou de esquecer do assunto por alguns minutos.

As primeiras tentativas de fazer peso no estribo foram recebidas com o cavalo levantando a cabeça de desconforto, mais algumas e ele virava o pescoço na direção dele, desconfiado. Com paciência, Albus acariciou o bicho até ele se acalmar e então, começou de novo, repetindo o movimento, fazendo peso no estribo e depois voltando para o chão até que o animal se habituasse.
O próximo passo era jogar a barriga por cima da sela, mas a primeira tentativa acabou numa fuga. Ao se aproximar de novo, Albus teve a nítida impressão de que o cavalo estava com medo de apanhar e já imaginou como devia ter sido selar aquele animal.

- Está tudo bem, amigo… tudo bem… - ele falou, acariciando novamente o animal - Vamos um pouquinho mais devagar se você quiser…
  
Quando Gellert voltou do almoço, disposto a convencer Albus a desistir ou pelo menos descansar um pouco, mal pôde crer nos seus próprios olhos ao ver Albus rodando devagar pelo cercado, montado no cavalo.

- Ele conseguiu… - Gellert sorriu, admirando a beleza de Albus e seus belos cabelos vermelhos esvoaçando com o vento. Nem mesmo a túnica havia sido um obstáculo e ele montava com tanta graça que era simplesmente impossível tirar os olhos dele.

Gellert então olhou Albus cavalgar com destreza e suavidade, como se ele e o cavalo fossem um só. Pensou que, embora Albus também estivesse muito bonito no casamento, nada se comparava com aquele momento, em que ele parecia genuinamente feliz, seus cabelos brilhando ao sol e a face um pouco avermelhada pelo esforço e o calor.

- Hum… aposto que o cavalo só vai aceitar o ômegazinho. - a voz debochada de Vogel se fez ouvir por trás dos ombros de Gellert.

- Algum de vocês dois quer montar? - Albus ofereceu, animado, ao ouvir aquele comentário.

Gellert nem sequer queria que Albus parasse de galopar. Seus olhos se enchiam da visão de Albus rodando pelo cercado, mas, para o seu desgosto, ele parou bem perto deles e desmontou.

- Bom menino, bom menino. - Albus elogiou, fazendo carinho no cavalo.

Gellert então pulou o cercado e, tomando as rédeas das mãos de Albus, montou no cavalo sem dificuldades, cavalgando mansamente pelo cercado.

- Dócil e obediente. - Gellert comentou ao desmontar - Parabéns, Albus, você realmente conseguiu.

Albus retribuiu o sorriso de Gellert, enquanto Vogel dava uma risadinha de puro desdém.

- Cheguei a pensar que você não gostasse de cavalos. - Gellert comentou após desmontar.

- Não gosto, nem desgosto. - Albus mentiu.

- Você parecia muito feliz montando aquele cavalo. - Gellert comentou - Aliás, é a primeira vez que te vejo realmente feliz.

- Fiquei feliz por mostrar para um alpha arrogante que um ômega é perfeitamente capaz de domar um cavalo. E o senhor não deveria deixar ele maltratar seus cavalos.

- Anton é das antigas, mas isso não quer dizer que ele maltrate os cavalos.

- Ele disse com todas as palavras que ia domar o cavalo com o relho…

- Como eu disse, ele é das antigas…

- Pois eu teria domado o cavalo bem mais depressa se ele não estivesse com tanto medo de apanhar…

- Impressão sua…

- Não é impressão minha. - Albus insistiu - Meu irmão teve uma criação, então entendo um pouquinho de cavalos.

Isso chamou a atenção de Gellert:

- Teve? Não tem mais?

- Não. Desde a morte de Ariana. - Albus explicou, fechando os olhos brevemente ao ouvir o barulho dos tiros do rifle de Aberforth reverberarem na sua cabeça.

- Ah, não sabia… - Gellert respondeu - compreensível.

Albus olhou para Gellert:

- Os cavalos não têm culpa nenhuma… - falou, sombrio.

- Não quis dizer que tiveram. - Gellert explicou ao ver que Albus havia se aborrecido com o seu comentário  - Só disse que é compreensível não querer mais criar cavalos depois do que aconteceu. Mas, mudando de assunto, você não quer almoçar?

- Quero conhecer os estábulos. - Albus respondeu, muito sério.

Gellert olhou para o Albus, atônito:

- Antes você não queria, agora quer… vai entender…

Antes, Albus não havia conhecido Anton Vogel.

----- CHAPTER BREAK -----

- Vê se presta atenção que eu não vou explicar de novo, Jacob. - Aberforth falou, mal humorado - você vai transferir esta cerca daqui, para o outro lado do rio.

- Mas, doutor, eu tenho quase certeza que essa parte do rio é da propriedade do Sr. Grindelwald. - Jacob respondeu, baixinho.

- E eu tenho quase certeza que isso aqui faz parte das minhas terras e vou resolver este problema agora mesmo! - Aberforth respondeu, irritado - E você não discuta comigo! Se eu estou mandando transferir a cerca, você cala a boca e transfere a cerca, oras!

- Sim, senhor. - Jacob apressou-se a dizer - Vou começar agora mesmo, senhor!

E assim que Jacob começou a cortar o arame farpado com um alicate, os dois ouviram um barulho estranho.

- Quem tá aí? - Aberforth perguntou, alerta.

- Deve ser uma raposa… - Jacob sugeriu, medroso.

- Ou algum curioso… mas eu vou resolver isso num instante.

Aberforth então puxou o cão do rifle e atirou na direção do barulho sem pensar duas vezes, fazendo os ombros de Jacob pularem de susto com o estampido inesperado.

- Pronto… seja o que for, com certeza correu. - falou, triunfante - E agora, ao trabalho! Quero isso terminado antes do casamento da Ariana. 
   
Albus deixou os estábulos muito sério e
em total silêncio. Definitivamente, não era a reação esperada por Gellert. O alpha esperava deslumbramento, admiração, até êxtase.

- Você realmente não gosta muito de cavalos, não é mesmo? - Gellert perguntou.

- Por que o senhor diz isso isso?

- Porque eu te mostrei alguns dos cavalos mais bonitos da região, muitos deles campeões e você não disse uma palavra.

- Lamento… estava mais preocupado com outras coisas.

- Quais coisas? Se incomoda de dizer?

Mas, ao invés de responder, Albus optou por fazer outra pergunta:

- Gostaria de convidar uma pessoa para nos visitar amanhã, o senhor acha possível?

Gellert olhou para o ômega, atônito. Por mais que ele tentasse, não conseguia ver nenhum sentido nas atitudes de Albus. Primeiro ele havia dito que queria ver tudo menos os estábulos, depois pediu especificamente para ver os estábulos. Tudo isso para manter uma cara de enterro durante toda a visita e de quebra ainda pedir para receber alguém?

- Isso não pode esperar? - perguntou - Teoricamente, nós dois ainda estamos em lua-de-mel.

- Não, não pode esperar. - Albus falou imediatamente - É muito importante.

- E quem seria essa pessoa?

- Um amigo.

A sobrancelha direita de Gellert se levantou imediatamente:

- Amigo?

- Sim, ele trabalha na cidade como veterinário. O nome dele é Newt Scamander.

- Scamander… não conheço…

- Pois deveria. Ele é muito competente no que faz.

- Não precisamos de veterinário. Anton é o veterinário da fazenda.

E isso, de alguma forma, despertou a atenção de Albus:

- Ele é o veterinário responsável?

- Eu sei, eu sei que ele acumula muitas funções. Mas o que eu posso fazer? Ele é quem faz essa fazenda funcionar. Até a contabilidade é responsabilidade dele. As coisas aqui funcionam graças a ele. Eu não preciso fazer nada, além de acompanhar os cavalos para as competições e fechar bons negócios em leilões.

- Hum… - Albus juntou as ponta dos dedos, pensativo - e o senhor confia mesmo nele, não é verdade?

Gellert deu ao tema dois segundos de reflexão antes de responder:

- Assim como o meu pai confiava.

- Entendo… - Albus assentiu com a cabeça - e então? Posso convidar esse meu amigo, Sr. Grindelwald? Juro que ele não vai atrapalhar em nada.

- Com uma condição. - Gellert respondeu, muito sério - que você pare me tratar como senhor. Só Gellert está ótimo.

- Combinado. - Albus respondeu com um pequeno sorriso.

- Ah, pelo menos isso. - Gellert comentou, de repente parecendo satisfeito - Estava o dia inteiro tentando. Finalmente obtive algum sucesso.

- Obteve sucesso em quê? - Albus quis saber.

- Em te fazer sorrir.

Albus piscou de surpresa, mas Gellert já havia se adiantado em direção da casa. 
  
Gellert sequer ficou surpreso quando Albus declarou que não queria jantar e que iria direto para cama.

- Ele tem andado enjoado, sabe? - Vinda comentou em tom de mexerico.

Gellert detestaria acabar com a animação de Vinda, afinal de contas, ela estava tão ou mais ansiosa do que ele para ver uma criança naquela casa, então preferiu não comentar que, com certeza absoluta, uma gravidez não era causa dos enjoos de Albus.

Jantou devagar, sem conseguir parar de pensar em Albus. Lembrou-se do jeito elegante com que ele cavalgava, dos seus cabelos vermelhos brilhando sob o sol, dos olhos azuis cintilantes de triunfo por ter conseguido domar o cavalo.

Era como um feitiço: quanto mais Albus o rechaçava, mais ele se sentia atraído por ele. 
Gellert se lembrou que logo estaria deitado na cama ao lado de Albus e se pegou esperando sentir pelo menos um pouco do doce perfume que havia sentido no dia em que o conheceu. Sentindo-se patético por pensar assim, Gellert se levantou da mesa, deu boa noite a Vinda e foi para seu quarto, tentando não parecer muito ansioso. Mas quando abriu a porta, deu com uma visão inesperada. Albus havia estendido um cobertor no chão, ao lado da cama, e deitado em cima dele, encolhido e visivelmente desconfortável.
A mensagem era clara: ele preferia deitar no chão duro e frio a dormir ao lado dele.

Sentindo-se desrespeitado, Gellert pensou em acordar aquele ômega e colocá-lo em seu devido lugar: ao lado dele da cama.

Mas estava cansado demais para enfrentar mais um embate. Se Albus queria dormir no chão, tanto melhor, sobrava mais espaço para ele.

Tentando se consolar com aquela mentira, Gellert deitou-se na cama e fez força para dormir.
  
No dia seguinte, foi Gellert que acordou sozinho no quarto. Surpreso por ver que Albus havia acordado antes dele, vestiu um roupão na esperança de encontrá-lo ainda tomando café da manhã.

- Ele saiu há meia hora. - Vinda explicou enquanto enchia sua xícara com leite - Tomou café muito rápido e foi receber o amigo dele, Dr. Scamander.

- Ah! O veterinário… não sabia que ele viria tão cedo. Você sabe aonde eles estão agora?

- Estou quase certa de que ouvi o Sr. Albus comentar que iriam aos estábulos.

- Aos estábulos, é? - Gellert perguntou, pensativo - Por que Albus chamaria um veterinário para ver os estábulos?

- Não sei, vai ver ele gostou tanto dos cavalos que quis mostrar para alguém… - Vinda sugeriu  antes de recolher algumas bandejas vazias para levar até a cozinha.

- Albus nem sequer gosta de cavalos…

Vinda apenas deu de ombros antes de sumir da sala, deixando Gellert mastigando um pedaço de bacon frito, pensativo.

- E aí? O que me diz? - Albus perguntou para o amigo.

Newt Scamander mordeu a ponta do lábio, parecendo desconfortável:

- Er… in… infelizmente, você parece ter razão, Albus. Os sinais são discretos, mas bem perceptíveis.

- Veja esta cerca… - Albus apontou para a cerca que fechava uma das baias - a parte de baixo está toda mordida. E este animais aqui… a primeira vista, parecem estar bem…

- Ma… mas estão gordos.

- Vi mais de um cavalo com laminite… - Albus comentou, sombrio.

- Ração de má qualidade, talvez? - Newt especulou - Muito carboidrato?

- Gellert garantiu que os cavalos recebem
a melhor ração do mercado.

Newt se ajoelhou diante de um comedouro, pegou um punhado de ração, cheirou, pegou um grão, mordeu:

- Não parece a melhor ração do mercado…

- Então meu marido está mentindo… - Albus falou, pensativo.

- Ou estão mentindo para o seu marido…

Albus torceu os lábios:

- A parte de trás está com os cavalos mais velhos, que não servem mais para competição ou venda.  Lá a situação se inverte… os cavalos estão nitidamente abaixo do peso.

- De fato, estão magros demais… não devem estar recebendo nem metade da comida que deveriam ingerir todos os dias…

- É como se estivessem esperando que morressem… - Albus falou e seus olhos brilharam numa fúria gelada pelos pobres animais - Mas o que realmente me preocupa é que todos os animais aos quais me aproximei, reagem mal quando eu tento encostar suas orelhas.

- Você está suspeitando…

- Que aqui há o costume de puxar as orelhas dos cavalos como forma de disciplina. - Albus completou - E eu tenho um péssimo pressentimento de que esta é só a ponta do iceberg. Você precisa me ajudar, Newt!

- Te… te ajudar? Mas… como exatamente?

- Gellert parece confiar cegamente no feitor dessa fazenda.  Se eu falar das minhas desconfianças sem nenhum respaldo, ele não vai confiar em mim.

- Bom… o laço de confiança entre um alpha e um ômega é muito forte… - Newt sugeriu, de repente ficando corado.

Albus precisou olhar para todos os lados antes de responder muito baixinho:

- Eu fui naquele lugar que você me indicou… dos supressores.

- Aaah… - Newt falou - Entendo… então vocês ainda não… ainda não têm um vínculo, não é mesmo?

- Não… e no que depender de mim, não vamos ter nunca! - Albus falou, decidido - Se Aberforth não tivesse me impedido, eu teria feito veterinária que nem você e hoje estaria trabalhando com cavalos, do jeito que eu sempre sonhei.

- Você pode não ter um diploma, Albus, mas sabe muito mais de cavalos do que eu…. - Newt sorriu - mas… mas… viver sem um alpha também tem seu custo. Você deveria aproveitar.

- Eu não me importo em ficar sozinho. -  Albus respondeu, resoluto - Não preciso desse tipo de relacionamento na minha vida. Por isso, vou continuar usando supressores até descobrir um jeito de escapar e ter uma vida só minha.

- Você é mesmo muito corajoso, Albus. - Newt elogiou, sincero.

Albus deu um longo suspiro:

- Eu só queria que o meu irmão fosse tão bondoso quanto o seu foi com você. Deixou você fazer faculdade e até pagou pelos seus supressores…

- Reconheço que o Theseus foi mesmo um…
um irmão excelente neste ponto, embora seja um verdadeiro desastre em todos os outros! - Newt falou, arrancando uma risada de Albus - Mas, mesmo que vocês não tenham um vínculo, e… ele ainda é seu marido. Pode ser que acredite em você…

Albus balançou a cabeça:

- Não… Gellert não vai confiar somente na minha palavra… e é por isso que eu preciso de um relatório seu. Detalhado. Completo. Você pode me ajudar com isso?

Newt assentiu com a cabeça imediatamente:

- Vou trazer uma câmera depois do almoço para tirar umas… umas fotos.

Albus abriu um largo sorriso, que foi prontamente retribuído por Newt:

- Excelente! Muito obrigado! - disse - E falando em alphas e ômegas, como vão as coisas com a Tina?

O sorriso de Newt imediatamente se apagou:

- Pensei que iria vê-la no seu casamento, mas seu irmão não liberou os empregados para a festa e… e foi até bom porque eu tive uma cirurgia de emergência e também não pude vir…

Albus pousou a mão no ombro do amigo com um consolo:

- Eu já falei tantas vezes para Tina pedir autorização para cortejar você.

- É.. é mesmo? - Newt perguntou, interessado - E… o que ela diz?

- Que nunca consegue encontrar nem você e nem o seu irmão em casa porque vocês dois estão sempre trabalhando…

- Bom, isso é verdade mesmo. Eu tenho trabalhado bastante e o meu irmão também.

- Mas, sinceramente, eu acho que isso é só uma desculpa. Alguma outra deve estar impedindo ela… eu só não sei o que é…

Newt encolheu os ombros:

- Desse jeito, nós nunca…

- Não desista, meu amigo. - Albus falou, apertando o ombro de Newt um pouco mais - Logo, logo vocês se acertam. E eu ainda vou ser convidado para esse casamento.

E Newt começou a rir só de ouvir a palavra casamento. 
  
Gellert não estava preparado para a visão que teve no momento em que chegou ao estábulo para se encontrar com Albus.

Seu ômega relaxado, com a mão pousada sobre o ombro do tal amigo, sorrindo… Gellert não podia ouvir o que conversavam, mas os dois realmente pareciam muito, muito próximos e contentes.

Tão diferente da postura rígida e desconfiada de Albus para com ele, das falas rancorosas, do olhar frio como o gelo.

Algo ali estava muito errado! Estavam mexendo com o que era dele e Gellert jamais permitiria isso!

Aproximando-se silenciosamente, ele fez os dois se assustarem ao cumprimentar num tom alto demais:

- Ora, ora, ora, que surpresa encontrar o meu ômega e o seu… amigo… por aqui…

- Gellert! - Albus exclamou, surpreendido com o tom quase acusador do alpha - Eu vim… mostrar o estábulo para o Newt… você sabe… ele é veterinário, gosta muito de animais…

- Sei… - Gellert jogou um olhar gélido para o outro, que imediatamente sentiu-se desconfortável.

Albus sinceramente detestava aquela queda de braço tão tipicamente alpha que Gellert pretendia empreender com Newt. Mal sabia ele que estava gastando feromônios com um pobre ômega…

- Muito prazer! - Newt disse, esticando a mão na direção de Gellert - Meu… meu  nome é Newton Scamander.

- E eu sou Gellert Grindelwald, o dono de tudo aqui neste lugar, apesar de não parecer. - ele falou, dando ênfase à palavra “tudo”, fazendo questão de deixar a mão de Newt no ar.

- Be… bem, eu acho que vou indo, Albus. - Newt falou, agora realmente constrangido.

- Obrigado por ter atendido ao meu chamado tão rapidamente, meu amigo. - Albus falou e Gellert odiou o tom de voz tão doce que seu ômega usou com ele.

- Não foi nada, Albus. Adeus! Adeus, Sr. Grindelwald.

- Vai pela sombra… - Grindelwald grunhiu e Albus mal pôde crer nos próprios olhos quando o viu mostrar os dentes de uma forma muito lupina no momento em que Newt deu as costas.

- Você permitiu que o meu amigo viesse apenas para poder maltratá-lo e constrangê-lo? - Albus perguntou, seu tom de voz muito suave, contrastando diretamente com a enorme revolta que sentia.

Mas Gellert estava irritado demais para se importar:

- Eu já percebi que não gosta muito de ouvir isso, mas vou ser forçado a te lembrar que você não se chama mais Albus Dumbledore. Agora você é um Grindelwald, então se comporte como tal.

- Do que você está falando? - Albus perguntou, sem ser capaz de entender o motivo pelo qual Gellert estava tão irritado com ele.

- Não sei se você sempre teve esse hábito de flertar com seus amiguinhos por aí, mas agora você é um ômega casado. Meu ômega!

Albus abriu a boca para dizer que não estava flertando com ninguém, que Newt e ele eram apenas muito bons amigos, que Newt nem sequer era um alpha, mas no fim das contas, ele apenas disse:

- Você age como um perfeito alpha! - e o desprezo gelado com que Albus falou essas palavras atingiram em cheio o ego de Gellert.

- Adivinha só? Eu sou um alpha! - grunhiu - E como todo Alpha que se preze eu cuido do que é meu!

- Eu não sou seu! - Albus repetiu a mesma fala que havia dito na véspera muito calmamente, e toda aquela mansidão fria, de alguma forma, só fez com que Gellert ficasse transtornado de ódio. Grunhindo de raiva, os olhos injetados, Gellert então segurou Albus pelos pulsos e o puxou para mais perto de si antes de falar num tom de voz terrivelmente frio:

- O que você quer? Que eu te jogue naquele monte de feno agora mesmo, arranque a sua roupa e morda o teu pescoço até você ganir de desespero? Quem sabe assim você se submeta a mim e me reconheça como o seu alpha?

Albus fechou os olhos e, de repente ficou muito mais difícil respirar. Pelo visto, nem mesmo os supressores eram capazes de eliminar o impacto que a voz de um alpha exercia sobre um ômega como ele.

- Você está esmagando o meu pulso… - falou, muito trêmulo - exatamente do jeito que disse que não faria…

Ouvir isso fez Gellert imediatamente afrouxar os dedos:

- Não… não foi a minha intenção... - gaguejou, sentindo-se um perfeito idiota que só piorava mais e mais as coisas.

Mas Albus apenas balançou a cabeça e afastou as mãos, dando as costas para Gellert para escapar dali. 
  
Gellert não teve muito tempo para pensar na última discussão que teve com Albus porque Abernathy apareceu correndo no segundo seguinte para lembrar que ele tinha algumas reuniões de negócio num leilão de equinos na cidade vizinha, a duas horas de carro dali. Grunhindo de raiva por ter se esquecido de desmarcar aquele compromisso e ter que viajar em plena lua-de-mel, ele se arrumou e saiu sem almoçar, nem se despedir. Albus apenas assistiu a caminhonete preta partir, sentado num sofá da varanda.

As horas se passaram e Vinda o chamou para almoçar. Albus pensou em recusar, mas como não podia explicar que seu mal estar não se devia a uma gravidez relâmpago, mas sim a um efeito colateral bem desagradável dos supressores hormonais que tomava para não entrar no cio, achou que seria mais fácil apenas remexer a comida para lá e para cá durante alguns minutos.

- Não está do seu gosto, senhor? - Vinda finalmente perguntou depois de mais algum tempo em que ele apenas olhou para o nada ao invés de comer.

- Ah? Não, não é isso… só estou… sem muito apetite…

- O senhor já é muito magrinho, não pode deixar de comer desse jeito… - Vinda lamentou - que tal alguma sobremesa então? Uma bela torta de limão.

Vinda realmente sabia bater nos lugares certos.

- Ah, isso eu vou querer sim! - Albus falou, sorridente.

- É para já! - Vinda respondeu e foi correndo para cozinha buscar a torta.

Gellert chegou na sala bem a tempo de ver Albus comer o último pedacinho:

- Vinda, querida… isso foi feito pelos deuses! - o ômega elogiou, seus olhos azuis brilhando de alegria - Como adivinhou que torta de limão era o meu doce preferido?

Vinda apenas sorriu para o elogio, lisonjeada. E Gellert não pôde deixar de reparar no quanto Albus era diferente quando não estava perto dele. Gentil, agradável, até alegre. Nada semelhante ao Albus frio, distante e amargo que ele conhecia.

- Boa tarde. - cumprimentou, detestando ver o olhar brilhante de Albus se apagar.

- Boa tarde, senhor. Vai almoçar? - Vinda perguntou, solícita.

- Eu já almocei, mas não resisto a experimentar a sua torta de limão. - Gellert sorriu para Vinda antes de se sentar ao lado de Albus.

- Bom, eu já terminei. - Albus disse, levando-se quase que no mesmo segundo em que Gellert se sentou - Muito obrigado pelo almoço, Vinda.

- Não há de quê. - Vinda respondeu.

Por alguns instantes, Gellert olhou as costas de Albus enquanto ele partia, pensativo, mas logo chacoalhou para longe aqueles pensamentos e se levantou:

- Vinda, vou estar no meu escritório, okay?

- O quê? Não vai comer sua fatia de torta? - ela perguntou, já com um prato na mãos.

-Perdi o apetite. 
  
Gellert estava terminando de revisar os contratos que havia assinado durante o leilão quando Anton Vogel entrou no escritório como uma bala:

- Ah, que bom que você chegou. - Gellert o cumprimentou sem levantar a cabeça - consegui vender aqueles quatro cavalos, você precisa organizar o transporte.

- Isso pode ficar para depois. - Vogel cortou, impaciente - Pode me explicar por que aquele doutorzinho está nos estábulos tirando fotos de tudo?

Gellert levantou a cabeça:

- Doutorzinho?

- Sim… o doutorzinho ômega. Ele está para lá e para cá com o seu ômega desde manhã. Voltou agora à tarde e está tirando fotos sem parar.

Mas o cérebro de Gellert havia parado em apenas uma palavra de tudo o que Vogel havia dito:

- Ômega? O amigo do Albus é ômega?

- Não sabia? O garoto é até famoso por essas bandas. Primeiro veterinário ômega, formado na universidade de Hogwarts. Ainda bem que me formei em Durmstrang ou estaria morto de vergonha…

- Não senti cheiro de ômega nele… - Gellert falou, pensativo.

- Isso é provavelmente porque ele se entope de supressores para poder trabalhar. - Vogel falou, sem conter uma cara de desprezo.

- Pensei que esse tipo de coisa fosse proibida…

- Felizmente ainda é, mas isso nunca foi um impedimento para esses ômegas. O senhor acredita que estão querendo revogar a lei e liberar os supressores? - Vogel comentou - este mundo está perdido mesmo. Mas… voltando ao assunto que interessa, qual é mesmo o motivo das fotos?

- Sabe que essa é uma boa pergunta? - Gellert perguntou antes de se levantar e ir até os estábulos.
  
- Nos encontramos de novo, Sr. Scamander. Ou seria mais correto dizer Dr. Scamander? - Gellert falou assim que entrou nos estábulos.

Os ombros de Newt pularam de susto, mas ainda assim ele não errou a veia do pescoço do cavalo.

- Gellert…. - Albus começou a falar, mas não conseguiu terminar a frase.

- Você tá tirando sangue do meu cavalo? - Gellert perguntou, incrédulo.

- Só… só coletando um pouco… para exames. - Newt respondeu, sem olhar na direção de Gellert.

- Com a autorização de quem?

- Com a minha. - Albus falou, muito tranquilo.

- E você não acha que deveria ter me consultado antes de permitir que um estranho faça um procedimento invasivo no meu cavalo?

- Ele não é um estranho. - Albus falou - Eu confio nele.

- Ainda assim… por que este senhor está tirando fotos, coletando sangue? Eu tenho o direito de saber!

- Você tem razão. - Albus reconheceu - E eu vou explicar tudo no seu devido tempo. Por favor, confie um pouco em mim…

- Como eu posso confiar em você se você não confia em mim? - Gellert perguntou, aborrecido.

- Novamente você tem razão, - Albus repetiu, segurando brevemente o pulso de Gellert - mas, eu prometo que não quero fazer nenhum mal, nem a você, nem aos seus cavalos…

E ao sentir aquele toque tão morno, Gellert simplesmente perdeu a vontade de discutir.

Newt guardou as amostras na sua maleta surrada e então falou:

- Acho que acabei aqui, Albus. Te entrego tudo na semana que vem, sem falta.

- Obrigado. - Albus respondeu e o sorriso bondoso que ele dirigiu a Newt fez o coração de Gellert gelar no peito, mesmo sabendo que se tratava de um ômega.

- Bem, com licença, então. Boa noite. - Newt fez uma pequena reverência antes de partir.

- Você não vai mesmo me explicar o que está acontecendo aqui? - Gellert perguntou assim que Newt desapareceu das suas vistas.

- Vou sim, na semana que vem, sem falta. - Albus respondeu, soltando o pulso de Gellert - Você pode esperar até lá?

Gellert ficou alguns segundos em silêncio:

- Acho que posso sim. - respondeu, finalmente.

- Obrigado. - Albus lhe deu um sorriso triste e começou a andar na direção da saída, quando Gellert o chamou novamente:

- Albus? - e quando o ômega se voltou na direção dele, Gellert deixou escapar um suspiro - Sobre a discussão de hoje… me desculpe… eu perdi a cabeça de ciúmes, eu…

- Ciúmes? - Albus perguntou, assombrado - Aquilo foi ciúmes?

- Por que isso é tão surpreendente? - Gellert perguntou.

- Você sequer me conhece…

- Porque você não permite que eu te conheça! - Gellert retorquiu, exasperado - Você não me acompanha nas refeições, não quer dormir ao meu lado e é sempre gentil com todos menos comigo! Eu sei que você não está aqui por vontade própria, mas… já que está aqui… você poderia pelo menos tentar não me tratar como um inimigo!

Albus balançou a cabeça:

- Pensei que para você não fizesse diferença… que só quisesse alguém para gerar seus filhos…

Gellert ficou em silêncio por alguns segundos, tentando organizar seus próprios sentimentos antes de responder:

- Olha… eu sei que você me odeia, mas, ainda assim, eu só estou tentando viver em paz sob o meu próprio teto. - sugeriu - É pedir muito?

Albus ficou alguns instantes em silêncio, seus olhos azuis fixados em Gellert, como se pudesse ver sua alma.

- Eu não te odeio… - falou, finalmente - E nem te considero um inimigo. Eu só tenho… medo.

- Medo de mim? - Gellert perguntou, rindo como se aquilo fosse maluco demais para ele entender.

- Medo de qualquer um que tenha o poder de definir como será a minha vida no meu lugar.

Gellert deixou escapar um suspiro:

- Albus… desde que nos casamos, a nossa vida se uniu… e nós vamos decidir sobre ela juntos.

- Você diz isso, mas…

- Mas…

Albus abriu a boca para responder, mas antes que pudesse dizer alguma coisa, a voz rouca de Vogel se fez ouvir:

- Vi o carro do doutorzinho indo embora. Acabou a sessão de fotos? E o que ele queria aqui, afinal?

- Você vai saber em breve… - Albus respondeu, sem conter uma ponta de desprezo na voz, antes de dar as costas e partir.

- Acho que o omêgazinho não gosta muito de mim. - Vogel comentou, divertido, enquanto puxava um cigarro amassado do bolso.

- Chamá-lo de omêgazinho não vai ajudar muito com isso. - Gellert sugeriu antes de levantar a aba do chapéu e ir embora também.

- É só um tratamento carinhoso… - Vogel falou para ninguém, enquanto acendia o cigarro.

----- CHAPTER BREAK -----

- Sua primeira vez num cavalo. - seu pai falou, sem conseguir esconder um discreto tom de orgulho na voz - Nervoso?

- Não, papai! - Gellert mentiu.

- Muito bom. Menino corajoso!

O senhor Grindelwald era um homem muito alto e bonito. Seus olhos azuis eram claros, seus cabelos loiros já ostentavam algumas mechas brancas e ele cultivava uma barba muito bem aparada. Se alguém quisesse fazer o jovem Gellert sorrir, bastava dizer que ele era parecido com o pai.

Seu pai era seu ídolo, seu exemplo. E ele faria tudo o que estivesse ao seu alcance para dar orgulho a ele

O medo do cavalo não chegava aos pés do medo de decepcionar seu pai.

- Segure bem as rédeas. - Grindelwald instruiu, colocando as rédeas nas mãos do filho enquanto ajustava gentilmente sua postura no cavalo com as mãos - Postura reta, ombros para trás, peito para frente, pés bem alinhados na ponta do estribo…

O cavalo finalmente começou a andar. Gellert estava gelado, seus pés escorregavam dentro dos calçados e, por um instante, ele apertou o cavalo com as coxas, com medo de cair e envergonhar seu pai.

- Não faça força nas coxas, o equilíbrio fica na ponta dos seus pés. - Grindelwald alertou.

Logo o cavalo estava andando mais rápido e, de alguma forma, Gellert estava conseguindo se manter em cima dele.

- Não deixe o corpo ir para trás, meu filho. - ele o instruiu de longe - Você está indo muito bem! Sinta o ritmo do cavalo! Isso mesmo!

Vogel se aproximou do seu patrão com um sorriso nos lábios:

- O garoto leva jeito pra coisa. - falou, admirado  - Com certeza será um Alpha.

Grindelwald sorriu satisfeito ao ouvir isso:

- É meu filho, afinal de contas.
  
Gellert abriu os olhos.

Fazia tanto tempo que ele não sonhava com o seu pai! E, sim, Gellert gostava de sonhar com seu pai, mas não gostava nada da sensação de desamparo que sempre sentia quando acordava num mundo em que seu pai não mais existia.

- Gellert, você está bem?

Albus tinha acabado de sair do banheiro vestido com um roupão e não pôde deixar de reparar no olhar perdido e desolado do Alpha.

- Não foi nada… eu só… sonhei com o meu pai. - Gellert falou e sua voz perdeu a força no meio da frase.

Albus sorriu e sentou-se ao lado dele na cama:

- É mesmo? E como foi?

- Sonhei que ele me ensinava a montar.

- Um sonho muito bom então.

- Sim. - Gellert sorriu, triste - Até que acabou.

E a expressão de puro desamparo de Gellert foi tão impactante, que Albus procurou a mão do marido por puro impulso e a apertou suavemente.

Gellert poderia apenas aproveitar aquele toque tão macio e morno, mas algo pesou no seu coração e ele não pôde deixar de falar, sombrio:

- Não preciso que você tenha pena de mim.

Desconfortável, Albus afastou a mão e se apoiou na cama para se levantar, mas, para sua surpresa, Gellert o puxou pela manga do roupão, seus olhos parecendo implorar para que ele não fosse embora.

Albus respirou fundo.

Ficou.

Os dois permaneceram em silêncio por algum tempo, antes de Albus finalmente voltar a falar:

- Eu não estava com pena de você. - assegurou - Talvez até estivesse com pena de mim mesmo.

Gellert olhou para ele, interrogativo, e Albus desviou o olhar antes de continuar:

- Meu pai também me ensinou a montar. - explicou - Eu tinha acabado de maturar e todos diziam que cavalgar não era coisa de ômega. Mas meu pai me perguntou se eu realmente queria aprender e, como eu disse que sim, ele me ensinou.

- E te ensinou muito bem. - Gellert elogiou - Você cavalga lindamente.

Albus sorriu para o elogio:

- Naquele época, eu achava que ser ômega não me impediria de fazer tudo o que eu quisesse. Uma ilusão infantil, é claro…

Os olhos de Gellert passearam pelo rosto delicado do ômega, admirando cada pequeno detalhe. Ele então buscou o olhar de Albus antes de falar:

- Eu posso te dar tudo o que você quiser…

Albus balançou a cabeça:

- Não, não pode.

E antes que Gellert pudesse dizer qualquer coisa, Albus se levantou da cama e foi até o armário para pegar a roupa que vestiria antes de se fechar novamente no banheiro. 
  
Uma semana depois, a convivência entre Albus e Gellert havia se tornado menos tensa, mas, ainda assim, distante. As refeições eram curtas e quase sempre silenciosas e Albus ainda se recusava a dormir na mesma cama de Gellert. Além disso, o ômega também havia descoberto uma grande estante de livros, todos sobre cavalos e equitação, no escritório, e estava se dedicando a ler um a um, dia após dia.

Albus logo percebeu que, ao contrário do seu irmão, que parecia se incomodar simplesmente por vê-lo quieto no seu canto, Gellert respeitava a sua quietude e o deixava em paz a maior parte do tempo. E muitas vezes, até se sentava por perto com um livro debaixo do braço para ler também, ambos aproveitando juntos o frescor do dia e a claridade até o fim da tarde.

Mas Albus sabia bem que a paz entre ele e Gellert estava muito perto de acabar, pois Newt havia telefonado de manhã para avisar que o relatório já estava pronto. Dito e feito:

- De novo esse cara aqui? - Gellert perguntou, aborrecido, enquanto Albus vasculhava a estante do seu escritório atrás de algum livro que lhe interessasse.

- Se preferir, eu posso ir até a casa dele. - Albus respondeu, sem tirar os olhos dos livros - Ele mora com o irmão mais velho, perto do centro da cidade.

O escritório de Gellert era muito austero. Mantinha a decoração dos tempos do seu pai: uma mesa de mogno ao centro, quadros de cavalos pela parede,  armários e estantes cheios de livros e arquivos com toda a papelada importante da fazenda. A janela era pequena e estava aberta para arejar um pouco o ambiente do calor do verão.

Gellert fechou a cara imediatamente ao ouvir sobre o tal irmão do amigo ômega, mas precisou voltar a cabeça na direção de Albus para perguntar:

- Deixa eu adivinhar: o irmão dele é um Alpha?

- Naturalmente. - Albus confirmou, recolocando um livro de volta na estante para analisar outro - Newt reclama dele, mas eu penso que Theseus é um ótimo irmão. Até o autorizou a estudar Veterinária.

E a cara de Gellert se fechou ainda mais:

- Seu amigo pode vir. - e depois de uma pausa - O ômega.

Albus deu um pequeno sorriso antes de deixar o escritório com um livro debaixo do braço, fazendo Gellert se perguntar se aquela ligeira menção ao irmão alpha não havia sido proposital. Preferindo não pensar que tinha sido manipulado, Gellert se concentrou em ler alguns contratos que Vogel havia passado para ele revisar até Abernathy entrar no escritório com o chapéu na mão e sua cara clássica de más notícias.

- Chegou aí o amigo do Albus, acertei?

A expressão de assombro de Abernathy por ele ter adivinhado mostrou a Gellert que ele havia acertado.

- Já te disse muitas vezes que você é muito fácil de ler, Abernathy. - Gellert explicou - Traga ele aqui, por favor.

- A… aqui? Mas…

- Eu sei que o Albus está esperando, mas eu quero falar com ele antes.

Newt entrou no escritório instantes depois, encolhido, olhando para todos os lados, menos para Gellert. Um ômega completo à primeira vista, parecia tão assustado e frágil que o Alpha se perguntou como ele havia conseguido ser o primeiro ômega formado veterinário pela Universidade de Hogwarts.

- O… o senhor queria me ver? - ele perguntou fracamente, seus dedos apertando com força a alça da maleta.

Sente-se, por favor, Sr. Scamander. - Gellert o convidou, cordialmente, apontando a cadeira na frente dele.

Newt hesitou um pouco, mas obedeceu. Gellert pensou que, podia não parecer, mas aquele ômega era certamente audaz por se colocar numa posição tão vulnerável, afinal de contas, ficar assim, a sós, com um alpha, era um perigo real para um ômega não marcado.

- Está com medo? - perguntou, sem ser capaz de conter a curiosidade.

- N... não. Albus disse que… que o senhor respeita os ômegas.

- Ele disse isso?

- Sim. - Newt confirmou, olhando para baixo e logo depois olhando para cima.

- Talvez o meu respeito se limite apenas ao meu marido… - Gellert sugeriu, maldosamente, querendo brincar com aquele ômega para fazê-lo se arrepender de ter vindo até ali para roubar a atenção e os sorrisos de Albus.

Mas, ao contrário do que ele esperava, ao invés de parecer assustado, Newt apenas deu um curto sorriso:

- Mesmo que assim fosse, o senhor não me tocaria em respeito… em respeito a ele.

Gellert não se deu por vencido:

- O senhor deve saber que, apesar de estarmos casados, eu tenho tido muitos problemas para… me aproximar do meu marido.

Newt apenas assentiu brevemente, parecendo prestar mais atenção num peso de papel em forma de cabeça de cavalo no centro da mesa do escritório de Gellert.

Gellert apoiou os cotovelos na mesa e o queixo nas mãos, encarando aquele ômega com toda a intensidade de um alpha antes de perguntar:

- Sr. Scamander… por que o Albus gosta tanto do senhor?

Newt pareceu genuinamente surpreso com aquela pergunta:

- Eu… não saberia dizer…

-  O senhor não tem nenhum palpite…?

Newt olhou para Gellert por alguns poucos segundos, aparentemente sem ter muita certeza sobre o que iria responder:

- A… acho que é só porque temos… alguns gostos em comum. - ele falou, por fim - Gostamos de animais, especialmente de cavalos…

- Albus nem gosta tanto assim de cavalos. - Gellert desdenhou, já achando que Newt estava respondendo a primeira coisa que vinha na cabeça, não importando se fosse verdade ou não.

A reação de Newt àquela frase foi absolutamente formidável. Ele logo engasgou e depois começou a tossir sem parar, ficando muito vermelho.

- Ele disse isso para o senhor? - o veterinário perguntou depois de um bom tempo tentando se recuperar.

- Disse, claro.

Newt ficou alguns segundos calado, pensativo, e logo depois falou:

- Se… se o senhor quer tanto… quer tanto se aproximar.. sugiro que comece a olhar para o Albus… olhar para ele de verdade.

- Eu olho para ele de verdade!

E a expressão de Newt foi de uma incredulidade tão marcante que Gellert se sentiu até um pouquinho ofendido.

- Com… com licença! Albus deve estar me esperando. - ele falou, apertando sua maleta surrada nos braços antes de dar as costas e sair do escritório.

- Me desculpe, Albus… eu… eu fui pego de surpresa e acho que falei demais…

- Você não tem culpa de nada. - Albus respondeu, pensativo, as pontas dos dedos encostadas umas nas outras - Não entendo o que o Gellert quer com tudo isso. O que ele ganha constrangendo você dessa maneira?

Os dois estavam na parte de trás da varanda. Albus sentado numa cadeira de palha e Newt apoiado numa mureta bem perto dele. O veterinário ficou alguns segundos pensativo antes de responder:

- Não… não acho que a intenção dele foi me constranger… - falou, prestando atenção numa caneta verde encaixada no bolso do seu paletó - Acho que ele quer mesmo… se aproximar de você…

Os olhos azuis de Albus se tornaram gélidos:

- Não se iluda. Ele só quer mesmo uma égua para parir os filhos dele.

Newt não pôde evitar um sorriso ao ouvir aquela frase:

- Vocês dois são tão parecidos… - Newt comentou e Albus franziu a testa imediatamente.

- Não somos não.

- São sim. - Newt insistiu - Vou te poupar de uma lista, mas… mas, para começar, nenhum dos dois se incomodou em… em realmente enxergar um ao outro.

- Eu o enxergo perfeitamente bem! - Albus protestou num tom que Newt achou muito parecido com o de Gellert usou há alguns minutos.

Pensando nisso, Newt deu outra risada e então abriu sua maleta, balançando a cabeça, divertido:

- Aqui está o seu relatório, meu amigo, eu… eu espero que você possa ajudar os pobres cavalos com ele…

Albus pegou o relatório e o observou detidamente antes de responder:

- Parece perfeito, Newt. - ele elogiou e então fez uma pausa quando seus olhos pararam nos resultados dos exames de sangue - Minha nossa…

- Eu sei que muita coisa é mera especulação, mas… tudo indica mesmo que você está certo.

- Preciso falar com Gellert o quanto antes… - Albus falou, pensativo.

- Boa sorte. - Newt falou, mas não olhava para Albus, olhava para o interior da sua pasta - Tenho mais uma coisa para você…

Revirando mais aqui e ali, ele logo puxou um papel e entregou para o amigo:

- É o formulário de admissão da Universidade de Hogwarts. Preencha pedindo uma bolsa integral que eu boto no correio para você. O diretor… ele é um senhor muito bondoso, tenho certeza que vai te admitir e conceder a bolsa.

Albus balançou tristemente a cabeça para o formulário:

- Mesmo que ele me conceda a bolsa, eu ainda não poderia cursar uma faculdade sem autorização de um alpha responsável… e o meu… marido tem planos de longo prazo para mim.

- Por que você não pede… não pede para ser dispensado de fornecer uma autorização.

- Nós dois sabemos que isso é totalmente impossível… - Albus comentou, desanimado.

Newt sorriu:

- Vou te dizer a mesma coisa que… que um amigo me aconselhou ao me ouvir choramingar que um ômega nunca havia sido admitido em Hogwarts antes: não desista tão fácil assim dos seus sonhos, Albus!

Albus olhou para ele por alguns segundos antes de finalmente sorrir e perguntar:

- Tem uma caneta?
  
- Agora você pode me contar finalmente o que você e o seu amigo estavam fazendo na semana passada? - Gellert perguntou durante o almoço, antes de começar a mastigar um pedaço de carne assada.

- Preferia deixar essa conversa para depois do almoço. - Albus respondeu - O assunto é um pouco espinhoso e não quero arruinar a refeição.

- Sei… - Gellert respondeu, esticando o braço para pegar sua taça e beber - Embora isso não faça muita diferença para você, não é mesmo? Seu apetite parece estar sempre arruinado e suspeito que seja pela minha presença… - ele então limpou a boca com um guardanapo antes de levantar o dedo indicador, teatralizando uma excelente ideia - quem sabe, se convidarmos o seu amigo, talvez assim você coma um pouco melhor?

Albus apenas encarou Gellert por alguns segundos antes de responder:

- A forma egocêntrica de pensar dos alphas sempre me impressiona… já te ocorreu que, talvez, só talvez, você não seja assim tão importante a ponto de influenciar o meu apetite?

O rosto do alpha se crispou e Albus pôde ver claramente que as suas palavras haviam ferido o seu ego. Gellert era mesmo um alpha típico: egocêntrico e orgulhoso.

- Acho que não faz sentido postergar as más notícias, - Gellert respondeu, jogando o guardanapo na mesa enquanto se levantava da cadeira - afinal de contas, a refeição já está arruinada. Vamos até o escritório.

Albus limpou a boca com o guardanapo, contrariado. Não queria começar aquela conversa naquele clima de guerra. Queria que Gellert o escutasse com paciência e com a cabeça aberta para o que ele tinha a dizer. Com um suspiro, pegou a pasta com o relatório de Newt e foi até o escritório.

Gellert já estava sentado na sua cadeira, esperando, quando ele chegou. Mordendo os lábios, Albus hesitou:

- Gellert, talvez seja melhor…

- Não! - o Alpha o interrompeu tão bruscamente que os ombros de Albus saltaram de susto - Vamos conversar sobre isso agora mesmo! Fale de uma vez!

Albus respirou fundo e entregou o relatório.

- O que é isso?

- Alguns… problemas que eu e Newt observamos com os cavalos.

- Com os meus cavalos? - Gellert franziu as sobrancelhas, toda a sua postura mudando imediatamente - Que tipo de problemas?

- Por favor, leia. Podemos conversar melhor depois.

Gellert olhou desconfiado para Albus antes de abaixar os olhos e ler o relatório atentadamente por alguns minutos, durante os quais Albus apenas observou suas expressões faciais que variavam de incredulidade para o deboche, de forma que nem foi uma surpresa quando Gellert jogou o relatório na mesa o mais perto de Albus possível e desdenhou:

- Nada disso daí é verdade. - concluiu.

- Gellert… você não…

- Não, calma, deixa eu me explicar melhor. Sim, temos alguns cavalos doentes, talvez até alguns fora do peso, mas daí a insinuar que eles estão sendo maltratados…

- A laminite…

- … pode ter dezenas de motivos…

- Os exames de sangue…

- Um cavalo, Albus! - Gellert desdenhou novamente - Não quer dizer que todos estejam
assim!

- … mas os sinais de estresse são muito claros!

- Novamente, casos pontuais.

- Você não acha que são muitos casos pontuais? - Albus insistiu, para logo depois suavizar um pouco o tom de voz - Gellert… seu pai com certeza não deixava tantas incumbências nas mãos do Vogel…

Gellert olhou para Albus, muito sério:

- Olha, eu sei que o Anton pode ser muito desagradável com os Ômegas… mas, francamente… - apontou para o relatório - não acha que isso aqui é um pouco demais?

Os olhos de Albus de tornaram frios quando ele perguntou, indignado:

- Você tá achando que eu fiz tudo isso para me vingar do seu feitor?

- Vingança é uma palavra muito forte. - Gellert balançou a cabeça - Eu diria que você tem uma implicância até compreensível com ele. Mas o Anton é de total confiança. Ele trabalha aqui desde a época do meu pai.

- É por isso que você não quer me ouvir? - Albus perguntou - Por que ele era o homem de confiança do seu pai?

- Não fale besteira. - Gellert respondeu, mas o jeito que ele esticou o corpo numa postura orgulhosa, falou mais a Albus do que mil palavras.

Frustrado, Albus jogou sua última cartada antes de desistir de vez:

- Você me disse que dava a melhor ração do mercado para os seus animais… - afirmou - mentiu?

- Claro que não! - Gellert respondeu, aborrecido pela simples sugestão.

- Então sugiro que confirme se os seus cavalos estão mesmo recebendo a melhor ração do mercado.

A expressão de Gellert não variou um milímetro enquanto Albus dava as costas para ele e partia ao mesmo tempo em que Vinda chegava no escritório com uma bandeja e um bule de café recém-passado.

- Vinda… - Gellert pediu - me faz o favor de pedir ao Abernathy para passar aqui?

- Claro, patrãozinho. 
  
Albus enfiou o garfo no bolo de chocolate, aborrecido.

- Seu patrão é um teimoso, - desabafou -
um irracional!

Vinda jogou a calda quente sobre o bolo muito de cima e Albus não soube dizer se os respingos de chocolate que haviam caído na sua mão tinham sido propositais.

- Meu patrão é um grande homem. - ela respondeu com simplicidade.

Albus torceu os lábios em reprovação:

- Já vi que não tenho nem com quem desabafar. Com o Abernathy é que não vai ser.

- Claro que o senhor pode desabafar à vontade. - Vinda assegurou com um belo sorriso - Só não me peça para concordar com o senhor.

- Você pode discordar à vontade, mas eu estou com a razão.

- O senhor diz isso só porque não o conhece como eu conheço. - ela comentou, enquanto enchia sua xícara de chá  - O senhor ainda vai ver o quanto ele pode ser generoso com quem ama.

Albus respirou fundo:

- Generoso, é?

Vinda deu um sorriso, paciente:

- Eu sei que ele pode ser um pouco… explosivo às vezes. - cedeu - mas o senhor precisa enxergar além disso. Olhar para ele e ver que por trás da carapaça de alpha, existe alguém muito solitário e, acredite em mim, muito sensível.

Albus deixou um sorriso escapar do canto dos lábios:

- Pelo visto, Gellert não tem empregados. Tem
acólitos. - Albus comentou, mastigando um pedaço de bolo. 
  
- Me chamou? - Vogel perguntou.

Gellert estava com Abernathy no escritório e assim que viu Vogel chegar, sua expressão se fechou e ele então atirou na mesa uma sacola com uma amostra de ração com tanta agressividade que o grãos de espalharam por toda a mesa e alguns até caíram no chão.

- Chamei sim. - ele respondeu, muito sisudo - Se incomoda de me explicar o que é isso?

Vogel olhou para os grãos da mesa com indiferença:

- Ração…

- E você está dando essa merda para os meus cavalos desde quanto? - Gellert perguntou, agressivo, fuzilando o outro alpha com o olhar.

- Calma aí… também não precisa falar assim…

- Eu chamo de merda porque é o que isso daí é! - Gellert levantou-se da cadeira, irritado - Por acaso se esqueceu que meu pai sempre fez questão de comprar a melhor ração de todas? Desde quando você resolveu mudar isso?

- Seu pai nunca viveu os anos de crise que nós vivemos.

- Ah, corta essa… - Gellert respondeu, irritado.

- Estou falando a verdade! - Vogel insistiu - Nós tivemos que economizar!

Gellert encarou Vogel por alguns segundos antes de ordenar:

- Quero a melhor ração do mercado. - exigiu - Abernathy, você cuida disso. E quero que todos os cavalos recebam exatamente a mesma ração e na quantidade ideal. Não importa se já estão velhos, não importa nada. Você me entendeu?

- Sim, senhor! - Abernathy respondeu de imediato e se retirou apressado do escritório.

- Anton… - Gellert retomou, num tom um pouco mais suave - Eu gostaria que você… se abstivesse de qualquer prática que, por acaso, possa deixar os animais estressados, ou provocar qualquer tipo de sofrimento…

Vogel não conseguiu conter uma risada de puro deboche:

- Já sei, já sei. O tal ômega não gosta.

- Não só ele. - Gellert respondeu - Meu pai não gostava. E eu também não.

Vogel apenas balançou a cabeça, incrédulo, e se retirou sem dizer nada, mas nitidamente contrariado. 
  
Albus ainda estava tão aborrecido por todos os seus esforços para ajudar os pobres animais terem descido pelo ralo que não desceu para o jantar e ficou trancado no quarto tentando e não conseguindo ler um livro por não ser capaz de manter o foco na leitura por muito tempo. Entediado e aborrecido, ele deixou o livro de lado e começou a andar para lá e para cá pelo quarto, os dedos das mãos unidos, tentando pensar em alguma outra maneira de mostrar a Gellert que ele estava certo sobre Vogel.

Até um grande quadro pendurado na parede atrair sua atenção.

Ele já tinha reparado na árvore genealógica da família Grindelwald pendurada na parede do quarto, mas só agora ele realmente havia parado para olhar os nomes do quadro. Os retângulos com os nomes de cada pessoa da família vinham marcados com as letras gregas correspondentes aos seus segundos gêneros e Albus reparou que não havia nenhum beta na árvore, somente alphas e ômegas. Nenhuma surpresa: uma família tão rica e prestigiosa não se contentaria com simples betas.

Albus imaginou quantos ômegas haviam entrado na família Grindelwald contra a vontade, como era o caso dele. Afinal de contas, por gerações, os Grindelwald sempre tiveram poder e dinheiro o suficiente para comprar o destino de qualquer ômega da face da Terra.

- Estava pensando em adicionar o seu nome à mão… - Gellert comentou por detrás dele, fazendo os ombros de Albus pularem de susto por não ter percebido a sua chegada.

- Não vejo necessidade de estragar o quadro fazendo isso. - Albus respondeu, ainda com a mão pousada no peito.

- Não tem problema… é só uma cópia. O original está no quarto do meu pai.

- Ah, é mesmo?

- Meu pai se importava muito com esse tipo de coisa. Tanto que não poupou dinheiro ou sacrifícios para eu poder nascer e, assim, dar continuidade à família. - Gellert explicou, sem tirar os olhos do quadro.

- É por isso que você quer tanto ter filhos? - Albus perguntou - Por que era importante para o seu pai?

Gellert apenas assentiu, sem dizer nada. Albus respirou fundo, tomando coragem para perguntar:

- Você não acha que seu pai gostaria que você… que você tomasse as rédeas da fazenda
para si?

Gellert ficou em silêncio por alguns segundos:

- As rédeas da fazenda sempre foram do meu pai. - respondeu, fracamente.

Albus olhou para Gellert por alguns segundos, espantado:

- Você ainda espera que seu pai volte… - disse, assombrado.

Gellert encolheu os ombros, mas não disse nada. Albus então tocou o pulso dele suavemente antes de insistir:

- É por isso que você nunca desfez o quarto do seu pai, é por isso que nunca assumiu a administração da fazenda… que se recusa a enxergar quem Vogel realmente é.

- Espera um minutinho, Anton é…

- Da sua total confiança. Eu sei. - Albus completou, sem largar o pulso dele - Mas sabe em quem você também deveria confiar? Em mim.

- E por que eu deveria confiar em você mais do que numa pessoa que trabalha aqui desde que me conheço por gente? Que é praticamente parte da família? - Gellert perguntou, desafiador.

- Porque… bem… porque eu sou o seu ômega, não é mesmo?

- Não sei, Albus Você me deixou muito claro, mais de uma vez, que não era meu. - Gellert relembrou, num tom irritadiço.

Albus afastou a mão:

- Bem… eu me refiro ao fato de nós dois sermos casados. E, de certa forma, estarmos
interessados numa convivência pacífica. E, bem, a base de qualquer relacionamento é a confiança.

Gellert olhou para os belos olhos azuis de Albus antes de responder:

- Olha… você tinha razão sobre a comida dos cavalos e pode ser que tenha razão sobre outras coisas também. Eu disse a Anton para voltar com a melhor ração e também pedi para que parasse qualquer tipo de maltrato aos
animais.

- Isso é bom, mas não tenho tantas esperanças de que ele cumpra a sua palavra. - Albus respondeu, pensativo.

- Ah, vamos lá, não custa nada dar um voto de confiança a ele. - Gellert propôs.

Albus logo assentiu, pensando que Gellert tinha uma certa razão e que, afinal de contas, todo mundo merecia uma segunda chance.

- Está certo… - cedeu, enquanto pegava o cobertor e a manta que costumava usar para montar sua cama no chão do quarto dentro do armário.

- Albus… você não está cansado de dormir no chão?

Albus desdobrou a manta antes de responder

- Bastante… mas,  infelizmente, você não me cedeu um quarto, apesar dessa casa ter vários. - Albus respondeu, num tom de casualidade.

- Você é meu ômega. - Gellert respondeu -
Seu lugar é comigo. Quero…

- Eu sei o que você quer. - Albus respondeu, muito frio.

Um silêncio gelado se formou entre os dois enquanto Albus terminava de preparar sua cama, jogando dois travesseiros em cima da manta. Mas quando Albus estava tomando coragem para se deitar no chão, Gellert falou:

- Dorme na cama.

- Eu já disse que…

- Quis dizer que eu vou dormir no chão.

Albus não conteve uma risada de pura perplexidade:

- Alphas não costumam se deitar no chão para ômegas ficarem na cama. - Albus falou, incrédulo - São orgulhosos demais.

- Ômegas costumam entrar no cio assim que se casam com um Alpha… - Gellert retomou, mal humorado. E como Albus continuou a olhar para ele, desconfiado, adicionou - Diga não e serei forçado a usar a minha voz para te obrigar a ficar na cama.

E a expressão estupefata de Albus apenas se intensificou. A voz de alpha de Gellert podia obrigá-lo a qualquer coisa e ele iria usá-la para dormir no chão?

- Você acha que com esse tipo de coisa vai me fazer entrar no cio? - Albus finalmente perguntou - É isso?

- Meus feromônios vão te fazer entrar no cio. - Gellert deu de ombros - Cedo ou tarde.

- E se não acontecer? - Albus perguntou.

- Vai acontecer. - Gellert respondeu, dando a volta na cama para pegar seu pijama e andar até o banheiro para se trocar - E agora vá dormir.

Albus ainda queria entender o motivo daquela atitude de Gellert. Não combinava nenhum pouco com o que um alpha faria e ele só podia pensar naquilo como uma tentativa de persuasão.

Mas, por enquanto, ele se permitia não pensar e nada e apenas aproveitaria a deliciosa maciez daquela cama.

----- CHAPTER BREAK -----

Vogel a viu pela primeira vez num leilão de cavalos.

Ele achava que ômegas não deveriam se exibir em lugares como aquele, onde alphas costumavam se reunir para fazer negócios, beber em excesso e falar sobre ômegas, na cabeça dele, ômegas que se atreviam a fazê-lo, mesmo quando acompanhados, não se davam ao respeito e deveriam ser tratados de acordo com suas próprias escolhas.

Foi por este motivo que, quando uma linda ômega de cabelos loiros brilhantes como o sol e cheiro doce como as mais singelas flores do campo passou por ele, Vogel tratou de beliscar sua coxa por cima do vestido fino de verão maliciosamente, pouco se importando com o olhar de desprezo que ela lhe deu em retribuição.

Foi mesmo um infortúnio descobrir que seu patrão havia combinado de se encontrar pela primeira vez com sua futura esposa naquele lugar.

E que a tal noiva fosse justamente a moça cuja a coxa ele havia beliscado há menos de uma hora…

Para sua imensa sorte, a ômega nunca contou ao marido o que havia acontecido e Vogel logo concluiu que era porque ela devia ter gostado da atenção.

Mas por algum motivo, mesmo depois de anos de casada, ela ainda o olhava com medo e  arrumava sempre um jeito de se distanciar quando ele aparecia.

Pelo menos aquele beliscão havia sido bem didático, Vogel pensava.

Gellert nasceu saudável após nada menos do que três inseminações fracassadas. Vogel achou uma vergonha uma ômega não ser capaz de ter um filho por conta própria. Mas, pelo menos, o jovem Gellert foi ficando cada vez mais parecido com o pai a medida em que os anos se passavam e isso felizmente incluía o fato de ele ser um alpha.

Quando o velho Grindelwald precisou viajar a negócios, Vogel desconfiou que toda a insistência de sua esposa para ir junto, sem sequer se importar em deixar o filho para trás, talvez tivesse sido para evitar ficar tanto tempo sozinha na fazenda com ele. Uma tolice, pois Vogel nem era louco de mexer com um ômega já marcado.

Somente quando a notícia do trágico naufrágio que levara a vida do patrão e sua esposa chegou aos seus ouvidos foi que ele percebeu a verdadeira profundidade dos seus sentimentos pela Sra. Grindelwald.

E agora a história se repetia com Albus.

Era como uma maldição, Vogel pensou, querer para si os ômegas dos seus patrões.
  
Albus estava terminando de selar o cavalo quando sentiu alguém se aproximar dele por trás. Uma presença forte e intensa, impossível de ignorar.
Mãos masculinas envolveram sua cintura e ele se deixou ficar naquele abraço possessivo, soltando um suspiro relaxado.

Mas o homem atrás dele queria mais do que um simples abraço. Ele o virou de frente e Albus fechou os olhos, entreabrindo os lábios para receber os dele. 
A língua foi a primeira a invadir a boca de Albus e tomar posse dela, e o ômega sentiu um hálito suave de folhas de hortelã mascadas enquanto retribuía a carícia.

Não era o primeiro beijo de Albus. Ele havia beijado outro ômega amigo dele no dormitório da escola, mais para experimentar do que qualquer coisa. Mas beijar um alpha era completamente diferente. Só com um alpha ele poderia sentir aquele cheiro selvagem capaz de entorpecer seus sentidos, só com um alpha ele estava realmente protegido. 
Os lábios abandonaram sua boca e foram descendo devagar para beijar o seu pescoço suavemente, fazendo-o estremecer de prazer, e só então o alpha se afastou um pouco, sem contudo libertá-lo do abraço. Albus abriu os olhos novamente e se deparou com um belo par de olhos azuis muito claros olhando fixamente para ele.

Acordou com um suspiro, sua mão direita levantando instintivamente para agarrar o Gellert dos seus sonhos antes mesmo que ele se desse conta do que estava fazendo.

Mas que inferno…

Ele realmente havia sonhado… com Gellert?

Ainda sob os efeitos do sono, Albus levantou-se e por pouco não tropeçou no corpo adormecido do alpha, estirado no chão, bem ao lado dele. Mordendo os lábios, ele se fechou no banheiro e lavou o rosto vigorosamente.

Será que os feromônios daquele alpha estavam agindo sobre ele, apesar dos supressores? Mexendo com o seu corpo de alguma forma?

Albus sabia que os supressores que tomava não eram os mais modernos e nem os de melhor qualidade, mas, apesar da dor da aplicação e dos efeitos colaterais, eles pareciam funcionar muito bem. Até agora…

Com um suspiro, Albus resolveu deixar aquela preocupação para depois. No momento, ele tinha outras prioridades.

- Sr. Albus! Madrugou, hein? - Abernathy o recepcionou com um sorriso para logo depois voltar a dar atenção a pata do cavalo apoiada em seu colo. - Bom dia!

Abernathy estava sentando num banquinho e havia terminado de cuidar da pata dolorida de um dos cavalos com laminite.

- Bom dia… - Albus sorriu ao ver o cuidado que Abernathy tinha ao enfaixar a pata do animal doente.

- Você vai ficar bom logo. - Abernathy falou, afetuoso, para o cavalo, após colocar sua pata gentilmente de volta no chão.

- Abernathy, você já encomendou a nova ração? - Albus perguntou. 
Afinal de contas, era este o motivo pelo qual Albus estava ali tão cedo: se certificar de que as ordens de Gellert estavam mesmo sendo cumpridas. Tentar pelo menos melhorar a vida daqueles animais o máximo que pudesse.

- Claro! O patrãozinho só precisa mandar uma vez. - Abernathy respondeu, para o imenso alívio de Albus - O carregamento chega daqui a pouco, inclusive.

O empregado parecia tão feliz ao contar aquilo que Albus não pôde deixar de perguntar, curioso:

- Me diz uma coisa: por que não avisou ao Gellert que isso estava acontecendo?

A alegria de Abernathy se apagou no mesmo instante:

- Er… é que quem manda nessas coisas é o Sr. Vogel, sabe?

Albus balançou a cabeça:

- Não… por mais distante que Gellert esteja, ainda assim, quem dá a última palavra na fazenda é sempre o dono. E você sabe muito bem disso. - falou, suavemente- Você também sabe que a troca da ração nem sequer é a coisa mais grave que anda acontecendo por aqui. Gostaria de saber por qual motivo então você nunca disse nada… será possível que você é mais fiel ao Vogel do que ao Gellert?

Aquela pergunta pareceu bater fundo no coração de Abernathy e ele balançou a cabeça com energia várias vezes, negando veementemente:

- Claro que não, senhor! Como pode pensar isso? - ele respondeu, quase magoado.

- Lamento, mas as circunstâncias me impedem de pensar qualquer outra coisa. - Albus respondeu - Eu só posso imaginar a quantidade de coisas erradas que você vê acontecer todos os dias e ainda assim…

- … eu… eu não pude fazer nada, senhor, acredite em mim!

- Por que não? - Albus insistiu - Medo?

Novamente Abernathy negou com a cabeça, mas ainda assim não disse nada. Albus torceu os lábios e abriu a boca para continuar a falar, mas uma voz grossa o interrompeu, fazendo os dois homens pularem de puro desconforto:

- Abernathy! Vai agora limpar as baias de trás!

Ômega e beta se voltaram na direção daquela voz de imediato. Albus mal poderia acreditar que o feitor havia usado sua voz de alpha para dar uma ordem tão simples como aquela.

- Si… sim, senhor! - Abernathy respondeu, muito trêmulo, e levantou-se do banco em que estava sentado, não antes de fazer um rápido gesto de despedida para Albus.

Ficaram os dois a sós e todos os instintos de Albus lhe diziam que ele estava em perigo.

- Não sabia que você usava sua voz de alpha para dar ordens aos empregados, Anton… - Albus comentou, usando propositadamente o primeiro nome do feitor para irritá-lo pelo tratamento indigno vindo de um ômega, suas mãos deslizando pela crina do cavalo numa tentativa de se manter perfeitamente calmo e sob controle.

Vogel olhou para as mãos de Albus e o
jeito carinhoso com que elas deslizavam pela crina do animal por alguns segundos antes de responder:

- Só quando quero que as minhas determinações sejam seguidas de imediato e sem discussão.

- … ou talvez quando precise de… discrição, não é verdade? - sugeriu.

- De vez em quando é necessário sim. - Vogel admitiu, dando um passo na direção de Albus - É como dizem por aí… o segredo é a alma do negócio.

- Eu tinha a impressão que o segredo não incluía o dono do negócio… - Albus comentou, resistindo à tentação de se afastar ou se encolher.

- A prosperidade desta fazenda não é nenhum segredo. - Vogel respondeu, avançando ainda mais para dentro da baia, fazendo Albus se segurar com mais força na crina do animal, tenso - e ela fala melhor do que ninguém sobre o meu bom trabalho durante tantos anos.

- Pois desde que cheguei aqui eu me pergunto o preço que estes pobres animais precisaram pagar por tanta… prosperidade. - Albus respondeu, amargo.

Vogel não conteve uma risadinha:

- É até engraçado, sabe? - ele perguntou num tom divertido - Você, um… - e ele o olhou com desprezo - ômega, de repente aparece aqui, querendo mudar coisas que funcionam perfeitamente bem por muitos, muitos anos…

- Querendo você ou não, sou casado com o dono da fazenda. - Albus retorquiu.

Vogel deu mais dois passos, parando bem atrás de Albus antes de continuar:

-  Verdade, né? Mas sabe o que é ainda mais engraçado? Você se mete a mandar no que não lhe compete, mas é incapaz de fazer a única coisa que está aqui para fazer…

E antes que Albus pudesse fazer qualquer coisa para impedir, Vogel se inclinou para cheirar o seu pescoço.

Sentindo calafrios de repulsa, Albus se virou e o empurrou para longe com força suficiente para fazê-lo bater com as costas na parede da baia, levantando os punhos de imediato para socar a cara dele, mas Vogel apenas sorriu e levantou os dois braços em rendição:

- Gellert é mesmo muito ingênuo… - Vogel comentou, divertido - mas eu não… eu vivi o suficiente para saber que você não ter cheiro de nada só pode ter duas razões: ou você é um beta… ou está usando supressores… - então ele fez uma ligeira pausa, dando um meio sorriso, antes de devolver o tratamento que havia recebido no começo da conversa - Você é um beta, Albus?

- Cala a boca! - foi tudo o que Albus conseguiu dizer, uma fúria gelada enchendo os seus olhos, apesar do tom de voz aparentemente controlado.

- Calo, calo sim. - Vogel falou, tranquilamente - Mas não pense que vai demorar muito para o pobre Gellert somar dois mais dois. E quando isso acontecer… você vai estar de volta ao seu merecido lugar: de quatro na cama, levantando o seu traseiro para o seu dono.

Vogel lhe deu as costas e Albus trincou os dentes de ódio enquanto o observava partir dali.

As mãos trêmulas do ômega subiram da crina para as orelhas do cavalo e quando elas instintivamente se encolheram para evitar aquele toque, o ômega não pôde evitar pensar que talvez ele estivesse tão indefeso nas mãos de Vogel quanto aquele pobre animal.
  
- Você não vai tomar café da manhã? - Gellert perguntou ao encontrá-lo lendo na varanda, acabrunhado, e os ombros de Albus pularam apenas por ouvir aquela voz rouca e exigente.

Definitivamente, algo não estava indo muito bem com seus supressores. Talvez ele precisasse buscar o conselho de Newt, afinal de contas, o veterinário certamente entendia bem mais do assunto do que ele.

- Não estou com fome… - falou, distraído, sem sequer se preocupar em olhar na direção de Gellert. Nem se não estivesse usando supressores e sofrendo com seus efeitos colaterais ele conseguiria botar alguma coisa na boca depois da conversa com Vogel. Sua cabeça não parava de passar e repassar cada fala, cada detalhe, cada ameaça velada…

Gellert deixou escapar um suspiro:

- Pensei que as coisas entre nós não estivessem mais tão ruins. Pelo visto, me enganei. - lamentou.

Albus finalmente levantou a cabeça do livro e se deparou com os olhos muito azuis de Gellert olhando para ele com a mesma intensidade do sonho que tivera naquela manhã. E aquela visão… de alguma forma, mexeu com ele mais do que gostaria.

- Não é por sua causa que não quero comer. - ele explicou, suave, seus dedos se apertando contra a capa do livro.

- Então por qual motivo é, se incomoda de me dizer?

- Por que você se importa? - Albus perguntou.

Gellert respirou fundo, irritado por ter que responder uma pergunta tão óbvia:

- Você já se olhou no espelho? - perguntou, exasperado - Você tem emagrecido a olhos vistos desde que chegou aqui, sabia?

- E daí? - Albus perguntou de novo - Que diferença isso faz para você?

Gellert pinçou a ponte do próprio nariz de pura irritação:

- Já tivemos esta mesma conversa e, pelo visto, você não acreditou na minha resposta. É tão surpreendente assim eu me preocupar com você? - perguntou.

Albus parou para pensar um pouco naquela pergunta. Não, não era tão surpreendente assim, afinal, Gellert precisava de uma égua saudável para inseminar. Não por acaso os alphas eram tão protetores com seus ômegas, eles queriam garantir a saúde da sua prole.

- Não, não é surpreendente… é só o instinto protetor de um alpha… - Albus falou, finalmente demonstrando entender.

Gellert grunhiu de tão irritado:

- Por que você sempre joga o meu gênero na minha cara como se ele fosse uma falha de caráter? Parece até que gosta de transformar tudo o que eu falo e faço em defeito, até as coisas boas.

- Eu não disse que era um defeito…

- Se a minha preocupação com você é um simples instinto, uma simples reação orgânica de um alpha, qual é a importância real do que eu sinto?

- Gellert…

- Nem tudo é feromônio, Albus. - Gellert o interrompeu antes que ele pudesse dizer mais alguma coisa - E você nem sequer tem cheiro de ômega…

Albus ficou imediatamente tenso ao ver a conversa caminhar para um tema que ele definitivamente não desejava enfrentar. Resolveu então suavizar o discurso:

- Me desculpe… não tive a intenção de te ofender. - ele disse e, depois de uma pequena pausa, adicionou num tom bem mais baixo - E aprecio a sua preocupação com o meu bem estar.

A expressão de Gellert se suavizou imediatamente:

- Consigo te convencer a pelo menos comer uma fatia de doce? Vinda preparou alguns que ela sabe que você gosta muito. - e ele estendeu a mão para Albus para ajudá-lo a levantar da cadeira de palha onde ele estava sentado.

Albus realmente não estava com fome e, mesmo que não estivesse conseguindo prestar atenção no livro, ele não queria sair dali. Mas ver Gellert estendendo a mão na direção dele surtiu… um efeito… um instinto que tornava mais difícil contrariar aquele Alpha.

Malditos supressores…

Albus segurou a mão estendida de Gellert e se deixou puxar por ela. Se se esforçasse, talvez ele até conseguisse engolir alguns dos doces de Vinda…
  
Tina engoliu em seco.

Havia ensaiado várias vezes tudo o que falaria para o irmão de Newt. Começaria dizendo que, poderia não parecer, mas seu salário na fazenda dos Dumbledore era bom o suficiente para sustentar um ômega, afinal, ela era responsável por toda a parte contábil da fazenda e seu patrão, Aberforth, havia pago todos os seus atrasados logo após Albus se casar. Também diria que ela gostava de Newt há muito tempo e que queria protegê-lo e fazê-lo feliz.
Encerraria com um pedido formal de casamento e também para cortejá-lo durante este período, como não poderia deixar de ser.

Mas agora, parada diante da casa dos Scamander, ela se via de repente sem coragem de bater na porta. E os mesmos questionamentos de sempre a assombravam. Afinal de contas, eles não eram mais os dois jovenzinhos sonhadores que combinaram alegremente de se casar assim que Newt voltasse de Hogwarts. Agora, Newt tinha uma carreira promissora, um futuro.

Talvez não houvesse mais espaço para ela nos planos daquele ômega…

Não! Mil vezes não! Ela não se deixaria arrastar de novo por aqueles pensamentos! Se Newt não quisesse se casar com ela, ele que que se armasse de coragem e lhe dissesse não. Tina estava ali para fazer a parte dela do combinado!

Com este pensamento corajoso, ela levantou o braço para bater, mas antes que tivesse a chance de encostar a mão na madeira, a porta se abriu.

- Tina? - Theseus perguntou ao vê-la ali parada boquiaberta.

- O… olá! - Ela gaguejou.

- Olha… seja lá o que for, lamento dizer que perdeu a viagem. Newt não está, ele saiu para buscar aquela maleta surrada que ele gosta tanto na clínica e até agora não voltou. Estou indo lá buscá-lo. Não é seguro um ômega não marcado estar na rua a esta hora da noite, mesmo numa cidade pacata como a nossa.

- Ele não voltou? Será que aconteceu alguma coisa com ele? - Tina perguntou, preocupada.

- Duvido muito. - Theseus falou, confiante - Provavelmente algum atendimento de emergência o reteve lá até tarde, nada mais do que isso.

- Eu posso ir com você? - Tina perguntou.

Theseus apenas deu de ombros. Sabia de todo o rolo entre aquela alpha e seu irmão e achou bom que aqueles dois se encontrassem sob sua supervisão para não inventarem de se ver sozinhos e Newt acabar se casando com uma vergonhosa marca de mordida no pescoço mesmo usando supressores.

- Vamos. - falou, fazendo um gesto para que Tina o seguisse, já andando na direção da pequena clínica veterinária de Newt.

Atravessaram a rua e andaram por perto do canal uns bons quinze minutos antes de avistarem a casinha alugada por Newt para ser sua clínica. Coisa muito simples e pequena, de quem estava apenas começando. Newt havia lhe contado que tinha investido cada centavo de três anos de estágio remunerado para equipar aquele lugar com tudo o que era necessário para atender bem os animais. E desde que a clínica ficara pronta, Newt passava grande parte do seu dia lá, ajudando os animais que lhe traziam e também os que ele arranjava nos lugares mais inusitados: ratos, cobras, morcegos, aranhas… quanto maiores e mais assustadores, mais Newt parecia se encantar.

Mas naquela noite, só de bater os olhos no lugar, ficou nítido tanto para Theseus quanto para Tina que alguma coisa estava errada. A porta estava aberta para trás e a lâmpada que iluminava a plaquinha com o nome da clínica estava quebrada. Fazendo um som de “shiiii”com a boca, Theseus puxou a sua pistola, trocando um olhar rápido com Tina antes de empurrar a porta devagar

- Newt!?!- Tina perguntou, tensa, assim que deu os primeiros passos pelo interior da casa, seguida de perto por Theseus.

Encontraram Newt parado de pé logo na entrada, de costas para eles.

Só então repararam no estado do lugar. Mesmo no breu, era possível ver móveis, instrumentos, medicamentos, materiais… tudo revirado, quebrado, arruinado.

- Newt? Você está bem? - Tina perguntou, ofegante de tanto nervoso.

- Tá tudo destruído… - Newt falou em resposta, muito baixo, sem se mexer - Os animais que eu estava cuidando… estão todos mortos…

- Quem fez isso? - Theseus perguntou, olhando para todos os lados.

- Eu…. eu não sei. - e sua voz tremeu um pouco ao responder - quando cheguei já estava assim… - e fazendo uma pausa de puro nervosismo - a minha maleta…

Estava escuro, mas Tina localizou a adorada maleta de Newt, seu objeto de conforto desde a infância, jogada num canto, amassada e rasgada.

Theseus testou o interruptor, duas vezes, mas a luz não acendeu.

- Vou ver por qual motivo essas malditas luzes não acendem. - resmungou - Fica com ele enquanto isso, Tina?

- Claro…

Theseus sumiu pelo interior da casa, deixando escapar um palavrão ao tropeçar em alguma coisa no escuro.

Tina se ajoelhou e recolheu os pedaços da maleta de Newt com todo o cuidado antes de se levantar e colocá-los em cima de uma mesa, no exato instante em que Theseus fez a luz voltar. Por um segundo, ambos apertaram os olhos, desconfortáveis com a claridade.

Tina foi a primeira a perceber a frase pichada na parede. Franzindo a testa, ela tentou segurar os ombros de Newt para impedi-lo de ver, mas não conseguiu ser rápida o suficiente.

- "Volta para cama"… - Newt falou muito baixo.

- Newt…

Mas não conseguiu continuar a frase porque ele se agarrou nela como toda a força, como se dependesse disso para se manter de pé, a cabeça escondida contra o seu peito, como se quisesse desaparecer dali. Os dedos de Tina se embrenharam pelos cabelos de Newt, hesitantes, enquanto ela tentava consolá-lo:

- Vamos reconstruir tudo, você vai ver. - ela disse para ele, suavemente - Eu tenho algumas economias… vai ficar tudo bem…

-  Mas estas… estas economias… eram… eram… para o casamento… - Newt sussurrou, muito triste.

- A gente pode esperar mais um pouquinho… - Tina falou, sem parar de acariciar a cabeça do ômega - Já esperamos tanto, não é mesmo?

-… minha maleta… - Newt choramingou como uma criança desamparada por ter pedido seu brinquedo favorito.

- Vamos consertar. - Tina falou, apressada - Vai ficar tudo bem, Newt, eu prometo!

Theseus voltou para a sala ainda impactado com toda a destruição que vira nos outros cômodos, mas, ao ver seu irmão abraçado com Tina, tratou de tossir duas vezes. Tina deu um passo atrás e segurou o rosto de Newt e, quando ele desviou o olhar, ela sorriu e beijou sua testa.

- Você realmente não sabe quem fez isso, Newt? - Theseus perguntou, seco.

- Na… não… - gaguejou, olhando para os seus próprios sapatos.

- Ah, mas eu vou descobrir. - Theseus garantiu - Nem que seja a última coisa que eu faça.

- Esquece isso. - Newt pediu - Não vale a pena.

Theseus olhou para o irmão por alguns segundos antes de responder:

- Deixe isso comigo, ok? - e batendo de leve no ombro do irmão - Vamos voltar para casa.

Tina fez questão de acompanhar Newt até o portão da casa dele, sem largar sua mão nem por um minuto. Quando chegaram na simpática casinha de dois andares onde os Scamander moravam, Theseus deu aos dois uma olhada significativa de alerta para que se comportassem antes de entrar em casa e deixá-los se despedir.

-  Tina… - Newt chamou e quando a alpha o olhou, ele engoliu saliva, nervoso, antes de perguntar - você também acha que eu… que eu deveria voltar para cama?

Tina esperava todas as perguntas do mundo, menos essa:

- Claro que não acho, Newt! - ela falou, quase zangada - Claro que não!!

Newt então deixou escapar um pequeno sorriso:

- Se você não acha, então é o que… é o que basta para mim. - ele falou, tímido.

Tina sorriu para Newt e se inclinou para beijá-lo de leve nos lábios. Eles ainda não eram casados, ela ainda não o havia marcado, mas para Tina, era como se ele já fosse o ômega dela.

E ela não pouparia esforços para protegê-lo e fazê-lo feliz.

Dia seguinte…

O barulho de algo caindo dentro do banheiro fez Albus abrir os olhos devagar, ainda sonolento.

Ainda era muito cedo, mas a brisa que entrava pelo quarto e o canto suave dos passarinhos eram um convite à despertar. Albus coçou os olhos, preguiçoso, havia encontrado um livro interessante demais enfeitando uma das prateleiras da sala e se debruçara sobre ele boa parte da noite, então, por mais que pensasse em se levantar, seu corpo ainda implorava por um pouco mais de descanso.

Foi neste momento que a porta do banheiro se abriu e dela saiu um bafo quente de banho recém tomado, misturado com o cheiro agradável de sabonete e desodorante masculino. No segundo seguinte, Gellert saía de lá, apressado e andava até o armário.

Completamente nu!

Os ombros de Albus pularam de susto e ele desviou o olhar, se perguntando por que Gellert não havia colocado pelo menos um roupão. A resposta surgiu de imediato, quando os seus olhos se depararam com o roupão de banho azul de Gellert esquecido em cima da poltrona de couro no canto do quarto.

Claro, ele poderia ter pego o roupão de Albus emprestado, mas, pelo visto, preferiu sair do banheiro sem roupa mesmo e, agora, estava ali, parado de pé diante do armário, indeciso sobre a roupa que usaria para o evento que estava prestes a ir.

Albus não queria olhar, era até um desrespeito espichar os olhos para cima de alguém que nem estava sabendo que estava sendo observado. Mesmo que este alguém fosse oficialmente seu marido, na presente situação. simplesmente não era certo…

Mas Gellert estava… absolutamente lindo! Seu corpo bem torneado, seus cabelos loiros molhados pingando nos ombros, suas costas largas e as pernas compridas. A inegável beleza daquele homem sempre o intimidara, fazendo-o sentir que nem os supressores eram suficientes para livrá-lo da sua influência. Mas agora, olhando para Gellert nu em pelo, o que Albus sentia ia muito além da intimidação.

E, no momento, aumentava de tamanho cada vez mais.

Constrangido, Albus tratou de voar para o banheiro naquele exato momento, aproveitando que Gellert ainda estava distraído puxando uma calça jeans preta do cabide. Trancou-se lá e abriu a torneira da banheira, disposto a se entrar de cabeça na água fria e acabar de vez com o problema.

Mas, por algum motivo, a água que saiu do cano era morna e quando ele entrou na banheira, deixou escapar um suspiro, cedendo à tentação de se dar um pouquinho de prazer, relaxar…

Sua mão envolveu seu próprio pênis ereto e o acariciou. Albus então respirou fundo e fechou os olhos, se estimulando em silêncio.

A imagem de Gellert nu se desenhou na sua mente e seu membro pulou na sua mão, fazendo-o soltar um suspiro de prazer. Sentiu-se um pouco culpado por pensar justamente naquele alpha, mas não é como se ele conhecesse muitos alphas que o atraíssem, pelo menos não como Gellert.

Os estímulos continuaram e a fantasia na cabeça de Albus foi ao poucos abandonando a terceira pessoa e abrindo um espaço para a sua participação. E logo o próprio Albus estava nu junto com Gellert, sentindo a pele do alpha colada na sua, sendo abraçado por ele, beijado…

A mão de Albus aumentou o ritmo, enquanto ele imaginava os dois juntos na cama, Gellert se aproximando lentamente do seu pescoço…

Os dentes de Gellert no seu pescoço…

Mordendo…

…mordendo…

… forte, forte, forte…

Fechou os olhos e abriu a boca, mas o gemido ficou na garganta enquanto ele gozava na água morna.

A sanidade só voltou tarde demais. E Albus ficou pensando que definitivamente os supressores não estavam funcionando como deveriam.

Preocupado, terminou o banho e saiu apressado da banheira.

Precisava perguntar a Newt sobre o que estava acontecendo com ele sem demora.

----- CHAPTER BREAK -----

- Já disse que não vai dar para fazer. - Vogel repetiu, enquanto tentava acender seu cigarro.

- Dá para fazer sim, você sabe que dá. - Aberforth respondeu, servindo os dois com o uísque que ele havia acabado de comprar. Um pequeno investimento para ajudar a convencê-lo a cooperar.

Estavam os dois, tarde da noite, num bar muitíssimo mal frequentado em uma cidade localizada a duas horas de carro das fazendas onde os dois moravam. Todo cuidado era pouco para evitar que curiosos os vissem.
O isqueiro de Vogel se recusou a funcionar, mesmo depois de uma dezena de tentativas e ele o atirou na mesa, irritado, antes de continuar:

- Você está querendo avançar a sua cerca para o outro lado do rio… - ele disse, pegando no ar uma caixa de fósforos que Aberforth atirou na sua direção - Tem noção do quanto valem estas terras?

- Oh, tenho, tenho sim. - Aberforth comentou, com um brilho ambicioso no olhar - Valem a solução definitiva para todos os meus problemas financeiros.

- Pensei que a solução para os seus problemas fosse o casamento da sua irmã mais nova, por sinal, que ômega de primeira, hein? - deu uma risada sugestiva.

- Faça o favor de não falar da minha irmã desse jeito. - Aberforth reagiu, quase agressivo, sua expressão deixando claro que ele não admitiria comentários como aquele. Vogel apenas levantou as mãos em rendição - E eu não gosto de colocar toda a minha sorte nas patas de um cavalo só, se é que você me entende…

- Acho que Gellert perceberia se nas terras dele estivesse faltando um rio… - Vogel decidiu voltar ao assunto que havia trazido os dois ali, puxando a fumaça do seu cigarro para os pulmões devagar.

- Quando ele perceber, você diz que vendeu aquela parte do terreno, que foi um bom negócio… ele confia em você, não vai falar nada.

- Ele confia em mim, mas não é burro. No mínimo vai querer ver o contrato e a cópia da escritura. Isso se não me pedir uma prestação de contas da grana.

- Falsificamos a papelada. - Aberforth disse, indiferente - Conheço um cara.

- Não sei se gosto muito desses seus… caras.

- Desse você vai gostar muito, te garanto.

- Não sei… muito arriscado. Arriscado demais! - Vogel reclamou, finalmente provando seu uísque - E o que eu ganharia com isso?

- Que tal 20% do valor do terreno?

- É pouco. - Vogel disse - E não tente me enganar, você tem tantas dívidas que nem se você vender tudo o que tem conseguiria me pagar tanto dinheiro.

- Tudo bem. Reconheço que não tenho dinheiro, mas tenho alguma outra coisa muito mais valiosa.

Vogel deu uma risada:

- É mesmo? E o que seria mais valioso do que dinheiro? Estou curioso!

Aberforth sorriu:

- Um ômega.

Vogel franziu as sobrancelhas:

- Você disse um ômega? Mas se Ariana…

- Não, ela não. - ele o interrompeu rapidamente, parecendo não gostar sequer da ideia de sua irmãzinha perto de um sujeito como Vogel  - Minha irmã vai se casar com o seu patrão, isso já está definido. Me refiro ao meu irmão mais velho, Albus.

Vogel fez uma cara de espanto:

- Não sabia que você tinha um irmão mais velho.

- Tenho. Ele voltou há pouco tempo. Ao contrário de Ariana, Albus estudou num colégio interno fora da cidade. Coisa do meu pai…
depois ficou na fazenda que nós tínhamos em outra cidade até a nossa mãe morrer e, desde que voltou, só quer saber de livro e cavalo, não sai da fazenda para nada.

- Não gosto muito da ideia de um ômega estudando fora de casa. - Vogel falou - eles só saem de casa para aprender coisa errada…

- Já disse, invenção do meu pai. - Aberforth deu de ombros - Ariana, por exemplo, estuda comigo e com Albus. É o melhor.

- E agora deixa eu adivinhar? Você vende o diamante para o meu patrão e me empurra o pedaço de vidro? Não, obrigado.

- Albus não é um pedaço de vidro! - Aberforth protestou, quase ofendido.

- Claro que é… é até mais velho do que você, passou da melhor idade para casar.

- Ele é mais velho do que eu um ano. Ainda é jovem o bastante.

- Duvido que seja bonito também. - Vogel complementou antes de tragar.

- Ele não é tao bonito como a Ariana, mas para um sujeito como você, ele é praticamente um deus. Ele é um Dumbledore, afinal de contas.

- Grandes coisas… - Vogel deu de ombros, fazendo questão de retribuir a agressão.

- Fora que você já também passou e muito da idade de morder um ômega…

- Olha quem fala…

Aberforth grunhiu. Ele mal tinha condições de cuidar de dois ômegas, como poderia pensar em conseguir mais um?

- Vai querer o ômega ou não vai? - perguntou, já começando a ficar impaciente com aquele papo - Se não quiser, vamos para casa de uma vez. Tá tarde.

Vogel fez um sinal com a mão para que Aberforth esperasse e encheu seu copo de uísque, seu cigarro quase chegando no filtro a essa altura.

- Vou querer ver o material antes.

Aberforth fez um bico de pura contrariedade:

- Só se for de longe. Conheço você o suficiente.

- De longe está ótimo para mim.

- Muito bem. Passe lá na minha fazenda amanhã bem cedinho. Ele gosta de ler do lado de fora da casa.

- Esse negócio de ler… - Vogel começou a reclamar.

- Pare de choramingar. Quando casar com ele, você faz as regras.

Isso pareceu fazer Vogel relaxar e a conversa ficou por ali mesmo. Aberforth pagou a conta do bar e os dois alphas se despediram com um aceno curto.

Dia seguinte, Vogel acordou bem cedo, selou um alazão e fustigou o cavalo para chegar o mais rápido possível na fazenda. Jacob, o empregado meio atrapalhado dos Dumbledore, já havia sido avisado que ele viria e abriu o portão com ligeireza. Vogel deixou seu cavalo com ele e foi andando até a casa grande.

Encontrou Albus sentado numa cadeira de balanço, com um livro nas mãos, seus longos cabelos vermelhos brilhantes esvoaçando com a brisa da manhã.

Umedeceu os lábios, pensando que a única coisa que parecia fora do lugar em Albus era o livro.

Mas isso ele saberia consertar no seu devido tempo.

- O… o senhor vai sair? - Abernathy perguntou, ao ver Albus selar uma égua por conta própria.

- Vou até a biblioteca da cidade pegar alguns livros emprestados. Acho que já li tudo o que há para ler nesta casa.

- Eu posso levar o senhor de carro. - Abernathy se ofereceu rapidamente, ao ver Albus amarrando o lenço em volta do pescoço com firmeza para que não caísse, já pronto para partir.

- Obrigado, mas prefiro ir a cavalo mesmo.

- O senhor não prefere esperar o patrãozinho acordar?

Albus colocou o pé no estribo e montou  agilmente antes de responder:

- Não, não prefiro. Devo estar de volta lá pela hora do almoço.

- Si… sim, senhor. - Abernathy respondeu enquanto lidava com a sensação de que tudo aquilo acabaria em problema.

Albus galopou por alguns minutos até chegar ao centro da cidade. Sua primeira parada foi na biblioteca, onde pegou seus livros emprestados o mais rápido que conseguiu, guardando-os cuidadosamente num alforge preso ao seu animal.
Só então ele partiu em direção do lugar que realmente pretendia ir. A esta altura, Albus imaginava que Newt já estaria na clínica e ele prendeu a égua diante da casinha esperando que seu amigo tivesse algum tempinho livre para ele. 
Bateu na porta duas, três vezes, esperou bastante e nada.

Newt não estava na clínica? Será que estava doente?

Por alguns momentos, Albus se viu indeciso frente à conveniência de procurar seu amigo em casa, afinal de contas, as chances de encontrar com Theseus eram grandes e Gellert certamente não gostaria de vê-lo tão perto de outro alpha. 
Mas não foi preciso mais do que alguns segundos para Albus se repreender mentalmente, aborrecido consigo mesmo apenas por pensar em Gellert e no que ele pudesse gostar. Ele conhecia Theseus, sabia perfeitamente bem que era um Alpha de total confiança e isso bastava. A opinião de Gellert a esse respeito pouco importava.

Foi o próprio Theseus quem abriu a porta da casa para ele.

- Ah, Albus… há quanto tempo! - cumprimentou, fazendo um gesto para que entrasse - Como vai?

- Como vai, Theseus? - Albus sorriu ao entrar em casa.

Theseus conhecia Albus desde quando ele era bem criancinha, nos tempos em que o pai daquele ômega ainda era vivo, quando Albus e Newt frequentaram a mesma escola e lá se tornaram bons amigos, unidos pelo amor que tinham pelos animais e pelo desejo de se tornarem veterinários no futuro.

Tudo ia bem até o pai de Albus partir, deixando os filhos ômegas aos cuidados do único alpha da família, Aberforth, e foi aí que Albus, apesar de ser um aluno brilhante, não pôde continuar os estudos e se tornar veterinário como sempre havia sonhado.

Uma lembrança de Newt consternado, perguntando se ele não se casaria com Albus apenas para lhe dar a liberdade o invadiu enquanto ele via o ômega sentar-se no sofá da sala. Mas Theseus sabia muito bem que seu salário de policial jamais seria suficiente para desposar um Dumbledore e só por isso ele não havia pedido a mão daquele ômega naquela oportunidade.

- Soube pelo Newt que você se casou! - Theseus comentou - Meus parabéns!

- Ah… obrigado. - Albus respondeu com a suavidade de sempre, mas sem o brilho no olhar tão comum dos recém-casados. Theseus não ficou exatamente surpreso.

- Newt está lá em cima. - ele falou antes de andar alguns passos na direção da escada e lá gritar - Newt! Visita para você!

- Para mim? - uma voz abafada perguntou - Já vou!

- Ele já vem. - Theseus repetiu, como se Albus não tivesse ouvido.

- Como ele está?

- Bem…. na medida do possível - Theseus respondeu, interpretando que a pergunta se Albus só poderia significar que ele já sabia sobre a clínica - Mas o prejuízo foi bem grande…

- Que prejuízo? - Albus perguntou, sem entender.

- Da clínica… - Theseus respondeu, entendendo menos ainda.

- O que aconteceu com a clínica?

- … você não sabe?

Albus abriu a boca para responder, mas foi interrompido pelo barulho das escadas rangendo com os passos de Newt:

- Ah, Albus! Não esperava te ver por aqui.

- Eu precisava conversar um pouco com você. - Albus explicou - Mas antes…

- Venha, vamos lá para cima. - Newt o interrompeu.

Albus assentou com a cabeça e, após um aceno de despedida na direção de Theseus, subiu com seu amigo até o quarto.

Era a primeira vez que Albus entrava no quarto de Newt e ele não pôde deixar de olhar em volta e reparar na enorme quantidade de viveiros com vários tipos de insetos, duas aranhas e até uma cobra.

- O que aconteceu com a clínica? - Albus perguntou assim que botou os pés no quarto.

- Com… com a clínica? Ah… uma estante desabou… - Newt mentiu, enquanto fechava a porta do quarto  - Fez… fez uma sujeira.. muita coisa se quebrou… vai dar trabalho para limpar…

- Ah, é mesmo? Que dor de cabeça, hein? - Albus lamentou - Mas pelo tom do seu irmão, fiquei com a impressão de que era algo bem sério…

- Ah, bobagem. Você sabe como o meu irmão é  dramático…

Albus não achava Theseus nenhum pouco dramático. Pelo contrário. Mas, antes que ele pudesse comentar alguma coisa, Newt tratou de desviar o assunto:

- Não pensei que o Sr. Grindelwald o deixaria vir aqui… - comentou, enquanto retirava uma redoma de vidro com uma enorme caranguejeira do assento, colocando-a no chão, para abrir espaço para Albus sentar.

Albus deu de ombros:

- Ele nem imagina que eu estou aqui. Acho até que, se soubesse, era capaz de mandar o capitão do mato dele vir aqui para me arrastar pelos cabelos de volta para casa… - disse, enquanto se ajeitava na cadeira. Newt sentou-se na beirada da cama, a simples referência à Anton Vogel, mesmo que indireta, sendo suficiente para fazer seus ombros pularem de desconforto:

- Albus… não… não acho que você deva brincar com esse tipo de coisa… Vogel… ele é… um cara violento…

- Eu não tenho medo dele. - Albus falou.

- Pois eu acho que… que deveria ter. - Newt falou, seu olhar passeando pelas persianas da janela.

- Por que está dizendo isso? - Albus estranhou - Aconteceu alguma coisa?

- Não, não aconteceu nada. - Newt apressou-se a responder - Eu só acho que você deveria ter mais cuidado porque… me preocupo com você.

- Ah, não se preocupe. - Albus respondeu - Eu convivi tempo suficiente com o meu irmão para saber que esse tipo de alpha gosta muito de latir, mas não é tão eficiente na hora de morder.

Os olhos de Newt se perderam por alguns segundos na porta do quarto e ele ficou pensativo antes de responder:

- Mas você não veio até aqui para falar sobre o Vogel, veio? O que queria conversar? Aposto que deve ser coisa séria…

- Um pouco. - Albus respondeu, sentindo os músculos do pescoço ficarem um pouco tensos - Vim mais porque seria arriscado conversar sobre isso lá na fazenda.

E ao ver que Albus hesitou ao invés de prosseguir, Newt o estimulou com um sorriso:

- Fala, Albus. Que cara é essa?

- Cara de quem suspeita que os supressores não estão funcionando tão bem. - Albus falou como se pedisse socorro. Newt olhou rapidamente para Albus, surpreso, mas logo se deixou atrair por um fio solto na própria calça:

- Por qual motivo você está suspeitando disso?

A pergunta mais temível de todas. Albus se ajeitou na cadeira, desconfortável:

- Eu tenho… sentido coisas… estranhas…

Albus tinha esperanças de que Newt entenderia a sutileza da coisa, mas não foi o que aconteceu:

- Que tipo de coisas estranhas? - ele perguntou num tom de quem não fazia ideia do que Albus poderia estar falando.

- Bem… eu ainda sinto… algum tipo de tensão.

- Tensão?

- Sim.. - e a esta altura Albus já se sentia profundamente infeliz por estar tendo aquela  conversa - uma tensão… sexual, sabe? Que eu não deveria estar sentindo.

- Você sente vontade de… de transar com ele? - Newt perguntou, claramente ainda tentando entender.

- Não é um cio. Longe disso! - Albus tratou de explicar para evitar que Newt o compreendesse mal - Ele só… mexe comigo… acho que são os feromônios. Só podem ser os feromônios.

Newt balançou a cabeça:

- Albus… não há nada… nada de errado com os seus supressores.

- Não?

- Não… os supressores impedem que você entre no cio, é verdade. Mas a sua cabeça continua a mesma. Você… você continua pensando. E isso é… normal.

Albus não gostava nenhum pouco do que aquilo significava. Newt queria dizer que ele sentia algum tipo de atração por Gellert?

- Não… não é verdade. - rebateu - Você diz isso porque usa supressores mais modernos e melhores do que os meus. Os seus funcionam perfeitamente, já os meus…

- Acredite em mim quando digo que já usei todo tipo de supressores. - Newt o interrompeu, sutilmente - A única diferença prática entre eles é a dor da aplicação e alguns efeitos colaterais.

- Como você pode ter tanta certeza?

Newt abaixou os olhos para os próprios sapatos, seu rosto ganhando uma coloração rosada:

- Eu sei porque nunca deixei de pensar na Tina da mesma forma…

- Mas aí é diferente… - Albus respondeu, sem muita paciência - Você sempre foi apaixonado pela Tina!

Newt fez uma cara de espanto:

- Você está querendo dizer que está apaixonado pelo Sr. Grindelwald?

-  Não! - Albus respondeu, cada vez mais impaciente - Estou querendo dizer que, no meu caso, pode perfeitamente ser um efeito colateral!

- Achar seu alpha atraente? - Newt perguntou rindo - Não… não mesmo.

Albus abriu a boca, mas o barulho de batidas vigorosas na porta, no andar de baixo, o interromperam:

- Você não está esperando visita, está? - Albus perguntou, preocupado, e quando Newt balançou a cabeça devagar, ele disse - Deve ser o Vogel… Gellert deve ter mandado ele atrás de mim.

E a expressão de Newt ao ouvir aquele nome fez um alerta vermelho se acender no cérebro de Albus:

- Não foi só uma estante que caiu na sua clínica, não é mesmo? - ele perguntou, suavemente.
  
- Bom dia. - Theseus cumprimentou o alpha parado na porta da sua casa - Posso ajudar em alguma coisa?

Theseus sabia perfeitamente que a pessoa diante dele era Gellert Grindelwald e também imaginava o motivo da sua presença ali, mas jamais trataria com tanta importância qualquer outro alpha. Não no seu próprio território.

- Vim buscar o meu ômega. - Gellert respondeu, seco.

- Albus está ocupado no momento…

- O senhor Grindelwald está ocupado fazendo exatamente o quê? - Gellert perguntou, deixando claro que não apreciava nenhum pouco o tratamento casual para com Albus.

- Ele está lá em cima, conversando com o amigo dele. Ei, espera! - Theseus gritou quando Gellert o tirou do caminho com o braço e andou na direção das escadas - Invada a minha casa dessa maneira e te dou voz de prisão!

- Faça isso e te denuncio por rapto! - Gellert rebateu, agressivo.

Theseus riu de indignação.

- Ninguém raptou o seu ômega! Albus veio até aqui com suas próprias pernas.

- E com as próprias pernas  ele vai sair daqui junto comigo. Albus é meu! Eu tenho direito!

Theseus deixou escapar um suspiro. Infelizmente, ele não poderia dizer que aquele grosseirão estava mentindo. Como alpha, ele tinha seus direitos. Sem falar mais nada, ele o viu subir as escadas de dois em dois degraus e meter a mão na maçaneta da primeira porta que viu fechada.
  
Não era Vogel, para alívio de Newt.

Quer dizer, mais ou menos. A expressão de Gellert ao abrir a porta do seu quarto também era assustadora o bastante.

- Aí está você! - ele disse ao olhar Albus sentado em sua cadeira e Newt teve a impressão de que o corpo todo daquele alpha tinha relaxado de tão nítido que era o seu alívio por vê-lo.

Mas o alívio logo deu lugar a outro tipo de sentimento.

- Sim, estou aqui. - Albus respondeu como se fosse muito óbvio.

- Vem comigo. Vamos embora. - Gellert ordenou num tom de voz mais ou menos calmo, apesar de frio, encarando Albus.

Albus não disse nada, não mexeu um músculo, mas Newt sabia que, por mais que ele fosse corajoso e bom em esconder seus próprios sentimentos, não havia jeito de um ômega não se intimidar diante do olhar tão intenso daquele alpha. Ele mesmo se pegou desejando que Tina estivesse ali para protegê-lo.

- Albus, vamos embora para casa! - Gellert repetiu a ordem, mas desta vez com uma diferença: ele estava usando sua voz de alpha. - Agora!

Albus apertou os olhos de puro desconforto e Newt se encolheu, botando as mãos nos ouvidos. Por alguns instantes, o ruivo até tentou resistir àquele ordem, mas ele sabia que, quanto mais tempo um ômega convivia com um alpha, absorvendo os seus feromônios, mais suscetível ficava à sua voz. Então, com força de vontade, Albus seria capaz de resistir à voz de Theseus e até a de Vogel, mas a de Gellert?

Era simplesmente impossível.

Albus se levantou devagar da cadeira e andou na direção de Gellert, não antes de dar um olhar significativo de despedida para Newt, numa promessa de que a conversa entre eles não tinha acabado.

Gellert desceu as escadas e virou a maçaneta da porta da casa sem se dar ao trabalho de se despedir. Albus então olhou para Theseus brevemente, recebendo um breve aceno de cabeça como resposta.

- Você não devia ter usado a sua voz de alpha comigo! - Albus protestou assim que se viu do lado de fora da casa.

- Você não devia ter mentido! -  Gellert rosnou em resposta.

- Eu não menti! -  Albus se defendeu.

- Você disse para todo mundo que ia para a biblioteca!

- E eu fui! Peguei alguns livros emprestados e depois vim encontrar o Newt na clínica, mas a encontrei fechada…

- E aí você teve a brilhante ideia de vir até aqui… - Gellert completou - Já parou para pensar no perigo que correu?!

O cavalo branco de Gellert estava amarrado ao lado da égua marrom que Albus havia pego emprestada na fazenda. Albus correu as mãos pelas rédeas, desfazendo o nó que havia feito na árvore, antes de responder:

- Theseus é de confiança.

- Nenhum alpha é de confiança! - Gellert rebateu, se atrapalhando para desamarrar seu cavalo.

- Imagino que você esteja se incluindo nesta lista…

- Interprete como quiser! - Gellert rosnou para as rédeas. Na irritação e pressa de encontrar Albus, ele as havia amarrado com força demais e agora não conseguia desamarrar - E eu não estava falando do Theseus!

Ao ver Gellert ainda se debatendo com as rédeas, os dedos compridos de Albus tocaram as costas das suas mãos suavemente, tentando fazer com que ele parasse de puxar as rédeas daquela maneira e se acalmasse. Um toque diferente.

O toque do ômega.

Assim como a voz do alpha era capaz de mexer com os ômegas, o toque do ômega surtia um efeito calmante sobre os alphas. Quantas vezes ele havia conseguido fazer Aberforth se acalmar de suas crises de raiva, apenas com um toque gentil no braço? Tantas que seu irmão até passou a evitar o seu toque a todo custo quando realmente queria se manter zangado.

Não era a primeira vez que Albus usava o seu toque com Gellert. Na primeira oportunidade, Gellert estava tendo um ataque de ciúmes e Albus achou que poderia tentar, mesmo desconfiando que seu toque não surtiria efeito sobre Gellert graças aos supressores. Mas, para sua surpresa, não foi o que aconteceu. Nem naquela oportunidade e nem agora.

Gellert ficou imediatamente mais calmo. Com um gesto, deixou as rédeas nas mãos de Albus, que as desamarrou com cuidado antes de perguntar:

- Você me dizia que o problema não era o Theseus…

Gellert estalou a língua do céu da boca, aborrecido:

- Claro que não! - explicou - Pelo menos, não só ele. Eu vim atrás de você por causa do ataque.

- Que ataque?

Gellert olhou para Albus, confuso:

- Pensei que soubesse. Está todo mundo na cidade falando sobre isso.

- Falando sobre o quê?

- Alguém invadiu a clínica do seu amigo ontem. Destruíram tudo. Escreveram ofensas nas paredes… foi… bem violento. - e depois de uma curta pausa -  Pensei que você tivesse vindo por causa disso…

Mas Albus já não estava mais ouvindo. Seu cérebro havia parado na parte do ataque e não demorou muito para ele chegar à uma conclusão óbvia:

- Foi o Vogel… - Albus falou, abismado.

Gellert balançou a cabeça:

- Tem muita gente que não gosta da ideia de ver ômegas trabalhando. - explicou - Pode ter sido qualquer alpha da cidade…

Albus quis dizer para Gellert que ele estava enganado, que não podia ser coincidência que a clínica de Newt tenha sido destruída logo depois de ele fazer aquele relatório, mas Gellert  jamais acreditaria que Vogel teria feito uma coisa dessas sem provas. Talvez não acreditasse mesmo com elas.

Preferiu mudar de assunto:

- Então você veio porque estava… preocupado comigo? - perguntou.

Gellert olhou para Albus, parecendo não acreditar naquela pergunta:

- Como alpha, eu tenho o dever de te proteger, sabia?

Albus não pôde deixar de sorrir para aquela fala. Com um suspiro paciente, ele apenas devolveu as rédeas para Gellert e falou, muito suave:

- Vamos para casa.

Montaram os dois nos seus cavalos e Albus não pôde deixar se reparar no jeito elegante com que Gellert guiava seu animal, fazendo pequenos círculos, esperando que ele fosse na frente.

Achou que Gellert combinava perfeitamente com a beleza quase divina do seu cavalo branco.

- Seu cavalo é muito bonito. - Albus elogiou, num impulso.

Gellert riu:

- Este é o primeiro elogio que você me faz.

Foi a vez de Albus sorrir:

- Elogiei o cavalo, não você.

E então foi na frente, sem reparar no olhar caloroso que Gellert lhe deu.

----- CHAPTER BREAK -----

- Dizem que existem três grandes prazeres na vida. - Vogel comentou, sem tirar o cigarro dos lábios, mesmo estando em cima de um cavalo, fazendo Gellert rir por antecipação - E o primeiro deles é fazer sexo.

- Este já é um velho conhecido… - Gellert comentou, divertido.

-  Verdade… - Vogel concordou - Basta uma visitinha ao puteiro mais próximo para encontrar algum beta ou mesmo um ômega que se deixou marcar pela pessoa errada e pronto. Os outros dois, contudo, são um pouco mais desafiadores.

- Certo… vamos começar pelo segundo. - Gellert quis saber, guiando seu cavalo para se aproximar um pouco mais do de Vogel.

- O segundo grande prazer da vida é fazer sexo com um ômega no cio. - Vogel comentou, e quando Gellert começou a rir, adicionou - Se for um ômega marcado por você, é melhor ainda…

- Certo… - Gellert assentiu - E o último?

Vogel tirou o cigarro da boca. Umedeceu os lábios:

- O terceiro e melhor de todos é… marcar um ômega. - falou, satisfeito - apertar um ômega bem firme nos braços e cravar os dentes no pescoço… aaaah… dizem que não há nada parecido com isso… uma sensação única na vida de um alpha. Não pode ser desperdiçada.

Gellert deixou escapar um suspiro. Destes dois últimos prazeres, ele não sabia de nada. Ainda.

Vogel então continuou:

- Os dois últimos você vai poder experimentar pela primeira vez agora, quando casar com a ômega dos Dumbledore - comentou - Não é incrível que os ômegas são os únicos que podem nos proporcionar todos os três grandes prazeres da vida? - ele perguntou, tragando a fumaça do seu cigarro, satisfeito.

- De fato… - Gellert concordou.

- Sorte nossa. - ele emendou - Azar dos betas, que não têm nenhuma chance de desfrutar do melhor desses prazeres… olha, as vezes eu penso que eles são até piores do que os ômegas. Pelo menos, os ômegas têm o propósito biológico de servir bem aos alphas. Betas só sabem… existir. No fim das contas, ou arranjam outro beta, ou morrem sozinhos mesmo.

- Não é bem assim… - Gellert comentou - dizem que a Queenie… - e como Vogel fez uma cara de não saber de quem ele falava, explicou mais - aquela ômega, irmã da Tina, elas trabalham na fazenda do nosso vizinho, Dumbledore...

- Aaah… Queenie, Queenie, aquela ômega bonitinha que o Abernathy vivia arrastando a asa. O que tem ela?

- Parece que ela vai se casar com o Jacob.

- Jacob, o beta?

- Ele mesmo.

- Jacob o beta? - Vogel repetiu a pergunta, perplexo e rindo de nervoso.

- O próprio. - Gellert reafirmou.

- E a irmã vai permitir essa barbaridade? - Vogel perguntou, parecendo absolutamente chocado.

- É o que estão dizendo… - Gellert comentou, sombrio - Não é a primeira nem a última vez que uma coisa dessas acontece. Um verdadeiro desperdício…

- Hunf… é o que dizem por aí… alpha mulher é um pouco menos alpha…

Gellert balançou a cabeça, mas antes que pudesse responder, algo chamou a sua atenção:

- Você ouviu isso, Anton? - perguntou.

Estavam próximos demais dos limites da fazenda. Tanto que já era possível ouvir com bastante clareza o barulho da corrente do rio. Vogel apurou os ouvidos e ouviu o nítido som de vozes e u
ma terrível desconfiança de que Aberforth havia se adiantado e começado a mover a cerca, antes mesmo de saber se ele concordava em cumprir com a sua parte do combinado, dominou o coração de Vogel.

- Ouvi o quê? - Vogel perguntou, mais para ganhar tempo para pensar do que qualquer outra coisa. A possibilidade de deixar Gellert pegar Aberforth no pulo só para lhe dar uma boa lição lhe passou pela cabeça, mas ele se lembrou de Albus… dos seus lindos cabelos vermelhos esvoaçantes… suas mãos delicadas folheando o livro… imaginou como seria doce o seu perfume, como seria saborosa a carne do seu pescoço…

- Não sei, barulho de vozes. - Gellert respondeu, cada vez mais desconfiado.

- Deve ser o idiota do Abernathy matando trabalho no rio… - Vogel falou, na tentativa de despistar.

Gellert não pôde deixar de rir:

- Justo o Abernathy, Anton? Você sabe que ele nunca faria isso. De qualquer jeito, melhor darmos uma olhada. - Gellert falou, já tirando seu revólver do coldre.

- Não, não, não… é perigoso, deixa eu ir na frente. - Vogel falou, puxando o rifle preso junto ao seu cavalo - Espera aqui.

Gellert hesitou por alguns segundos, mas a confiança que tinha em Vogel falou mais alto. Assentiu com a cabeça e o cavalo amarelado do feitor disparou imediatamente na direção do rio.

- Aquele idiota! - Vogel grunhiu, fustigando o cavalo para que fosse mais rápido - Vai estragar tudo!

Em menos de um minuto, ele já estava chegando na beira do rio. Forçando a vista, dava até para ver Jacob e sua pança ao longe. 
Mas, antes que ele os alcançasse para mandá-los embora, Aberforth fez algo ainda mais estúpido. Provavelmente achando que um animal estava rondando, ele pegou o seu rifle e atirou para cima na tentativa de espantá-lo.

O barulho do tiro ecoou pela floresta e Vogel precisou segurar as rédeas com força para impedir seu cavalo de empinar de susto.

- Filho da puta! - xingou, dando meia volta e galopando de volta para o local onde Gellert estava esperando.

- O que foi isso?! - Gellert perguntou, alarmado, assim que colocou os olhos em Vogel.

- Fui eu. - Vogel respondeu prontamente - Era um bicho. Mandei conversar com o criador.

- Um bicho, mais nada?

- Mais nada.

- Eu tinha certeza que tinha ouvido vozes…

- Estamos perto demais do rio, o barulho deve ter te confundido. Vamos embora de uma vez? Tô morrendo de fome.

Gellert fez uma cara indecisa e por um terrível segundo Vogel temeu que ele fosse conferir com os próprios olhos e dar de cara com Aberforth e o beta, contudo, e para a sua sorte, mais uma vez Gellert confiou nele, deu de ombros e redirecionou seu cavalo para o caminho da Casa Grande.
  
Depois de duas semanas de noites não muito bem dormidas, as costas de Gellert finalmente começaram a protestar de verdade pelos maus tratos recebidos desde sua mudança para o chão e Albus não podia evitar uma ponta de culpa ao vê-lo gemer discretamente aqui e ali.

No início, o ômega até nutriu uma alegre esperança de o alpha acabar sendo obrigado pela dor a ceder um quarto só para ele, o que não aconteceu. Mais duas semanas e Gellert já começava a ostentar olheiras visíveis e gemia baixinho a cada vez que precisava se sentar ou levantar de qualquer lugar. E só a cara de tristeza que fazia antes de montar seu cavalo já era suficiente para dar pena.

- Por que vocês alphas são sempre tão teimosos? - ele perguntou - Se eu fosse para outro quarto…

- Não! Vamos ficar exatamente assim! - Gellert o interrompeu, teimoso, e gemeu enquanto se abaixava bem devagar até alcançar sua cama montada no chão.

Logo no dia seguinte, enjoado e com o pescoço dolorido após aplicar seus supressores, Albus se forçava a engolir pelo menos um pouco de chá, enquanto lembrava da careta de dor de Gellert durante o sono e a culpa o invadia sem pedir licença.

Tentou se convencer de que estava se sentindo assim por puro instinto, afinal de contas, ômegas quase nunca conseguiam ser indiferentes aos alphas da sua convivência. E Albus já havia desistido de fingir ser indiferente a Gellert.

No fim das contas, achou que o melhor que poderia fazer era ignorar o desconforto que sentia no peito. Não pensar mais naquilo.

- Albus… - a voz delicada de Vinda o despertou dos seus pensamentos - O senhor tem visita.

- Visita? Para mim? - Albus estranhou, levantando-se da cadeira.

- Sim, está te aguardando na sala.

Enquanto caminhava na direção da sala de visitas, Albus se perguntou quem poderia estar a sua espera. Newt provavelmente não. Desde o ataque à clínica, os dois haviam conversado rapidamente por telefone uma ou outra vez, mas Newt parecia sempre meio triste e sem vontade de falar muita coisa.
Albus suspeitava que o motivo da tristeza não se limitava apenas à destruição da clínica, mas também tinha a ver com a alpha que Newt gostava desde quando Albus conseguia se lembrar: Tina Goldstein.

- Eu achei um tritão-palmado muito lindo perto do rio ontem, sabe? Ele estava machucado, então o trouxe para casa - Newt falou, melancólico em meio a uma dessas conversas telefônicas - Me fez lembrar tanto dela! Acho… acho mesmo que vou botar o nome de Porpentina nela.

Albus achou adorável que Newt gostasse tanto da sua nova salamandra a ponto de querer batizá-la com o nome de Tina, mas não deixava de ser um nítido sinal de que Newt andava pensando um pouquinho demais nela.

E falando na salamandra…

- Olá, Albus! Muito bonita a sua nova casa! - Tina o cumprimentou antes de dar um longo olhar em volta da sala - Cavalos por todos os lados, né?

Albus sabia bem disso. Quando ninguém estava olhando, ele passava longos minutos analisando detidamente cada quadro de cavalos campeões daquele lugar, ele próprio julgando alguns deles, mesmo que no fundo ele achasse que todos os cavalos do mundo eram perfeitos.

- Mas que surpresa! - Albus a cumprimentou com um largo sorriso, para, logo em seguida, uma faísca de preocupação espocar na sua mente - Aconteceu alguma coisa? Abe está bem?

Tina hesitou um pouco diante da pergunta, indecisa se a resposta certa para ela era que seu patrão, Aberforth, estava bem. Mas este era um assunto bem espinhoso e Tina realmente não queria preocupar Albus com ele agora.

- Está tudo sob controle. - ela disse, optando por uma resposta evasiva - Na verdade eu só vim para te entregar uma coisa.

- Ah, sim… mas antes de você me entregar o que quer que seja… - Albus se interrompeu para puxá-la pela mão até o sofá - queria falar  com você… sobre o Newt.

- Sobre o Newt?

- Sim, Tina, sobre ele. - e Albus fez uma pequena pausa, escolhendo as palavras antes de entrar no assunto - Você não tá achando ele um pouco triste ultimamente?

- Ah, sim, claro… - Tina assentiu com a cabeça, de repente ficando muito séria - a destruição da clínica dele foi um baque…

- Eu sei, eu sei… mas, não acho que seja só isso. - Albus opinou e então seus dedos se apertaram um pouco mais no pulso de Tina.

Albus não precisava avançar mais. Tina sabia exatamente do que ele estava falando:

- Ele também está chateado porque eu estava guardando todas as minhas economias para o casamento da minha irmã e… também para o nosso… mas, com tudo o que aconteceu, nosso casamento vai ter que esperar mais um pouquinho.

- Aaah…

- Mas esse tipo de coisa acontece, não é mesmo? - Tina continuou, parecendo conformada - Veja só o Jacob, por exemplo, um confeiteiro de mão cheia como ele precisa trabalhar como peão porque não consegue financiamento para abrir uma loja…

Albus podia entender. Ele mesmo adoraria poder ajudar seus amigos, mas não tinha dinheiro nenhum e, mesmo que tivesse, ele estaria sob a administração de Gellert e não dele. 
Suspirando, Albus apertou um pouco mais os dedos em torno do pulso de Tina, tentando passar algum conforto silencioso.

E foi esta a cena que Gellert encontrou quando entrou na sala.

- … bom dia? - ele cumprimentou, já na defensiva, de repente muito gélido ao sentir um inconfundível cheio de alpha.
Não que ele precisasse sentir o cheiro de Tina para saber que ela era alpha. Todo mundo na região conhecia as duas irmãs que trabalhavam na fazenda dos Dumbledore. Mas sentir seus feromônios contribuía bastante para o seu estado de total animosidade.

Se aproximando devagar, Gellert conteve a custo a vontade de rosnar para que Tina se afastasse do que era dele.
Sentindo a presença de Gellert bem atrás de si, Albus retirou os dedos do pulso de Tina lentamente antes de olhar em sua direção:

- Bom dia, Gellert. - cumprimentou.

- Bom dia. - Tina também falou, seca, sustentando o olhar de Gellert com o seu. De jeito nenhum iria se submeter a outro alpha facilmente. Nem mesmo no território dele.

- A razão da sua… visita? - Gellert perguntou, sem fazer a menor questão de ser gentil.

- Tina estava prestes a me contar… - Albus falou, suavemente, tentando não revirar os olhos para aquela disputa sem sentido.

- Ah, sim… - ela falou, tirando um envelope de uma pasta vermelha - Vim em nome da Queenie para te entregar o convite…

- Do casamento? - Albus adivinhou antes mesmo de olhar para o envelope, seus olhos cintilando de alegria.

- Sim… será no próximo mês. Foi um pouco difícil convencer seu irmão a ceder a fazenda para a festa, mas uma boa negociação envolvendo os juros dos nossos salários atrasados o convenceu a fazer este favor.

Naquele momento, Gellert só não deu as costas e foi embora porque de jeito nenhum deixaria Albus sozinho com um alpha, mas não havia nada que o interessasse menos do que o casamento entre um ômega e um beta. Na opinião de Gellert, ômegas eram cada vez mais raros e de jeito nenhum deveriam ser desperdiçados daquela maneira.

Betas que ficassem com betas.

Gellert estava perdido neste tipo de pensamento, quando uma frase de Tina o trouxe pelas orelhas de volta à realidade:

- Eu também vim reiterar o convite para que você seja o padrinho da noiva, Albus. Como você sabe, eu e Newt já seremos padrinhos do noivo… você aceita, né?

Gellert olhou para Albus, já imaginando o aborrecimento que teria com todo aquele assunto. Com certeza Albus aceitaria, com certeza iria querer ir mesmo que ele não fosse, com certeza ficaria de braços dados com algum alpha amigo do casal durante toda a cerimônia…

- Lamento muito pela Queenie, Tina, mas não posso aceitar o convite…

E sem dar tempo de Tina se recuperar da surpresa, nem de Gellert sentir uma certa satisfação ao ver Albus se recusar a participar daquele casamento absurdo, Albus logo completou:

-… a menos que o meu marido também seja padrinho…

As bocas de Tina e Gellert caíram ao muito tempo. Tina, porque havia presenciado Albus vomitar de horror diante da ideia de se casar com aquele alpha e mal conseguia crer que agora Albus estava impondo aquela condição. Gellert, porque aquilo era tudo o que ele não esperava ouvir sair da boca de Albus.

- Er… compreensível, claro. - Tina respondeu, apesar de não conseguir entender muito bem - Você… só me empresta o telefone um instante? Prometo que não vou demorar nada…

- Claro! - Albus falou animado, apontando o aparelho do outro lado da sala - Tome o tempo que quiser.

Tina deu um sorriso amarelo para Gellert e só então andou apressada na direção do telefone para falar com a irmã sobre aquele pequeno contratempo e Gellert aproveitou a deixa para segurar o braço de Albus e puxá-lo para o corredor.

- Você enlouqueceu? - Gellert perguntou entredentes.

- Eu? - Albus perguntou, demonstrando surpresa - Por que?

- Primeiro de tudo, você aprova esse absurdo?

- Qual absurdo? - Albus perguntou, sinceramente confuso.

- Minha nossa, Albus, é uma ômega casando com um beta!

Albus ficou dois segundos em total silêncio antes de perguntar:

- E daí? Jacob e Queenie se gostam muito.

Gellert não conteve um gesto de impaciência:

- Ele nem sequer pode marcar ela…

- Isso não parece ser um problema para ela. - Albus considerou.

- A irmã dela é louca por permitir esta união, isso sim! - Gellert opinou, aborrecido.

O olhar de Albus se escureceu imediatamente:

- É mesmo uma tremenda sorte que a Tina não pense como você. - falou, sabendo que esta simples frase seria suficiente para ferir o ego daquele alpha.

Gellert esticou o pescoço nervosamente na direção de Tina e, ao ver que ela ainda falava ao telefone, continuou:

- E pode me explicar por qual motivo você fez tanta questão de me incluir como padrinho?

- Qual seria o problema em querer ir ao casamento acompanhado do meu marido?

- Nenhum, mas…

- Eu já te conheço bem o bastante para saber que você não me deixaria ir sozinho. E que faria cara feia ao me ver de braço dado com um alpha qualquer durante a cerimônia…

Gellert mordeu os lábios. Era verdade. Mas a solução que Gellert esperava para o problema era Albus ficando em casa e não ele virar padrinho também.

- Albus, por tudo o que é mais sagrado, apenas recuse o convite. Eu não quero ir ao casamento de uma ômega com um beta, muito menos ser padrinho deles! - ele pediu, tenso.

Os dedos de Albus envolveram suavemente o pulso de Gellert, seu dedo indicador deslizando por alguns segundos pela sua pele até senti-lo um pouco mais calmo e mais disposto a escutar.

- Façamos assim… - Albus sugeriu - se Queenie não quiser que você seja padrinho, eu recuso convite e não se fala mais nisso.

- E se ela me quiser como padrinho?

- Então nós dois vamos à festa, comemos, bebemos, dançamos uma ou duas músicas e logo voltamos para casa… - Albus sugeriu, sem afastar a mão do pulso de Gellert.

Gellert deixou escapar um suspiro. Por mais que ele não desse a mínima para o casamento daqueles dois, ir a uma festa na companhia de Albus não parecia tão ruim. O alpha então se imaginou dançando com Albus e a ideia lhe pareceu mais tentadora ainda.

- Tá bom… tá bom… - Gellert finalmente cedeu - duvido que me aceitem como padrinho mesmo…

- Isso nós vamos ver agora… - Albus respondeu, puxando Gellert delicadamente de volta para sala bem a tempo de os dois verem Tina desligar.

- Muito bem… - ela falou, muito séria, quase solene, ao se aproximar novamente do lugar onde Gellert e Albus estavam - Queenie me disse que ficaria muito honrada se vocês dois fossem padrinhos.

- Ah, que ótimo! - Albus falou, animado - Neste caso, é com muita alegria que nós dois aceitamos o convite, não é mesmo, Gellert?

- Sim, sim… - Gellert respondeu, sem ter certeza se estava feliz ou contrariado.
  
- Parece que você conseguiu o que queria, Albus…. - Gellert falou, enquanto afastava os cabides do seu armário uns dos outros até encontrar um terno de festa - Está um pouco velho… não serve para um padrinho… - considerou - talvez eu precise mandar fazer um terno novo. E você, Albus?

- O que tem eu?

- Tem roupa para ir? - Gellert fechou seu armário - Pensando bem, esquece, você vai com a túnica mais cara que o estilista mais caro tiver para vender.

Albus sentiu o rosto ficar quente contra a sua vontade:

- Não precisa… eu já tenho a túnica azul que a minha mãe…

- Não! Está decidido! - Gellert o interrompeu, sem dar mais espaço para novos questionamentos - tirando a roupa e uns bons sapatos, o que mais precisa ser arranjado?

Albus deu um pequeno sorriso:

- Ora, não é óbvio? - perguntou - Os padrinhos também precisam dar um bom presente.

Uma das sobrancelhas de Gellert se levantou:

- E o que seria um bom presente?

Albus fingiu pensar um pouco no assunto antes de sugerir:

- Que tal um cavalo?

Gellert olhou para Albus:

- Um cavalo?

- Não gostou da ideia?

- Não, não é isso… mas qual cavalo?

- Eu posso escolher um dentre os cavalos reservados para venda se você quiser… - Albus propôs.

- Faz isso então. - Gellert respondeu, satisfeito por não ter que se preocupar com aquele assunto.

Albus sorriu para Gellert e tratou de ir aos estábulos para escolher um cavalo.

Vogel invadiu o escritório de Gellert pisando tão firme no chão que o alpha olhou por cima dos papéis que estava lendo e o encarou, aborrecido. Não gostava nenhum pouco quando alguém se comportava dessa maneira no seu território.

- Você enlouqueceu, por acaso? - Vogel perguntou, insolente, e Gellert não conteve um leve rosnado como resposta.

Vogel se empertigou na mesma hora:

- Desculpe, patrão! Mas eu vim aqui só para me certificar que você realmente vai dar nosso cavalo mais caro de presente de casamento para um beta?

Os olhos de Gellert se arregalaram:

- Quê?

- O senhor ouviu! - Vogel falou, aborrecido - seu ômega escolheu um cavalo do preço de uma casa e mandou o Abernathy providenciar o transporte. Eu perguntei o que ele pretendia fazer com o bicho e ele me disse com a cara mais lavada que era um presente de casamento. E até parece que queria me irritar mesmo, porque inventou uma história ridícula de o senhor ser o padrinho de casamento do tal beta. É isso mesmo?

Gellert respirou fundo:

- É isso sim…

E a cara de assombro de Vogel foi quase caricata:

- Patrão… um casamento desses deveria ser proibido por lei. E você vai ser padrinho?!

- Isso é um combinado meu com o Albus.

- E entregar o cavalo mais caro do haras estava dentro do combinado? - Vogel quis saber, ainda indignado.

- Não… claro que não… - Gellert respondeu, impaciente - ele sugeriu que déssemos um cavalo de presente e se ofereceu para escolher um. Aposto que ter escolhido um cavalo bem bonito sem fazer ideia de que era o mais caro de todos…

- Pois eu disse que o cavalo era caro demais para ele, mas seu ômega não me deu ouvidos. - Vogel grunhiu - Insistiu que eu o enviasse para a fazenda do irmão dele, onde o beta trabalha.

- E desde quando Albus dá ouvidos a qualquer coisa que você fala, Anton? - Gellert respondeu - Aposto que se aborreceu quando você o repreendeu e bateu pé no cavalo caro para te contrariar.

- Se foi isso mesmo, então ele acertou em cheio: estou bem contrariado! E aí? Mando o cavalo ou não?

Gellert respirou fundo, suas costas estavam doendo muito, ele estava morto de sono, quase caindo em cima daqueles documentos e tudo o que não queria era discutir mais uma vez com Albus. Muito menos por causa de dinheiro.

- Manda logo o cavalo. - ordenou, achando que, por mais caro que fosse, o bicho não valia a sua paz.

- Mas, senhor…

- Manda de uma vez, tenho muita coisa para fazer e não quero perder tempo com isso. Se o Albus escolheu, tá escolhido. Fim de papo.

Vogel hesitou mais alguns instantes, mas ele conhecia seu patrão por tempo suficiente para saber que quando ele tomava uma decisão, por pior que ela fosse, não havia força no universo capaz de fazê-lo voltar atrás.

Mas, ainda assim, ele não se furtou a comentar:

- Tá deixando o seu ômega montar no senhor… isso não é coisa boa.

Os olhos de Gellert já estavam pousados novamente na papelada, mas se levantaram, na direção do feitor e foi com a sua voz de alpha que ele respondeu.

- Caia fora daqui!

A voz de alpha não funcionava com outros alphas. Alphas não se sentiam intimidados ou forçados a obedecer as ordens de outro alpha.

Mas ela transmitia uma mensagem muito clara.

Vogel assentiu com cabeça e deu as costas para Gellert, pisando mais firme do que quando havia entrado.
  
Albus se olhou no espelho, sem acreditar no brilho da sua nova túnica dourada, admirado ao ver a luz do quarto bater na pedraria bordada à mão do tecido e brilhar a cada movimento seu.

- Uau… - Albus falou para si mesmo, fazendo Vinda, que viera até ali para ajudá-lo a se arrumar, sorrir.

Ela prendeu seus cabelos com todo o cuidado, usando um pente de ouro para segurar os fios vermelhos num penteado bastante elegante. Um lenço dourado escondendo o pescoço e finalmente Albus estava pronto.

Vinda se certificou mais uma vez que os cabelos do ômega estavam impecáveis e, com um sorriso satisfeito, elogiou:

- O senhor está divino! Aposto que o patrão vai se derreter!

Albus deu um meio sorriso:

- Obrigado por me ajudar.

- Ah, disponha… - ela respondeu, enquanto abria a porta do quarto para Albus passar.

Gellert estava esperando por ele na sala, vestido com um terno completo azul escuro e a gravata que ele usava era do exato tom da roupa de Albus. Levantando-se rapidamente do sofá onde estava sentado, ele abriu um largo sorriso ao ver o ômega se aproximar:

- Você está… lindo! - Gellert elogiou, embevecido, pegando as duas mãos de Albus e as afastando do corpo para vê-lo melhor.

- Obrigado. - Albus respondeu, tímido, mas antes que pudesse dizer a Gellert que ele também estava muito elegante, o alpha olhou rapidamente na direção relógio preso na parede e perguntou:

- Vamos indo então?

- Vamos, vamos sim.

Com uma curta reverência, Gellert estendeu o braço para que Albus o enlaçasse e os dois saíram de braços dados da casa, sob o olhar de aprovação de Vinda e Abernathy pegou o volante para dirigir o carro durante o curto trajeto até a fazenda dos Dumbledore.

A cerimônia de casamento de Jacob e Queenie foi simples, mas muito bonita. A noiva parecia brilhar tanto de felicidade que Albus não pôde deixar de se lembrar do seu próprio casamento, quando ele se sentia a mais miserável das criaturas.

Mordendo os lábios, o ômega olhou para o rosto tranquilo de Gellert parado ao seu lado, se perguntando como seria se eles estivessem se casando hoje. Certamente ele não estaria sorrindo até para o teto como Queenie, mas, também não estaria vomitando de nervoso.

Olhou para Newt pendurado no braço de Tina, feliz da vida, os olhos claros brilhando de emoção. Albus sabia que Jacob e Newt eram bons amigos. Os dois tinham se conhecido há alguns anos quando Newt fora dar uma palestra num congresso sobre grandes pássaros em uma cidade vizinha. Jacob tinha acabado de ser demitido e estava afogando suas mágoas numa refeição quente no mesmo restaurante onde Newt e Theseus foram almoçar, e o ômega perguntou se podia sentar com ele ao perceber que Jacob estava chorando.  Ao ouvir a história do beta, Theseus logo lembrou que os Dumbledore estavam há tempos precisando de um empregado e Jacob achou por bem tentar a sorte, na esperança de, quem sabe, um dia conseguir um financiamento para abrir uma padaria.

Três anos depois, Jacob não só tinha se estabelecido na nova cidade, como também estava se casando com uma das ômegas mais bonitas da região. Mas a padaria, infelizmente, se mostrou um sonho difícil demais de se realizar.

- Você está muito mais bonito do que a noiva! - Gellert cochichou no seu ouvido, arrancando  Albus dos seus pensamentos e fazendo-o corar.

Não era verdade. Queenie estava realmente muito linda no seu vestido de noiva, mas quem não gostava de receber elogios?

Uma parte escondida do seu cérebro até tentou lembrá-lo que, até bem pouco atrás, ele certamente se aborreceria ao ser elogiado por Gellert, que detestaria ter que ouvir a sua voz e desejaria ver aquele alpha o mais longe possível.
Mas aquela parte dele foi empurrada para um canto escuro da sua mente enquanto o ômega apenas se mantinha de braços dados com o alpha durante toda a cerimônia.

- Que lindo casamento! - Albus falou, limpando uma lágrima do canto dos olhos ao fim da cerimônia.

- O nosso foi muito mais bonito. - Gellert respondeu enquanto procurava com os olhos a mesa mais distante possível de outros alphas, detestando os olhares que Albus recebia sem nem sequer perceber.

Albus não saberia dizer se Gellert tinha mesmo razão. Tudo o que dizia respeito ao dia do seu casamento era meio cinzento na cabeça dele, pois Albus não queria se casar, queria estudar, queria se dedicar aos cavalos, queria ser veterinário.

E… bem… ele ainda queria ser veterinário mais do que qualquer coisa, mas agora a nuvem cinzenta de pura infelicidade que pairava pela sua cabeça desde aquela época havia se dissipado. Talvez por ele estar se acostumando com sua nova vida.

- Cadê seu irmão, hein? - Gellert perguntou, após olhar para todos os lados.

- Você acha que ele viria ao casamento de um beta com uma ômega? - Albus perguntou, franzindo as sobrancelhas.

- Imaginei que sim, afinal de contas, ele cedeu a fazenda dele…

- Aposto que foi um negócio realmente lucrativo para ele. - Albus respondeu, sombrio - Quantas vezes o meu irmão tentou convencer a Tina a não autorizar o casamento da irmã? Acho que ele só não demitiu os três porque devia dinheiro demais para eles.

- Você sabe a minha opinião sobre esse tipo de casamento. - Gellert falou, pegando duas taças de champanhe na bandeja e oferecendo para Albus - Mas admito que os dois parecem bem felizes.

- Parecem exultantes! Muito mais felizes do que nós dois por exemplo… - Albus espetou, um pouco aborrecido com o comentário de Gellert, mas aceitando a taça que ele lhe oferecia mesmo assim.

- Não por minha culpa… - Gellert se defendeu.

- Pense bem… se eu fosse um beta, você não estaria esperando pelo meu cio…

- Se você fosse um beta, eu não teria me casado com você…

Albus deu de ombros:

- Não sei o que me diferencia tanto de um beta qualquer.

Gellert olhou para Albus como se aquilo tivesse lhe ofendido:

- Não diga tolices, você é um ômega da cabeça aos pés.

Albus olhou para Gellert por alguns instantes, bebendo da sua taça e só então comentou, amargo:

- Você cometeu um erro terrível ao se casar comigo.

Foi a vez de Gellert encarar Albus:

- Pois eu acho que foi a decisão mais acertada que tomei na vida.

Albus não confessaria a ninguém o quanto ele havia gostado de ouvir aquilo, mesmo sem entender o motivo:

- Por que diz isso se você só se casou para ter filhos?  E eu… bem…

Gellert virou sua taça inteira antes de finalmente responder:

- As coisas mudam, Albus… - garantiu - as coisas mudam…

Albus abriu a boca para perguntar o que, exatamente, havia mudado, mas foi interrompido pelo som de uma suave melodia, eram os noivos abrindo a pista com uma valsa.

Albus e Gellert deixaram suas taças na mesa e foram até o centro da tenda para testemunhar Queenie rodopiando com Jacob pela pista de dança ao som da música. Mas mesmo quando o noivo se enrolava, errando um ou outro passo da valsa, Queenie não se aborrecia, apenas ria e enchia o rosto do marido de beijos.
Já no final da música, Jacob começou a implorar com os olhos para que os convidados o livrassem daquela humilhação, dançando junto com eles, e então Tina puxou a mão de Newt alegremente para o centro da pista e os dois começaram a dançar também.
Albus viu Newt feliz da vida nos braços de Tina, ainda que sob o olhar atento do irmão, e não pôde deixar de sorrir, torcendo muito para que aqueles dois se casassem de uma vez.

- Vamos? - Gellert convidou, segurando a ponta dos seus dedos.

Albus pensou em dizer não, mas a pista ainda tinha poucos casais e, como padrinhos, eles realmente precisavam ajudar no que pudessem.

Assentiu com a cabeça.

Gellert o puxou para o meio da pista. Seu braço envolveu sua cintura, trazendo-o gentilmente para perto de si antes de os dois começarem a se movimentar ao som da valsa. Albus achou que os dois se estranhariam, que até errariam alguns passos ou pisariam no pé um do outro, mas Gellert o conduzia com bastante competência, parecendo muito seguro do que estava fazendo.

- Você dança muito bem! - Albus elogiou, enquanto era guiado pela pista. Gellert o apertou para mais perto de si.

- Aaah… finalmente empatei com o meu cavalo no número de elogios. - ele respondeu, satisfeito, e Albus começou a rir.

Era para eles dançarem apenas aquela música, mas Gellert não demonstrou querer parar quando ela terminou e Albus não viu problema em dançar uma segunda.

E uma terceira.

Aconchegado nos braços do alpha, Albus estava perto o suficiente para se inebriar com o seu perfume de madeira, cheiro de Alpha, feito para atrair um ômega como ele. E então ele fechou os olhos e se permitiu encostar a cabeça do peito de Gellert, relaxado, dançando sem sequer ouvir a música, completamente envolvido pelo seu abraço protetor.

- Gosto do seu cheiro… - Albus suspirou, sentindo o peito de Gellert chacoalhar com uma risada.

Albus não soube dizer como as mãos de Gellert se embrenharam pelos seus cabelos e puxaram o pente de ouro que segurava seu penteado, mas sequer se importou quando seus cabelos despencaram, se espalhando, bagunçados, pelos seus ombros. Também não soube dizer como os dedos daquele alpha alcançaram o seu queixo e levantaram sua cabeça suavemente.

Quando os lábios de Gellert se aproximaram devagar até se encostarem nos dele, Albus já estava de olhos fechados, como se esperasse por aquela carícia. E não demorou muito para sua boca se abrir, nem para sua língua receber a de Gellert.

Estar nos braços daquele alpha, ser beijado por ele… era muito melhor e mais intenso do que qualquer sonho e muitíssimo diferente do beijo desajeitado que ele havia trocado com seu amigo ômega no dormitório da escola há tantos anos. Sentindo-se enfeitiçado, Albus retribuiu a carícia, soltando um gemido baixo quando a mão de Gellert subiu da sua cintura para a sua nuca, intensificando ainda mais o beijo  enquanto acariciava gentilmente aquela região tão sensível para qualquer ômega.

Uma música um pouco mais agitada começou a tocar, quebrando o encanto que os mantinha juntos. Gellert se afastou um pouco, acariciando o rosto de Albus com as costas da mão, seus olhos claros invadindo a sua alma e fazendo seu coração disparar ainda mais.

- Vamos para casa? - Gellert sugeriu, sorrindo para ele. Um sorriso que Albus achou muito, muito bonito.

Ambos sabiam muito bem que havia um convite escondido por detrás daquela pergunta.

- Vamos. - Albus respondeu, suavemente - Me deixa só… me despedir dos noivos.

- Tudo bem… - Gellert falou, puxando sua mão para beijar seus dedos, antes de deixá-lo ir  - Vou ver onde o Abernathy está.

- Tá bom…

Não era amor nem nada disso, Albus falou para si mesmo, enquanto procurava os noivos pela tenda. Era só… pele. Vontade de transar. Uma atração física. Nada além. Gellert era bonito e seu cheiro o atraía. Ponto.

Albus tropeçou em Newt antes que pudesse encontrar Queenie e Jacob e seu amigo lhe deu um olhar tão significativo que ele sentiu seu rosto ficar quente.

- As coisas com a Tina como estão? - Albus perguntou, ignorando o sorrisinho do amigo.

- Não tão boas com as coisas entre você e o Sr. Grindelwald, mas… sim, muito boas também. - Newt respondeu, sonhador.

Albus deu um sorriso tímido e acenou uma despedida rápida assim que seus olhos localizaram os noivos.

- Vocês estão mesmo disputados! - Albus falou, sorridente, assim que os alcançou.

- Nem me fale. Eu queria tanto dançar um pouco mais… - Queenie lamentou, fazendo um bico.

- É… seria… ótimo. - Jacob falou, meio engasgado - Mas precisamos dar atenção aos convidados.

Albus sorriu deu tapinhas nas costas de Jacob e abraçou Queenie pensando que, apesar de serem diferentes, aqueles dois realmente formavam um casal muito bonito.

- Nós nem temos palavras para agradecer o presente! - Queenie lhe falou, animada - Um cavalo tão caro!

- Quando o vendermos, eu vou usar o dinheiro para abrir a minha confeitaria! - Jacob adicionou, parecendo não caber em si de tanta felicidade - De verdade, obrigado!

- Foi para isso mesmo que eu dei esse presente. - Albus respondeu, animado - Quer dizer… o Gellert deu.

Foi então que Queenie apertou o ombro de Albus e desatou a falar:

- Oh, Albus! Quando Tina me ligou dizendo que você exigia que o seu marido fosse padrinho também, eu logo achei que havia alguma coisa por trás disso, afinal, eu vi com os meus próprios olhos você vomitar de tanto nojo por ter que se casar com ele… então, quando o cavalo chegou aqui, eu pensei: foi só por isso que ele quis que o tal Grindelwald viesse! Muito obrigada mesmo por ter feito esse sacrifício por mim!

Albus poderia explicar para ela que não era bem assim, que algumas coisas haviam mudado um pouco, mas ele estava com pressa demais para iniciar uma conversa tão delicada. Então ele apenas terminou de se despedir dos dois, abraçando Queenie novamente e desejando ao casal toda a felicidade do mundo.

Uma lembrança do beijo o invadiu no segundo em que ele virou o corpo para partir, e Albus estremeceu, fechando os olhos e mordendo o lábio inferior de antecipação pelo o que aconteceria no resto da noite.

Mas, quando abriu os olhos, seu corpo todo gelou ao se deparar com os olhos claros de Gellert.

Olhos que até então eram tão calorosos, agora o encaravam com extrema frieza.

- Você me usou. - Gellert o acusou, sua voz calma, mas muito, muito gélida - Tudo o que você queria era dar um bom presente para os seus amigos!

- Gellert…

- Muito tocante o seu sacrifício! - ele continuou, mordaz - Incrível como dessa vez você até conseguiu me beijar sem vomitar de tanto nojo!

- Por favor, me escuta…

- Ah, não se incomode. Melhor até que fique mais um pouco por aqui e se divirta com seus amigos, afinal, você gosta tanto deles! Eu vou na frente e depois o Abernathy volta para te buscar.

- Espera, eu não…

Mas Gellert não esperou Albus completar a frase. E então ômega tentou segurá-lo pelo braço e usar seu toque para acalmá-lo, mas Gellert o evitou com rispidez:

- Você não vai me manipular mais, Albus! - ele falou antes de finalmente lhe dar as costas e partir dali.

Albus tentou ir atrás dele, mas Gellert foi muito mais rápido e logo estava entrando no carro e ordenando um confuso Abernathy a partir sem ele.

O tempo que Abernathy levou para voltar foi se arrastando, e Albus ensaiou milhares
de argumentos e explicações para quando estivesse de novo frente-a-frente com Gellert. E, quando o carro preto finalmente parou na frente dele, Albus entrou o mais rapidamente que pôde. 
Procurando manter a calma durante todo o trajeto, apegado à ideia de que Gellert provavelmente estaria no quarto deles, magoado com certeza, deitado no chão ou talvez até na cama, Albus mantinha a certeza de que ele o tocaria e então Gellert o ouviria.

E acreditaria nele.

Desceu do carro e entrou em casa, andando a passos largos até o quarto.
Encontrou os armários de Gellert escancarados.

Vazios.

Abernathy surgiu por detrás dele, segurando o seu chapéu.

- Onde ele está? - Albus perguntou, num tom de voz muito calmo, apesar de seu ventre se revirar de tanta tensão.

- O patrão passou as coisas dele para outro quarto… - Abernathy explicou, desconfortável - … e me deu ordens para não ser incomodado… por ninguém.

Albus conhecia Abernathy o suficiente para saber que, de jeito nenhum, ele o deixaria entrar no quarto de Gellert. Mesmo que ele implorasse.

Suspirou, talvez fosse melhor deixar aquela conversa para o dia seguinte…

- Obrigado por me avisar. - Albus respondeu num tom de voz baixo e muito cansado - Boa noite…

- Boa noite, patrão… - Abernathy respondeu, fechando lentamente a porta do quarto.

Quando Albus se viu sozinho naquele cômodo, não pôde deixar de pensar que, depois de tanta insistência para ter um quarto só para ele, Gellert havia cedido justamente agora, quando tudo que ele queria era poder estar perto dele…

Sem conseguir entender o seus próprios sentimentos, Albus se jogou na cama ainda com a roupa da festa, atordoado e achando que ele só podia estar doido por sentir falta de Gellert.

É só uma atração física, nada mais, ele pensou. A falta que ele estava sentindo do cheiro de Gellert era puramente fisiológica!

Albus fechou os olhos e se abraçou ao travesseiro, sendo tomado por uma angústia inédita.

Mas amanhã, sem falta, ele resolveria isso. Amanhã, Gellert estaria muito mais calmo, amanhã, ele não estaria tão ferido. Amanhã, Albus com certeza explicaria tudo…

E as coisas ficariam bem.

Amanhã.

----- CHAPTER BREAK -----

- Você só pode estar brincando comigo! - Vogel grunhiu.

- Lamento. - Aberforth respondeu, embora pouco se importasse com a revolta do outro alpha - Seu patrão aceitou o acordo. Ele vai se casar com o meu irmão.

- Seu irmão estava prometido para mim! - Vogel protestou - O ômega era meu!

- Não me lembro de ter prometido nada a você. Eu apenas fiz uma proposta. Nada mais do que isso.

- Você não pode fazer isso, Dumbledore!

- Não só posso como vou. - Aberforth insistiu -  Você sabe melhor do que ninguém o quanto eu preciso de dinheiro. E Grindelwald se comprometeu a me ajudar com todas as minhas dívidas.

- Eu também tenho dinheiro! - Vogel falou - Muito dinheiro! Eu posso pagar pelo ômega!

Aberforth balançou a cabeça:

- Por maior que seja a quantidade de dinheiro que você certamente roubou do seu patrão durante todos estes anos, jamais seria o suficiente para pagar a hipoteca da minha fazenda.

- Como é que você sabe? - Vogel desafiou - Olha que você pode se surpreender!

Aberforth não conteve a expressão de descrença:

- Se você tivesse tanto dinheiro assim, com toda certeza já estaria há milhares de quilômetros deste lugar.

- Dumbledore…

- Quer parar de insistir?! - Aberforth quase rosnou de tanta raiva - Você perdeu o ômega! Já era! Paciência! Supera!

E foi aí que Vogel finalmente perdeu a cabeça:

- Olha aqui, eu corri um risco enorme por sua causa!  - rugiu - Meu patrão quase pegou vocês no flagra naquele dia! Eu precisei mentir para livrar a sua cara quando você, seu idiota, resolveu dar aquele tiro para cima! E se ele não tivesse acreditado em mim? E se ele resolvesse conferir com os próprios olhos o que havia dito a ele?!

Vogel diria mais, muito mais, porém, por algum motivo, a simples menção daquele tiro fez Aberforth se encolher, todos os músculos da sua face parecendo se contrair numa expressão de desgosto…

… de culpa…

E, de repente, Vogel estava calmo de novo:

- Dizem que o cavalo da sua irmã se assustou com um barulho muito alto… - Vogel então comentou, se aprazendo por ver o rosto de Aberforth se contorcer  - … dizem que foi por isso que ele disparou, tentou pular uma cerca e…

Vogel não pôde continuar a frase porque as mãos de Aberforth já estavam na sua camisa, puxando-o agressivamente pelo tecido para mais perto dele, obrigando-o a encarar seus olhos rutilantes de puro ódio.

- Não se atreva a insinuar que a culpa pela morte dela foi minha! - Aberforth berrou, sua voz trêmula de indignação - Foi o meu irmão quem permitiu que ela montasse num cavalo chucro! A culpa foi toda dele, ouviu bem? Toda dele!

A risada que Vogel deu ao ouvir todo aquele desabafo foi quase caricata:

- Você pode repetir esta mesma história quantas vezes quiser… - ele disse, adorando imaginar que suas palavras doíam mais do que socos - e não duvido que até tenha conseguido convencer o pobre ômega de que a culpa é mesmo dele… mas, no fundo, você sabe da verdade melhor do que ninguém. E eu também.

E, após dizer isso, ele torceu os dedos de Aberforth sem nenhuma gentileza para fazê-lo soltar a sua camisa e deu as costas, prometendo a si mesmo que aquilo não ficaria barato. 
  
Gellert acordou com a sensação de algo pontudo espetando o seu peito. Com um grunhido, meteu a mão no bolso do paletó e puxou o objeto incômodo num movimento brusco. 
Apertando os olhos, viu o pente de ouro, que ele havia puxado dos cabelos de Albus na véspera brilhar nos seus dedos. Por algum motivo, ao invés de devolver, Gellert guardara o objeto no bolso do seu paletó para só lembrar da sua existência agora, após ser espetado pelas suas pontas.

Mal humorado como nunca, o alpha grunhiu para a joia antes de jogá-la longe. O pente se espatifou ruidosamente na parede e quicou no chão. Desistindo de vez de tentar dormir, apesar de o sol ainda nem ter se levantado, Gellert tratou de se colocar de pé e arrancar a roupa da festa com irritação antes de ir ao banheiro e tomar uma ducha fria para espantar o cansaço.

Por sorte ou azar, havia muito trabalho esperando por ele na manhã daquele dia.

Já pronto para partir, Gellert encaixou seu chapéu na cabeça, olhando em volta, em busca de algum objeto que, por acaso, ele houvesse esquecido. Ele havia trazido suas coisas às pressas para o quarto mais distante de Albus possível, mas tudo ainda estava um caos e não havia um único espaço livre nas mesas de cabeceira ou mesmo na cadeira do quarto. Foi com algum esforço que encontrou a chave do carro jogada no sofá, a carteira na mesinha com um abajur e… o pente de ouro de Albus jogado no chão.

Pensando que era mesmo melhor pegar aquilo e pedir para Vinda devolver para Albus, Gellert se abaixou para pegar o objeto no chão. O pente brilhou com o reflexo da luz do abajur e Gellert o levou ao nariz num impulso, surpreso ao sentir um leve resquício do perfume dos cabelos de Albus nele.

Reprimindo com custo uma onda desordenada de sentimentos controversos, tratou de guardar o pente no bolso interno do blazer, prometendo a si mesmo entregá-lo a Vinda assim que a visse.

A mesa da sala ainda estava sendo preparada para o café e, por isso, apenas algumas poucas comidas que não exigiam refrigeração estavam
posicionadas sobre a toalha. Os olhos de Gellert pousaram brevemente sobre o lugar que Albus normalmente ocupava… Albus, que comia quase nada, que sempre se dizia enjoado e indisposto, que não cansava de repetir as mesmas desculpas para ficar longe dele.

Resolveu tomar café da manhã junto com trabalhadores da fazenda.

Foi só quando chegou ao galpão onde as refeições costumavam ser feitas e receber os cumprimentos efusivos dos empregados ali reunidos, é que ele percebeu que estava sem nenhuma fome e nem com vontade de conversar. Desanimado, ele se apoiou numa parede descascada, distante de todos, remoendo os acontecimentos da véspera de novo e de novo enquanto olhava Vinda entrar e sair, trazendo pratos, xícaras e baixelas com comida, só parando de vez em quando para olhar para Gellert como se ele fosse um enigma.

Mais alguns minutos de total silêncio e Vogel se arriscou a se aproximar para lhe oferecer uma caneca cheia de café.

- Só de ver a cara do Abernathy, eu já suspeitei que as coisas não tinham ido tão bem na festa de ontem. - Vogel comentou em tom casual, mastigando um pedaço de bolo - Mas agora que eu tô vendo a sua, eu tenho certeza que foi um completo desastre.

Gellert pegou a caneca de cenho franzido:

- Abernathy consegue ser fofoqueiro sem nem mesmo abrir a boca. - reclamou, fazendo Vogel dar uma risadinha.

- Mas o que aconteceu, afinal de contas? - Vogel perguntou como o alpha que era, sem se preocupar com o tato.

Em circunstâncias normais, Gellert mandaria Vogel cuidar da própria vida, mas, naquele momento, não estava com o menor ânimo para embates. Então ele encheu a boca de café quente e amargo e só então respondeu, usando o menor número de palavras possível:

- Me aborreci com Albus.

Vogel fez uma cara de “eu sabia”:

- Eu avisei para o senhor… ômega a gente deixa na rédea curta ou é aborrecimento na certa!

Gellert não se dignou a responder, apenas tomou seu café, acabrunhado.

- Se o senhor quiser… - Vogel sugeriu - eu posso ir à fazenda dos Dumbledore e trazer o cavalo de volta.

- Não seja maluco, Anton. - Gellert retrucou, impaciente.

- Hunf… queria ver quem ia me impedir. - Vogel deu de ombros.

-  Esquece! Esse cavalo é a menor das minhas preocupações. - Gellert resmungou.

Vogel olhou brevemente para Gellert:

- E qual é a sua maior preocupação? - ele riu - O ômega? Olha, se for, eu te garanto que posso te ajudar a resolver.

A língua de Gellert estalou no céu da boca:

- Me ajudar? Me ajudar como, Anton?

- Patrão… ômega é igual cavalo chucro. No começo, dá um pouco de trabalho para colocar na linha, mas, uma vez que você acerta o prumo, tudo fica bem mais fácil.

- Albus não é um cavalo. - Gellert retorquiu, incomodado - Muito menos um cavalo chucro.

- É modo de dizer, patrão. - Vogel se justificou.

Mas Gellert não lhe deu mais atenção:

- Albus é problema meu. E eu sei perfeitamente como lidar com ele daqui por diante. E agora chega de conversa e vamos pegar estrada. Os cavalos não vão se leiloar sozinhos.

- É para já…

A primeira coisa que Albus percebeu ao sentar-se para tomar café da manhã foi a ausência da louça diante do lugar reservado ao seu marido.

- E Gellert? - Albus perguntou, de jeito nenhum demonstrando a tensão que sentia, se ajeitando melhor na sua cadeira - Não vai tomar café?

- O patrão tomou café bem, bem cedinho e saiu para leiloar uns cavalos com o Sr. Vogel. - Vinda explicou enquanto enchia a xícara de Albus de chá.

- Aah… e será que demora?

- Difícil dizer… - Vinda ponderou, pensativa - Talvez demore um pouco sim…

Um curto silêncio se formou entre os dois:

- E… como é que ele estava, hein? - Albus perguntou, quase envergonhado.

Vinda hesitou alguns segundos antes de responder:

- Calado…

- Bom, pelo menos ele não está com raiva e nem esbravejando por aí… - Albus pensou alto, tentando se consolar de alguma forma enquanto mexia o o seu chá bem devagar.

- Eu preferia que estivesse. - Vinda confessou - Não gosto nada quando o patrão fica desse jeito.

Albus sentiu um aperto no peito ao ouvir aquilo, um nó na garganta. De repente, todos os quitutes espalhados pela mesa se tornaram intragáveis, impraticáveis, e ele empurrou sua xícara de chá antes de se levantar da cadeira para não começar a vomitar ali mesmo.

Gellert estava triste, calado, com certeza pensando as piores coisas. Albus precisava conversar com ele, esclarecer as coisas, dizer que…

Albus nem tinha mais certeza do que iria dizer.

Sentou-se numa cadeira de palha na varanda lateral da casa, abraçando as pernas enquanto olhava o nada, tentando controlar uma terrível sensação de constante inquietude. E a manhã se passou sem que ele se mexesse do lugar.

- O almoço está pronto… - Vinda lhe falou suavemente, mas, ainda assim, seus ombros pularam de susto.

- Não quero comer. - Albus respondeu, sem se mexer do lugar.

Vinda respirou fundo. Albus pensou que ela iria embora, mas, ao invés disso, sentou-se ao lado dele.

- Pelo visto, o Sr. Grindelwald não é único que está muito triste hoje.

- Eu não estou triste. - Albus retrucou, sem tirar o queixo das mãos juntas - Estou… preocupado.

- E qual é a sua preocupação, exatamente? - Vinda perguntou - Talvez eu possa te ajudar.

- Os alphas são… complicados. - Albus desabafou.

- É… - Vinda riu - um pouquinho.

- São orgulhosos, irritadiços, e bem irracionais… não gostam de ouvir e nem pensam antes de agir.

- Nossa, e qual seria a razão para tantos elogios? - Vinda ironizou, sem tirar o sorriso do rosto - Vocês brigaram, não foi?

- Aconteceu… um mal entendido. - Albus falou - e não tenho certeza se consigo esclarecer as coisas. Para falar a verdade, eu nem mesmo sei se foi mesmo um mal entendido.

- Como assim? - Vinda perguntou, um pouco confusa.

Albus encolheu os ombros:

- Quero dizer que talvez… talvez seja melhor ele me odiar.

- Melhor para quem?

- Para nós dois… acho.

Vinda balançou a cabeça, devagar:

- Se esta for a sua intenção, é melhor desistir, porque o patrão nunca vai te odiar.

- Ele deveria. - Albus suspirou - Eu… minto para ele. O tempo todo.

Albus pensou que Vinda faria alguma pergunta, mas ela não disse nada. Ficaram os dois em silêncio por alguns instantes, apenas olhando um cavalo manchado galopar pelo cercado.

- O senhor tem razão quando diz que nós,
alphas, somos um pouco irracionais de vez em quando. - ela admitiu enquanto ajeitava os cabelos - Talvez seja porque nós sentimos um pouquinho demais. Mas, acredite em mim, quando você aprende a lidar… tudo fica bem mais fácil, sabe?

Albus olhou para Vinda, surpreso:

- Eu não sabia que você era alpha…

- Surpresa! - ela riu - Todo mundo pensa que sou beta porque uso supressores.

- Aah, você usa supressores… - Albus comentou - É por isso que não tem cheiro de alpha…

- E que o senhor não tem cheiro de ômega… - Vinda completou, suavemente.

Mais um silêncio se formou entre eles, desta vez um pouco tenso:

- Por que não contou nada para o Gellert? - Albus perguntou, genuinamente curioso. Sabia que Vinda não deixaria Gellert ser enganado sem um motivo poderoso.

- Para dar a ele a chance de te fazer mudar de ideia. - ela respondeu, de repente muito interessada nas próprias unhas.

- E se eu não mudar de ideia? - Albus perguntou.

Vinda deixou escapar um longo suspiro:

- Neste caso, sugiro que consiga arrumar logo um jeito de partir daqui e deixá-lo refazer a vida com outra pessoa… ele não merece ser enganado.

Albus deu um sorriso triste:

- Receio que você tenha toda razão, Vinda.

A governanta da casa apenas inclinou a cabeça em concordância:

- E agora, vamos tentar colocar alguma coisa no estômago? - ela sugeriu, batendo com as palmas das mãos no colo para se levantar - Eu sei bem o quanto isso pode ser um desafio, mas… o senhor precisa tentar.

- Você sempre consegue me fazer comer… - Albus comentou, sentindo-se, pela primeira vez no dia, um pouco melhor, mais aliviado, enquanto se levantava da sua cadeira, bem devagar.

Vinda andou um passos na frente, até Albus falar novamente:

- Engraçado… Gellert tem ciúmes de todo e qualquer alpha que se aproxima de mim.  Menos de você… será culpa do supressores?

- Oh, não… - Vinda riu - É que o patrão sabe perfeitamente bem que eu não gosto de ômegas.

- Então sou eu que deveria ficar preocupado? - Albus perguntou, divertido.

- Bem… minha namorada é uma alpha bem ciumenta. - Vinda respondeu, piscando para Albus antes de seguir andando na direção da casa. 
  
Uma semana.

Foi o tempo que Gellert levou fugindo de Albus. Acordando cedo demais e voltando tarde da noite. Engajado como nunca em todas as tarefas da fazenda, ele sempre arrumava mais alguma coisa para fazer, até considerar que estava tarde o suficiente para voltar para casa.
Exausto demais até para pensar, ele se jogava na cama de roupa e tudo, só para ser espetado pelo pente de cabelo de Albus. E então ele ficava com muita raiva dele mesmo e se prometia que, no dia seguinte, sem falta, o entregaria para Vinda, só para guardar o pente no bolso do paletó no dia seguinte e esquecer por completo dele de novo.

De manhã, comia calado, seus pensamentos invariavelmente dançando em volta de Albus. Quantas mentiras aquele ômega havia lhe contado? Quantas vezes ele havia sido manipulado? Será que no dia em que ele escapara sozinho, mentindo que ia para a biblioteca, ele queria mesmo ver Newt? Ou será que ele estava ali para ver Theseus ou algum outro alpha desconhecido para ele?

Com essas e muitas outras perguntas na cabeça, já no segundo dia, Gellert tratou de colocar Abernathy na cola de Albus:

- Fique de olho, se Albus botar o pé para fora de casa, você segue ele e me conta tudo, escutou bem?

- Sim, senhor!

Mas Albus não foi a canto algum durante toda a semana.

- Ele fica na varanda a maior parte do tempo. Depois passeia pelos estábulos, conversa com os cavalos… parece… triste.

Gellert franziu o cenho imediatamente:

- Ele não está triste. Só quer que você pense isso. - Gellert respondeu, amargo.

Abernathy abriu a boca para responder alguma coisa, mas acabou desistindo, ao invés disso, se limitou a apertar seu chapéu com tanta força que as articulações até se embranqueceram e, resmungando algo inaudível para si mesmo, deixou o escritório de Gellert.

Ao fim de uma semana, quando Gellert voltou para casa, quase três horas da manhã, um pouco alcoolizado, encontrou Albus parado na frente da porta do seu quarto e seu coração disparou ao ver a silhueta ruiva despontar em meio à penumbra. Se aproximando um pouco
mais, os olhos azuis de Albus o encaravam de frente, muito sérios, e o alpha fugiu deles imediatamente, com medo que o ômega conseguisse ler cada sentimento que passava pela sua alma.

- Preciso conversar com você. - Albus falou, parecendo muito calmo.

- Estou muito cansado, Albus. - Gellert respondeu - Amanhã.

- Não, Gellert… preciso falar com você hoje.

- E o que você precisa falar comigo com tanta urgência? - Gellert perguntou, impaciente.

- Amanhã… se minha irmã estivesse viva… seria aniversário dela. Queria muito visitá-la…

Gellert olhou para Albus por alguns instantes, frio como gelo:

- Você não vai. - falou - Lamento, mas você já tem um compromisso inadiável.

- Compromisso? Que espécie de compromisso?

- Uma consulta médica. - Gellert respondeu - marquei com um especialista. Ele vai te examinar e descobrir por qual motivo você não entra no cio… eu também tenho um compromisso do outro lado da cidade, então Vogel irá com você. Se for alguma doença, vamos te tratar, se for qualquer outra coisa… vamos resolver.

O ventre de Albus se contorceu tão violentamente ao ouvir aquilo que por pouco ele não vomitou o ácido que subiu pela sua garganta.

- Gellert, eu não…

- Eu me casei com você por um único motivo, Albus. E não estou disposto a esperar mais.

- Pensei… que as coisas haviam mudado… - Albus sugeriu, suavemente, seu coração pesando no peito.

Desta vez, Gellert não fugiu dos olhos de Albus. Ele o encarou fixamente antes de responder num tom muito sombrio:

- Eu me enganei.

Albus abriu a boca, mas não conseguiu responder. Então Gellert não havia deixado de vê-lo como uma égua reprodutora. Talvez tanto galanteio não passasse de uma tentativa de fazê-lo entrar no cio. E, agora que ele estava convencido de que não seria assim tão fácil, finalmente havia decidido deixar de fingir que Albus fosse algo além de uma mera incubadora.

Magoado, decepcionado, indignado, Albus deu as costas, sem dizer mais uma palavra, e andou a passos rápidos na direção do seu próprio quarto, fechando a porta e se encostando atrás dela.

Jamais permitiria que Gellert o visse chorando.

----- CHAPTER BREAK -----

Quando o pai de Albus foi preso, parte do seu mundo despencou.

Seu pai era um alpha de verdade e, como tal, vivia para proteger sua casa e sua família. Jamais toleraria que alguém tocasse em sua ômega. Matou os homens que haviam agredido sua esposa sem dó e voltou para casa, onde esperou calmamente a chegada da polícia.

Kendra ainda estava internada quando tudo aconteceu. E, com o tempo, eles descobririam que ela nunca mais se recuperaria.

- Na minha ausência, você é o alpha da casa, Aberforth. - Percival instruiu o filho do meio, sem parecer reparar nos olhos arregalados de susto do rapaz - Mas isso não quer dizer que você seja dono das vidas dos seus irmãos. É sua função garantir a felicidade dos seus ômegas, inclusive a da sua mãe, que agora está internada.

- Papai, o que aconteceu? Por que está falando desse jeito? - Aberforth perguntou, confuso - Como se o senhor fosse embora para sempre?

Percival Dumbledore não se deu ao trabalho de responder aquela pergunta. Não havia tempo para isso.

- Veja o Albus, por exemplo - ele continuou - ele já me disse diversas vezes que não quer se casar. E, a menos que ele mude de ideia, você deve respeitar a vontade dele.

Albus apenas olhava aquela cena, sem mover um músculo. Com Ariana dormindo, confortável, em seus braços, ele logo percebeu que alguma coisa muito séria havia acontecido. Alguma coisa terrível.

- Pai… - Aberforth não queria saber daquela conversa. Não desejava assumir aquela responsabilidade e nem estava pronto para ela. Ele só queria uma vida pacata, criando as suas cabras e cuidando da sua própria vida. Nada mais do que isso.

- Me prometa, Abe. Me prometa que você fará qualquer sacrifício possível para garantir que todos os três ômegas sob a sua guarda tenham uma vida segura e feliz.

- Mas eu não…

O barulho de batidas na porta os interrompeu, criando um sentimento de urgência em Percival:

- Me prometa, meu filho!

- Eu… eu prometo… - Aberforth gaguejou, olhando fixo para a porta da casa que por pouco não cedia às batidas insistentes.

Percival então respirou fundo, parecendo muito calmo e conformado, antes de se levantar devagar da sua poltrona para abrir a porta da casa.

- Sr. Percival Dumbledore? - o policial armado perguntou assim que colocou os olhos nele.

- Eu mesmo. - foi a resposta muito tranquila

- O senhor está preso por duplo homicídio. - o policial falou, fazendo um gesto para que ele se virasse de costas para ser algemado.

Percival obedeceu placidamente, sorrindo com tristeza para os dois filhos paralisados pelo choque. Se Ariana estivesse acordada, ou se Kendra estivesse ali com eles, talvez houvesse um escândalo, ou uma despedida desesperada e cheia de lágrimas. Mas Aberforth estava esmagado demais pelo peso das novas responsabilidades para reagir e Albus…

Albus estava com medo. Muito medo.

Apesar de ele ser um ômega, Percival gostava de repetir que Albus era o mais corajoso da família, mas, se um dia ele teve alguma coragem, ela se desvaneceu por completo ao ver seu pai sendo levado preso daquela maneira.

Olhou para Ariana, dormindo plácida no seu colo, sem imaginar que, quando acordasse, seu mundo inteiro estaria mudado.

Albus era um ômega. As pessoas diziam que ômegas nasciam para ser protegidos pelos alphas. Mas, naquele momento, ele prometeu a si mesmo que protegeria Ariana do mundo.

- Albus… - Aberforth falou, muito rouco - nós vamos conseguir, não vamos?

Albus olhou firmemente para o irmão:

- Nós temos que conseguir, Abe. - suspirou - Pela Ariana.

Os olhos azuis de Aberforth pousaram no
rostinho plácido da menina adormecida por alguns segundos antes de ele responder:

- Sim, vamos fazer isso por ela. 
  
Albus acordou com um gosto amargo na boca.

Nem sempre aconteceria de Ariana preencher todos os seus sonhos e invadir seu espírito para afogá-lo numa maré de lágrimas salgadas provocadas pela culpa. Nem sempre aquela pontada dolorida de tristeza atingia o seu coração e não parava de doer até ele conseguir se distrair com alguma coisa e esquecer.

Mas era difícil demais esquecer quando as lembranças de Ariana o atingiam de verdade. Albus não conseguia focar sua atenção em nenhum livro quando tudo o que conseguia pensar era em como Ariana era doce, inteligente e gentil. De como ela era ômega da cabeça aos pés.

No quanto a vida de sua irmã caçula havia sido desperdiçada.

Antes, Albus pensava que o casamento com Gellert faria Ariana infeliz. Hoje, ele não tinha tanta certeza. Ele estava convencido de que Gellert seria muito gentil com Ariana e que ela certamente lhe daria os filhos que ele tanto queria.

Albus não sabia se Ariana e Gellert seriam felizes juntos, mas estava convencido de que, de alguma forma, ele havia roubado o destino da sua própria irmã.

Deitado quieto em sua cama, longe de Gellert e ruminando a falta da irmã, Albus simplesmente não conseguia reunir forças para se levantar e enfrentar um dia que tinha tudo para ser um dos piores da sua vida. 
Se perguntou o que Gellert faria quando descobrisse que ele estava usando supressores e sua cabeça desenhou um Gellert quase selvagem, quebrando as ampolas de vidro uma a uma com os pés antes de trancá-lo num quarto sob vigilância constante até ele entrar no cio e implorar por um pouco de alívio.

Ou talvez, Gellert ficasse furioso a ponto de devolvê-lo para seu irmão mais novo. Albus  imaginou se Aberforth teria muito trabalho para conseguir vendê-lo para outro alpha. E a simples ideia de ser forçado a se casar com outro o fez apertar os olhos de puro desconforto, a tensão se revolvendo em seu estômago vazio em forma de ácido.

Nunca foi tão difícil se levantar da cama e ficar pronto para o café da manhã. Enquanto se arrumava, chegou a se perguntar se Gellert continuaria a manter distância mesmo depois da conversa da noite passada ou se finalmente  o encontraria sentado à mesa, devorando seu café da manhã. Mas acabou conformado com a ideia de ficar sozinho não só no café da manhã, mas durante todo o dia, exatamente como havia acontecido a semana inteira.

Porém, para seu total espanto, quando chegou na sala onde o café da manhã era servido, realmente havia alguém sentado à mesa, mas não era Gellert.

Era o feitor da fazenda, Anton Vogel.

Teria sido melhor tomar café da manhã sozinho, afinal.

- Bom dia, Albus. - ele usou seu primeiro nome provocativamente, enquanto mastigava um
punhado de ovos mexidos - O patrão saiu cedinho para ajudar a entregar uns cavalos.

Albus não deu muita atenção para o que Vogel estava falando, pois, desde o momento em que havia posto os pés naquela sala, todos os seus sentidos estavam voltados para o lugar à mesa que o alpha, no momento, estava ocupando: a cabeceira.

Um lugar que pertencia por direito à Gellert Grindelwald.

- Bom dia, Anton, que surpresa vê-lo sentado justamente aí. - Albus respondeu caprichando num tom animado e casual - Tem certeza que é o lugar mais adequado para você ficar?

- Ah, entendo… - Vogel falou, enchendo a boca de suco de laranja e bochechando brevemente seu conteúdo antes de engolir - um ômega defendendo o território do seu alpha… admirável, de verdade. Mas não fique tão tenso, afinal de contas, é só um espaço vazio junto à mesa. Não tem tanta importância.

Albus não concordava. De jeito nenhum daria razão a uma só palavra que saísse da boca de Vogel.

- Talvez eu só não esteja exatamente satisfeito com a ideia de tomar café da manhã em sua companhia, Anton… - rebateu, ferino.

Vogel deu uma risada que saiu esquisita com o tanto de comida que havia em sua boca:

- Ah, sabe que faz até algum sentido? Até porque, mesmo estando casados, você ainda não é o ômega do Gellert, não é mesmo? - Vogel fez uma pausa para engolir antes de continuar a falar, num tom casual, quase divertido - Você pode esconder o seu pescoço o quanto quiser, mas eu sei que não tem marca nenhuma aí. Sem marca… sem laço.

O maxilar de Albus se tensionou levemente e ele se descobriu mais incomodado com aquelas palavras do que gostaria. Parecendo indiferente ao desconforto do ômega, Vogel se serviu de mais salsichas, antes de continuar, no mesmo tom falsamente amistoso:

- Mas sente-se, sente-se. Tanta animosidade não faz bem para digestão, não é mesmo?

- Não estou com fome. - Albus respondeu, calmamente.

- Ah, sobre isso… eu te aconselharia a arranjar uns supressores um pouco mais modernos, sabe? - Vogel perguntou e qualquer desconhecido que passasse interpretaria aquelas palavras como um conselho de amigo - Você está emagrecendo a olhos vistos.

Um lembrete, ou melhor, uma ameaça. Vogel sabia que ele usava supressores e estava ali para falar exatamente sobre isso.
Enquanto o cérebro de Albus trabalhava, Vogel apenas cortava uma salsicha pela metade e a enfiava tranquilamente na boca.

- Aqui. - Vogel falou, dando um tapinha na cadeira ao seu lado - Bem pertinho de mim. Não quereremos correr o risco de que alguém nos escute por acidente, queremos?

Albus caminhou na direção da cadeira com toda a dignidade que conseguiu reunir naquela situação humilhante. Sentou-se com desdém, sentindo o cheiro repugnante dos feromônios daquele Alpha encher as suas narinas.

- Vamos, coma um pouco. - Vogel falou, espetando um pedaço mordido de salsicha do seu próprio prato para depositá-lo no prato de Albus.

Albus apertou os lábios por alguns segundos e então pegou os talheres educadamente e cortou com cuidado um pedaço da salsicha do lado oposto ao que Vogel havia mordido, e o levou à boca. O alimento mal mastigado desceu pela sua garganta com dificuldade, como se todo o corpo de Albus o rejeitasse.

- Bom ômega. - Vogel elogiou, satisfeito - Gellert se ofendeu quando eu disse que você era como um cavalo chucro, que tudo o que precisava era de um pouco de… disciplina para entrar no prumo. Mas… o que eu posso fazer? É a verdade…

Albus permaneceu em total silêncio, seus olhos azuis pousados em Vogel, apenas assistindo ao espetáculo que ele havia preparado. Vogel não se fez de rogado:

- Albus, Albus… - falou, antes de puxar um pedaço de pão na bandeja para esfregar no molho de tomate que havia sobrado no seu prato - vim aqui para conversarmos sobre o dia de hoje… nossa consulta médica está marcada para às quatro horas da tarde e, bem… - colocou o pão besuntado de vermelho na boca - nós dois sabemos no que isso vai dar, não é mesmo?

- Vá direto ao ponto, Anton. Para que nós dois possamos desfrutar da companhia um do outro pelo mínimo de tempo possível.

E o rosto de Vogel se contorceu num meio sorriso:

- Vim aqui dizer o meu preço.

- Seu preço? - Albus perguntou, seu cenho fechado de puro assombro.

Sem demonstrar pressa nenhuma, Vogel terminou de mastigar e engolir seu pedaço de pão, antes de teatralizar uma resposta:

- Patrãozinho, o médico fez questão de me chamar na sala dele para me explicar o diagnóstico: ele disse que o Sr. Albus só não entra no cio por questões psicológicas… um trauma talvez… e que o melhor mesmo a fazer é dar tempo ao tempo, deixá-lo um pouco em paz, sabe?

As sobrancelhas de Albus se juntaram por alguns segundos antes de ele responder:

- E qual seria este preço se eu não tenho nada para te dar? Não tenho dinheiro nenhum, nem mesmo possuo meios de convencer Gellert a te beneficiar de alguma forma, pois ele perdeu completamente a confiança em mim…

- Eu sei perfeitamente de tudo isso…. - Vogel logo esclareceu.

- Então, o que, diabos, você poderia querer de mi…

E a realidade da única coisa que Vogel poderia querer dele atingiu a cabeça de Albus como um raio e ele olhou, assombrado, para aquele homem asqueroso, repugnante, nojento, com uma interrogação clara nos olhos. Uma interrogação que Vogel fez questão de responder após lamber os lábios bem devagar:

- Não se preocupe, eu não vou te marcar. - Vogel esclareceu, enquanto esvaziava sua xícara de café - Isso eu deixo para o Gellert, quando você estiver disposto, claro. Aberforth sempre se gabava de ter dois ômegas totalmente intocados, e eu gostaria de comprovar.

Uma onda indescritível de asco invadiu Albus e ele conteve com muito custo o impulso de dar uma cusparada na cara daquele homem. Mas, na situação terrível em que estava, tudo o que ele não podia fazer era perder o controle. Um movimento em falso e tudo estaria perdido. Agora, mais do que nunca, Albus precisava ser dono de todas as suas emoções.

- Receio que seu silêncio custe um pouquinho caro demais, meu amigo. - Albus então respondeu, parecendo muito calmo, apesar de estar fervendo por dentro.

Vogel apenas levantou levemente os dois braços e inclinou a cabeça. E, diante daquela resposta descuidada, Albus não pôde deixar de perguntar:

- Você não fica nenhum pouco envergonhado? Justo o ômega do seu patrão?

- Você não é o ômega do Gellert! - Vogel socou a mesa, fazendo os pratos pularem e as louças tilintarem, pela primeira vez levantando a voz, pela primeira vez violento. E então abriu a boca, como se fosse completar aquela frase, mas, por algum motivo, não o fez.

- Pensei que você me detestasse. - Albus insistiu.

Surpreendentemente, aquela frase pareceu acalmar um pouco o ânimo de Vogel, que tomou posse rapidamente de todos os seus sentimentos para voltar a sorrir:

- Eu não detesto nenhum ômega! - falou, satisfeito - Muito ao contrário! Se eu pudesse, aaah, se eu pudesse, eu teria cada um deles. Cada um!

Ao ouvir aquela resposta, uma visão mental terrível tomou conta de Albus. Vogel em cima dele, mordendo o seu pescoço, prendendo-o para sempre num laço para a vida toda contra a sua vontade.

- E então? - Vogel perguntou, de repente pouco disposto a continuar aquela guerra de palavras.

Albus mordeu os lábios, hesitou:

- Eu… preciso… pensar… pensar um pouco. - Albus sugeriu, suavemente, fazendo Vogel sorrir e chupar os próprios dentes.

- Pensar em quê? Numa forma de escapar? - Vogel perguntou no mesmo tom delicado - Esquece, Albus, o Gellert abomina ser enganado mais do que qualquer outra coisa.  Ele não vai te perdoar, e isso é mais certo do que ômega no cio levantando o rabo para um alpha.

Se antes as referências sexuais que Vogel gostava tanto de fazer para constrangê-lo já surtiam um efeito sobre Albus, depois daquela conversa, tudo aquilo fica ainda pior. Sentindo a boca amarga como nunca, Albus mais uma vez precisou afastar uma imagem mental dele próprio na cama com aquele homem asqueroso para fazer o que ele precisava fazer: pensar.

Agir exatamente da forma que se espera de um ômega: doce, suave, submisso, afinal, era isso que Vogel queria dele, era isso que ele esperava:

- Quando? - Albus perguntou.

- Hoje! - Vogel rosnou - Agora!

- Você sabe… - Albus falou, tentando ser o mais delicado possível - isso tudo é muito… novo para mim e… você sabe… nunca ninguém me tocou antes… nem mesmo Gellert… e eu só preciso de um tempo para… me preparar…

Os olhos de Vogel pousaram sobre Albus por alguns instantes e era como se ele estivesse tentando ler seus pensamentos:

- Uma hora. - ele falou - E eu vou ficar atento a todos os seus movimentos. Ai de você se tentar colocar um pé para fora do seu quarto!

- Ah, mas eu jamais faria isso… eu sei que você é inteligente demais…

- Você pode apostar nisso. - Vogel falou, olhando para o relógio de pulso - Uma hora, Albus, a contar de agora. 
  
Albus trancou a porta por detrás dele, sabendo que estava perdido. Não havia o que fazer, ou ele fugia, ou ficava trancado ali até Gellert chegar para contar toda a verdade a ele.

Mas Gellert ainda estava tão ferido com toda a história do casamento, como ele ficaria ao saber dos supressores? Como reagiria? Será que ele o perdoaria?

Uma parte do seu cérebro lhe gritou que o que Gellert sentia ou deixava de sentir não deveria ter qualquer importância para ele, mas Albus não poderia evitar a ponta de esperança estúpida que insistia em permanecer viva em seu peito.

A esperança de que Gellert gostava dele; de que a doce sensação que ele sentira ao seu beijado era real; de que as coisas entre eles realmente haviam mudado com o tempo; de que, apesar de o  Alpha estar muito magoado e dizendo coisas da boca para fora, ele não o via mais como uma égua reprodutora.

Colocou o ouvido na porta e o barulho nada discreto de passos se fez ouvir pelo lado de fora. Vogel estava montando guarda na porta do quarto, com certeza ansioso, com certeza contando cada minuto.

Com o estômago embrulhado, Albus correu pela janela, suas mãos empurrando a madeira para cima com o mínimo de barulho possível antes de se debruçar para observar bem o que havia lá embaixo. 
Mas o quarto ficava no segundo andar, alto o suficiente para não ser possível pular sem se machucar de verdade. Também não havia nenhuma árvore nem nada que pudesse aliviar uma queda.

Não havia saída! Mesmo que ele pulasse, para onde correria? Com certeza Vogel o alcançaria antes mesmo que ele conseguisse ultrapassar os limites da fazenda.

E foi neste momento, quando Albus já estava abandonando todas as suas esperanças de escapar daquela situação, um grito terrível veio do andar inferior da casa:

- SOCOOOOOORRO!!!!!

Os ombros de Albus pularam de susto quando ele reconheceu a voz de Vinda. E ela não parava de gritar, parecendo francamente desesperada:

- PELO AMOR DE DEUS, ALGUÉM ME AJUDA! SOCORRO! SOCOOOOORRO!!!!

Com o coração disparado, Albus abriu a porta do quarto devagar, só para ver Vogel descer as escadas correndo para acudir Vinda que não parava se berrar, parecendo francamente desesperada.

- UM RAAAAAATO! - Vinda berrou de novo. Albus calculou que, a esta altura, Vogel já devia estar quase chegando na cozinha, de onde vinham os gritos cada vez mais altos da governanta.

Era a sua única chance.

Albus correu até o banheiro, abria a torneira da banheira e fechou a porta, em seguida, trancou a porta do quarto e só então desceu as escadas com cuidado, sem fazer nenhum barulho.

Alguns segundos tensos em que ele fez de tudo para evitar que o assoalho de madeira do corredor rangesse alto demais com a sua passagem, e Albus finalmente alcançou a parte de fora da casa, já pensando que tudo o que ele precisava agora era de um meio de transporte.

- Tá ali embaixo! Tá ali embaixo!! - a voz ainda alterada de Vinda vinha da cozinha - Mata ele de uma vez!

- Eu não tô vendo nada!! Ele deve ter fugido!

- Não! Ele tá aí! Ele tá aí!!! Ahhh!! Fugiu para lá!

- Para onde?! - a voz de Vogel já estava bem exasperada.

- Ali! Ali!!

Para sua surpresa, assim que colocou o pé para fora de casa, encontrou um cavalo selado e amarrado bem perto da porta. E Albus sorriu largo ao reconhecer o cavalo mais rápido e mais resistente de toda fazenda:

O cavalo branco de Gellert.

Sentindo como se, de alguma forma, o próprio Gellert o estivesse salvando, Albus pulou no cavalo com destreza, galopando o mais rápido que podia para longe dali. Felizmente, uma das coisas que ele mais fazia, além de ler, era cavalgar sem pressa pela fazenda e, por isso, Albus conhecia aquele lugar o suficiente para saber que não o encontrariam assim tão fácil.

- Vamos, Antônio! - ele falou, atiçando o cavalo para que corresse ainda mais na direção de outra fazenda que ele conhecia bem, a fazenda dos Dumbledore - Vamos!

Albus havia montado muitos cavalos na vida, mas, de todos eles, sem dúvidas, o cavalo de Gellert era, de longe, o melhor. Robusto e musculoso, ele claramente adorava correr.  Sentindo seu coração bater no mesmo ritmo da montaria, naquele momento Albus teve uma única certeza: enquanto ele estivesse montado naquele animal, Vogel jamais colocaria as patas em cima dele.

----- CHAPTER BREAK -----

Uma fresta entre as cortinas fez a luz do dia invadir o quarto escuro e Aberforth abriu os olhos devagar. Com a cabeça doendo e a boca amarga, ele tentou se sentar na cama, mas sua cabeça começou a rodar, forçando-o a se jogar novamente nos travesseiros, enjoado. Com um grunhido, sua mão tateou o lençol até encontrar um cantil de metal.

- Merda. - praguejou ao perceber que seus dedos estavam tremendo demais para abrir a tampa, forçando-o a arrancá-la com os dentes. - Café da manhã!

Inclinando a cabeça para cima o mínimo possível, bebeu o pouco que havia restado da noite anterior e então atirou o cantil longe, indiferente ao barulho do metal batendo contra o piso.

Jogado na cama, Aberforth olhou para o teto cheio de mofo do quarto por alguns segundos e então falou muito baixo:

- Feliz aniversário, mana.

Ariana estava em pé, ao lado da cama, mas, ao contrário do que se esperaria de um dia tão especial como aquele, não sorria.

As mãos de Aberforth começaram a tremer ainda mais:

- Eu bebi muito ontem a noite. - se justificou - Não estou muito bem.

Ariana não disse nada, mas seus olhos tristes passavam uma mensagem.

- Por que você nunca fala nada? - Aberforth perguntou, parecendo muito frágil, muito vulnerável - Você está chateada comigo, não é? Eu sei que está…

Ariana tinha olhos tão azuis quanto os do seu pai, Percival, o homem que havia deixado a família Dumbledore inteira nos seus ombros.

Um peso que Aberforth não estava preparado para suportar.

E agora, Ariana olhava para ele numa cobrança muda. Os mesmos olhos do seu pai, os mesmos olhos do seu irmão, os mesmos olhos dele mesmo quando se atrevia a olhar no espelho. Todos cobrando dele mais do que ele podia dar.

- Não me olha assim, mana, por favor! - Aberforth implorou, se encolhendo em si mesmo, escondendo a própria cabeça entre os braços - Eu não tive culpa! Eu não tive culpa! Eu não tive culpa!

E, durante longos minutos, o único ruído do quarto foram os soluços desolados daquele homem.

Mas não havia ninguém ali para ouvi-lo chorar. 
  
Quando acordou pela manhã, Vogel tinha em mente várias possíveis ocorrências, algumas delas até um pouco trágicas. Contudo, nenhuma envolvia ele ficar de quatro no chão da cozinha, procurando por um maldito rato.

- Já disse que não tem rato nenhum aqui, Rosier! - Vogel rosnou, impaciente.

- Tem certeza? - Vinda perguntou, talvez pela décima vez - Quem sabe se você arrastar o fogão?

- Eu já fiz isso duas vezes… - Vogel respondeu, cansado.

- Talvez esteja escondido atrás da geladeira então. - ela insistiu, puxando o braço de Vogel quando ele se levantou e tentou ir embora.

Foi o bastante para o feitor perder de vez a paciência:

- Que espécie de alpha é você que não sabe lidar um ratinho?! - grunhiu.

- Não era um ratinho, era uma ratazana! - Vinda choramingou - Quase um monstro mitológico!

Os lábios de Vogel se retorceram de raiva:

-  O seu monstro mitológico provavelmente deve ter mais medo de você do que você dele. - respondeu, olhando o relógio de pulso - Ele deve ter fugido apavorado quando você começou a berrar como uma maluca!

- Por favor, não seja tão grosseiro! - Vinda retorquiu, cruzando os braços e virando a cara.

- Alpha mulher é um pouco menos alpha mesmo. - Vogel resmungou só para ofender, recebendo um curto rosnado como resposta, antes de deixar a cozinha e subir apressado pelas escadas.

Irritado, deixou Vinda e seu maldito rato para trás e percorreu o corredor o mais rápido que pôde até parar diante da porta do quarto do ômega da casa. Precisava confirmar que Albus ainda estava ali, a sua espera.

- Albus… - chamou, batendo três vezes na porta - Albus?! - silêncio - ALBUS?!! - meteu a mão na maçaneta e a descobriu trancada - Abra já essa porta!

Grunhindo de raiva, Vogel se afastou três passos e então, num impulso, se atirou sobre a porta, uma, duas, três vezes, até ela finalmente ceder e se escancarar, batendo na parede com força e voltando para atingir o seu braço.

Mas Vogel sequer se deu conta da dor da batida porque, como já desconfiava, encontrou o quarto vazio e seu cérebro se esvaziou por alguns momentos até que, para sua surpresa, ele ouviu um barulho suave de água corrente vindo do banheiro.

Andou até lá devagar.

Parado diante da porta do banheiro, o alpha olhou, ansioso, para o seu relógio de pulso: ainda faltava meia hora para o prazo que ele próprio havia dado se esgotar.

E foi exatamente neste momento que Vogel se deixou seduzir pela possibilidade de Albus estar fazendo exatamente o que havia dito que faria:  se preparando… para ele.

Seu baixo ventre reagiu violentamente àquela ideia e Vogel não se furtou a acariciá-lo por cima da calça enquanto imaginava aquele ômega saindo por aquela porta, limpo e cheirando a sabonete, pronto para ser dele.

Como deveria ter sido desde o início.

E então ele pensou que, se cedesse à tentação de bater naquela porta, gritando pelo nome de Albus, ou mesmo se invadisse o banheiro, o ômega com certeza se assustaria e aí tudo iria por água abaixo. E este era um risco que Vogel, definitivamente, não queria correr.

Trinta minutos passavam rápido, se consolou.

Olhou para a cama de casal. A mesma que deveria ter sido palco do acasalamento entre Gellert e Albus, mas não foi, e Vogel se pegou desejando ardentemente comer Albus exatamente ali, em cima daquele colchão, naquele mesmo quarto que ainda guardava o cheiro de Gellert. E ele o faria como um alpha de verdade: o mais violenta e dolorosamente possível.

Sentou-se na cama, sentindo o molejo do colchão e a textura dos lençóis, imaginando Albus de quatro, traseiro para cima, só esperando por ele…

Vinte e nove minutos.

Não podia esperar mais nenhum segundo.

Decidido a arrancar Albus da banheira, arrastá-lo até a cama e meter os caninos naquele pescoço ali mesmo, Vogel escancarou a porta do banheiro sem pedir licença, soltando um rosnado de antecipação.

Foi quando ele abaixou a cabeça ao se dar conta de que havia pisado em algo molhado. Estarrecido, levantou os olhos na direção da banheira de onde a água transbordava.

Albus não estava ali.

Sentindo-se um completo idiota, Vogel desceu as escadas, furioso, seus pés molhados fazendo marcas de pegadas em cada um dos degraus de madeira. Invadiu a cozinha e Vinda se virou devagar na direção dele ao sentir a sua aproximação.

O tapa com as costas da mão estalou com força no seu rosto no instante em que ela pôs os olhos nele, fazendo seu nariz estourar e respingar sangue na camisa bege de Vogel:

- Você fez de propósito, sua vaca!

Vinda colocou a mão no rosto e então olhou para as próprias palmas, horrorizada ao ver tanto sangue:

- Eu juro que não sei do que você está falando! - falou com a voz esganiçada de nervoso.

- Sabe sim, sua alpha de merda! - Vogel grunhiu - E agora você vai me dizer para onde ele foi!

- Ele quem? - Vinda choramingou, fazendo um sinal para que Vogel parasse quando ele levantou a mão para bater nela de novo - Eu juro que não sei!

- Albus! - Vogel esbravejou - Albus fugiu! Escapou antes que eu pudesse levá-lo para o médico. Quero saber aonde ele está!

- Por favor, acredite! Eu não sei de nada isso! - Vinda implorou - Nem sequer sabia que você ia levá-lo para algum lugar! Tem certeza… tem certeza que ele fugiu? Que… que loucura! Ele nem tem para onde ir…

Vogel estava ofegante de tanto ódio, mas aquela frase de Vinda o fez parar para pensar. Rosier estava enganada, havia sim mais de um lugar onde Albus poderia tentar se abrigar. E um deles ficava bem perto dali.

- A casa dos Dumbledore… - ele deixou escapar antes de dirigir um olhar para Vinda que só poderia ser chamado de maníaco - Ponha-se no meu caminho mais uma vez e eu corto a sua garganta!

Vinda começou a soluçar, se encolhendo o quanto podia, enquanto Vogel deixava de vez a cozinha, e corria na direção dos estábulos em busca do seu cavalo.

- Albus! - Tina gritou quando reconheceu o cavaleiro que vinha galopando num cavalo branco.

Albus parou bem perto de Tina, dando um tapinha amistoso no cavalo de Gellert antes de desmontar:

- Preciso de um carro emprestado. - Albus falou, apressado - E, receio que não tenho muito tempo para me explicar.

Tina engoliu o “aconteceu alguma coisa?” e jogou para Albus a chave da caminhonete que ela havia acabado de estacionar.

- Obrigado. - Albus falou enquanto os dois apressaram o passo na direção da caminhonete. - E Aberforth? Como está?

Tina hesitou um pouco:

- … talvez a gente precise de um pouco mais de tempo para conversar sobre isso…

- Receio que tempo é uma coisa de que não disponho muito no momento… - Albus falou, abrindo a porta do veículo.

- Quando você voltar então… - Tina falou rapidamente.

- Está bem. - Albus respondeu, apertando o cinto de segurança, apressado, antes de bater a porta da caminhonete com força - Ah, sim… para todos os efeitos, a última vez que você me viu foi no casamento da sua irmã.

- Okay, mas… você vai ficar bem, não vai?

Albus apenas deu de ombros para a pergunta difícil demais antes de dar a partida:

- Cuida do cavalo para mim?

- Claro!

Albus sorriu e acenou brevemente ante de dar a partida e arrancar com o carro, escolhendo uma estradinha de terra que começava  aos fundos da casa.
  
Vogel chegou na fazenda dos Dumbledore exatos trinta e cinco minutos depois de Albus partir. Tina, que havia dado a ordem para Jacob demorar o máximo possível para abrir o portão, enquanto ela escondia o cavalo no fundo dos estábulos vazios, já estava esperando do lado de fora, com os braços cruzados e o cavalo amarelo de Vogel parou tão perto dela que levantou uma camada desagradável de poeira:

- Onde ele está?

Tina levantou uma sobrancelha, indolente até para responder:

- O senhor Dumbledore está lá dentro, mas já aviso que não está muito disposto e talvez não queira te atender.

- Não quero saber do Aberforth. Quero saber do Albus!

Tina se considerava uma boa atriz. Desde criança, ela sempre amealhara os melhores papéis no teatrinho da escola. De forma que sua resposta lhe pareceu bastante convincente:

- Posso estar enganada, mas já tem um tempinho que ele não mora aqui.

Vogel fez o cavalo dar uma volta sobre si mesmo e então avançou com ele na direção dela, numa ameaça velada, levantando ainda mais poeira:

- Não banque a idiota! - rosnou - Eu sei que ele
está por aqui!

Tina não parecia nenhum pouco intimidada:

- Quer procurar? - perguntou e no seu rosto se abriu um sorriso que fez Vogel sentir vontade de passar com o cavalo por cima dela.

- Olha aqui, sua…

- Que barulheira é essa, Tina?! Quem que tá aí? - Aberforth perguntou, abrindo a porta de casa.

Vogel nem acreditou nos próprios olhos quando viu o estado deplorável em que Aberforth se encontrava. O  filho do meio de Percival Dumbledore nunca fora um dos sujeitos mais asseados do mundo, mas, agora… os cabelos vermelhos estavam mais queimados, ressecados e desgrenhados. Parecendo bastante sujos, os fios apontavam para todos os lados. Vogel também reparou que, além do bigode, agora Aberforth também usava barba bastante comprida e maltratada e, como se não bastasse, também estava bem mais magro do que Vogel se lembrava.

- Você tá um verdadeiro lixo! - ele comentou, antes de dar uma cusparada no chão.

Aberforth não demonstrou se importar com o insulto:

- O que tá fazendo aqui? - perguntou, seco.

- Vim buscar o seu irmãozinho. Sei que ele está aqui.

Os olhos de Aberforth se fixaram por alguns segundos  na camisa manchada de sangue do alpha:

- Se enganou.

O cavalo de Vogel avançou um pouco e ele puxou as rédeas, fazendo-o bufar:

- Você sabe onde ele está. - afirmou. Não era uma pergunta.

Aberforth meneou a cabeça:

- E se souber?

- Você vai me contar.

Aberforth deixou escapar um sorriso muito estranho, que a Vogel pareceu quase maníaco

- Minha cabeça não anda muito boa ultimamente, sabe? - confessou - Mas eu ainda tenho algumas poucas certezas na vida e uma delas é que não foi para você que eu entreguei o meu irmão.

- Eu tô aqui a mando do Gellert! - Vogel rebateu, imediatamente desconfortável com a lembrança de Aberforth entregando Albus para Gellert no dia casamento.

- Pois você dê meia volta e diga ao seu patrão que eu só dou conta da minha família com quem também é da família.

Um curto silêncio se fez entre os dois alphas.

- Filho da puta. - Vogel xingou e ambos sabiam que agora o assunto era outro.

- Foda-se. - Aberforth respondeu o insulto com uma calma surpreendente.

Vogel puxou um revólver da cintura. Tina deu um grito. Aberforth se limitou a apontar para a própria testa com o dedo indicador.

Sem dizer mais nada, Vogel  baixou a arma e direcionou seu cavalo na direção da saída. 
  
- Vinda, já cheguei! - Gellert cumprimentou, pendurando o seu chapéu - Tudo certo por a… - ele parou quando ela virou o corpo e abriu a boca, espantado, ao se deparar com a governanta: metade do seu rosto estava muito vermelha e inchada e seu delicado nariz estava bem machucado e enorme -  o que houve com o seu rosto?

Vinda fez uma careta:

- Apareceu… um rato aqui em casa. - ela respondeu, hesitante - E você sabe como eu tenho medo de ratos. Tentei subir numa cadeira, escorreguei e bati com o rosto na quina da mesa.

Gellert olhou fixamente para Vinda por alguns segundos:

- Você sabe que eu não acredito em uma palavra do que acabou de me dizer, não é?

Vinda fez um sinal impaciente:

- Esquece isso, patrãozinho! Agora o senhor precisa ir atrás do seu marido! Ele tá sumido desde manhã!

As sobrancelhas de Gellert se franziram imediatamente:

- Como é que é? - Gellert perguntou, olhando o relógio - A esta hora ele já deveria estar voltando da consulta médica… cadê o Anton?

- Vogel foi atrás dele… parecia… muito nervoso.

- Compreensível… Anton tem mais o que fazer do que ter que lidar com esse tipo de coisa… - Gellert falou, mal humorado - Eu deveria ter cuidado disso pessoalmente, mas era este horário ou outro só no fim da semana que vem, não quis esperar…

A mão trêmula de Vinda apertou o cotovelo de Gellert e o interrompeu:

- Patrãozinho, o senhor precisa encontrá-lo antes do Vogel! Ele foi para a fazenda dos Dumbledore! Estou com medo… estou com muito medo do que ele pode acabar fazendo se o encontrar por lá.

Gellert ouviu aquela frase e o seu cérebro imediatamente fez uma matemática que ele próprio achou absolutamente espúria. Não… Vogel jamais se atreveria a tocar em Vinda, ele sabia o quanto ela era importante para ele! Preferindo acreditar que a governanta havia se machucado em alguma briga pela dominância amorosa com algum outro alpha, ele então desdenhou:

- Não precisa se preocupar. Vogel não teria a audácia de tocar no meu ômega. Ele sabe que eu mataria ele…

A expressão de descrença de Vinda falou por si, fazendo Gellert olhar para ela, condescendente, antes de continuar:

- Já disse: não se preocupe, eu sei bem aonde Albus está e não é nos Dumbledore e nem em qualquer lugar onde o Anton possa pensar em
procurar.

Os dedos de Vinda apertaram ainda mais o cotovelo de Gellert, a ponto de ele sentir as pontas das suas unhas vermelhas apertarem sua pele por cima da camisa:

- O senhor vai buscá-lo, não vai? - ela perguntou, demonstrando ansiedade.

Gellert sorriu para Vinda:

- Claro que vou.

Vinda sorriu aliviada, imediatamente sentindo uma pontada de dor. Gellert então apontou para ela:

- Você vai me contar a verdade sobre esse machucado aí. - determinou, antes de pegar seu chapéu novamente.

- Você tá com seu revólver, não tá? - Vinda perguntou como se não tivesse ouvido nenhuma palavra do que Gellert havia dito.

- Eu sempre estou com ele. - Gellert respondeu, apontando para própria cintura após fazer uma cara impaciente para tanta preocupação descabida, dando mais alguns passos, ele já estava com a mão na maçaneta quando Vinda o chamou novamente:

- Patrãozinho…

O alpha apenas olhou para trás, sem nenhuma expressão, apenas esperando para ouvir o que Vinda tinha a dizer.

Vinda deixou escapar um sorriso nervoso:

- Acho melhor ir de carro… - ela falou, meio sem graça - para chegar mais rápido.

Gellert se limitou a franzir as sobrancelhas antes de pegar a chave do carro pendurada no porta-chave. 
  
Newt estava tentando alimentar um minúsculo sapo com uma pinça, enquanto ignorava o toque insistente do telefone.

- Eu não vou atender… - cantarolou, aproximando o inseto com a pinça para que o sapo o pegasse - no momento, tenho outras… prioridades.

No preciso instante em que a língua do sapo puxou o inseto, três batidas muito fortes na porta fizeram seu ombro pular de susto.

- Será possível que Theseus esqueceu a chave de casa de novo? - Newt se perguntou, colocando o sapinho numa caixa de papelão com todo o cuidado.

Mais três batidas ainda mais intensas na porta, quando Newt ainda estava na escada. O telefone não parava de tocar. Passando pelo aparelho, ele seguiu direto para a porta de entrada da casa. As batidas se tornaram constantes:

- Já vai, já vai! - Newt falou, se atrapalhando para destrancar a porta às pressas - Tá querendo ir no banheiro, é, Theseus?

Não era Theseus.

- O que você quer? - Newt perguntou para Vogel, sentindo seus joelhos tremerem.

- Vim buscar o Albus. - Vogel respondeu, esticando o corpo o máximo que podia para tentar espiar o interior da casa.

- O… o Albus?

- Não venha de fingimento comigo que eu não tô num dia bom. - e empurrando a cabeça de Newt para o lado, gritou - Albus, não adianta se esconder!

- Al… Albus não está aqui. - Newt gaguejou, evitando o olhar intenso de Vogel enquanto se afastava o máximo que podia do toque desagradável daquele alpha.

Vogel buscou os olhos de Newt uma, duas vezes, sem sucesso, antes de sorrir:

- Você não consegue nem olhar na minha cara, né, seu esquisito? - perguntou, divertido, e Newt apenas deu mais um passo atrás, desperado para manter Vogel fora do seu espaço pessoal - E agora fique aqui bem quietinho enquanto eu acho o Albus.

Vogel então tentou entrar na casa, mas Newt se apressou a se colocar na frente dele.

- Não posso deixar você chegar perto dos meus animais! - Newt falou, com os dois braços esticados para bloquear a porta
- Já… já basta os que você matou na clínica..

- Não sei do que você está falando! - Vogel retrucou, tentando empurrar Newt para longe da porta - E agora saia da minha frente!

- Não vou sair!

- Saia agora! - Vogel repetiu, dessas vez usando sua voz de alpha, fazendo Newt se abaixar e tampar os ouvidos, mas nem assim dando espaço para ele passar.

- Não! Mil vezes não! - Newt berrou, ainda com as mãos nos ouvidos - Não! Não! Não! Não!

- Saia! Saia! Saia! - Vogel repetia, usando sua voz de alpha e empurrando Newt - Saia antes que eu dê um tiro na sua cara!

- Antes de você fazer o quê?! - a voz de alpha de Theseus se destacou por trás dos dois, fazendo Vogel largar Newt e olhar para trás para encontrar um cano de revólver apontado na sua direção - Que sangue é esse na sua camisa? Espero que não seja do meu irmão…

- Seu irmão está escondendo propriedade alheia. - Vogel falou enquanto levantava as mãos - Você é polícia, sabe que isso dá cana.

- Foi o Grindelwald que te mandou aqui ameaçar meu ômega? - Theseus perguntou, olhando rápido para Newt para conferir se ele não estava mesmo ferido.

- O que você acha? - Vogel devolveu a pergunta, ainda com as mãos para cima.

Theseus balançou a cabeça:

- O ômega do seu patrão não está aqui. Você pode procurar se quiser.

- Não! - Newt gritou - Ele vai machucar os meus animais!

- Ah, não vai não… - Theseus respondeu, puxando o cão da arma - ele vai é tirar o revólver da cintura, colocá-lo bem devagar no chão, e depois chutá-lo na minha direção. Só depois ele vai vistoriar a casa sob os meus olhos bem atentos…

Vogel respirou fundo:

- Não vou jogar meu revólver fora e não preciso  vistoriar sua casa. Se Albus estivesse mesmo aqui, você não me deixaria entrar. - falou.

- Você é esperto… - Theseus falou - Pode ir embora então.

Ainda com as mãos para o alto, Vogel foi dando passos para trás, cuidadoso, até estar longe o suficiente para poder se virar e andar na direção do seu cavalo amarelo.

Com um suspiro aliviado, Theseus desengatilhou seu revólver antes de guardá-lo no coldre:

- Você está bem, Newt? - perguntou.

O ômega assentiu, encolhido e assustado:

- Co… como você soube!?

- Tina ligou para o meu trabalho. - Theseus respondeu - Disse que Albus tinha fugido de casa e que Vogel estava como um louco atrás dele. Presumiu que vinha para cá e acertou.

- Tina… - Newt falou, de repente sonhador.

- Ela disse que tentou te ligar sem parar, mas você não atendia. Estava bem preocupada.

- Ela… estava preocupada comigo?

- Ela é sua alpha não é? - Theseus perguntou fazendo cara de conformado - Ou, pelo menos será em breve…

E a cara de sonhador de Newt apenas se intensificou.

- Minha alpha… - ele repetiu, de repente esquecido até que Vogel existia.

A primeira coisa que Albus fez ao encontrar o túmulo de Ariana foi limpá-lo, afastando as folhas secas com as mãos cuidadosamente. A segunda, foi depositar uma única flor que ele havia puxado de uma árvore na frente do cemitério sobre o nome dela.

Albus então sentou-se sobre a pedra ainda morna pelo sol, com a mesma naturalidade com que costumava se sentar na ponta da cama de Ariana.

- Feliz aniversário. - falou, acariciando a pedra como se estivesse acariciando o rosto dela - Sei que demorei um pouco, mas por nada no mundo eu deixaria de visitar você hoje…

Alguns segundos de silêncio se seguiram antes de duas gotas d’água pingarem sobre a pedra cinzenta.

- Eu sinto tanto a sua falta… - desabafou, infeliz e as lágrimas se tornaram copiosas. Desamparado, Albus se deitou sobre o jazigo, abraçando o próprio corpo, encolhido em meio aos soluços, um misto de tristeza e culpa esmagando-o a ponto dele não conseguir respirar direito. Só e infeliz, Albus apenas se deixou ficar ali durante longos minutos.

O que faria dali em diante? Simplesmente não tinha para onde ir. De jeito nenhum poderia contar com a ajuda do seu irmão e Newt já havia sido prejudicado demais por causa dele. Albus não aguentaria carregar mais uma culpa se Vogel fizesse alguma coisa com seu amigo.

O tempo passou e o sol começou a se pôr, dando ao cemitério uma tonalidade avermelhada. Encolhido sobre o túmulo de Ariana, Albus fechou os olhos, querendo desistir de tudo e simplesmente ficar ali. Com ela.

Um toque no seu braço fez Albus abrir os olhos, assustado. Por um milésimo de segundo, ele pensou que Vogel o havia encontrado, mas um cheiro familiar invadiu suas narinas e ele o reconheceu antes mesmo de olhar:

- Gellert… - Albus falou, inclinando a cabeça na direção do alpha - Você deve estar muito bravo comigo, não é mesmo? Me perdoa.

Gellert se inclinou na direção de Albus, seus dedos tocando o topo da sua cabeça:

- Sou eu quem devo pedir desculpas. - ele falou, suavemente - Não te deixar vir ver sua irmã foi… bem insensível. E, te conhecendo, eu já deveria saber que seria inútil.

Albus esfregou o rosto molhado com as costas da mão e, com um suspiro sentido, levantou-se devagar. Por alguns segundos, alpha e ômega se olharam intensamente e duas lágrimas deslizaram pelo rosto de Albus, sendo imediatamente capturadas pelas pontas dos dedos de Gellert. Sem pensar muito, Albus procurou os braços protetores do alpha, sendo imediatamente envolvido por eles.

E, naquele instante, todo a tensão acumulada durante todo o dia pareceu querer sair do seu corpo e Albus começou a tremer de puro desespero.

- A culpa foi toda minha… - Albus confessou o que não diria a mais ninguém - Se eu não tivesse permitido que ela montasse…  eu… eu pensei que seria… que seria seguro… mas o cavalo se assustou com um barulho… disparou… e ela… e ela…

- Albus, por favor… foi uma fatalidade. - Gellert o interrompeu, beijando o topo da sua cabeça - Cavalos se assustam, cavalos disparam…

- Mas se eu não…

- Você não tem culpa, Albus! - Gellert o interrompeu - Não foi sua culpa!

Albus fechou os olhos, se abraçando a Gellert com mais força, querendo mais do que tudo acreditar nas palavras gentis que ele lhe dizia. Os braços de Gellert o estreitaram quando ele sentiu sua camisa se molhar com as lágrimas sentidas de Albus.

Algum tempo se passou até que os soluços se tornaram fungadas e então veio o silêncio, em que Albus apenas se deixou ficar nos braços de Gellert. Aninhado. Protegido. 
Após mais algum tempo de total silêncio, Gellert finalmente afastou Albus de si com delicadeza, olhando nos seus olhos antes de perguntar:

- Melhor?

Albus apenas assentiu com a cabeça.

- Vamos pra casa então. - Gellert falou, fazendo Albus hesitar:

- Vogel…

- Ah, deixa o Anton comigo! - Gellert o interrompeu, antes que ele pudesse terminar a frase  - Eu realmente cometi um erro ao deixar isso nas mãos dele. Mas, não se preocupe, remarquei sua consulta para o fim da semana que vem e dessa vez quem vai com você sou eu.

Albus apertou os lábios. Ao ver Gellert sendo tão gentil, uma vã esperança de que o alpha deixaria de lado toda aquela história havia ganhado espaço em seu coração, mas, pelo visto, isso não havia acontecido.

- Pensei que você não estava sendo sincero quando disse que nada havia mudado…
- Albus falou muito baixo, se afastando devagar dos braços de Gellert - eu… realmente pensei que eu era mais para você do que uma mera incubadora…

Gellert respirou fundo:

- Albus… depois aquele dia… a confiança que eu tinha em você se esfacelou. - explicou - E eu… me peguei pensando… desconfiando… até que passou pela minha cabeça que você não entra no cio nunca porque… porque está me enganando durante esse tempo todo. - ele respirou fundo, detestando a simples ideia de ter sido ludibriado - E isso ficou na minha cabeça… me atormentando.

Albus não sabia se ficava feliz ou desesperado com aquela resposta. Saber que Gellert não estava pensando nele como uma simples coisa era um alívio que morria diante da realidade de ele estar muito perto de descobrir que sim, que era verdade que Albus o havia enganado.

- Gellert, sobre aquele dia… - Albus tentou falar, numa tentativa de, pelo menos, esclarecer um pouco as coisas.

- Ah, por favor, não vamos falar sobre isso. - o alpha o interrompeu - Sabe? Você poderia ter apenas me pedido para dar aquele cavalo de presente para os seus amigos…  com certeza, eu reclamaria um pouco, talvez até reclamasse bastante, mas… acabaria cedendo. Você realmente não precisava ter feito nada daquilo.

- Mas eu também queria que você fosse comigo! Eu estava… feliz por ter você ao meu lado… - Albus hesitou por alguns segundos ao ver Gellert balançar a cabeça - aquele beijo… foi sincero. Por favor… você precisa acreditar em mim!

Mas Gellert não parou de balançar a cabeça:

- Eu… não consigo… - ele trincou os dentes - uma vez que a desconfiança se instalou na minha cabeça… eu simplesmente não consigo mais confiar em você.

- Nós deveríamos confiar um no outro. - Albus afirmou, um sentimento que nem ele mesmo sabia explicar apertando sua garganta - Gellert… por favor… - ele insistiu quando o alpha desviou o rosto - deixa o meu corpo te contar toda a verdade… - ele implorou, enquanto segurava o pulso do outro suavemente - Você… você é meu. Você é meu alpha…

Gellert apertou os olhos ao ouvir aquelas palavras e, por um segundo, ele quase capitulou. Por muito, muito pouco, ele não atirou a razão pela janela e apenas enlaçou seu ômega pela cintura para devorá-lo num beijo, antes de arrastá-lo para a cama e fazê-lo dele.

Mas Gellert simplesmente não podia. Não antes de  Albus ser examinado e o médico lhe dizer o motivo de o seu ômega não conseguir entrar no cio. E Gellert estava disposto a aceitar absolutamente qualquer resposta, por mais terrível que fosse.

Tudo menos que Albus estava enganando ele durante todo aquele tempo.

Foi por isso que ele afastou seu pulso do toque de Albus e olhou no fundo dos olhos dele antes de falar, sombrio:

- Eu não sou seu.

Ouvir a mesma frase que ele mesmo havia dito a Gellert mais de uma vez foi tão devastador que Albus não pôde deixar de pensar que não era só simples atração física o que ele sentia por Gellert, nem mesmo uma reação natural aos feromônios tão atrativos de um alpha. Havia mais, muito mais…

E Albus tinha muito, muito medo de descobrir o que era.

----- CHAPTER BREAK -----

Quando Theseus abriu a porta para Tina, ela imediatamente percebeu um clima bem diferente da alegria costumeira com que Newt sempre a recebia em todas as noites de sábado.

- Aconteceu alguma coisa? - Tina perguntou ao ver Newt sentado à mesa, de cabeça baixa, enquanto digitava números sem parar numa calculadora.

- Estamos fazendo as contas do quanto precisaremos gastar para consertar tudo que foi destruído no consultório. - Theseus explicou.

- São todas as nossas economias reunidas… - Newt finalmente falou, parecendo arrasado - … e o que restou das suas depois do casamento da Queenie.

Sim, por causa de todos aqueles gastos, o casamento deles precisou ser adiado, mas, ainda assim, Tina pediu a Theseus para cortejar Newt e o alpha, mais para animar o irmão um pouco, autorizou. Desde então, os dois tinham encontro marcado todos os fins de semana. Algumas vezes, Tina levava Newt para tomar um sorvete, em outras, eles passeavam de mãos dadas pelo parque…

Na maioria das vezes, contudo, eles só ficavam juntos na casa de Newt para não correr nenhum risco de gastar dinheiro.

Durante os primeiros encontros, Theseus ainda teve paciência para ficar vigiando os dois. Determinado a proteger seu irmão, botava um alarme no relógio e ficava subindo as escadas várias vezes para abrir a porta do quarto de Newt e checar o que os dois estavam fazendo. Mas, não demorou muito, e ele logo se sentiu um pouco cansado e bem idiota por estar se prestando àquele papel e, a partir daí, passou a deixá-los bem mais à vontade. Não antes, claro, de arrancar de Tina uma promessa de que seu irmão se casaria com o pescoço exposto para que todo mundo pudesse ver a total ausência de marcas.

- Eu já imaginava que seria assim. - Tina confessou, retirando seu sobretudo cinza.

- Vamos ter que juntar dinheiro por anos… - Newt lamentou.

- Eu ajudaria mais vocês, mas já arco com todas as despesas da casa e também com os supressores do Newt… - Theseus se justificou - Sobra muito pouco dinheiro…

- Está tudo bem... - Newt falou, desanimado.

Tina deixou escapar um suspiro. Ela não era do tipo que se deixava abater por coisas que não tinham solução, mas ver Newt arrasado daquele jeito realmente a perturbava.

- Talvez seja melhor desistir do casamento… - Newt sugeriu, timidamente - alugamos uma casa nova e… nos mudamos.

- De jeito nenhum! - Tina e Theseus responderam ao mesmo tempo.

- Ou você casa direito ou não casa! - Theseus determinou, de braços cruzados.

- Vamos casar como manda o figurino. Não importa o quanto tenhamos que esperar. - Tina completou, ainda mais decidida.

E ao ver que não haveria mesmo outra saída a não ser esperar, ou melhor, esperar muito, ele levantou-se da cadeira e correu escada acima, até alcançar seu quarto e bater a porta.

Tina olhou para Theseus como se pedisse sua permissão e ele apenas assentiu. A melhor pessoa para consolar seu irmão, sem dúvidas era ela. A alpha então respirou fundo, subiu as escadas e bateu na porta do quarto do ômega:

- Posso entrar? - perguntou.

- Pode sim. - uma voz nitidamente entristecida respondeu e Tina balançou a cabeça antes de virar a maçaneta.

Newt estava sentado numa cadeira, de cabeça baixa, olhando para suas próprias mãos em seu colo.

- Newt… - Tina o chamou - Newt, por favor, não fica assim…

E como Newt se recusava a levantar a cabeça, Tina se ajoelhou diante da cadeira onde ele estava sentado, segurando suas duas mãos delicadamente.

- Você sabe que, casados ou não, você já é meu, não sabe?

Newt assentiu devagar, ainda olhando para as suas próprias mãos enlaçadas nas dela.

- Você ainda está triste… - Tina adivinhou, acariciando o rosto magro de Newt delicadamente, fazendo o ômega piscar algumas lágrimas - Por que?

- É que eu não quero ter que esperar tanto para… ter um pouco mais, sabe? - Newt falou num tom muito baixo, evitando o olhar profundo da alpha.

Tina conhecia Newt há tempo suficiente para entender bem o que ele estava querendo dizer. Seu ômega queria carinho, queria intimidade, queria contato, queria prazer…

… queria o mesmo que ela.

Sem conter um sorriso, a alpha apertou um pouco mais as mãos de Newt antes de perguntar:

- Você confia em mim? - e quando Newt assentiu vigorosamente, ela continuou - Você confia que eu sempre vou ser sua alpha?

E quando Newt assentiu mais uma vez, Tina esticou o corpo na direção dele e puxou seu rosto com as duas mãos para um beijo.

Ao longo de tantos anos, Newt e Tina já haviam se beijado em várias oportunidades. Nas primeiras vezes, nenhum dos dois sabia beijar direito, mas, ainda assim, eles se divertiam apenas esfregando e estalando os lábios. Com o tempo foram aprendendo, claro. Se escondiam em algum lugar e lá se beijavam sem parar, apreciando o gosto um do outro pelo tempo que pudessem. O beijo de Newt costumava ser bem tímido e sempre suave, já o de Tina era assertivo e bastante exigente.

Naquele momento, contudo, o beijo que Tina lhe deu foi diferente de todos os outros. Newt sentiu nele uma promessa, como se ela o convidasse para uma aventura.

A alpha quebrou o beijo e sorriu para o ômega, enquanto seus dedos alcançavam os botões das suas calças, abrindo espaço para a sua mão entrar. Newt corou como um pimentão ao sentir seu membro ser manuseado pela sua alpha. E então Tina o retirou com cuidado, vendo Newt ficar mais e mais tenso a cada segundo.

- Quem é a sua salamandra? - ela perguntou, gentil, para fazê-lo relaxar.

Newt riu:

- Você.

- É isso… - ela falou suavemente antes de acariciar seu pênis, sentindo-o latejar na sua mão, apreciando a mistura de constrangimento e prazer que se desenhou no belo rosto de Newt ao ser tocado daquele jeito tão íntimo pela primeira vez - Relaxa, vai?

Um pedido que Newt achou completamente impossível, especialmente depois que ela se inclinou e começou a beijá-lo exatamente… ali. Pior ainda quando os beijos viraram lambidas cada vez mais compridas cada vez mais lentas, molhando-o todo. Respirando com dificuldade, Newt jogou a cabeça para trás, tentando não gemer muito alto.

- Ti… Tina… - ele balbuciou enquanto ela lhe acariciava com a língua - Isso… isso… é tão bom! - gemeu - É gostoso demais!

- Você ainda não viu nada... - ela o provocou antes de lamber sua glande bem devagar.

Newt apertou os olhos e tampou a própria boca para não gritar quando a boca de Tina o envolveu, quente e muito, muito úmida. E, antes que ele conseguisse respirar, ela o chupou inteiro num ritmo lento, carinhoso.

Um uivo comprido escapou da boca tampada de Newt enquanto o prazer aumentava junto com o ritmo da boca de Tina e ele se retorceu na cadeira, mordendo o próprio pulso, ao sentir uma das mãos dela deslizando por dentro da calça para acariciar seu saco. Entregue, Newt apenas se permitiu sentir a boca da Alpha subir e descer por toda a sua extensão, ainda de olhos fechados, respirando cada vez mais pesado.

- Ti.. Tina… - Newt gemeu quando o prazer se tornou quase insuportável - Por.. por favor… pa… para um pouco… senão eu… senão eu…

Com algum pesar, Tina parou e olhou para Newt, interrogativa, sem parar de acariciá-lo.

- Mais um pouquinho e eu ia… eu ia…

Tina riu:

- Mas é isso mesmo que você tem que fazer, bobinho…

- Q… quê? - Newt olhou assombrado para ela,
sem querer acreditar que ela queria que ele…

-  É o que eu quero que você sinta… - ela explicou, como se lesse seus pensamentos - … prazer…

E antes que ele pudesse responder, a boca de Tina já o envolvia novamente, desta vez num ritmo ainda mais intenso, nitidamente querendo arrancar tudo dele, enquanto seus dedos se esgueiravam pelo interior da sua camisa  para beliscar seus mamilos.

Em desespero, Newt se segurou nos cabelos escuros dela, uivando baixinho de prazer, mal conseguindo respirar ao sentir aquela boca subir e descer nele sem parar.

- Aaaah, mais… por favor… mais… mais…  - ele finalmente implorou e Tina aumentou a velocidade, engolindo Newt por inteiro, faminta pelo corpo daquele ômega.

Em segundos, Newt estava gozando, gemendo e uivando, tampando a própria boca enquanto Tina o chupava até a última gota, adorando ver seu ômega se retorcendo de prazer.

Quando Tina finalmente se afastou, Newt estava jogado na cadeira, tentando recuperar o fôlego. Olhando nos olhos dela por um instante, suas mãos trêmulas abriram os dois primeiros botões da sua camisa e a alpha lambeu os lábios ao ver Newt lhe mostrar a garganta, ofegante.

Respirando fundo, Tina se apoiou no ômega para alcançar seu pescoço, mas, ao invés de morder, ela se limitou a beijar aquela carne tão macia.

- Tão lindo... - Tina lhe falou, acariciando seus cabelos com doçura - Quando a gente se casar eu vou te morder com tanta força…. você vai ver - ela prometeu, fazendo Newt gemer numa mistura de cansaço e antecipação.

Meia hora depois, chegou o momento da despedida e Newt levou Tina para a porta de casa o tempo todo de cabeça baixa, morrendo de medo que Theseus visse o que ele tinha acabado de fazer só de bater os olhos nele. Tina, ao contrário, não parecia nenhum pouco intimidada, realmente se comportando como se Newt realmente já lhe pertencesse. Fechando rapidamente a porta por trás de si, Newt andou com ela até o portãozinho do lado de fora da casa.

- Então… até semana que vem.. - Newt falou, tímido, segurando as barras de ferro do portão.

Tina realmente conhecia seu ômega como a palma da sua mão. A cara de dúvida que ele fazia agora era inconfundível.

- Você quer me perguntar alguma coisa? - Tina estimulou ao ver que ele não tomava coragem para falar.

Newt ficou imediatamente muito vermelho e até engasgou antes de perguntar:

- A….a gente… - gaguejou, sendo forçado a parar e começar de novo - será que… na semana que vem… a gente pode fazer isso de novo?

Tina sorriu e seus dedos acariciaram o rosto fino do ômega:

- Claro que podemos.

Mas, ao invés de se desfazer ao ouvir aquela reposta, a cara de dúvida de Newt permaneceu no mesmo lugar.

- E agora, o que foi? - Tina perguntou, rindo.

- E… quando a gente fizer de novo… eu… posso… tentar fazer em você?

Foi a vez de Tina ficar muito vermelha:

- O que você quiser, meu amor. - ela sorriu - O que você quiser…

----- CHAPTER BREAK -----

Percorreram todo o caminho de volta em total silêncio, mas, apesar de já não sentir a mesma animosidade de antes, Albus agora sabia que não havia mais maneira de consertar sua relação com Gellert. Para o bem ou para o mal, em uma semana, o casamento deles chegaria ao fim, pois Gellert jamais seria capaz de confiar nele quando descobrisse que todas as suas desconfianças estavam corretas.

Albus mentiu, Albus enganou, Albus manipulou.

Restava a ele apenas contar a verdade e pelo menos tentar explicar os seus motivos. Gellert, sendo o alpha que era, certamente não os entenderia, mas, ainda assim, Albus desejava que ele soubesse a verdade antes de tudo se acabar.
Mas antes de contar a verdade, Albus precisava, mais do que qualquer coisa, arrancar Vogel da vida de Gellert. Como ele faria isso? Albus ainda não sabia. Gellert confiava em Vogel, mais do que isso, Gellert era dependente de Vogel. Não seria fácil fazê-lo enxergar quem ele era de verdade.

De qualquer maneira, Albus tinha sete dias para destruir Vogel ou ser destruído por ele.

O carro estacionou na porta de casa e os dois entraram devagar, ambos abatidos e cansados.  No momento em que puseram os pés no hall de entrada, Vinda veio correndo na direção deles.

- Ai, vocês dois estão bem! Ainda bem! - ela falou, com a mão no peito de alívio.

Albus olhou para ela, tomado pelo choque ao ver o estado do rosto de Vinda, mas, no instante em que ele abriu a boca para perguntar, a governanta olhou para ele rapidamente e Albus leu no rosto dela que era melhor não fazer nenhum tipo de comentário por enquanto.

- Está tudo bem sim, Vinda. - Gellert falou, cansado - Peça para o Abernathy arranjar um jeito de buscar a caminhonete do Dumbledore estacionada na porta do cemitério e devolver. Eu vou subir para o meu quarto, se puder levar meu jantar lá em cima, agradeço.

- Pode deixar, patrãozinho. - Vinda falou

- Você tá botando gelo nisso daí, né? - Gellert perguntou, apontando o queixo para o rosto da governanta.

- Tanto que o meu rosto já está duro e gelado como uma pedra de gelo… - Vinda respondeu, rindo da própria tragédia.

- Amanhã a gente conversa melhor sobre isso. - Gellert falou, muito sério - até lá você tem bastante tempo para inventar alguma mentira melhor do que a que me contou. Capriche.

- Sim, senhor. - Vinda respondeu, mal humorada antes de Gellert lhe dar as costas e avançar pelo corredor para subir devagar as escadas.

Vinda manteve a mesma postura e o mesmo sorriso até ouvir o barulho da porta do quarto de Gellert batendo no andar de cima e só então puxou Albus pela mão e o levou até um armário de vassouras do lado de fora da casa, empurrando-o para dentro dele sem cerimônias antes de bater a porta com tanta força que um pozinho marrom, mistura de madeira moída e poeira, caiu sobre suas cabeças.

- Você está bem? - Vinda perguntou, imediatamente - Ele fez alguma coisa com você?

- Sabe que você tirou as palavras da minha boca? - Albus devolveu a pergunta, tentando tirar a poeira do cabelo.

Vinda espanou uma aranha do ombro antes de responder, dando um suspiro de impaciência:

- Eu estou bem. Nem tá doendo. - bravateou, apesar de até sua voz estar meio esquisita graças ao inchaço no rosto - Ele me pegou de surpresa, o desgraçado, mas juro que, se tentar de novo, eu quebro uma cadeira na cabeça dele.

- Você ouviu toda a nossa conversa, não é mesmo? - Albus perguntou, abaixando o tom de voz.

- Não toda. - Vinda ponderou - Só a partir do momento em que aquele idiota socou a mesa e começou a gritar…

- Vinda, sinto muito…. por minha causa…

- Ai, para com isso, nós nem temos tempo para esse tipo de coisa! - Vinda o interrompeu, zangada - Eu só preciso saber o que você vai fazer de agora em diante.

- O que eu vou fazer? - Albus repetiu a pergunta, pensativo - Algumas coisas.

- E qual seria a primeira delas?

Resposta fácil:

- Acabar com o Vogel.

- Gostei dessa. - e depois de um segundo - Como?

Mais três segundos de silêncio.

- Não sei. - Albus confessou - Ainda.

- Melhor pensar rápido, porque ele tá uma fera. Com certeza, vai fazer alguma coisa muito, muito estúpida.

- Por que você não contou para o Gellert quem fez isso com você? - Albus perguntou, seu dedo indicador deslizando suavemente pelo rosto machucado de Vinda.

- Eu não queria te expôr. - e então Vinda diminuiu o tom ainda mais - Se eu contasse, sei que o Gellert não ia descansar até desencavar a história toda e com certeza acabaria descobrindo sobre… - e ela abriu e fechou a porta do armário só para se certificar de que não havia ninguém por perto -  sobre os supressores.

- Agradeço pela preocupação, mas Gellert vai descobrir de uma forma ou de outra. - Albus comentou, sombrio - Ele já está desconfiado. Vou acabar contando tudo antes da consulta médica que ele marcou para mim na próxima semana…

- O senhor não vai contar nada! - Vinda cortou, assertiva - Pelo menos não agora.

- Mas a consulta…

- Dane-se a consulta! - Vinda interrompeu, ríspida - Ele não pode saber sobre os supressores agora!

Albus respirou fundo:

- Está certo. Não vamos pensar sobre isso agora. - cedeu - A prioridade é o Vogel.

- Certo. Precisamos descobrir algum podre dele… se ele tiver algum, claro. - Vinda falou, pensativa - Algo bem sério… mas o quê? E como?

- Ah, ele tem seus podres, com certeza… - Albus falou, pensativo, juntando a ponta dos dedos - e eu até conheço alguém que sabe quais são.

- Abernathy. - Vinda adivinhou, sem sequer precisar pensar muito.

- O próprio. - Albus concordou - Eu até já andei sondando ele, mas… descobri que o Vogel costuma usar sua voz de alfa para dar ordens aos empregados. Se ele exigiu segredo do Abernathy…

- Pois amanhã nós dois vamos conversar com ele. - Vinda falou, decidida - Se aquele bobalhão souber de alguma coisa, fazemos ele cuspir.

- Bom, não custa tentar. - Albus concordou, surpreso por descobrir um lado muito… alpha de Vinda.

- Certo, e agora vamos antes que o patrão estranhe a minha demora em levar a janta. - Vinda falou, empurrando a porta do armário, apressada.

Albus saiu na frente dela, batendo a poeira do armário da roupa. Sentindo-se emocionalmente exausto, subiu devagar as escadas, já pensando em como ele e Vinda fariam Abernathy falar no dia seguinte. Caminhou alguns passos pelo corredor e, só quando colocou a mão na maçaneta, ele percebeu que não estava diante da porta do seu quarto.

Sem sequer se dar conta, ele havia andado até a porta do quarto de Gellert.

Olhando para os dois lados do corredor, Albus se aproximou o máximo que pôde da porta, tomando todo o cuidado para não fazer nenhum barulho, e então cheirou o ar, sentindo imediatamente o perfume inconfundível dos feromônios de Gellert.

Cheiro de alpha.

Ainda com a mão na maçaneta da porta, um pensamento muito maluco invadiu sua cabeça: o que Gellert faria se ele invadisse o seu quarto sem licença e simplesmente se deitasse ao seu lado na cama?

Será que ele o expulsaria? Ou será que Gellert deixaria todas as desconfianças de lado para ficar com ele, nem que fosse só por uma noite?

Cheirou de novo o perfume de Gellert através da porta e, sem se conter, seus dedos puxaram o seu lenço, devagar. Suspirando, Albus estremeceu ao acariciar o próprio pescoço, enquanto imaginava como seria se os dentes de Gellert o mordessem com força.

Mordeu os lábios.

Sacudindo a cabeça com energia para se libertar daquele feitiço, Albus largou a maçaneta e se encaminhou para o seu próprio quarto, sentindo-se exausto, drenado.

Infeliz.

No momento em que fechou a porta do quarto e acendeu a luz, uma lâmina afiada se encostou na sua garganta. 
Estava tão distraído pensando em Gellert que nem sequer havia se dado conta do cheiro repugnante que agora enchia suas narinas.

- Me dá um só motivo para não cortar sua garganta agora. - Vogel falou muito baixo no ouvido dele, fazendo Albus estremecer de asco.

- Se você quisesse me matar, já teria feito isso. - Albus respondeu com suavidade, parecendo sequer estar abalado.

- Como você sabe? Talvez eu seja do tipo que
gosta de brincar com a comida antes de comer… - Vogel sugeriu, apertando ainda mais a lâmina da faca contra a garganta dele.

- O que você quer de mim, Anton? - Albus perguntou, inalterado.

- Sabe que eu não tenho certeza? - Vogel perguntou enquanto seu braço envolvia a cintura de Albus, trazendo-o mais para perto de si - Eu quero te matar, mas também quero te humilhar… quero te fazer sofrer, mas também quero… te amar, te marcar… te fazer meu.

Albus fechou os olhos, o ácido subindo pela sua garganta, queimando tudo. Controlando com custo o próprio nojo, ele ameaçou:

- Se você não sair do meu quarto agora, eu vou  gritar.

Vogel grunhiu de ódio:

- Faça isso e eu conto dos supressores.

- E eu conto que você tentou me chantagear.

- Você não tem provas disso.

Albus riu:

- Será mesmo que não?

Cinco intermináveis segundos de silêncio se seguiram:

- Rosier maldita! - rosnou.

- É mesmo uma pena que, enquanto eu estiver sob a proteção de Gellert, você não pode fazer absolutamente nada contra mim. - Albus concluiu, triunfante.

- E nem você contra mim. - Vogel rebateu, próximo o suficiente para Albus sentir seu hálito.

- Agora que nós dois chegamos a esta brilhante conclusão, que tal guardar essa faca e ir embora? Estou um pouco cansado, sabe?

Vogel ficou segundos intermináveis em silêncio antes de finalmente baixar a faca bem devagar.

- Não acabou. - Vogel avisou, rouco de tanta raiva, antes de dar as costas e bater a porta por trás de si. Albus correu para trancar a porta e se encostar nela, ofegante.

O jogo que ele estava jogando com Vogel era perigoso demais. Mas enquanto seu adversário não arriscava mais do que um bom emprego, Albus estava apostando tudo: sua felicidade, seu futuro, sua vida. Um passo em falso e tudo estaria perdido.

Jogou-se na cama, cobrindo o rosto com as duas mãos, angustiado.

Uma semana. Era todo o tempo que ele ainda tinha. 
  
No dia seguinte, Gellert já estava tomando café antes mesmo de o dia raiar.

- Tenho que pegar estrada por mais de duas horas até o aeroporto. Uns ricaços de fora estão comprando todos os cavalos da região. - ele falou para Vinda, limpando a boca com o guardanapo antes de apontar dois dedos na direção da governanta - Mas não pense que me esqueci da nossa conversa.

- Já ouviu falar do direito à privacidade? - Vinda perguntou, aborrecida, enquanto colocava um bolo ainda morno na mesa.

- Não. - Gellert respondeu casualmente - Pode ver se o Abernathy e o Anton estão prontos para ir?

- O… o Abernathy? - Vinda perguntou.

- Sim, o Abernathy. - Gellert respondeu - Algum problema?

- É que eu… preciso dele aqui hoje. Para me ajudar com as compras.

Gellert fez uma cara aborrecida antes de perguntar:

- Justo hoje?

- Por favor? - ela juntou as duas mãos num pedido - Eu realmente estou precisando.

Gellert respirou fundo:

- Tá bom, tá bom… o Abernathy é seu. - e olhando o relógio de pulso - Nossa! Pode deixar que encontro o Anton por aí. Já estou atrasado.

Gellert se levantou e partiu apressado, bem a tempo de esbarrar com Albus descendo as escadas.

- Você está saindo? - Albus perguntou, surpreso - Tão cedo assim?

- A Vinda te explica. - Gellert respondeu, rapidamente, antes de virar as costas e deixar Albus para trás.

- Se… cuida… - Albus falou enquanto observava o Alpha se afastar.

Sem conter um suspiro frustrado, seu olhar continuou perdido no corredor por onde Gellert havia saído. Depois de uma noite agitada e muito mal dormida, Albus havia pulado bem cedo da cama com a intenção de obrigar Gellert a tomar café da manhã em sua companhia.

- Pelo visto não acordei cedo o suficiente… - lamentou.

- Acordou na hora certinha, isso sim, Vinda falou, puxando-o pelo pulso, apressada - Venha! Temos muito o que fazer. 
  
- Você precisava de mim, Vinda? - Abernathy perguntou, tímido, como sempre com seu chapéu na mão.

- Sim, precisamos fazer umas compras de mercado hoje, tem um monte de buracos na minha despensa, mas antes… vem comigo.

Abernathy tratou de seguir Vinda até a sala onde o café da manhã era servido todos os dias.

- Como vai, Abernathy? - Albus perguntou, animado. Estava sentado junto à mesa, no seu lugar de costume, e quando viu Abernathy, apontou para o lugar bem na sua frente - Me acompanha?

- E… eu? - Abernathy apontou para si mesmo.

- Quem mais? - Albus riu - Sente-se. Vamos conversar um pouco.

A mão de Vinda puxou o chapéu da mão de Abernathy sem pedir licença e ele olhou para ela como se pedisse socorro.

- Chá ou café? - ela perguntou, insensível.

- Ca… café… - ele gaguejou, enquanto via Vinda desaparecer da cozinha com o seu chapéu.

Albus reforçou o convite para Abernathy com o olhar e ele não viu outra saída a não ser obedecer, puxando a cadeira devagar para sentar-se bem na ponta. Diante dele, pratos, talheres e uma xícara de porcelana delicada. Desconfortável, Abernathy encolheu os ombros.

- Relaxa… - Albus sorriu - Eu não mordo! - ele disse, enfiando os dentes com força num pedaço de torrada cheia de mel.

Abernathy ia responder alguma coisa, quando o braço fino de Vinda surgiu do nada, para derramar o café preto na sua xícara.

- Cuidado para não se queimar. - Vinda aconselhou, delicada, mas ao invés de dar meia volta, ela apenas se deixou ficar, ainda segurando o bule cheio de café.

- O… o senhor queria falar comigo? - Abernathy perguntou, por um instante com o olhar fixo na xícara delicada demais.

Albus não se apressou a responder. Cortou um pedaço de queijo com cuidado e o levou a boca, sem tirar os olhos de Abernathy enquanto mastigava devagar.

- Na verdade, eu queria continuar a nossa conversa de outro dia.

- Nossa… nossa conversa?

- Sim, gostaria de entender melhor por qual motivo você vê as coisas que o Vogel anda fazendo, mas não fala nada…

Abernathy engoliu em seco:

- Senhor…

- Eu preciso que você me diga se o Vogel tem feito alguma coisa errada. - Albus explicou - Você está sempre por perto… deve ter visto ou ouvido alguma coisa.

Abernathy mordeu os lábios, inseguro:

- Ai, senhor… eu… eu… Vinda tá precisando da minha ajuda com as compras e…

Vinda o interrompeu naquele ponto:

- Preciso de você aqui. - ela falou, se aproximando um pouco mais dele - Vogel usou a voz de alpha com você, não é mesmo?

Abernathy abaixou a cabeça:

- Sim… algumas vezes.

Albus procurou os olhos de Abernathy antes de continuar:

- Você sabe que, com força de vontade… um beta como você consegue contrariar um alpha mesmo quando ele usa a voz, não sabe?

- Não… não é só isso… senhor, eu trabalhei minha vida inteira aqui… preciso desse emprego…

- Vogel não é o dono dessa fazenda. - Albus retrucou, impaciente.

- Mas é ele quem decide o destino de todo mundo aqui. Ele me colocaria na rua sem pensar duas vezes só de sonhar que estou tendo essa conversa com o senhor.

- Isso não vai acontecer. - Albus prometeu - Acredite em mim quando eu digo que as coisas aqui vão mudar.

Abernathy olhou para Albus, olhou para Vinda, olhou para Albus de novo e então baixou a cabeça, parecendo até envergonhado com o que estava prestes a dizer:

-  O… Sr. Vogel… ele pode ser bastante violento com quem fala demais… todo mundo do haras tem medo dele…

Vinda sabia perfeitamente bem como Vogel podia ser realmente violento. Seu rosto estava um pouco menos inchado, era verdade, mas ainda doía bastante.

- Você não acha que é mais um motivo para falar o que está acontecendo? - Albus sugeriu - Para que a gente possa tentar fazer alguma coisa… - e como ainda assim Abernathy apenas continuou olhando para baixo, sem se atrever a dizer nada, insistiu - Eu sei que é difícil e que você está com medo, mas tente nos dar alguma coisa. Qualquer coisa…

Nada. Abernathy continuava calado, sem tirar os olhos da sua xícara de café que, a esta altura, já começava a esfriar.

Foi aí que Vinda perdeu de vez a paciência e, usando sua voz de alpha, exigiu:

- Fala de uma vez, Abernathy!

Tanto Albus como Abernathy se encolheram diante daquela voz tão poderosa e exigente. Abernathy reprimiu um choramingo.

- E… ele vai ficar muito bravo…

- Ele nem vai ficar sabendo! - Vinda rebateu, ainda usando sua voz de alpha, para desespero de Abernathy e total desconforto de Albus - Fala logo!

Albus teve vontade de sacudir Abernathy naquele momento, mas se conteve. Tentando manter a calma, mesmo ainda sentindo o impacto da voz de Vinda, indagou:

- Abernathy… este é o momento em que você escolhe a qual alpha você prefere servir: Grindelwald? Ou Vogel? - e depois de um segundo de silêncio - A escolha é sua.

Abernathy respirou fundo, pegou sua xícara, tomou todo o seu conteúdo, mesmo já estando frio e só então respondeu:

- … dizem por aí que ele é um homem rico… - Abernathy falou muito baixo, muito devagar, como se cada palavra saísse com esforço - que ele tem muitas terras numa cidade próxima daqui… ele diz que foi… herança…

Albus e Vinda trocaram um olhar significativo. De uma coisa, ambos tinham certeza:

Não era uma herança.

- Obrigado, Abernathy. - Albus falou, suave. Vinda encheu sua xícara com um pouco mais de café.

Abernathy deu um meio sorriso, parecendo orgulhoso de si mesmo e levantou de novo a xícara para beber, agora com bem mais segurança. Mas antes mesmo da porcelana chegar aos seus lábios, Albus já estava de pé.

- Aonde o senhor vai? - Vinda perguntou ao vê-lo partir.

- Ao escritório… - uma voz perdida pelo meio do corredor se fez ouvir. Abernathy e Vinda se entreolharam e, no segundo seguinte, os dois já estavam atrás de Albus.

Os dedos do ômega deslizaram pela estante até encontrarem o que ele estava procurando. Com um sorriso de satisfação, ele foi puxando a lombada de um livro atrás do outro:

- Os livros de contabilidade da fazenda… - ele falou, satisfeito - Vamos ver o que o nosso caríssimo amigo tem feito nos últimos tempos por aqui.

- Detesto dizer isso, Albus, mas esse tipo de análise não é fácil e nem rápida… - Vinda falou, preocupada - e a gente não tem muito tempo… se o Vogel desconfiar do que nós estamos fazendo…

- Eu sei de tudo isso, mas não se preocupe… - Albus se interrompeu para puxar uma bolsa de couro esquecida debaixo de um pilha de papéis soltos num canto do escritório onde guardou os três livros mais recentes - felizmente, eu conheço alguém que pode nos ajudar com isso.

- Aonde o senhor vai? - Vinda perguntou, enquanto Albus se dirigia encaixou a bolsa no ombro com alguma dificuldade.

- Buscar o Antônio. - Albus respondeu - Você se importa de selar um cavalo para mim, Abernathy?

- Em um minuto, Patrãozinho! 
  
- Nem acredito que eu realmente vendi todos os meus cavalos! - Gellert comentou, enlevado.

- Eu te disse que você não ia se arrepender. - Nagel falou, empolgado - A sorte sorriu para nós. Estamos um pouquinho mais ricos agora, meu caro.

Nagel era um comerciante de cavalos exóticos muito famoso na região. Era rico, bem apessoado e vivia de importar as mais diferentes espécies de cavalos para revendê-los a preço de ouro. Gellert o achava particularmente insuportável e bastante patético com aquela sua boina ridícula que ele cismava de usar, mas os bons negócios que o homem lhe rendia garantiam uma longa amizade.

Nagel, com todo bom vendedor, era do tipo de cara que nunca ficava cansado de tentar empurrar um cavalo para qualquer um, e aquele dia não foi exceção:

- Falando em cavalos e bons negócios, você precisa ver a beleza que eu trouxe dos Países Baixos! - Gellert revirou os olhos e apressou o passo - Um cavalo lindo, você precisa mesmo ver!

- Pensei que você também tivesse vendido todos os seus cavalos…

- Mas é que este eu trouxe especialmente para você. - Nagel falou, acompanhando o ritmo da sua passada.

- É mesmo? - Gellert falou, desinteressado - Você só se esqueceu de combinar comigo antes, não é mesmo?

- E nem precisava. Assim que você botar os olhos nesse cavalo, eu sei que vai querer comprar. - garantiu - marcamos uma bebida na minha fazenda, botamos a conversa em dia, você vê o cavalo e compra. O que me diz?

- Você já deveria saber que eu não sou do tipo que compra cavalos por impulso. - Gellert desdenhou.

- Você só vai acreditar no que eu estou te dizendo quando ver esse cavalo, Gellert. - e ao se dar conta de que ele continuava a andar, sem lhe dar a devida atenção, continuou - É sério! Você precisa ver esse cavalo!

Gellert finalmente parou de andar:

- Você só vai parar de me atormentar quando eu ver o cavalo e disser não, certo?

- Acertou. - Nagel sorriu.

Gellert fez uma cara conformada:

- Certo, certo… semana que vem está bom para você?

- Pode apostar.

- Vou pedir para o Anton colocar na agenda. A propósito… aonde é que ele foi?

- Deve estar por aí… - Nagel olhou em volta - esse aeroporto com certeza é bem grande…

- Se ele não aparecer em cinco minutos, vou embora sem ele. - Gellert falou, mal humorado.

- Nossa, vida de recém-casado é uma beleza mesmo. - Nagel esfregou as mãos - Quem dera eu tivesse um omegazinho me esperando em casa.

Gellert não traiu nenhuma expressão:

- Você fala como se não fosse casado… - resmungou.

- Com uma beta, né? Muito boazinha, muito bonitinha, mas não é a mesma coisa….

- Ai, Nagel… poupe-me dos seus problemas maritais.

- Não são problemas! Minha beta é ótima, mas não entra no cio e se eu mordesse ela, sabe o que aconteceria? Nada!

Gellert não respondeu, apenas respirou fundo, querendo ir embora dali e gostando daquele assunto cada vez menos. Olhando para todos os lados, enquanto caminhava pelos amplos corredores do aeroporto, a procura de Vogel, ele tentou dar o assunto por encerrado, mas Nagel não parecia nada disposto a se calar:

- E no fim você acabou casando com outro Dumbledore, né? Eu não conhecia o outro irmão do Aberforth, mas achei que você fez uma boa troca - ele beijou as pontas dos dedos - uma belezura de ômega!

E quando Gellert mostrou os dentes para ele, Nagel, apressou-se a se desculpar:

- Foi mal, foi mal. Exagerei. Quem sou eu para desrespeitar justamente o seu ômega? Eu não seria capaz.

Gellert estava a um passo de mandar Nagel para o inferno, mesmo que seu dileto amigo sequer se desse conta disso, mas preferiu se concentrar em encontrar Vogel e deixá-lo continuar a falar.

- Mas você sabe que o seu casamento foi assunto na cidade inteira durante pelo menos duas semanas, né?

- Mesmo? - Gellert perguntou, desinteressado.

- Oh, sim! Também não era para menos, afinal de contas, a boca de todo mundo caiu quando você trocou de irmão!

As sobrancelhas de Gellert se fecharam imediatamente:

- Eu não troquei de irmão, a ômega que estava prometida para mim faleceu.

- Ah, sim, sim, claro… que acidente terrível! Realmente uma tragédia… uma ômega tão
bonita… que desperdício. - Nagel lamentou - Sabe que eu até entendo o Aberforth ter ficado meio doido a ponto de passar fogo em todos os cavalos do irmão?

Gellert parou no meio do caminho, obrigando Nagel a voltar dois passos para ficar de novo perto dele:

- Que história é essa? - perguntou.

- Ué? Você não sabe? O Aberforth tinha uma criação de cabras, tinha não, ainda tem, e o irmão mais velho dele, seu marido, tava começando uma criação de cavalos. Eu sei porque vendi uma égua prenha muito bonita para ele. Mesmo sendo um ômega, seu marido
entende de cavalo, escolheu a melhor égua que eu tinha para vender só de colocar os olhos nela.

Gellert estava de boca aberta. Ele achava que a criação de cavalos era de Aberforth, não de Albus. Sem parecer perceber a expressão surpresa do amigo, Nagel continuou:

- Pois o maluco do Aberforth não foi lá e passou fogo nos cavalos todos assim que ficou sabendo que a irmã dele morreu? Até a pobre égua que eu vendi para ele e o potro recém-nascido foram para o beleléu. Seu ômega não te contou essa história não?

- Não, não contou…

- Ai, que pergunta a minha. Você e seu ômega com certeza têm coisas muito mais interessantes para fazer do que ficar falando de cavalo morto, não é mesmo? - Nagel deu uma risadinha maldosa.

Gellert cogitou seriamente a possibilidade de puxar seu revólver da cintura para ver se, com um cano encostado na ponta do nariz, Nagel calaria a boca.

- Olha o Vogel ali. - Nagel apontou para o alpha parado bem ao lado do balcão de venda de passagens, sem saber que havia acabado de salvar a própria vida.

Gellert nunca ficou tão feliz em ver a cara de Vogel em toda a sua vida, balançou o braço rapidamente para ele, que veio em sua direção.

- Eu vou indo. - Gellert falou, assim que Vogel os alcançou.

- Já vai? Que pena! O papo tava muito bom. - Nagel comentou - Mas nosso encontro na semana que vem, tá de pé, não tá?

Gellert não se deu ao trabalho de responder, puxando o braço de Vogel, se afastou sem dizer mais nada.

- Eu te ligo! - Nagel ainda gritou quando os dois já estavam longe. 
  
- Aqui está o Antônio. - Tina falou, apontando para a baia onde estava o cavalo branco de Gellert - Jacob fez questão de cuidar muito bem dele. Até um banho ele ganhou.

E, de fato, o cavalo estava brilhando. Albus sorriu para o animal, ainda mais deslumbrado. Lembrou-se de Gellert e de como ele ficava bonito montado nele, parecendo um príncipe de contos infantis.

- E como eles estão? - Albus perguntou enquanto acariciava o cavalo - Jacob e Queenie…

- Felizes… - Tina respondeu, sorrindo - Jacob conseguiu um bom preço pelo cavalo que você deu para eles, os dois estão reformando a loja. Até o fim do ano, acho que a confeitaria sai.

- Excelente notícia! - Albus sorriu - Serei o primeiro da fila quando a confeitaria abrir. Um apoio totalmente desinteressado, claro.

- Claro. - Tina riu, ao lembrar-se de como Albus gostava dos doces que Queenie costumava preparar especialmente para ele e Ariana.

- Você está um pouco magro, Albus…  - Tina comentou ao vê-lo esticar o corpo para ajeitar a cela no cavalo - Saudades da comidinha da Queenie?

- Em parte… - Albus admitiu, sem querer entrar em detalhes sobre os constantes enjoos que ele sentia graças aos supressores - Mas, se conheço bem o Aberforth, ele com certeza deve estar comendo por ele e por mim.

O sorriso que Tina carregava no rosto se apagou imediatamente:

- Pelo contrário. - ela disse, hesitante - Eu sei que você está com um monte de problemas
na cabeça agora, Albus, mas… a verdade é que seu irmão não anda muito bem…

Albus olhou para Tina, preocupado:

- Sim, você me comentou algo a respeito… o que ele tem?

- Desde que você foi embora, ele tem bebido muito, muito mesmo. E não come quase nada… - Tina falou antes de esticar o pescoço para fora da baia para se certificar de que os dois realmente sozinhos no estábulo - e eu o vejo falando sozinho… o tempo todo, sabe?

Albus respirou fundo:

- Eu passaria lá agora, mas… não tenho certeza se Aberforth ficaria realmente feliz em me ver…

- Ele ficou bem preocupado com você ontem. - Tina contou - Se recusou ao contar para aquele nojento do Vogel onde você estava, mesmo sabendo que você deveria estar no cemitério, e até me mandou ligar para o Sr. Grindelwald para saber se você estava bem.

- Ele… ele fez isso? - Albus perguntou, surpreso.

- Ele não fala nada, mas acho que sente muito a sua falta, sabe? E também da Ariana…

- Da Ariana com certeza. - Albus falou, colocando o pé no estribo - A minha? - montou no cavalo - Nem tanto. Me mantém informado?

- Claro! E pode deixar que, se tiver alguma coisa estranha naqueles livros, eu com certeza vou descobrir. - Tina garantiu - Vá com cuidado, Albus!

- Conto com o seu incrível brilhantismo com os números, Tina. - Albus falou, antes de acenar em despedida e dar o comando para o cavalo partir. Já do lado de fora, ele tomou as rédeas do cavalo marrom que havia usado para vir até ali e voltou devagar para a fazenda dos Grindelwald. 
  
- Ficou para quando a consulta do ômega? - Vogel perguntou, de olho na estrada.

Pela forma que Vogel se referia a Albus já era possível ver o quanto a relação entre eles só se deteriorava. No começou era Sr. Albus, logo virou omegazinho, e agora até mesmo o diminutivo havia sido cortado.

- Remarquei para a próxima sexta.

- No mesmo horário? - Vogel perguntou - Preciso limpar minha agenda de compromissos. Nunca se sabe quando um ômega vai fugir de uma consulta seja qual for o motivo…

- No mesmo horário sim, mas desta vez, eu mesmo vou levar ele.

Vogel olhou brevemente para ele:

- O senhor? - perguntou - Por que?

- Meu ômega, meu problema. - Gellert falou, cruzando os braços.

Vogel não respondeu e nem Gellert reparou que seus dedos se apertaram no volante.

O carro passou pelo portão principal  e estacionou na frente da casa grande, onde Abernathy tinha acabado de descarregar a última caixa de compras de mercado da caminhonete. Vinda, que havia acabado de descer do veículo, sorriu para Gellert e virou a cara para Vogel antes de entrar na casa.

- Abernathy, onde está o Albus? - Gellert perguntou depois de esticar o pescoço na direção da varanda onde o ômega gostava ficar lendo antes de cair a tarde.

Abernathy fez uma cara inconfundível de culpado:

- A… acabei de chegar, senhor então… não sei, senhor.

- Pelo visto, seu ômega fugiu. - Vogel comentou, maldoso. - De novo.

Gellert já ia responder, quando Abernathy apontou na direção de dois cavalos. E os três viram Albus se aproximar, montado no cavalo de Gellert enquanto puxava um segundo cavalo.

- Ômegas não deveriam se meter a montar à cavalo. - Vogel comentou quando Albus já estava próximo o suficiente para escutar - Não acho que isso seja coisa para eles.

Gellert não se deu ao trabalho de responder, seus olhos azuis colados em Albus, acompanhando-o atentamente enquanto ele
se aproximava deles.
Albus então desmontou do cavalo de Gellert, acariciando o animal afetuosamente e
, naquele momento, o alpha entendeu o que Newt quis dizer quando o aconselhara a olhar para Albus com atenção: seu ômega poderia falar o que quisesse, Gellert agora sabia o quanto ele amava os cavalos.

E não era pouco.

- Olá, Anton! É sempre um deleite ouvir as suas opiniões lisonjeiras sobre os ômegas. - Albus cumprimentou o feitor com desprezo antes de se voltar para Gellert - Vamos cavalgar por aí?

- Por que não? - Gellert respondeu, já montando no cavalo.

Albus não poupou Vogel de uma olhada gélida antes de montar no outro cavalo e seguir o de Gellert para longe dali sob o olhar aborrecido de Vogel e a expressão satisfeita de Abernathy.

- Esse ômega enfeitiçou o Gellert. - Vogel resmungou, estalando os próprios dedos.

Abernathy olhou para Vogel antes de responder:

- Eu sou beta, não entendo muito dessas coisas, mas… não era para ser exatamente assim?

- Não seja tonto! - Vogel respondeu, irritado - O certo é o alpha dominar o ômega, não o contrário.

- Ah, isso aí é o que os alphas gostam de acreditar. - Abernathy falou, sorridente e, como Vogel olhou muito feio para ele, resolveu um inventar algum trabalho importante nos estábulos e sumir.
  
- Não vai me perguntar o que eu andei fazendo com o seu cavalo? - perguntou depois de alguns minutos em que os dois cavalgaram pela campina em total silêncio.

- Prefiro perguntar por que você mentiu para mim sobre não gostar de cavalos. - Gellert respondeu, olhando para Albus - Será que tudo o que você falou para mim até hoje era mentira?

Albus olhou para Gellert, surpreso, por alguns instantes, e então seu olhar baixou para as rédeas do seu cavalo, antes de ele responder:

- Eu tive medo… - confessou - medo que você um dia usasse meu amor pelos cavalos como uma arma para me ferir.

- … como o seu irmão fez com você? - Gellert perguntou.

Albus apenas assentiu e Gellert percebeu que seus olhos estavam cheios de lágrimas.

- Eu nunca machucaria um cavalo. - Gellert falou.

- Meu irmão também não… - Albus respondeu, amargo - mas ele soube superar isso quando quis muito me machucar.

- Eu nunca machucaria você… - Gellert insistiu.

Albus sorriu:

- Alphas machucam os seus ômegas o tempo todo. Até o laço entre eles, envolve dor.

- Mas dizem que o laço criado pela mordida faz com que os alphas sintam o que os seus ômegas sentem. Então, se os ômegas se machucam, seus alphas também se machucam.

Albus olhou na direção de Gellert ao ouvir aquelas palavras, se perguntando como seria se ele tivesse simplesmente aceitado o seu destino e se conformado em casar com Gellert sem os supressores. O que teria acontecido se Gellert o tivesse marcado como dele na noite de núpcias?

Será que agora ele estaria feliz?

Ou será que desistir de todos os seus sonhos para se dedicar apenas ao seu alpha acabaria amargando ainda mais sua vida?

Albus não saberia dizer. Tudo o que ele sabia era que seu coração, no momento, estava dividido entre dois mundos.

E que ele estava no meio do caminho.

Perdido.

- Se você tivesse me contado que gostava tanto de cavalos, nós dois poderíamos ter conversado sobre isso. - Gellert comentou, distraído - Porque também gosto muito de cavalos.

- Acho que eu teria gostado de conversar sobre cavalos com você. - Albus respondeu, suavemente.

- Ainda podemos fazer isso, sabe? - Gellert sugeriu, antes de assumir um tom mais leve e divertido - Diga-me, Albus: qual é a sua raça preferida?

- Eu gosto de todos os cavalos igualmente.

- Ah, não me venha com essa… - Gellert respondeu, fazendo Albus rir.

----- CHAPTER BREAK -----

- Você tem mesmo certeza de que quer fazer isso, Albus? - Newt perguntou antes de estender o papel com o endereço em sua direção. - Certeza absoluta! - Albus respondeu, puxando o pedaço de papel da mão de Newt para guardá-lo rapidamente dentro das vestes. - Você está prestes a se casar, Albus… seu marido vai ficar uma fera quando você não entrar no cio. - Eu não me importo. - Albus deu de ombros - Nenhum pouco. - Mas… mas… e se você se arrepender? - Eu não vou me arrepender. O olhar que Newt deu para ele foi tão preocupado que Albus se viu na obrigação de considerar esta possibilidade.- Se eu me arrepender, tudo o que eu preciso fazer é parar de usar os supressores, oras. - Albus… as coisas não são assim… usar supressores têm consequências… - Consequências? Que tipo de consequências? Newt respirou fundo antes de responder, como se só a lembrança o perturbasse de alguma forma:- Quando você para de usar os supressores, a primeira coisa que volta é o seu cheiro de ômega…  e ele volta muito forte. Perceptível para qualquer alpha ou beta que se aproximar de você.- Ok… isso pode ser um pouco… desagradável. - Albus admitiu - Mas nada que alguns dias de reclusão não resolvam.- Depois vem um cio. Ainda mais intenso do que o normal. Se houver um alpha por perto… chega a ser um pouco… doloroso.- Hum… - Albus juntou os próprios dedos, pensativo - eu estou acostumado a lidar com cios bem intensos. Acho que consigo sobreviver.- E você ainda fica infértil por um ou dois cios. Talvez até mais. - De todas, essa é que menos me importa. - Albus falou, indiferente - Mais alguma coisa? - Bom… muitos supressores têm como efeito colateral a perda de apetite e enjoos. Então você deve imaginar que vai querer comer bastante depois de parar os supressores. Então é comum ganhar alguns quilos..- Acho que isso também não me preocupa muito. - Albus… leve o que eu estou falando um pouco mais a sério! Sentir todos estes sintomas ao mesmo tempo pode ser bem desagradável…Mas ao invés de se preocupar, Albus apenas sorriu:- Não se preocupe comigo, meu amigo. Eu vou sobreviver. Assim como você vai também vai sobreviver quando parar de usar seus supressores para se casar com a Tina. E o efeito pretendido por Albus aconteceu: Newt esqueceu por completo todas as preocupações com ele e passou a sonhar acordado com o dia em que finalmente se casaria com Tina.   A semana transcorreu tranquila, com Albus mantendo distância de Vogel tanto quanto tentava se aproximar de Gellert. Com o segundo, ele chegou a ter algum sucesso. Aos poucos, os dois foram compartilhando uma ou outra refeição, chegando até a cavalgar juntos pela fazenda enquanto conversavam sobre cavalos. As coisas com Vogel, entretanto, eram um pouco diferentes. Não raro, Albus tinha a sensação de estar sendo observado e, muitas dessas vezes, ao olhar em volta, encontrava o par predador de olhos daquele alpha sobre ele. Vogel não parecia se importar em ser flagrado, quando Albus o pegava, ele não desviava o olhar, apenas continuava a encará-lo, impassível. Albus era capaz de ler nos olhos de Vogel toda uma gama de sentimentos. Às vezes, seus olhos eram violentos, agressivos, como se, a qualquer momento, ele fosse puxar uma arma na direção dele e atirar. Outra vezes, seu olhar era de puro deboche, e ele parecia rir de Albus, achar graça da sua mera existência. Mas, nas piores vezes, Albus flagrava nos olhos de Vogel uma luxúria. Possessividade e desejo misturados num olhar lascivo e abjeto. Normalmente, Albus não dava ao alpha o gostinho de vê-lo se mexer do seu lugar. Mas quando Vogel o olhava daquele jeito tão asqueroso, ele não conseguia evitar. Incomodado, ia direto para dentro de casa e ali ficava o mais perto de Gellert possível, sentindo-se protegido pelo cheiro dele.Albus não sabia até quando ficaria naquela casa, mas estava convencido de que aquele lugar era pequeno demais para ele e Vogel. Um dos dois teria que partir. Em breve. Dias se passaram sem que Albus soubesse se havia alguma chance de ganhar aquela disputa de território, até a véspera da data da consulta médica, quando ele finalmente recebeu o telefonema tão esperado de Tina:- Vogel vem desviando dinheiro aqui e ali. - ela lhe explicou, sua voz parecendo muito séria ao telefone - Superfaturando notas e serviços. Os valores são quase sempre bem baixos, para não chamar atenção. Mas, de pouquinho, em pouquinho…- Ele foi ficando rico… - Albus completou - às custas do Gellert.- Isso…- Não posso dizer que estou surpreso. - Albus comentou, após três segundos de silêncio ao telefone. - Ninguém está enfartando de surpresa mesmo. - Tina deixou escapar um suspiro cansado, havia virado algumas noites para concluir aquele trabalho - Te entrego um relatório detalhado amanhã no comecinho da tarde.- Muito obrigado, Tina! Albus desligou o telefone esperançoso e animado com a possibilidade de finalmente conseguir escorraçar Vogel daquela fazenda de uma vez por todas. Mesmo que tudo acabasse dando errado entre ele e Gellert, pelo menos isso ele conseguiria.   Vogel olhou para os documentos referentes à venda e transporte dos cavalos que Gellert havia negociado há alguns dias. Uma venda bem grande.Um funcionário medíocre poderia facilmente confundir tantos papéis, ou mesmo esquecer alguns deles.Vogel estava longe de ser um funcionário medíocre. A papelada da venda estava toda organizada e completa. Vogel havia guardado tudo numa pasta, chegando a organizar os documentos por ordem alfabética para facilitar o manuseio. Não era por acaso que Gellert confiava tanto nele. Vogel nunca falhava. Seu trabalho era perfeito, incansável e irretocável e, como tal, por óbvio, custava o preço que ele próprio considerava ser o mais justo. Porém, feliz ou infelizmente, seu perfeccionismo não se limitava apenas ao trabalho. Vogel conduzia sua própria vida pessoal com a mesma rigidez. Planejando cada detalhe. E, até aquele ponto, tudo corria de acordo com os seus planos. Ou melhor, quase tudo. Tudo menos sua vida amorosa. Esta, por vários motivos e culpados, só poderia ser considerada um desastre. Mas Vogel estava muito disposto a consertar este aspecto falho da sua vida de uma vez por todas. Com um suspiro tranquilo, retirou com cuidado da pasta alguns dos documentos mais essenciais para concluir a venda dos cavalos.

Quando o dia da consulta finalmente chegou, Albus acordou tenso, ainda sem saber quando e se contaria a verdade sobre os supressores para Gellert. Vinda insistia para que ele não falasse nada, que apenas arrumasse um jeito de escapar, mas Albus sabia que tentar fugir só deixaria Gellert ainda mais desconfiado. E, por isso, quanto mais pensava, mais certeza tinha que o melhor a fazer era contar a verdade para Gellert ele próprio e enfrentar as consequências.Com a cabeça distraída nestes pensamentos, Albus estava terminando de se arrumar para o café da manhã quando ouviu batidas na porta e, achando que só poderia ser Vinda, abriu despreocupado.- Gellert? - Albus se surpreendeu ao ver o alpha parado diante de si, lindo como nunca, vestido com uma calça jeans, camisa branca e uma jaqueta de couro preto, os cabelos molhados penteados para trás, pronto para sair. Mas, pelo visto Albus não era o único a se deixar impressionar pela aparência física de alguém ali, pois sentiu os olhos de Gellert descerem pelo seu corpo inteiro antes de ele o cumprimentar:- Bom dia, Albus. Surgiu um problema na documentação de alguns cavalos que vendi na semana passada, vou lá tentar resolver, mas não se preocupe que volto a tempo para te levar na consulta.Era a primeira vez que Gellert saía da fazenda em mais de uma semana e Albus não pôde deixar de sentir uma ponta de angústia.- É coisa séria? - ele perguntou. - Não tanto. Alguns papéis faltando, eu acho. Para falar a verdade, é a primeira vez que uma coisa dessas me acontece. Tanto que decidi resolver tudo pessoalmente, como uma forma de me desculpar com o comprador.- Entendo…. mas você não vai nem tomar café? - Albus perguntou. Uma forma engraçada de dizer “não quero que você se afaste de mim”.- Não posso. - Gellert respondeu antes de se inclinar na direção de Albus num impulso, como se fosse se despedir dele com um beijo casual, mas se conteve quando finalmente se deu conta do que estava fazendo. Constrangido, Gellert apenas balançou a cabeça e se afastou, dando meia volta para descer pelas escadas, deixando Albus para trás com o coração apertado.

A sobrancelha direita de Vogel se levantou quando ele viu Tina se aproximar, montada em seu cavalo. Desconfiado, ele a acompanhou com os olhos até vê-la desmontar perto da varanda da Casa Grande. Sentindo o olhar de Vogel sobre ela, Tina o encarou de volta, sem demonstrar um pingo sequer de temor e, por um segundo, Vogel desejou não ter se limitado a destruir o consultório de Newt. Teria sido muito melhor se ele também tivesse dando uma bela de uma surra no omegazinho daquela alpha arrogante. Pensando que aqueles dois realmente se mereciam, pois tinham em comum o desagradável hábito de se meter naquilo que não lhes dizia respeito, Vogel concluiu que não podia ser coincidência Tina estar ali, não num dia tão decisivo.Pelo visto, não era só ele que ia jogar todas as cartas na mesa no dia de hoje. Albus também estava disposto a apostar tudo o que tinha para ganhar a partida.Mas Vogel não estava preocupado pois, ao contrário de Albus, ele era um alpha. Naturalmente superior. Nascido com a vitória sorrindo para ele. Era hora de Albus aprender uma lição. - Gellert não vai gostar nada de saber que teve alpha rondando por aqui na ausência dele… - Vogel comentou quando Abernathy se aproximou para entregar as faturas da última encomenda. Retirando um cigarro amassado do bolso para colocá-lo na boca, Vogel observou atentamente a troca de sorrisos entre Albus e Tina - Por acaso você sabe o que ela veio fazer aqui? E Abernathy fez uma inconfundível cara de que sabia demais antes de responder:- E… eu? Não sei de nada não senhor…Mordiscando o filtro do cigarro com os dentes, Vogel olhou para Tina e Albus ainda mais desconfiado.- Estão aprontando alguma coisa… - ele pensou alto.- Aprontando? - Abernathy riu, desconcertado - Ah, que nada! Vogel não poderia ter confirmação melhor do que aquela resposta.   Tina não usava a estrada vicinal que todo mundo usaria para trafegar da fazenda dos Grindelwald para a dos Dumbledore. Ao invés disso, ela sempre pegava um atalho que passava por uma pequena floresta, atravessava um córrego e passava por uma falha na cerca de arame farpado para sair nos fundos da propriedade dos Dumbledore na metade do tempo que originalmente levaria. Guiando seu cavalo baio, Tina voltava para casa com a sensação de dever cumprido, se perguntando se seria uma boa ideia contar a Newt sobre tudo aquilo. Talvez seu ômega ficasse um pouco nervoso ao saber o que ela estava fazendo, com medo que ela sofresse algum tipo de retaliação. Com um sorriso bobo nos lábios, ela lembrou que, no dia seguinte, iria visitar Newt e que a surpresa que, já há algum tempo, ela vinha preparando para o seu ômega, estava finalmente pronta. Concluiu que não era o momento de estragar a alegria que teriam juntos falando sobre Vogel. Apagando definitivamente a existência de Vogel no mundo da mente, ela evocou a imagem de Newt, seus belos olhos brilhantes, seu tímido meio-sorriso…Que saudades ela sentia dele!Um barulho de patas de cavalo batendo sobre o chão de terra a arrancou dos seus devaneios e Tina encostou a mão no revólver que carregava na cintura por pura precaução.Vogel surgiu no meio dos arbustos, montado no seu cavalo amarelo, apontando sua arma para ela. - Tira a mão da arma porque você tá na minha mira. - avisou, tranquilo - E eu não costumo errar dessa distância. Tina levantou as mãos devagar:- O que você quer? - perguntou, muito seca.- Antes de tudo, saber se o seu omegazinho já se recuperou do susto. Fiquei sabendo que destruíram o consultório veterinário dele. Eu diria que é uma pena, mas acredito que seja caso de piedade divina. Agora que o consultório tá destruído, talvez ele pare de se colocar em risco todos os dias fazendo trabalho de alpha. - Vogel fungou  - Você pode imaginar que tipo de coisas horríveis podem acontecer com um ômega não marcado… - uma pausa - algum alpha mal intencionado pode pegar ele no meio da noite… pode marcar o pobrezinho contra a vontade dele… pode até, imagine só que horror, raptá-lo…Tina trincou os dentes de raiva por ouvir tantas insinuações e ameaças veladas numa única fala. Com muita vontade de estraçalhar Vogel com seus próprios dentes, ela rosnou baixinho:- Foi você não foi? - ela perguntou, mesmo já sabendo a resposta. - Quem, eu? - Vogel perguntou teatralmente - Eu não! Qual motivo eu teria para fazer mal ao seu omegazinho? - e depois de uma breve pausa - Eu tenho motivo para fazer mal ao seu omegazinho? E como Tina não respondia, Vogel puxou o gatilho e voltou a perguntar:- Qual o motivo da sua visita, Senhorita Goldstein? - Vim visitar um amigo. - Não acho que seja isso… você vai me contar, ou prefere fazer seu omegazinho chorar a sua morte? - Você não faria uma coisas dessas… - Tina grunhiu.- Tenta a sorte… - Vá se fuder, Vogel, não vou contar nada. Vogel riu:- Huum… lamentável. Só tenho pena do pobre omegazinho, sozinho e perdido, sem sua alpha para protegê-lo das pessoas… - e lambendo os próprios lábios devagar - más. Alguns segundos de silêncio se seguiriam:- Te descobriram, Vogel. - Tina falou sem perder a calma - Seus dias nesta fazenda estão contados.- É mesmo? - Vogel perguntou, interessado - Descobriam o quê, exatamente?- Que você tem roubado o Sr. Grindewald durante todos esses anos. - Que mentira, eu não roubei o Gellert. - Vogel se apressou a dizer - Só tomei o justo pagamento pelos meus dedicados serviços.- Boa sorte convencendo o Sr. Grindelwald disso. - Tina deu de ombros.Vogel mordeu a parte interna da própria bochecha:- Posso deduzir que você ajudou o Albus nisso. - Pode sim. - Tina falou, muito tranquila.Vogel poderia dar um tiro naquela alpha ali mesmo, mas isso com certeza atrapalharia os seus planos. Não fosse por este pequeno detalhe, Tina teria recebido sua lição bem ali.- Você tem muita sorte. - Vogel comentou antes dar as costas para ela e partir. Uma gota de suor deslizou pelas costas de Tina.   Gellert estava atrasado. Vestido com uma túnica verde, sentado na sala de estar, Albus esperava pelo seu alpha com ansiedade, ainda sem saber o que faria quando ele finalmente chegasse. Quem sabe levá-lo para algum lugar tranquilo longe dali, onde ele poderia contar a ele que nunca quis se casar com ninguém, que seu sonho era estudar, se tornar um veterinário? Talvez ele entendesse que Albus nunca quis pertencer a um alpha ou formar uma família… até agora. Agora, as coisas tinham mudado um pouco. E Albus estava dividido entre dois mundos inconciliáveis, sem saber o que fazer. Se entregar a Gellert e esquecer seus sonhos de uma vez por todas? Ou desperdiçar sua vida desejando algo que jamais poderia alcançar, pois nem Gellert e nem seu irmão o autorizariam a estudar Veterinária em outra cidade. Lembrou-se de Vinda e sua insistência para que ele não contasse a verdade. Não fosse a determinação da governanta em demovê-lo da ideia, talvez Albus estivesse muito mais seguro a este respeito e não se perguntando a todo momento se o melhor não seria simplesmente fugir dali por algumas horas, até que eles perdessem o horário da consulta de novo. Seus dedos apertaram a pasta vermelha com o relatório de Tina sem que se desse conta e ele pensou se Gellert ficaria tão furioso ao descobrir toda a verdade a ponto de desconsiderar aquela prova tão robusta de que Vogel não era digno de nenhuma confiança.Albus tocou o próprio pescoço. Se Gellert o tivesse marcado, com certeza o vínculo entre eles permitia que ele sentisse seus sentimentos e o entendesse melhor, mas este vínculo entre eles não existia e talvez não existisse nunca. Então, não havia outro jeito além de falar a verdade para Gellert e esperar pela sua reação. O barulho de passos fez o coração de Albus pular em seu peito, por um segundo pensando que era Gellert chegando. Mas o cheiro que ele sentiu não era, de forma alguma, o cheiro de Gellert.- O que você está fazendo aqui? - Albus perguntou, agressivo, levantando-se do sofá num pulo assim que viu Vogel surgir na entrada da sala de estar. - Vim te buscar. - Vogel respondeu, tranquilo - Gellert não vai chegar a tempo de te levar. - Não vou a lugar nenhum com você. - Albus respondeu, frio como uma pedra de gelo.- São ordens do patrão. - Vogel insistiu, dando mais um passo na sua direção - Vamos de uma vez.- Já disse que não vou a lugar nenhum com você.Vogel deixou escapar um suspiro cansado:- Não posso dizer que não esperava esta reação… - ele comentou - Albus, Albus… você é mesmo um péssimo ômega…- E ainda assim você não cansa de me perseguir, de me atormentar. Mesmo eu sendo um péssimo ômega, mesmo eu sendo o ômega do seu patrão!- Você não é o ômega do meu patrão, você é meu ômega! - Vogel retrucou, irritado - Se o seu irmão fosse um alpha de verdade, se ele tivesse palavra, era comigo que você estaria!Um calafrio percorreu todos os sentidos de Albus e ele deu um passo atrás antes de perguntar:- Do que você está falando? - Estou falando que você é meu! - Vogel respondeu - Meu por direito! Seu irmão te prometeu a mim muito antes de Gellert sonhar em se casar com você! Mas, por dinheiro, ele descumpriu o acordo que havia feito comigo depois que a galinha dos ovos de ouro dele morreu.- Você está louco se pensa que Aberforth faria uma coisa dessas! - Albus ordenou, indignado Vogel deu uma gargalhada:- Ah, pobre inocente! Não conhece o irmão adorável que tem…Os olhos de Albus se colaram em Vogel, desconfiados.- De qualquer forma, não importa o que o meu irmão falou com você. -  Albus disse, procurando não pensar em Aberforth naquele momento para ser capaz de manter a calma - nem mesmo um louco como você pode negar que eu estou casado com Gellert. E, para ilustrar sua fala, Albus mostrou a aliança que usava no dedo, prova da sua união com Gellert, como se quisesse provar a Vogel que toda aquela obsessão por ele era loucura.- Esse anel não significa nada para mim! - Vogel respondeu, desdenhoso antes de bater no próprio pescoço com a palma da mão com tanta força que a pele ficou vermelha - O único casamento que eu respeito fica marcado aqui!E, se aproximando mais de Albus, ele puxou o lenço verde do seu pescoço com força, expondo o seu pescoço, antes de continuar, olhando para Albus como um maníaco:- Você não pertence a ninguém, Albus! - ele grunhiu, rouco de raiva  - E é melhor não me rejeitar tanto porque depois que eu te levar nessa consulta, Gellert vai jogar você na rua com a roupa do corpo, talvez até sem ela, e a única pessoa que você terá serei eu!- Mil vezes a morte do que ficar com você! - Albus respondeu, sem conter uma expressão de asco. - Isso veremos. - Vogel desdenhou - e agora vamos de uma vez, Albus. Eu vou te levar para a sua consulta.- Já disse que não vou a lugar nenhum com você! Vogel balançou a cabeça, retirando um chicote da parte de trás da calça, antes de continuar:- Pois eu vou ensinar você a ser um bom ômega. Albus arregalou os olhos ao ver Vogel partir para cima dele e, de tão incrédulo, mal conseguiu reagir quando Vogel o pegou pelo braço e começou a puxá-lo para o lado de fora da casa.- O que você tá fazendo? Me larga! - Albus ordenou, tentando se livrar do braço de Vogel sem sucesso. - Você vem por bem? - Vogel perguntou, brandindo o chicote.- Já disse que não! - Então vai vir por mal! Seguiu-se uma luta feroz com Albus gritando e lutando com todas as forças enquanto Vogel o puxava pelo braço, pela roupa, pelos cabelos. E o chicote estalou dolorosamente na pele do ômega, uma, duas, três vezes, fazendo-o gritar de dor, mas nem por isso desistindo de lutar. Uma cadeira se quebrou nas costas de Vogel instantes depois, com Vinda gritando a plenos pulmões por ajuda, enquanto tentava puxar Vogel pelo braço. Rosnando de ódio, mas nem por isso largando Albus, Vogel deu uma cotovelada certeira no rosto da alpha e ela caiu para trás, desacordada. - Vinda! - Albus berrou, esquecido até de lutar contra Vogel e sendo arrastado por ele por alguns metros, até a saída da casa, aonde havia um carro estacionado.- Entra aí! - Vogel grunhiu, puxando Albus pelos cabelos enquanto abria a porta do carro e os olhos de Albus foram imediatamente atraídos para o interior do veículo, repleto de malas e outros objetos. Ofegante, machucado, exausto, o ômega tirou forças da onde não tinha para continuar lutando, enquanto gritava: - Me larga! Eu não vou com você! Eu tenho ódio de você!- Você pode me odiar agora… - e ele torceu o braço de Albus, ainda tentando puxá-lo para dentro do carro enquanto falava  - mas depois que eu te marcar, vai mudar de ideia! E nós dois vamos ter uma vida nova bem longe daqui, em Berlim. Uma vertigem de puro asco se apoderou do corpo de Albus ao ouvir aquelas palavras. Em pânico, Albus gritava, chorava e mordia, lutando com todas as suas forças. O chicote assobiou ao atravessar o ar, cortando a lateral do seu rosto, mas nem por isso ele parou de lutar para se libertar.- Olha o que você me fez fazer! - Vogel berrou, zangado, ao perceber que tinha ferido o delicado rosto de Albus sem querer - Tudo porque você não obedece, não se submete!A esta altura, tudo o que Albus podia fazer além de tentar escapar era gritar por socorro, na esperança de que alguém aparecesse para ajudar, deixando Vogel cada vez mais  impaciente.- Eu não quero puxar minha arma contra você, Albus. - o alpha avisou, trincando os dentes ao ver que a resistência não diminuía. - Puxe… a arma e atire para matar! - Albus falou, ofegante - Só desse jeito você vai conseguir me levar daqui! Vogel atirou o chicote longe e levou a mão à cintura, mas antes que pudesse puxar a arma, um forte estampido o interrompeu. Vogel olhou para trás, demorando para perceber que seu braço havia sido atingido. A adrenalina era tanta que a dor da bala passou despercebida até ele se dar conta do sangue. - Largue ele ou o próximo será na sua cabeça. - Gellert avisou, usando sua voz de alpha para intimidar. Vogel soltou Albus imediatamente e levantou as mãos devagar: - Eu só estava tentando levar ele… para a consulta. - Vogel se justificou. - Você está demitido. - Gellert respondeu.Vogel gargalhou:- Como se eu precisasse disso daqui! - desdenhou - Não, não senhor, quem precisa de mim é você, isso sim! Graças a você eu tenho dinheiro suficiente para viver muito bem pelo resto da vida. Graças a você e ao idiota do seu pai, claro! Ah, sim… eu roubei os dois o quanto pude, o quanto pude! - e voltando a cabeça na direção de um Albus completamente ofegante, completou - Viu, Albus? Eu mesmo disse a ele! Te poupei o trabalho.Mas antes que Albus pudesse responder qualquer coisa, Gellert rosnou:- Suma daqui e não volte se não quiser levar um tiro na cara! - ameaçou.Olhando uma última vez na direção de Albus, Vogel deu uma risada de puro desdém antes de entrar no carro e bater a porta com força.Vinda surgiu, amparada por Abernathy, bem a tempo de ver o carro de Vogel arrancar dali.- Você está bem, Vinda? - Gellert perguntou rapidamente ao ver a vermelhidão na face da governanta.- Estou, não se preocupe, melhor vocês dois voltarem para dentro. Eu e o Abernathy vamos manter guarda na porta para o caso dele voltar. Gellert assentiu com a cabeça enquanto colocava sua própria arma na mão de Vinda e olhava na direção de Albus, convidando-o com para que os dois entrassem na casa.- Foi por pouco… - o ômega sussurrou, horrorizado com a ideia de ser raptado por aquele homem asqueroso e detestável - Por muito pouco. Ele poderia estar me arrastando para longe…- Ele nunca iria conseguir fazer isso.. - Gellert respondeu, esticando o braço para limpar o sangue que corria da ferida no rosto de Albus - Eu caçaria ele até no inferno…Mas a cabeça de Albus parecia até presa numa realidade terrível em que Vogel o marcava à força e o mantinha cativo e longe de tudo o que ele amava. Longe dos cavalos, dos seus amigos, da sua família…Longe de Gellert.De repente, ficou muito difícil respirar, pousando a mão sobre o peito, Albus tentou puxar o ar para os pulmões desesperadamente, sem sucesso. - Albus? - Gellert se preocupou - Não tenha medo. Está tudo bem. Não vai acontecer nada. - Eu não quero… eu não quero que ele me leve. - Albus falou, trêmulo, dando um passo para trás. - Ninguém vai te levar daqui, Albus. - Ele pode voltar…- Ele não vai voltar.- Ele pode me encontrar…Gellert percebeu naquele momento que Albus não se acalmaria tão facilmente assim e que ele precisaria fazer alguma coisa para retirá-lo daquele ataque de pânico. Se aproximando do ômega, o alpha envolveu sua cintura e o puxou para perto de si, apertando seu corpo num abraço tão forte que Albus deixou escapar um gemido.  - Você é meu, Albus! - Gellert sussurrou no seu ouvido - Eu nunca vou deixar ninguém tocar em você. Os olhos de Albus se levantaram na direção dos de Gellert, como se ele quisesse se assegurar de que aquelas palavras eram verdadeiras, de que seu alpha o protegeria, mas antes que ele pudesse dizer qualquer coisa, os lábios de Gellert já estavam colados nos dele. E o alpha devorou a boca de Albus como se ela fosse a mais deliciosa das iguarias. Lábios macios, boca perfumada, língua úmida… o beijo foi intenso, longo, saboroso. A mão de Gellert subiu pela sua nuca até a cabeça, se fechando nos cabelos tão sedosos do ômega, sentindo sua textura e suavidade.Albus fechou os olhos, retribuindo o beijo, o cheiro delicioso do alpha invadindo suas narinas, fazendo seu baixo-ventre inchar enquanto ele o pressionava contra o corpo de Gellert, e a reação do alpha ao sentir aquilo foi morder e chupar o lábio inferior de Albus, cada vez mais faminto. Aconchegando o corpo de Albus contra si, Gellert se deu conta do quanto seu ômega parecia frágil e delicado, ali, tremendo em seus braços. Não lembrava em nada o homem que há poucos minutos, ele havia encontrado  lutando com unhas e dentes para não ser arrastado por Vogel contra a sua vontade.- Acho que perdemos o horário da consulta. - Albus falou baixinho - Você não vai poder me levar hoje… - Não é para lá que eu quero te levar agora. - Gellert confessou, muito rouco - Eu quero te levar para o quarto, para cama… quero te mostrar o quanto você é meu.Os olhos de Albus cintilaram como resposta e ele abriu a boca, sentindo aquelas palavras como um carinho muito íntimo e tendo prazer com elas.  - Me leva… me mostra… - Albus suplicou, fechando os olhos para receber mais um beijo, ainda mais possessivo e exigente.Grunhindo como um lupino, Gellert levantou Albus em seu colo como se ele fosse recheado de algodão e subiu com ele as escadas sem dificuldade. Ainda com Albus nos braços, ele atravessou o corredor e abriu a porta do quarto que um dia os dois dividiram, fechando-a por trás de si ruidosamente antes de empurrar Albus contra a porta, ainda segurando-o firmemente em seus braços. As pernas do ômega se enroscaram na cintura de Gellert e seus braços envolveram seu pescoço ao ser pressionado contra a porta de madeira e ele precisou tomar fôlego antes de ser engolido pela boca de Gellert novamente. As línguas dançaram juntas por alguns segundos enquanto Albus se esfregava no corpo do seu parceiro, liberando todo o desejo retido dentro dele. Com um suspiro, Albus abandonou a boca de Gellert, e enfiou o nariz no seu pescoço para sentir o seu cheio amadeirado de homem, de alpha.Excitante.Uma lambida sensual subiu do pescoço até o lóbulo da orelha de Gellert e o alpha sentiu as pernas fraquejarem por um segundo, enquanto suas mãos desciam da cintura para as nádegas de Albus, acariciando, apalpando, sentindo a textura macia. Mais um beijo e Gellert o levou para a cama, sentando na beira do colchão com ele no colo. Impaciente, esgarçou a túnica do ômega sem dó, enquanto o beijava de novo. Albus respirou fundo, tentando manter a sanidade enquanto o ajudava a despi-lo e logo ele estava completamente nu, aninhado no colo de Gellert. O alpha procurou novamente a boca do ômega para um beijo rápido e, assim que se separaram, seu dedo indicador acariciou os lábios de Albus, forçando a sua entrada, sendo recebido com honras pela língua do ômega.- Chupa, vai? - Gellert sugeriu e foi prontamente atendido. Albus chupou os dedos de Gellert vorazmente, seus olhos colados nos dele, cheios de desejo e antecipação pelo o que viria a seguir. Gellert achou a visão de Albus chupando os seus dedos tão sensual que até teve dificuldade de retirá-los da sua boca depois de alguns instantes. Sem tirar os olhos de Albus, seu dedo indicador abriu espaço por entre suas nádegas para se encostar bem na sua entrada: - Alguém já te tocou assim antes? - Gellert perguntou, muito rouco. E como Albus balançou a cabeça nervosamente, ele insistiu: - Nem mesmo você? Albus hesitou por alguns segundos antes de responder:- No cio… - Albus engasgou - algumas vezes… para me aliviar um pouco… Gellert lambeu os lábios com a simples imagem mental de Albus sozinho na cama, em pleno cio, se consolando com seus próprios dedos, e seu dedo indicador deslizou para o interior de Albus, provocando um gemido de prazer.- E quantos dedos você usava? - Gellert perguntou, satisfeito por encontrá-lo já bem molhado, como só um ômega poderia ficar.- Três… - Albus respondeu baixinho, corando, envergonhado.- Você quer três dedos em você, quer? - Gellert perguntou e Albus apenas assentiu com a cabeça devagar e então o alpha procurou sua boca para mais um beijo antes de juntar um segundo e logo um terceiro dedo dentro de Albus. Albus gemeu dentro do beijo e então jogou a cabeça para trás ao sentir aqueles três dedos se movimentarem dentro dele, devagar:- Ai, Gellert… - ele falou, mordendo os lábios, se esfregando naqueles dedos do alpha ao sentir-se estimulado no seu ponto mais sensível - Assim… assim…Sexy, sexy demais! Gellert olhou o rosto avermelhado do ômega, seus cabelos bagunçados sobre o rosto, seus olhos fechados de puro prazer. Parecia até que Albus tinha nascido para se esfregar sem pudor nos dedos dele. - Eu vou comer você agora, Albus… - Gellert prometeu, fazendo Albus abrir a boca, excitado por ouvir aquilo a ponto de não conseguiu falar. Ele então se inclinou para lamber os lábios de Gellert antes do seu rosto inteiro se crispar ao sentir os dedos do alpha saírem de dentro dele.Com gentileza, o alpha fez seu ômega deitar de barriga para cima na cama e só então levantou-se para se despir, sem tirar os olhos de Albus. O ômega apenas o observou, mordendo os lábios de desejo por aquele corpo tão bem torneado, admirando cada curva, cada músculo, até Gellert se despir por completo e se debruçar sobre o ômega novamente, beijando todo o seu corpo, dando especial atenção aos pontos avermelhados, machucados provocados por Vogel, antes de lhe dar um beijo e abrir suas pernas com cuidado, levantando seus quadris um pouco para encaixar melhor seu pênis entre suas nádegas:- Tá pronto? - Gellert perguntou suavemente, seu membro muito inchado encostando e latejando na abertura de Albus.Albus respirou fundo e fechou os olhos de pura antecipação antes de assentir uma autorização com a cabeça.Gellert entrou devagar, e quando Albus se retorceu de dor embaixo dele, o alpha parou um pouco para acariciar seu rosto, pensando que aquele problema simplesmente não existiria se Albus estivesse no cio. Durante o cio, os ômegas não sentiam dor ao serem penetrados, apenas alívio, apenas prazer.Buscando e encontrando nos olhos de Albus uma autorização para continuar, Gellert gemeu baixo antes de entrar mais e mais e mais. Duas lágrimas deslizaram pelo rosto de Albus, enquanto ele se abraçava ao pescoço de Gellert, suportando a dor e o desconforto de ser invadido daquela maneira pela primeira vez na vida. - Apertado demais… - Gellert gemeu ao se sentir inteiro dentro de Albus - Gostoso demais…Albus respirou fundo. A dor do princípio da invasão havia sido substituída por uma sensação inédita de completude e pertencimento. Com Gellert enfiado nele, ele se sentia mais ômega do que nunca, servindo ao seu alpha e lhe dando prazer. Albus então esperou que Gellert se mexesse, que metesse nele com força até gozar, como os alphas costumavam fazem com seus ômegas, mas ele não fez isso. Para sua surpresa, Gellert segurou os quadris de Albus e girou com ele na cama com cuidado, sem se desconectar, de forma que Gellert passou a ficar deitado de costas para o colchão e Albus se viu sentado em cima dele, sentindo o pênis de Gellert mais fundo do que nunca. - Monta em mim, Albus! - Gellert pediu, com a voz rouca de excitação - Me cavalga como você cavalgaria um cavalo!As mãos de Albus se apoiaram no ventre de Gellert e ele resfolegou de tensão ao ouvir aquele convite. Não era comum um alpha se entregar daquele forma para o seu ômega, mas ali estava Gellert lhe pedindo para que Albus se mexesse, para que lhe desse prazer.E tudo que Albus queria naquele momento era dar prazer ao seu alpha.Com as mãos apoiadas em Gellert, ele subiu e desceu, um pouco sem jeito a princípio, mas logo fechou os olhos e ajustou o ritmo, cavalgando seu marido devagar, sem nenhuma pressa, sentindo-o entrar e sair do corpo dele. Por alguns segundos, Gellert apenas se deixou admirar pela beleza de Albus. Pelo seu corpo esguio, seus cabelos vermelhos brilhantes espalhados pelos ombros, suas mãos delicadas apoiadas no seu ventre. Albus subia e descia nele com a mesma graça com que cavalgava, elegante, belo, quase divino. Sem o cio, os lobos dentro deles não estavam presentes naquela cama, mas, mesmo estando incompletos, Gellert não se lembrava de ter tido tanto prazer com outra pessoa. Mordendo os lábios, ele se sentia latejar dentro de Albus, se contendo para não perder o controle tão rápido, enquanto via o ômega gemer de prazer, se movimentando em cima dele. - Você é lindo, Albus. - Gellert o elogiou, fazendo-o sorrir - O ômega… - parou para respirar ao senti-lo descer por ele mais uma vez - … mais lindo do mundo! E Albus o olhou de um jeito tão amoroso e profundo, que Gellert sentiu como se já houvesse alguma ligação entre eles. Os lobos poderiam estar desconectados, mas os humanos… estes estavam unidos como nunca, sincronizados de corpo e alma no ritmo cada vez mais intenso com que Albus subia e descia nele. Deitado embaixo do seu ômega, era como se ele fosse o doce expectador de um espetáculo especialmente destinado a lhe dar prazer, todos os seus sentidos voltados para Albus, para o ir e vir dos seus quadris, para os dedos compridos que agora procuravam sua própria ereção. Ofegante, sentiu de repente sua boca se encher de água, desejando como nunca morder aquele pescoço, marcar Albus para sempre como dele. E Gellert agradeceu aos céus pelo pescoço de Albus não estar ao seu alcance naquele momento, porque, do contrário, ele não resistiria.Sem parar de subir e descer, e como se pudesse ler os pensamentos do seu amante, a mão livre de Albus deslizou para seu próprio pescoço e ele se acariciou, levantando o queixo e fechando os olhos, gemendo, fantasiando os dentes de Gellert furando a pele dele. E o ritmo dos quadris de Albus aumentou ainda mais. Gellert podia sentir que ele estava muito, muito perto de gozar e suas mãos deslizaram pelos seu corpo em carícias, estimulando-o, adorando ver Albus gemer muito alto, parecendo perdido no próprio prazer. Cavalgando sem parar o seu alpha, o ômega revirou os olhos, resfolegando… … e gozou. E Gellert gozou junto com ele, jogando a cabeça para trás, sem saber como lidar com tanto prazer, achando até que iria morrer. Se aquilo era tão bom mesmo sem o cio, ele não conseguia nem imaginar quando os lobos se juntassem a eles naquela cama. E como seria quando Gellert o marcasse como dele? Será que um dia isso aconteceria? Talvez fosse até melhor que não. Gellert não tinha certeza se sobreviveria. Albus finalmente se jogou sobre ele, ofegante, suado, perfeito. Um ômega satisfeito, exalando sexo e prazer, abraçado ao seu alpha. Os dedos de Gellert tomaram para si uma mecha dos cabelos de Albus, beijando e cheirando aqueles fios sedosos. Sem fôlego, sem ser capaz sequer de falar, o alpha envolveu seu ômega nos braços, desejando que o mundo deixasse de existir, que se resumisse a ele e seu ômega ali, juntos. Sorrindo, Albus fechou os olhos, se deliciando com o cheiro do seu alpha, se deixando abraçar por ele. Sentindo-se protegido e seguro. Como se nenhuma força do mundo pudesse lhe machucar enquanto ele estivesse nos braços fortes de Gellert.Foi só neste momento que Albus teve certeza:Amava aquele homem.  Quando Albus acordou, já era noite. Um vento frio entrava pela janela do quarto e ele se levantou para fechá-la, tentando fazer o mínimo de barulho possível. Com as mãos apoiadas na parapeito da janela, Albus fechou os olhos, relembrando o momento em que esteve sentado em Gellert, com as mãos apoiadas sobre o seu ventre. Suspirou. Caminhando até o banheiro, ele viu, talvez pela primeira vez na vida, sua própria face iluminada por algo que só poderia ser chamado de felicidade. Sorrindo para o seu reflexo, ele sentiu como se estivesse num conto de fadas.Foi só aí que Albus se lembrou. Havia esquecido completamente de aplicar a sua dose mensal de supressores.Seu sorriso se apagou por alguns momentos e ele correu para afastar o armário branco no canto do banheiro, onde havia deixado escondido o saco plástico cheio de ampolas, preso por uma fita adesiva. Um dia de esquecimento não seria problema, o que ele precisava fazer era aplicar agora e tudo estaria bem. Mas quando esticou os dedos na direção do embrulho, uma pergunta o invadiu:Ele ainda queria usar aqueles supressores? Um impulso de arrancar aquelas ampolas dali e atirá-las no lixo o invadiu, mas ele resistiu a ele, tentando ser lógico. Talvez ele mudasse de ideia, talvez ele até mesmo precisasse delas no futuro. Mas não agora.Com um suspiro, ele empurrou o móvel de novo para o seu lugar e, sorrindo, voltou para a cama. Para os braços de Gellert.

----- CHAPTER BREAK -----

Theseus arregalou os olhos quando viu Tina entrar em sua casa com um enorme embrulho nos braços:

- O que diabos é isso? - ele perguntou, reparando especialmente no papel de embrulho repleto de desenhos de bichinhos.

- Um presente. - Tina respondeu, sem se dar ao trabalho de dar maiores explicações - para o Newt.

- Parece… hum… bem grande. - Theseus comentou, sem expressão.

- É… um pouco. - Tina concordou - Precisei que Jacob me desse uma carona até aqui porque ia ficar bem difícil vir com este trambolho à cavalo e isso me atrasou um pouco… - e olhando em volta - Espero que o Newt não tenho desistido de me esperar.

- Nem pensar! - Theseus riu - mas é que chegou a hora de ele alimentar algum dos milhares de bichos machucados e doentes que ele mantém lá em cima. Vai se preparando porque a cada semana aparece um novo.

- Acho que já estou acostumada… - foi a vez de Tina rir.

- Sobe lá então. - Theseus disse - Ele deve estar te esperando.

- Eu vou lá. - Tina falou antes de subir as escadas, bastante atrapalhada pelo tamanho do embrulho, até bater na porta e ouvir passos apressados correndo para abrir.

- O… o… o que é isso? - Newt perguntou, assustado, ao ver um enorme embrulho ao invés do rosto de Tina.

- Presente.

- Pra mim? Mas… Mas… nem é meu aniversário…

- Você quer esperar pelo seu aniversário? - Tina perguntou, suavemente. Sabia o quanto Newt podia ser metódico de vez em quando. Situações inesperadas como aquela poderiam facilmente deixá-lo estressado.

- Não, não precisa. - Newt apressou-se a dizer antes de abrir espaço na escrivaninha do quarto, retirando de lá duas caixas de sapato com animais que ele estava cuidando antes de depositar ali o embrulho. Só então Newt começou a abrir o presente com todo o cuidado para não rasgar, nem amassar o papel colorido.

- Gostei desse papel, quero guardar. - Newt se justificou, quando se deu conta de que estava demorando demais para abrir.
Tina não demonstrou qualquer surpresa.

Finalmente puxando o papel todo de uma vez, o presente se revelou para Newt e ele abriu a boca de espanto:

- Eu… pensei que tinha perdido ela… - gaguejou ao ver a sua adorada maleta, agora um pouco remendada aqui e ali, mas perfeitamente consertada. Entusiasmado, ele abriu a mala e a virou para todos os lados para olhar melhor, enquanto Tina contava:

- Demorei um pouco para consertar porque realmente ficou muito avariada. E levei um tempão para encontrar o revestimento da mesma cor. Não ficou perfeita, Newt, mas acho que…

Não conseguiu terminar porque Newt se abraçou a ela com força, deitando a cabeça em seu peito, enquanto repetia, baixinho:

- Te amo, Tina. Te amo!

Ela sorriu, acariciando seus cabelos por alguns segundos antes de levantar seu queixo com delicadeza para lhe dar um beijo. E o ômega gemeu ao sentir os braços da alpha envolverem sua cintura para puxá-lo para ainda mais junto de si.

Tina sabia bem que os supressores ajudavam a manter os alphas afastados de Newt e permitiam que ele trabalhasse com alguma segurança, mesmo ele ainda não sendo um ômega marcado. Mas, ainda assim, ela sentia muita falta do cheiro daquele ômega. Um aroma que parecia ser feito para atraí-la. Tentando se distrair um pouco do pescoço de Newt, as mãos da alpha apertaram ainda mais sua cintura, antes de lhe dar um beijo exigente. Satisfeita, ela sentiu que aquelas carícias um pouco mais íntimas haviam sido o suficiente para deixar seu ômega bem excitado. E então, se afastando um pouco, ela acariciou o rosto de Newt com suavidade antes de suas mãos descerem para o cós das suas calças.

- Vamos tentar uma coisinha diferente hoje? - perguntou baixinho.

Desde a primeira vez que foi chupado por Tina, Newt nunca recusava uma oportunidade de repetir a experiência durante seus encontros semanais. Numa dessas ocasiões, ela até havia cedido aos pedidos do seu ômega e permitindo que ele fizesse o mesmo com ela, Tina em pé apoiada na porta, Newt de joelhos no meio das pernas dela, lambendo e chupando como se sua vida dependesse disso, até ela gozar.

Em outras ocasiões, Newt se contentava em brincar com os seios dela. Aconchegado no colo de sua alpha, ele beliscava os bicos inchados antes de sugá-los, um por um, devagar, enquanto os apertava e se deliciava ao sentir a textura e o peso.

Newt era com certeza um ômega doce e entregue, que gostava de dar e receber prazer. E, como tal, ele não hesitou em assentir com a cabeça, aceitando sua proposta mesmo sem saber o que eles fariam.

Tina então sorriu e o virou de costas para ela, fazendo-o se debruçar sobre a mesa, bem em cima da maleta fechada, antes de terminar de abaixar suas calças compridas até o chão, sem contudo retirá-las. Todo o cuidado era pouco: Theseus poderia subir as escadas para checar o que os dois estavam fazendo a qualquer momento, e eles precisavam conseguir se ajeitar bem rápido para não serem flagrados. E,
ao sentir suas nádegas expostas daquele jeito, Newt estremeceu e olhou para trás, só compreendendo o que estava prestes a acontecer ao ver Tina molhando o dedo indicador com a língua.

Corando como um pimentão, suas costas ficaram tensas e ele desviou o olhar, sem contudo se mexer da posição em que Tina havia deixado ele. Dócil e trêmulo, ele esperou até sentir o dedos de Tina abrindo suas nádegas delicadamente. Só aí ele se retraiu, respirando pesado frente a simples expectativa da invasão.

- Relaxa um pouquinho… - Tina sussurrou no seu ouvido - Não quero te machucar.

Newt obedeceu imediatamente, tentando respirar fundo, fazendo de tudo para relaxar o máximo que podia quando só a ponta de um dos dedos de Tina entrou nele e ali ficou, provocando-o, fazendo ele gemer e querer mais.

- Tina… - ele virou a cabeça para implorar por um pouco mais e ela o beijou, enquanto deslizava o resto do dedo para dentro.

- Tá gostoso? - ela perguntou, provocativa.

- Sim… sim… - Newt choramingou, sentindo o dedo de Tina indo e voltando de dentro dele. Os dedos do ômega deslizaram pela sua maleta, enquanto seu quadril se levantava um pouco mais para receber um segundo dedo e então um terceiro.

Tina chupou o lóbulo da orelha de Newt enquanto sua mão livre encontrava o seu membro e o estimulava devagar. E foi bem aí que Newt deixou o constrangimento de lado, se esfregando naqueles dedos com força, gemendo, excitado.

Os lábios de Tina desceram para o seu pescoço numa lambida longa e provocativa e, como sempre acontecia quando a alpha acariciava aquela região tão sensível, Newt lhe ofereceu a garganta, gemendo de antecipação, querendo ser marcado para sempre por ela.

Mas Tina havia feito uma promessa a Theseus de não marcá-lo. Além disso, ela queria mordê-lo como uma lupina, casados e no meio de um cio, como deveria ser. Por mais que fosse tentador, agora ela não podia enfiar seus dentes nele como os dois tanto desejavam.

Newt soltou um gemido frustrado e, para compensar, ela aumentou ritmo das carícias, fazendo suas coxas tremerem com a proximidade do orgasmo. Totalmente sincronizadas, as duas mãos de Tina continuaram a estimular seu ômega, uma delas entrando e saindo, a outra subindo e descendo, obrigando Newt a morder a própria mão para não gemer alto demais e se debruçar ainda mais sobre a mesa para facilitar o acesso da sua alpha ao corpo dele.

- Eu também te amo, Newt… - ela falou no ouvido dele, em resposta à frase que ele havia dito ao receber o presente - Meu Newt…

Foi o que bastou para Newt começar a gozar naqueles dedos, enquanto Tina o drenava por inteiro, sem parar de repetir o quanto ele ficava lindo gozando daquele jeito. Terminou com Newt abraçado à sua maleta, resfolegando, enquanto Tina dava beijinhos na curva do seu rosto, esperando ele se recuperar.

- Acho que acabei… arranhando a mala… um pouco…  - Newt constatou minutos depois, ao se levantar, quando finalmente se viu capaz de falar e pensar.

- Deixe-me ver. - Tina falou, esticando o pescoço - Talvez eu possa consertar…

- Ah, mas eu… não quero consertar. - Newt falou, deixando-se derreter no abraço que Tina lhe deu por trás.

- Por que não, meu amor? Não é trabalho nenhum…

- Porque... de agora em diante, toda vez que eu olhar para minha mala... vou me lembrar de você...

Tina sorriu, como não se apaixonar cada dia mais pelo seu doce ômega?

----- CHAPTER BREAK -----

Gellert caminhou meio bêbado pela rua enlameada, trocando as pernas e andando na diagonal. A certa altura, ele tropeçou nos próprios pés e por muito pouco não desabou no chão.

- Merda… - praguejou ao perceber que a carta que havia recebido naquela tarde havia caído do seu bolso e, no momento, boiava, plácida, sobre uma poça de lama.

Abaixou-se com dificuldade para pegar o envelope, retirando a única folha do seu interior para balançá-la com energia e escoar a água.

Felizmente, a carta do advogado havia sobrevivido sem muitos danos. Debaixo de um poste de luz, Gellert apertou os olhos para ler as palavras meio borradas. Tratava-se de um aviso de que a morte presumida dos seus pais tinha sido decretada antes do prazo legal, mesmo sem os corpos, devido à natureza do evento que havia provocado suas mortes.

“Naufrágio com probabilidade altíssima de morte…”

Amassou a carta e a guardou novamente no bolso do casaco.

A chuva engrossou quando ele finalmente chegou ao estacionamento, e Gellert achou especialmente difícil encontrar sua caminhonete no meio da semi-escuridão e do aguaceiro. Uma mulher estava encostada no seu carro, com um cigarro aceso na boca. Embaixo de uma capa de chuva amarela, usava um vestido vermelho de couro sintético, muito colado no corpo, e sapatos de salto agulha incompatíveis com o piso de terra do local.

- Você tá encostando no meu carro. - Gellert falou, o tom bem grosseiro pretendido sendo claramente prejudicado pela voz embriagada.

A mulher jogou o cigarro no chão e pisou devagar nele antes de olhar para Gellert e perguntar:

- Quer uma chupada?

No minuto seguinte, Gellert estava no banco de trás da caminhonete, com as pernas abertas e as calças abaixadas, contraindo todos os músculos da face ao receber o melhor sexo oral da sua existência.
 O orgasmo veio rápido e ele fechou os olhos, tentando não gemer muito alto enquanto se agarrava aos cabelos negros dela para sobreviver.

- Posso ficar mais um pouco? - ela perguntou, enquanto guardava o dinheiro entre os seios - Pelo menos até a chuva diminuir ou aparecer algum cliente…

Gellert deu de ombros enquanto riscava um fósforo e acendia um cigarro.

- Nunca vi uma beta tão bonita! - ele comentou quando a luz do fósforo iluminou o rosto dela por alguns instantes e ele pôde reparar nos seus olhos muito azuis, sentindo-se até um pouco curado da bebedeira.

- Obrigada. - ela sorriu - Mas não sou beta.

- Você não tem jeito de ômega… - Gellert olhou para ela, surpreso, fazendo a mulher rir.

- Natural, visto que também não sou ômega.

A boca de Gellert caiu:

- Porra… - xingou - não acredito que fui chupado por uma alpha.

- E muito bem chupado! - ela deu outra risada, ainda mais divertida - Espero que não seja um problema para você… alguns alphas ficam bem zangados quando descobrem.

Gellert ofereceu a cigarreira para ela:

- Desde que você não tente me morder… - Gellert gracejou, se aproximando para que ela pudesse acender seu cigarro no dele.

Ela sorriu com o cigarro aceso preso na boca:

- Você é bem bonito. - elogiou. Gellert não pareceu lisonjeado:

- Por acaso me pareço com um ômega?

- Não gosto de ômegas. - ela fez uma pausa para tragar a fumaça do seu cigarro - Não se preocupe, você tem uma beleza bem alpha.

- Dizem que puxei ao meu pai. - comentou.

- Deve ser um bom partido o seu pai. - ela respondeu - Com todo o respeito à sua mãe.

- Não fosse o pequeno detalhe dele ter morrido hoje… - Gellert deu de ombros.

- Oh, lamento. - ela se apressou a dizer e, depois de uma curta pausa, perguntou - Você não deveria estar… sei lá… no velório?

- Não tenho nenhum corpo para velar… - Gellert esclareceu - e meu pai não morreu exatamente hoje, isso já tem alguns anos. Mas como ele desapareceu num náufrago, só hoje declararam a morte dele. E também a da minha mãe.

- Sinto muito… - ela falou, baixinho, batendo as cinzas do cigarro no cinzeiro do carro.

- Eu não deveria estar falando sobre isso com você… - Gellert comentou.

- Não se preocupe. Já ouvi muitos desabafos de clientes. Não é incomum.

Gellert olhou para ela:

- A chuva diminuiu.

- Oh, sim, eu já vou. - ela falou, pegando sua capa de chuva no chão do carro.

Os dois saíram da caminhonete ao mesmo tempo e Gellert ocupou seu lugar diante do volante enquanto ela andava a esmo pelo estacionamento, procurando algum outro carro para se recostar.

Gellert deu a partida e manobrou sua caminhonete para fora do estacionamento, mas, ao invés de se dirigir à saída, ele se pegou seguindo aquela mulher.

- Posso ajudar? - ela perguntou quando ele parou ao seu lado.

- Tô precisando de uma governanta lá para minha fazenda. - Gellert respondeu com naturalidade - E de alguém sóbrio para dirigir o meu carro até lá.

- Passa para o outro banco. - ela respondeu, jogando a sua ponta de cigarro no chão.

- Qual é o seu nome a propósito? - Gellert perguntou no momento em que ela assumiu o volante.

- Vinda. - ela respondeu enquanto retirava a capa molhada - Vinda Rosier.
  
- Você fez o quê? - Gellert perguntou, assombrado.

Estavam os dois nus na cama, abraçados, fingindo que o mundo lá fora não existia enquanto conversavam sobre os assuntos mais aleatórios. Albus sabia que não era uma boa ideia contar uma coisa dessas justamente para Gellert, mas a pergunta tinha sido tão direta e ele… ele não queria mais mentir.

- Você ouviu. - respondeu , suavemente.

- Não, não sei se ouvi direito. Você tá me dizendo que andava aos beijos com outros ômegas no dormitório da escola?

As sobrancelhas de Albus se fecharam:

- Eu não andava aos beijos com outros ômegas. Eu só beijei um amigo, uma vez. Para experimentar.

- E quem é esse ômega, posso saber? - Gellert perguntou, odiando a imagem mental de Albus beijando qualquer um que não ele - Não me diga que é aquele Scamander?

- Claro que não! - Albus respondeu, demonstrando indignação só por Gellert cogitar aquela possibilidade - O Newt sempre foi da Tina… - e acariciando o peito de Gellert - assim como agora eu sou seu…

Gellert deu um meio sorriso e se inclinou para um beijo muito suave antes de comentar:

- Não exagere nas comparações. Nós somos casados, afinal de contas. Eles não.

Albus decidiu não fazer maiores comentários sobre as coisas que aqueles dois faziam mesmo sem estar casados e que Newt alegremente lhe contava quando os dois se falavam ao telefone.

- E você? - o ômega perguntou para desviar o assunto dele próprio.

- Eu o quê?

- Também andava aos beijos com alphas na escola? - Albus perguntou, rindo.

- Não gosto de alpha. - Gellert respondeu - Eles têm um cheiro horrível…

Albus discordava. Esquecido por um momento até do assunto, inclinou-se para cheirar o peito de Gellert, enchendo-o de beijos antes de responder:

- Então você não sabe o que é bom.- afirmou - Poucas coisas são melhores do que beijar um alpha.

Gellert fechou imediatamente a cara:

- E qual alpha você beijou além de mim, posso saber?

- Nenhum. - Albus respondeu, sorrindo.

Gellert não se deixou derreter pela resposta doce:

- Nem mesmo o irmão mais velho do Scamander? - perguntou.

- Ai, por favor…. - Albus respondeu, impaciente.

- E eu não disse que nunca beijei um alpha. - Gellert falou como se quisesse retaliar a informação bombástica do beijo de Albus com um ômega.

Albus piscou:

- Você beijou um alpha?

- E talvez um pouco mais…

Alguns instantes de silêncio se seguiram.

- Eu conheço? - Albus perguntou, rabugento.

- Você é ciumento! - Gellert se admirou - Quem diria?

- Não sou ciumento. - Albus se defendeu - Só estou curioso. Conheço ou não?

- Que diferença isso faz?

Os olhos azuis de Albus encararam Gellert.

- Eu conheço. - não foi uma pergunta - Quem é?

- Albus…

- Não me faça tentar adivinhar…

- Vamos mudar de assunto? - Gellert perguntou, de repente arrependido de ter contado aquilo. O feitiço havia se voltado contra o feiticeiro.

Os olhos de Albus continuaram colados em Gellert por alguns segundos. Pareciam olhar o fundo da sua alma.

- Foi a Vinda. - mais uma vez, Albus não fez uma pergunta.

E a cara que Gellert fez ao vê-lo acertando na mosca logo na primeira tentativa falou por si.

- Eu não acredito! - Albus se indignou - O perigo vem mesmo da onde menos se espera.

- Ela não é o meu tipo… - Gellert se defendeu.

- E ainda assim, você ficou com ela!

- Só duas vezes. Uma porque eu tava bêbado e outra porque… eu estava bêbado também.

Albus fez uma cara muito feia:

- Vou jogar fora tudo que tiver álcool nesta casa.

Gellert riu, virando o corpo de lado para enlaçar a cintura de Albus e o trazer para mais perto de si:

- Albus Grindelwald, o senhor é  realmente ciumento! - acusou.

- Não sou não!

Mas ao invés de argumentar, Gellert apenas o puxou para um beijo.

- Ah, já ia me esquecendo… - Gellert falou assim que os seus lábios se separaram - Sobre a consulta médica…

Uma sombra escureceu os olhos de Albus quando ele respondeu:

- Pretende remarcar para quando?

Os dedos de Gellert desenharam uma linha pela sua clavícula, numa carícia muito suave.

- Não vou remarcar.

Albus não conseguiu esconder a expressão de choque:

- Não vai?

Gellert acariciou o rosto de Albus:

- Eu não sei amar sem confiar. - explicou - E se estamos realmente juntos, então eu vou confiar em você…

Os olhos de Albus cintilaram na direção dele:

- Gellert…
  
- Não conte nada para ele! - Vinda foi categórica.

- Por que?

- Você ouviu: ele não sabe amar sem confiar. Se ele perder a confiança em você, acabou.

- Mas… cedo ou tarde ele vai precisar saber…

- Que seja tarde então. Bem tarde! O mais tarde possível! - e Vinda parou quando Albus começou a olhar estranho para ela - O que foi?

- Você está mesmo querendo me ajudar, não é?

- Claro que estou! Que pergunta é essa? - Vinda perguntou, estarrecida.

Albus hesitou um instante para responder a pergunta:

- É que eu soube que você e o Gellert já…

-  Albus… - Vinda deu uma risada - nós dois não tivemos mais do que duas trepadas alcoolizadas. Não perca o seu precioso tempo sentindo ciúmes de mim.

- Se você não gosta mesmo dele, então me ajuda? - ele pediu.

- Ajudar com o quê?

- A jogar na privada todas as garrafas de álcool desta casa.

- Minha nossa! Você é mesmo ciumento!

- Ciumento? - Albus balançou a cabeça  - De jeito nenhum!
  
Gellert fechou o relatório que Tina havia feito e o jogou longe, junto com uma pilha de notas, faturas e todos os outros livros que ele também havia verificado.

- Aquele filho da puta! - esbravejou.

Albus pegou o relatório no chão e o colocou em cima da mesa antes de perguntar:

- O que vai fazer?

Gellert mal conseguia respirar:

- Contratar uma auditoria… reunir provas. Tentar reaver tudo o que ele me roubou. Fazer uma bateria de exames em cada um dos meus cavalos. Isso pra começar.

- Parece um bom plano. - Albus concordou, suavemente.

- Preciso de um novo feitor e de um administrador.

- Precisa.

- E de um novo contador… e de um novo veterinário… - Gellert colocou as mãos na cabeça.

Albus sentou-se na cadeira em frente ao alpha:

- Talvez Tina possa ser sua nova contadora… ela é muito competente e de extrema confiança.

Gellert fechou imediatamente a cara, não gostando nada de ver Albus elogiando tanto uma alpha:

- Hunf… vou pensar…

- E o Newt pode ser seu novo veterinário - e como Gellert fez cara feia mais uma vez, adicionou - Você sabe muito bem que ele é um grande amigo…

- Sei também que você tem o costume de beijar seus grandes amigos…

Albus suspirou:

- Sorte sua que não sou ciumento como você.

- Albus… eu não tenho mais um único alcoólico em casa. Nem para oferecer para as visitas. Você jogou até o meu xerez na privada.

- Não tenho culpa se você não sabe beber. - Albus respondeu alegremente - quanto ao novo feitor, a resposta é bem óbvia…

- Abernathy, claro. - Gellert completou, sem titubear.

- E o resto… todo o resto deve ficar nas suas mãos…

Gellert apertou os lábios:

- Não sei… meu pai era um grande administrador… e Vogel, com todos os defeitos dele, também era…

- Você também fará um ótimo trabalho. - Albus  falou suavemente - E eu estarei aqui para te ajudar.

Mas a ideia não parecia nada atrativa para Gellert. Parecendo incomodado, ele levantou-se da cadeira:

- Preciso fumar.

Albus apenas observou Gellert de longe enquanto ele fumava seu cigarro sentado na varanda olhando para o nada, dando um tempo para que ele se acalmasse um pouco antes de se reaproximar.

Sentado ao lado de Gellert, Albus pôs-se a admirar os cavalos que corriam pelo cercado por alguns instantes antes de voltar a falar:

- Eu sei que o Vogel era como uma parte sua… - ele falou, cuidadoso - seu braço direito. Mais do que isso… você encontrou nele uma figura paterna depois que seu pai se foi…

Gellert não falou nada. Apenas puxou a fumaça do cigarro para os pulmões nervosamente. Albus segurou o seu pulso delicadamente e continuou:

- Não há ninguém mais apropriado para dar continuidade ao legado do seu pai do que você mesmo…

Gellert respirou fundo, imediatamente mais tranquilo com o suave toque do seu ômega, de repente sentindo que, enquanto estivesse ao lado de Albus, ele seria capaz até de conquistar o mundo.

Reunindo toda a sua coragem, ele levantou-se da cadeira e, sem falar nada, entrou novamente na casa, sendo seguido de perto por Albus até a cozinha.

- Vinda… você tem uma caixas de papelão por aí?

A alpha tampou a panela com o molho de tomate que estava mexendo e secou as mãos no avental antes de responder:

- Algumas…

- Preciso delas.

- Vou separar para o senhor agora mesmo, patrãozinho.

- Leve todas lá para o andar de cima, por favor.

- Sim, senhor.

Quando Gellert virou o corpo na direção de Albus, ele o olhava como se ele fosse um quebra-cabeça a ser desvendado.

- O que vai fazer? - o ômega perguntou.

- Algumas mudanças. - Gellert falou, decidido enquanto caminhava na direção das escadas.

- Mudanças? - Albus perguntou, curioso - Que mudanças…

- Vamos nos mudar de quarto. - Gellert respondeu - Assim que eu terminar de encaixotar as coisas dos meus pais, claro.

Albus não pôde deixar de sorrir:

- Eu te ajudo… 
  
Gellert verificou todas as instalações, revisou todas as notas e checou duas vezes todas as pendências junto com Abernathy.

- Acho que terminamos. - ele falou - Você fez um ótimo trabalho, como sempre.

Abernathy não cabia em si de tão orgulhoso.

- Obrigado de novo por ter me escolhido, patrão. - ele falou, fungando algumas vezes.

- Não foi uma escolha difícil. - Gellert respondeu, batendo, amistoso, no ombro do empregado, e Abernathy ficou inchado como um pombo.

Separando os papéis que necessitavam ir para o arquivo, Gellert olhou em volta duas vezes para se certificar que Albus não estava por perto, antes de perguntar:

- Notícias do Anton?

Abernathy encolheu os ombros involuntariamente ante a simples menção daquele nome:

- Não, senhor. Coloquei segurança armada na porta como o senhor pediu. A última notícia que tivemos foi a de que encontraram o carro dele abandonado numa estradinha perto daqui. Pedi para o Zabini trazer para cá. Para onde quer que ele tenha ido com aquele braço ferrado, não levou muita coisa.

- Sei… - Gellert falou - Mande uns homens fazer a ronda todas as noites. Não quero vê-lo por aqui.

- Pode deixar. - Abernathy respondeu, acariciando a arma presa na sua cintura - E o que eu faço com as tralhas dele, patrão?

Gellert olhou para Abernathy por alguns segundos antes de responder:

- Queime tudo. 
  
As primeiras noites no novo quarto foram bastante esquisitas para os dois. Deitado na cama que um dia pertencera aos seus pais, Gellert não conseguia dormir e muito menos tocar em Albus.

Já Albus conseguia dormir perfeitamente bem na nova cama, apesar de não ser exatamente isso que ele gostaria de estar fazendo durante a noite. Arriscando algumas carícias tímidas nos cabelos loiros de Gellert, a reação de desconforto que ele recebeu em troca não podia ser ignorada. Resignado, ele resolveu esperar com paciência até Gellert se acostumar com a nova situação.

As coisas mudaram um pouco na manhã do terceiro dia. Gellert estava se arrumando para um reunião de negócios com os principais donos de haras da região, quando sentiu no ar um cheiro diferente.

Olhou na direção de Albus, desconfiado. O ômega estava dormindo, seus cabelos vermelhos compridos espalhados pelo travesseiro e Gellert se deteve por alguns segundos para admirar sua beleza enquanto cheirava o ar. O aroma era ainda muito, muito suave, mas inconfundível. O mesmo perfume que ele havia sentido no dia em que se conheceram.

Sem querer acordá-lo, ele se aproximou mais, quase encostando o nariz no pescoço do ômega. Um cheiro doce. Delicioso. Irresistível.

Irresistível demais.

Feliz da vida, Gellert terminou de colocar o casaco e desceu para tomar seu café da manhã. 
  
- Vinda, por favor, preciso que você prepare aquele quartinho aqui do primeiro andar para mim. - Gellert falou, limpando a boca com um guardanapo.

- Aquele quarto sem janela e com cheiro de mofo?  - Vinda perguntou.

- Esse mesmo.

Vinda piscou algumas vezes, confusa:

- Quer que eu prepare aquele quarto… para o senhor?

- Sim, preciso passar as próximas noites o mais longe possível de Albus.

Vinda inclinou a cabeça:

- E eu posso saber o motivo?

Gellert deu um meio sorriso, enquanto se levantava da mesa:

- Ele está começando a cheirar… - falou muito baixo.

As sobrancelhas de Vinda se levantaram de surpresa:

- Não me diga!

- Digo sim…

- Me corrija se eu estiver errada… mas você não deveria estar… muito mais perto dele? - Vinda perguntou depois de olhar para todos os lados - Por que o senhor está indo dormir num quartinho do lado oposto da casa?

- Porque se eu não fizer isso, não vou aguentar… o cheiro é bom demais! Não quero atrasar o cio dele nem mais um dia.

- Isso tudo é vontade de ter filhos? - Vinda perguntou.

Gellert balançou a cabeça:

- Isso tudo é vontade de marcá-lo como meu. - explicou - Da forma certa. Lobo e homem.

Vinda deu um sorriso:

- Fico feliz que vocês dois tenham finalmente se acertado. Desde o momento em que botei os olhos em Albus eu soube que ele era o seu ômega.

Gellert sorriu para ela:

- Eu também. 
  
- Gellert, meu amigo! Bom te ver por aqui. - Nagel o cumprimentou assim que ele chegou no local da reunião.

Gellert revirou os olhos, havia apagado da própria mente que Nagel era um dos maiores criadores de cavalos da região, só perdendo para ele próprio, e que, obviamente, estaria presente naquela reunião.

- Ah, como vai? - Gellert o cumprimentou, virando-se para pegar um copo de uísque que o garçom lhe oferecia.

- Você disse que ia mandar seu encarregado marcar um horário comigo para ver o cavalo, mas ele nunca me procurou. - Nagel se queixou.

Maldito Vogel. Conhecia ele perfeitamente bem.

- Erro do meu empregado. Infelizmente, não vou poder repreendê-lo porque ele já foi demitido.

Nagel deu uma palmadinha nas costas de Gellert:

- Quem não sabe disso? Não se fala de outra coisa há dias! Espero que você coloque aquele alpha atrevido aonde ele merece: atrás das grades!

Oh, sim, como sempre, Nagel sabia de tudo.

- Também espero. - Gellert respondeu, enchendo a boca de uísque como uma desculpa para não continuar falando sobre aquilo.

- Gellert, Gellert, Gellert… como eu sabia que você estaria por aqui, aproveitei pra trazer aquele cavalo para você ver.

Gellert apontou o dedo para o outro:

- Aposto que você disse isso para todo mundo nessa reunião.

Nagel deu uma risada:

- Claro que não! Só vou fazer isso quando você recusar o cavalo. O que não vai acontecer, claro.

Gellert esvaziou sua dose de uísque, já sabendo que não havia outra forma de se livrar de Nagel:

- Certo, certo, me mostra logo o tal cavalo.

- Venha, venha, vou botar ele para cavalgar no cercado para você ver que belezura que é esse Friesian!

Gellert suspirou. Ele conhecia a raça, de fato eram cavalos negros muito bonitos, mas duvidava muito que algum deles o encantasse o suficiente para fazê-lo colocar a mão no bolso.

Estava enganado.

Quando o robusto cavalo negro cavalgou pelo cercado, Gellert olhou o seu pelo tão brilhante, suas orelhas curtas, seu porte majestoso e, principalmente, sua crina preta comprida e ondulada e lembrou-se imediatamente de Albus.

Imaginou seu ômega cavalgando naquele cavalo e quão bonito ele seria.

- Eu compro. - falou, decidido, fazendo Nagel sorrir de orelha a orelha.

- Eu disse a você! - Se gabou.

- Quero esse cavalo voltando comigo para fazenda hoje mesmo.

- Você pagando o preço, meu amigo, eu faço do jeito que você quiser.

- Muito bem. - Gellert falou - Vamos fechar de uma vez.

Abernathy chegou esbaforido minutos depois, segurando o chapéu:

- O senhor comprou um cavalo, chefe? - perguntou, ainda ofegante.

- Sim e preciso que você veja a questão do transporte com o Nagel enquanto eu cuido da papelada.

- Bonito o bicho, mas… o que o senhor vai fazer com ele?

- É um presente. - Gellert respondeu, fazendo Abernathy sorrir.

- Um presente desse… não tem como ele não gostar! - Abernathy falou, sorridente, e virou as costas para resolver a questão do transporte.
  
Gellert chegou em casa, já no começo da noite, cansado e de péssimo humor, mas todo o aborrecimento passou no minuto em que Albus apareceu na sua frente. Tudo porque o cheiro do ômega, que estava muito suave no começo da manhã, agora estava bem mais forte e ainda mais atrativo.

- Boa noite, Albus. - ele o cumprimentou.

O ômega olhou profundamente para ele:

- Fiquei sabendo que você mandou preparar um quarto separado para você. - comentou, sua voz muito baixa, parecia preocupado - Por que?

Gellert sorriu e se aproximou dele, devagar, acariciando seu rosto. E os olhos de Albus cintilaram ao sentir aquele toque tão suave.

- Você está cheirando… - ele falou, suavemente - Logo, logo entra no cio.

Ah, isso explicava muita coisa… como, por exemplo, o jeito discreto com que Vinda torcia o nariz toda vez que chegava um pouco mais perto.

- Tão ruim assim? - Albus perguntou. Ele não era capaz de sentir o próprio cheiro, então não fazia ideia, mas pessoalmente detestava o cheiro de quase todos os ômegas que ele conhecera na vida, com exceção de Ariana, Newt… e seu amigo de escola Elphias Doge.

Gellert teve vontade de gargalhar:

- Aah, não… pelo contrário… seu cheiro é tão bom que eu… não consigo pensar direito… - Gellert respondeu, umedecendo os lábios.

- Não quero dormir longe de você de novo… - Albus lamentou, esperando que Gellert mudasse de ideia.

- Eu preciso te marcar, Albus. - Gellert explicou - Mais do que qualquer coisa. E prefiro que seja durante o cio, com seu lobo submisso a mim.

Albus fechou os olhos ao ouvir aquelas palavras, sentindo seu baixo ventre reagir.

- Gellert…

- Uma semana no máximo. Para você ser meu para sempre.- Gellert prometeu - Você espera?

Albus não se achava capaz de esperar. Mas assentiu devagar com a cabeça mesmo assim.

Dia seguinte…

Albus parou de mastigar o seu terceiro pedaço de bolo só para pedir que Gellert repetisse a última frase:

- Você fez o quê?

- Comprei um presente para você ontem. - Gellert falou pela segunda vez.

- É mesmo? - Albus perguntou  - E o que é?

Gellert deu um sorriso:

- Não vou dizer.

Curioso, Albus olhou em volta e até embaixo da mesa onde os dois tomavam café da manhã, antes de falar:

- Não vejo nenhum embrulho…

- Não está aqui….

- E onde está? - Albus estava cada vez mais curioso. Desde a morte do seu pai, ele havia recebido pouquíssimos presentes. Uma flor de Ariana, um livro de um colega da escola e só. Cada vez mais curioso, tentou imaginar como seria o tal presente - Não é um par de meias, não é? Estou precisando…

Gellert deu uma risada:

- Quase acertou.

- Onde está? - o ômega perguntou de novo - No quarto?

- Não está aqui em casa. - Gellert esclareceu - Já acabou de tomar seu café?

- Acabei! - Albus falou, animado.

- Então vem comigo! - Gellert falou, puxando Albus pela mão depois de enfiar seu chapéu preto na cabeça - Toma aqui o seu chapéu.

Albus encaixou seu chapéu branco sobre os cabelos vermelhos e então se deixou levar alegremente até o cercado ao lado da casa.
A essa altura, Albus já havia entendido que o tal  presente, ao contrário do que Gellert havia dito. estava muito, muito longe de ser um par de meias.

- O que você comprou, Gellert? - Albus perguntou novamente, a curiosidade cedendo espaço para o assombro.

Ao invés de responder, Gellert apenas gritou:

- Abernathy, pode trazer!

E, menos de um minuto depois, Abernathy trazia um belíssimo cavalo negro pelas rédeas.

- Um Friesian?! - Albus perguntou ao ver a pelagem do cavalo brilhar sob o sol - Para mim?

Gellert assentiu com a cabeça e Albus olhou para ele por alguns segundos, boquiaberto e, então seus olhos se voltaram para o cavalo. Albus admirou o animal em silêncio, observando cada movimento dele, parecendo deslumbrado.

- Gellert… você tem certeza?

- Claro que tenho certeza! - Gellert respondeu - Vai lá ver o seu cavalo de perto.

Albus pareceu hesitar mais um pouco, mas o desejo de chegar perto daquele animal tão majestoso acabou falando mais alto.

- Eu vou lá! - Albus finalmente falou e, pulando o cercado com agilidade, se aproximou devagar para acariciar o animal, maravilhado - É lindo! Lindo!

- Monta, vai? - Gellert convidou, ansioso por vê-lo cavalgar.

Albus não precisou de um segundo convite, colocou o pé no estribo e montou com agilidade. O cavalo era manso e acostumado com a montaria e, por isso, logo os dois estavam rodando tranquilamente pelo cercado.

Os olhos de Gellert se colaram
em Albus galopando elegantemente, seus longos cabelos vermelhos escapando do chapéu, esvoaçantes, brilhando sob o sol, contrastando lindamente com a negritude do pelo do animal e ele não teve dúvidas: aquela visão era muito mais bonita do que a que ele tinha imaginado. Albus montado naquele cavalo era tão majestoso que apenas vê-lo cavalgar valia cada centavo que ele havia gasto.

- Qual nome vai dar ao seu cavalo? - Gellert gritou.

Albus puxou as rédeas:

- Estava pensando em Fawkes.

- Um nome diferente para um cavalo. - Gellert comentou - Mas eu gosto.

Albus sorriu e se aproximou mais do ponto do cercado onde estava Gellert:

- Este foi o melhor presente que ganhei em toda a minha vida! - falou, sincero.

Gellert apenas assentiu com a cabeça e tocou a aba do próprio chapéu em resposta e então Albus perguntou, num tom bem mais suave:

- Por que você resolveu me dar um presente tão valioso?

- Porque você é meu ômega. - Gellert respondeu - E tudo o que um alpha mais quer é fazer o seu ômega feliz.

Albus abaixou a cabeça, sentindo o rosto ficar quente ao ouvir aquela frase:

- Muito obrigado.

- Ah… parece que seu queridinho vai ser o novo veterinário responsável da fazenda. - Vinda comentou, mordaz, enquanto passava um algodão embebido com álcool para desinfetar um corte mais profundo no braço de Leta.

Leta Lestrange levantou os olhos:

- Qual queridinho? - perguntou, irritada com aquela conversa antes mesmo de começar - De quem você tá falando?

- Estou falando de Newt Scamander, é claro.

Leta revirou os olhos. Sabia que chegariam ali.

- Quantas vezes eu preciso falar que Newt não é meu queridinho?

- Foi queridinho o suficiente para você se meter com o sem sal do irmão dele. - Vinda retrucou, mal humorada - E olha que ele era um alpha!

- Agradeça a ele. Não fosse por isso, eu jamais descobria que gosto tanto de alphas. - Leta fez uma cara feia ao sentir a ferida do seu braço arder em contato com o remédio - Mas bem que você poderia pegar um pouco mais leve comigo, né?

- E você poderia não me dar tanto trabalho para se submeter… - Vinda sugeriu, casualmente.

- Sou alpha. Não me submeto.

Vinda mordeu os lábios:

- Você me pareceu bastante submissa hoje…

Leta deu uma olhada feia para sua namorada.

- E falando em submissão… quando é que você vai finalmente aceitar largar aquele seu emprego na fazenda dos Grindelwald para ser tratada como uma princesa aqui na minha mansão? - Leta perguntou, perguntou, talvez pela centésima vez.

Vinda sorriu e deu a mesma resposta de sempre:

- Nunca.

- Por que? - Leta perguntou, exasperada - Tô cansada de te ver só durante as suas folgas!

Vinda deu de ombros:

- Não nasci para ser princesa de contos de fada…

- Vadia… - mas apesar da ofensa, ela estava sorrindo.

- Dondoca. - Vinda retribuiu o xingamento,
sorrindo também. Um sorriso tão bonito que fez o coração de Leta balançar.

Mas Leta não estava disposta a desistir de trazer aquela Alpha para o seu território.

- Você não tá se metendo com algum Alpha lá na fazenda, está? - perguntou, desconfiada - Você tem vindo me encontrar cada vez mais estropiada e isso tem cheiro de alpha.

- E foi um alpha mesmo, mas não pelos motivos que você está imaginando. - Vinda explicou, levantando-se para guardar o vidro de álcool - Foi o Vogel. De novo. Mas agora acabou, ele se meteu com o ômega do patrão. Levou bala e foi demitido.

- Aquele Vogel tá totalmente maluco mesmo por chegar perto do ômega de um dos alphas mais poderosos da região. - Leta comentou - Só espero que ele não resolva voltar para se vingar.

A expressão de Vinda se fechou imediatamente, como se a simples menção daquele nome já a preocupasse:

- Se ele tentar, as ordens são para matar.

Albus estava lendo um livro sentado na sua cadeira preferida na varanda, pés descalços em cima do estofado, cabelos presos num coque alto para se aliviar um pouco do calor.

Distraído com seus próprios pensamentos, não percebeu que Gellert se aproximava por trás até o momento em que ele se debruçou para cheirar seu pescoço. Só estão Albus fechou os olhos e levantou os braços para acariciar o rosto do seu alpha.

- Vim te dizer que marquei um horário com a sua amiga… para tratarmos da contratação…

- A Tina? - Albus perguntou, animado - que bom! Garanto que não vai se arrepender.

Gellert assentiu com a cabeça, parecendo conformado:

- Ela deve chegar por volta das três da tarde. Eu preciso sair agora para ir ao cartório passar umas procurações para o Abernathy e revogar todas as que assinei para o Vogel, mas é claro que volto a tempo.

- Tudo bem…

Os braços de Gellert desceram pelos ombros de Albus num abraço e ele beijou seu pescoço suavemente numa despedida antes de partir. Suspirando, Albus se abraçou ao livro, sentindo-se feliz como nunca. Uma gama de pensamentos românticos e sensuais invadiu sua cabeça, todos envolvendo Gellert.

Até que seus olhos pousaram sobre um cavalo tordilho que galopava feliz pelo cercado e seu coração pesou ao pensar nos sonhos que ele estava deixando definitivamente para trás por causa do seu coração. 
Não sem algum esforço, afastou aquele pensamento sombrio, tentando não imaginar uma realidade em que ele seria totalmente livre para escolher qualquer caminho que quisesse. 
Era preciso viver com os pés no chão.

E o seu chão era Gellert Grindelwald.

As horas se passaram, mornas e lentas. Albus acariciava a capa de veludo do seu livro, sem
parar de pensar em Gellert. Pensar constantemente em um alpha era um sintoma clássico da proximidade do cio e Albus não pôde deixar de se imaginar se entregando por completo a Gellert.

… e sendo mordido por ele…

Um cavalo surgiu no horizonte, galopando veloz em sua direção. Albus reconheceu de imediato o cavalo baio de Tina e levantou-se da sua cadeira, deixando seu livro de lado para acenar para ela.

- Olá, Tina! Receio que você tenha chegado um tantinho mais cedo do que o combinado, Gellert…

- Albus! - ela usou sua voz de Alpha para interrompê-lo, mas mudou o tom assim que Albus lhe deu toda atenção  - Você precisa vir comigo! Só você pode ajudar o seu irmão!

----- CHAPTER BREAK -----

Apesar de betas serem maioria, na família onde Abernathy nasceu, ele era ampla minoria.

Na verdade, ele era único.

Uma família somente de alphas, sua mãe costumava dizer. A bem da verdade, havia o registro de uma única ômega, nascida há três gerações, mas esta, ela, convenientemente, gostava de ignorar.

Demorou um pouco para sua família perceber que Abernathy estava demorando tanto para
maturar como um alpha ou até mesmo como um ômega porque… ele era apenas um beta.

Mas foi a partir daí que Abernathy se tornou a vergonha da família.

Todo mundo aprendia ainda no colo da mãe que, há muitos e muitos anos, um vírus havia causado um surto de infertilidade generalizado, forçando os seres humanos a misturar sua genética com a de uma determinada raça de lobos para fugir da extinção. Depois de muitas tentativas fracassadas, os primeiros ômegas férteis finalmente nasceram, salvando a humanidade e repovoando o planeta. Desde então, a divisão de tarefas era muito clara: os alphas, mais fortes e capazes, eram os líderes, incumbidos de fertilizar e proteger os ômegas e sua prole; Os ômegas, por sua vez, eram os grandes responsáveis pela perpetuação da espécie e, em nome dela, eram tolhidos de todos os direitos que pudessem desviá-los dessa sagrada função.

Os betas… eram apenas os betas.

Não era tão ruim. Betas tinham quase todos os direitos dos alphas. Ao contrário dos ômegas, eles eram livres para escolher suas profissões, podiam gerir o próprio patrimônio e não dependiam de autorização dos alphas para nada, m
as, por mais que se esforçassem, todos os melhores postos já estavam reservados aos alphas, logo, havia pouco patrimônio para gerir e betas não tinham tempo para fazer muito mais coisas além de trabalhar.

Abernathy então cresceu acostumado à mediocridade. Ignorado pela família, passou a se dedicar somente aos estudos. Na escola, se acostumou a aplaudir quando um alpha recebia o prêmio de melhor aluno do ano, mesmo quando as suas notas eram melhores. Cursar uma faculdade nunca foi uma opção, pois todos os recursos da família estavam direcionados aos seus irmãos alphas.

Abernathy era inteligente o suficiente para saber que sua maior vitória naquele mundo seria sobreviver.

Na fazenda dos seus pais, havia muitos cavalos. E cada um dos seus oito
irmãos havia ganhado um de presente ao alcançar os dezesseis anos. Abernathy se contentava em cuidar dos cavalos dos seus irmãos como se fossem dele.

Cavalos não sabiam que ele era beta.

Abernathy deixou de ser bem vindo dentro da própria casa desde a confirmação de que ele era um beta, mas o prazo para ele partir só foi imposto por sua mãe alpha depois que ele atingiu a maioridade. Não havia muito a fazer sobre isso além de procurar um emprego onde ele pudesse dormir.

Sentiria falta dos cavalos.

Faltavam três dias para o prazo se esgotar quando ele entrou na disputa por uma vaga no maior haras da região. Mas, apesar daquele ser o emprego dos seus sonhos, Abernathy não estava exatamente animado, afinal de contas, a vaga era boa demais para um beta como ele, com certeza o mandariam para casa logo no primeiro dia.

Mas, para sua surpresa, o que ele acabou vendo foi muitos alphas e betas indo para casa enquanto seus conhecimentos quase obsessivos sobre cavalos o levaram até a etapa final da seleção.

O alpha que disputava a vaga com ele tinha todas as razões do mundo para estar confiante de que a vaga já era dele.

Disseram que a última entrevista seria com o feitor da fazenda, mas quando Abernathy entrou na sala, quem estava sentado do lado oposto da mesa era nada mais, nada menos, do que o dono de tudo: o alpha Gellert Grindelwald em carne e osso.

Abernathy tentou não ficar nervoso demais diante daquela presença. Apesar de ser tão jovem quanto ele, Grindelwald era muito mais alto e sua simples presença era bastante imponente, até intimidadora. Muito sério, ele apontou para a cadeira à sua frente, convidando-o a se sentar.

- Por que quer trabalhar conosco, Sr. Abernathy? - ele perguntou assim que o viu se instalar, sem perder tempo com cumprimentos ou preâmbulos.

Uma pergunta clássica. Abernathy poderia dar uma resposta bem treinada sobre a grandiosidade daquela fazenda e todos os números e cavalos premiados que ele conhecia de cor ou mesmo dar milhares de razões bastante apelativas, mas nem por isso insinceras: sua situação financeira desesperadora, sua necessidade de se afastar de uma família que o desprezava, sua vontade de sobreviver num mundo que fingia o tempo todo que ele não existia…

Ao abrir a boca, porém, ele deu a resposta mais idiota possível:

- É que eu amo cavalos mais do que qualquer coisa!

Gellert até deu risada. Olhando fixo para Abernathy, ele disse:

- Esperava uma resposta um pouco mais profissional. - criticou - especialmente vinda de um homem que acertou todas as perguntas da seleção, até as mais mirabolantes.

Abernathy encolheu os ombros:

- Não vi necessidade de mentir. - confessou - A vaga vai ser do alpha de qualquer jeito.

Gellert fez uma cara feia:

- Se fosse assim, o anúncio seria limitado para alphas. - discordou - A vaga vai para o mais bem preparado.

- Os alphas são mais bem preparados. - Abernathy retrucou - É de nascença.

- Não me obrigue a falar mal do meu próprio gênero. - Gellert rebateu, enquanto puxava a tampa de uma caneta para fazer anotações - Vamos apenas dizer que ser medíocre não é exclusividade dos betas. Então… já entendi que você ama muito cavalos. O que eu realmente não entendo é outra coisa, e espero que você seja tão sincero comigo quanto foi na sua primeira resposta.

- Serei, senhor.

- Sei que você pertence a uma das famílias mais prestigiosas da cidade e que todos os seus irmãos ocupam cargos muito importantes, tive até a oportunidade de conhecer vários… políticos, diplomatas, médicos…

- Verdade, senhor.

Gellert apoiou os cotovelos na mesa e o queixo nas mãos antes de continuar:

- Minha pergunta é: por que, mesmo tendo notas tão altas, você está sentado aqui e não num banco de uma faculdade?

Uma pergunta com resposta muito fácil:

- Porque sou beta, senhor.

Gellert olhou para ele durante alguns segundos, antes de dizer:

- Está contratado.

Abernathy já estava saindo da Casa Grande para fazer suas malas em casa e voltar o mais rápido possível, quando, sem querer, ouviu uma voz muito grossa inquirir o seu mais novo patrão:

- O senhor escolheu o beta?

- Ele é o mais qualificado. Entende de cavalos como nenhum outro. - e Abernathy ouviu o barulho inconfundível de um mecanismo de isqueiro sendo acionado, provavelmente era Grindelwald acendendo seu cigarro - Ele respondeu corretamente até as perguntas idiotas que você colocou no questionário só para brincar com os candidatos.

- Meu problema não é o conhecimento dele. É que ele vai precisar fazer o meu trabalho quando eu estiver muito atarefado ou ausente. E o meu trabalho é trabalho de alfa. Requer liderança…

- Meu caro, Anton… não se esforce tanto. Eu já decidi. - Gellert respondeu, dando o assunto por encerrado.

Aliviado por perceber que seu emprego estava garantido, Abernathy se comprometeu a ser o melhor empregado daquela fazenda. E, de fato, sua dedicação era tanta e seu trabalho tão silencioso e competente que nem mesmo Vogel se viu disposto a lutar contra ele.

- Você não dorme não? - Vogel perguntou, divertido, ao ver Abernathy sentado no chão da baia de uma égua recém-parida - O potro já nasceu, vai descansar. Amanhã o trabalho começa cedo.

- A Estrela não tá nada bem. - Abernathy falou, olhando para a égua deitada no chão - Passou tempo demais em trabalho de parto… tem alguma coisa errada…

Vogel olhou para a égua por alguns segundos:

- Ela só está cansada. Vai dormir, Abernathy.

Abernathy não foi dormir.

Dia seguinte, Gellert e Vogel se surpreenderam ao encontrá-lo exausto depois de uma noite inteira em claro, mas feliz da vida ao ver um segundo potro, tão minúsculo e frágil que nem conseguia ficar de pé.

- Ela estava esperando dois? - Vogel perguntou, estarrecido.

- Sim! - Abernathy mal cabia em si de felicidade - Um milagre!

Gellert não estava nada deslumbrado:

- Você não fez o ultrassom na Estrela? - cobrou de Vogel - Esse potro não deveria ter nascido. Poderíamos ter perdido uma ótima égua.

- Claro que fiz. - Vogel apressou-se a responder - Mas, pelo visto, o segundo feto não apareceu na imagem.

- Estranho... - Gellert comentou, olhando na direção do potro - Nunca vi um cavalo tão pequeno…

- Esse aí não dura mais dois dias. - Vogel vaticinou, indiferente - Nem a mãe vai querer ele.

Os ombros de Abernathy e encolheram como se aquelas palavras lhe doessem. Mal contendo a indignação, ele apressou-se a dizer:

- Não vai morrer, não, senhor! - garantiu, parecendo determinado como nunca - Eu vou cuidar dele!

Vogel deu uma risada:

- Boa sorte então. - debochou, dando de ombros.

Gellert deu uma última olhada para Abernathy e então para o minúsculo animal e, antes de dar as costas, prometeu:

- Se ele sobreviver, o cavalo é seu.

Abernathy mal dormia e comia muito pouco, de tão empenhado que estava em, dia e noite, ajudar aquele minúsculo animal a sobreviver, apesar de a mãe dedicar toda a sua atenção ao potro mais forte e mais saudável.

Ao final de um mês, o potrinho continuava a ser o menor cavalo do haras, mas… estava vivo.

- Ele combina muito com você, Abernathy. - Vogel gracejou, observando o animal mirrado andar vacilante pela pastagem.

- Sem dúvidas você fez um bom trabalho. - Gellert elogiou, sinceramente surpreso por vê-lo vivo - Que nome pretende dar para o seu novo cavalo?

Abernathy secou uma lágrima do canto do olho, emocionado, pensando que Vogel tinha toda razão: aquele cavalo era mesmo um sobrevivente.

- Beta. - Abernathy falou, com a voz trêmula - O nome dele é Beta.

Fawkes parecia feliz por poder galopar o mais rápido que podia. O cavalo de Tina não tinha chances de acompanhar o ritmo forte imposto por um cavalo tão jovem e robusto e a alpha foi ficando para trás, sem poder fazer muita coisa além de admirar a beleza e o pelo negro lustroso daquele lindo cavalo.

Chegaram na fazenda dos Dumbledore em alguns poucos minutos. Albus desmontou devagar, ainda pensando no que Tina havia contado sobre seu irmão: a
fundado na bebida, esquecido do mundo, gritando com pessoas que não estavam lá. Nos últimos tempos, era comum ouvir o barulho de vidros se quebrando, móveis e objetos sendo atirados longe e até mesmo o barulho de tiros. Mas o que realmente havia apavorado Tina foi ouvir seu patrão soluçar durante horas enquanto repetia sem parar que queria morrer.

Sem saber mais o que fazer, ela decidiu que era hora de buscar ajuda.

- Faz algum tempo que ele não deixa ninguém entrar. Nem pra fazer a limpeza. - Tina explicou - Queenie prepara as refeições na casa dela e deixa a bandeja na porta, mas ele quase nunca pega.

- Entendo. - Albus falou, pensativo - Eu vou lá ver o que está acontecendo.

Tina não conseguiu conter uma ponta de constrangimento.

- Desculpe, Albus. Não sei nem se é justo incomodar você com isso, mas… eu não sabia mais o que fazer…

- Você tomou a decisão certa, Tina. - Albus respondeu, pousando a mão sobre o seu ombro - Deixe o resto comigo.

- Não quer a minha arma emprestada? - Tina perguntou, fazendo Albus olhar para ela.

- O que eu faria com uma arma? - ele perguntou, surpreso.

- Eu não sei, Albus, ele não tá bem… - Tina replicou, insegura - Talvez seja melhor eu entrar com você…

- Não será necessário. - Albus falou com tranquilidade - Eu sei lidar com o meu irmão.

- Só… tome cuidado. - Tina respondeu, ainda sem ter certeza se deveria deixar Albus entrar sozinho ou não.

Mas o ômega apenas sorriu para ela e subiu as escadas de madeira que davam acesso à casa, sua túnica roxa e seus cabelos esvoaçando graciosamente com o vento vespertino. Albus ajeitou seu lenço no pescoço, sentindo-se surpreso consigo mesmo por não considerar mais aquele lugar como um lar. Sua casa agora era o território do seu alpha e não aquela edificação assombrada por lembranças, nem todas elas muito boas.

- Abe? - ele perguntou, abrindo a porta da frente devagar. Não houve resposta.

Um cheiro de comida azeda invadiu o seu nariz e ele afastou com o pé um prato sujo. Nada parecia estar no lugar. Móveis e objetos haviam sido quebrados e revirados, um espelho grande que Ariana costumava usar pra se admirar estava estilhaçado e seus pedaços espalhados pelo chão. Olhando em volta, Albus localizou marcas de tiros nas paredes e uma estante inteira derrubada no chão. As janelas da casa estavam todas fechadas e as persianas abaixadas e se Albus não soubesse que seu irmão estava ali, talvez até pensasse que a casa estava abandonada há tempos.

- Abe? - Albus perguntou novamente, atravessando o vestíbulo até chegar na sala.

Aberforth estava sentado de costas para ele numa poltrona surrada. Albus avançou mais alguns passos na direção dele, cauteloso, não querendo assustá-lo.

- Aí está você, Albus. - a voz rouca do seu irmão  se fez ouvir, sombria - Você não poderia deixar de vir, não é mesmo?

- De fato. - Albus respondeu, suavemente - Você é meu irmão.

Aberforth deixou o ar escapar pelo nariz ruidosamente:

- Não perca seu precioso tempo, meu querido irmão… nada do que você me disser mudará coisa alguma. O que está feito, está feito.

- Não vim aqui para fazer você mudar nada.

- Imagino que não. - Aberforth respondeu, sombrio - Ainda assim, você não poderia deixar de vir repetir tudo que eu já sei há tempos… - ele riu sozinho, parecendo debochar de si mesmo - você precisa apontar seu dedo para a minha cara e gritar todas as minhas falhas. Me julgar…

- Julgar? Mas eu…

- Você não sabe, Albus… não consegue imaginar o que é. Num dia, você é feliz, acostumado a ter tudo, afinal de contas, você é um alpha, você é rico, você tem a vida toda pela frente e todos os direitos e privilégios para escolher o caminho que quiser. No outro dia, o mundo desaba sobre a sua cabeça, sobre as suas costas… e você se vê completamente sozinho e responsável por uma fazenda e três ômegas!

- Abe…

- Eu… eu não estava preparado, você precisa entender de uma vez por todas! Mas ainda assim, me dispus a carregar um fardo que eu não escolhi. E acredite, por favor, acredite, que eu quis fazer o meu melhor. Mais do que qualquer coisa, Albus, eu quis acertar.

E Aberforth deu uma risada amarga antes de continuar:

- Eu, com medo de errar, errei tudo.

- Você não…

- Mas você já sabe disso, não é mesmo? - Aberforth levantou-se dolorosamente da poltrona, virando o corpo na sua direção.

Albus não conteve uma exclamação de puro assombro. Aberforth parecia outra pessoa. Magro como nunca, sua barba parecia muito comprida e suja, suas roupas estavam amarrotadas e manchadas, seus olhos mal podiam ser vistos por detrás do par de lentes embaçadas dos óculos, os cabelos vermelhos despenteados eram opacos e sem vida. Em uma das mãos, segurava uma garrafa de uísque, na outra, um revólver.

- Todos os dias você vem aqui ouvir as mesmas coisas. - Aberforth continuou - O que mais você quer de mim? O que quer que eu te conte?

- O que você quer me contar, Abe? - Albus perguntou - O que, exatamente, tem te atormentado tanto?

- Você já sabe. - Aberforth respondeu, como se implorasse para ser poupado de toda aquela conversa.

- Quero ouvir de você. - Albus retrucou, sem mover um único músculo.

- Você quer que eu me desculpe por não ter cumprido a maldita promessa que fiz ao nosso pai, isso sim! - Aberforth retrucou, agressivo - Mas ele se preocupou mais com uma vingança do que comigo, por que eu deveria me preocupar com ele, ou mesmo com as promessas que eu fiz a ele? Eu não vou me desculpar, Albus! Não vou me desculpar por tentar proteger você! Por te dar um casamento de fazer inveja a qualquer ômega com o Alpha mais rico e poderoso da região!

- Eu não preciso das suas desculpas. - Albus falou, muito calmo, mas franzindo as sobrancelhas - Mas, por favor, só não diga que me obrigou a casar contra a minha vontade para me proteger.

- Ah, não?! - Aberforth perguntou, indignado - Ah! Como sempre você sabe mais do que mim mesmo! - debochou, rindo forçado - Neste caso, se incomoda de me dizer quais seriam os meus motivos?

- Dinheiro. - Albus respondeu - E também para me punir.

- Dinheiro… dinheiro… - Aberforth falou - Oh, sim, o dinheiro ajudou bastante. Mas… te punir? Te punir pelo quê, Albus?

Albus fechou os olhos, odiando todo aquele assunto:

- Pelo o que aconteceu com Ariana… - ele respondeu, fracamente.

Aberforth olhou para Albus por alguns segundos antes de levar a garrafa à boca e beber longos goles pelo gargalo:

- Ah, Albus… você realmente me obriga a repetir sempre as mesmas coisas todos os dias, não é mesmo? Você não vai se cansar até a minha voz secar, a minha língua cair.

Albus abriu a boca para responder, mas seu irmão não permitiu que ele dissesse coisa alguma.

- Não, não, não! Eu sei o que vocês querem de verdade! Vocês querem que eu meta uma bala na minha cabeça! - ele cuspiu, agressivo - É assim que vocês querem que eu pague por um único tiro que eu dei para cima - e ele apontou seu revólver para o teto, de repente parecendo um maníaco.

- Abe, se acalme, por favor. - Albus pediu,  preocupado - Quem são vocês? Estamos só nós dois aqui! E do que você está falando? Eu não entendendo.

- Ah, é mesmo! Você não pode vê-la. - Aberforth falou, em tom de compreensão - É que ela vem do Céu e você do Inferno! Então você não pode ver.

- Ver quem?

- Ah, se ao menos você pudesse ver! - Aberforth falou, sua voz trêmula pelas lágrimas - Ela é linda, Albus, como uma divindade! E está sempre aqui, sempre comigo. Ao contrário de você, ela nunca me abandonou! Nunca!

- Você está falando da…

- … mas ela nunca sorri. - Aberforth o interrompeu, continuando  a falar como se não ele não estivesse ali de verdade - Me olha com aqueles olhos lindos… tão lindos… mas tristes! Tristes! Acho que ela pensa que o culpado fui eu, mas não foi, Albus, foi você! E é por isso que você tá queimando no Inferno agora! - ele grunhiu, andando em círculos pela sala - Você tenta vir atrás de mim para me levar junto com você, mas eu não deixo! A culpa foi toda sua!

Albus olhou para Aberforth por longos segundos, seu cérebro trabalhando rápido para encaixar todas as peças embaralhadas que seu irmão lhe oferecia no lugar.

- O estampido que assustou o cavalo…

- Eu não tinha como adivinhar! - Aberforth esbravejou! - Se você não tivesse deixado ela montar naquele cavalo… se seu marido não tivesse se metido a espiar… nada disso teria acontecido!

- Meu marido? O que Gellert tem a ver com tudo isso? - Albus perguntou, confuso - Ele veio espiar o quê?

- Você sabe!- Aberforth retrucou, impaciente - Eu só dei aquele tiro porque ouvi alguém se aproximar bem quando estava mudando aquela maldita cerca de lugar… depois o imbecil do Vogel me disse era o Grindelwald que queria ver o que estava acontecendo e ele não podia descobrir, não podia!

- Descobrir o quê? - Albus perguntou, cada vez mais assombrado como tudo o que ouvia.

- Ai, para de fingir que você não sabe! - Aberforth falou, exasperado - Eu já te contei tantas vezes dessa cerca! A cerca que eu avancei para a propriedade dos Grindelwald…

Albus abriu a boca de espanto.

- Você avançou a cerca? Co… como? E o Vogel sabia?

- Se ele sabia? - Aberforth riu - É claro que ele sabia!

E então Albus se lembrou do que Vogel havia dito sobre a promessa de Aberforth de entregá-lo a ele. Assombrado, ele se deu conta de que Vogel estava mesmo falando a verdade.

- Você me vendeu! - Albus o acusou, seus olhos cheios de ira - Duas vezes!

- Sim, sim… é assim mesmo que você me olha todos os dias... - Aberforth falou muito baixo, como se até estivesse com medo - Com estes seus olhos terríveis, que parecem arrancar a alma da gente! O que você queria? Que eu te entregasse para aquele monte de lixo? Você não vê, Albus? Eu te salvei!

- Me salvou?! - os olhos de Albus estavam enevoados por pura indignação - Você só me vendeu pelo preço maior!

- Eu só quis o melhor para você!

- Se isso fosse mesmo verdade, você teria me deixado continuar meus estudos, do jeito que eu queria.

- Eu precisava da sua ajuda para educar a Ariana!

- Você deveria ter deixado ela estudar na mesma escola que eu estudei e não em casa. Como o meu pai fez comigo!

Aberforth trincou os dentes, irritado com a crítica, indignado por Albus não ser capaz de entender uma coisa tão simples:

- Eu precisava protegê-la! Você já estava perdido por causa das loucuras do nosso pai. Ela não… com ela, eu precisava fazer tudo direito! Porque ela merecia ser feliz…

- Você e sua ideia distorcida de felicidade…

- Um alpha sabe o melhor para os seus ômegas! - Aberforth respondeu, orgulhoso.

- Você só pode estar louco se pensa que sabe de alguma coisa sobre o que seria melhor para mim ou para Ariana. - Albus retrucou.

Os ombros de Aberforth se encolheram
por alguns instantes e seus olhos pousaram nos dele, rutilantes, pela primeira vez parecendo lúcidos.

- Não me diga que você não é feliz, Albus! - Aberforth falou, parecendo até perturbado - Não me diga que ele não cumpre sua função de alpha?!

E antes que Albus pudesse responder, Aberforth largou a garrafa no chão e avançou em passos largos na sua direção, arrancando rispidamente o lenço que ele mantinha em volta do pescoço.

- Mas que diabos?! - Aberforth falou, sua mão áspera tocando o pescoço de Albus sem qualquer delicadeza - Ele sequer te marcou?!

- Isso não tem importância…

- Como não tem? A sua função sagrada…

- Ah, pare com isso! - Albus o interrompeu, impaciente - Você não vai me convencer que isso te importa.

- É claro que eu me importo! Eu sempre quis ver você e Ariana felizes e bem casados.

- Você quis se livrar de nós dois, isso sim!

- Isso não é verdade. Eu só fiz… escolhas erradas!

O olhar de Albus tornou-se ainda mais frio:

- É verdade! Você errou em tudo. Absolutamente tudo! - e com um gesto de puro desprezo, adicionou - Eu tenho nojo de você!

Se Aberforth tivesse levado um soco no nariz, talvez tivesse doído menos. Parecendo alucinado pela mistura de dor e culpa que estava sentindo, sua mão livre puxou Albus pela túnica, encostando o cano do seu revólver em seu peito.

- Ainda dá tempo de consertar! - ele falou, duas lágrimas deslizando pelo seu rosto - Eu mato você e depois me mato. O que você acha, Albus? - e ele deu uma risada enlouquecida - E nós três ficaremos juntos novamente! O que você acha? O que você acha?

Dumbledore abriu a boca, de repente se sentindo incapaz até de respirar. Por alguns segundos, ele pensou em Gellert e no que ele sentiria tivesse tido tempo de marcá-lo e os dois já estivessem ligados. Sem ser capaz de dizer qualquer coisa, Albus respirou fundo e esperou sem saber exatamente pelo quê.

Por longos instantes, nenhum dos dois falou e nada se moveu, parecia até que o tempo havia parado. O cano do revólver grudado no peito de Albus, o olhar dos dois irmãos fixado um no outro.

Até o barulho de um tiro cortar o silêncio.

----- CHAPTER BREAK -----

Henrietta Fischer era uma das funcionárias mais antigas da fazenda. Mais velha do que o próprio Vogel, ela era responsável pela limpeza da casa grande e de todos os dormitórios dos empregados. Muito calada e de personalidade introvertida, Abernathy podia contar nos dedos das mãos o número de vezes em que os dois haviam conversado, todas elas sobre questões estritamente relativas ao trabalho.

Havia uma pessoa, contudo, que Henrietta gostava de conversar bastante.

Anton Vogel.

Com Vogel, Henrietta era simplesmente adorável. Disposta a agradar, ela sempre o recebia com um sorriso e se mostrava disposta a atender cada um de seus pedidos

Abernathy, no início, achava que a preferência tinha alguma relação com o fato de eles terem a mesma idade, mas, ao compartilhar sua opinião com seus colegas, eles logo riram e explicaram que Henrietta e Vogel, na verdade, tinham um caso há muitos anos.

- Sempre achei que ele não gostasse muito de betas. - Abernathy pensou alto.

- Claro que não gosta. - um dos seus colegas de trabalho, Zabini, comentou - Mas que mal faz em se divertir um pouco?

- Ela nem é bonita… - um outro colega, McDuff, comentou, fazendo cara feia.

- Para o que ele quer, ela não precisava nem ter cabeça, né? - Krafft riu da própria piada, enquanto se defendia de pequenos objetos jogados pelos colegas de todas as partes.

- Ela parece gostar dele… - Abernathy comentou, distraído, enquanto refazia um laço num pedaço de corda.

- Claro, né? Afinal de contas, não é qualquer dia que um alpha dá trela para uma beta como ela, né? - Krafft deu uma risada, e quando os betas presentes começaram a tacar coisas mais pesadas nele, emendou - Nada contra betas, pessoal, eu até já namorei alguns!

Quando Vogel foi demitido, Abernathy achou que Henrietta ficaria muito triste e até um pouco ressentida com ele por ter tomado o seu lugar, mas, para sua surpresa, isso não aconteceu. Pelo contrário, ela passou a suspirar pelos cantos, desleixada no trabalho, sempre distraída, como se contasse os segundos para cumprir sua carga horária, chegando até a pedir para ser liberada mais cedo.

Mas na terceira vez em que ela pediu para sair antes do horário, Abernathy se viu na obrigação de perguntar gentilmente quais seriam os seus motivos.

- É minha irmã, senhor. Está muito doente! - ela se justificou - Preciso levar algo para ela comer.

- Sinto muito por isso… - Abernathy perguntou - Tudo bem… Se você já terminou a limpeza, acho que já pode ir cuidar dela.

- Ah, muito obrigada. O senhor é mesmo muito bondoso! - e ela parecia tão feliz e grata que Abernathy ficou até um pouco constrangido.

- Abernathy! Chegou carregamento! - Zabini se aproximou com um óculos de leitura encaixado na ponta do nariz e uma coleção de faturas presas numa prancheta.

- Ah, já vou! - Abernathy respondeu antes de se voltar rapidamente para Henrietta uma despedida - Melhoras pra sua irmã.

- A Fischer tá saindo mais cedo de novo, é? - Zabini comentou, maldoso, quando a viu se afastar a passos rápidos - Vida boa…

- A irmã dela está doente… - Abernathy respondeu, já puxando a prancheta do colega.

Zabini deu uma risadinha:

- Como se ela tivesse irmã…

Abernathy levantou os olhos da fatura imediatamente:

- Como é que é?

- Ih, acho que falei demais. - Zabini lamentou - Vivo me esquecendo que agora você também é patrão. Faz de conta que não ouviu isso, ok?

- Não faço não. - Abernathy franziu as sobrancelhas, aborrecido - Você tem certeza que ela não tem irmã?

- Não tem irmã, não tem irmão, não tem ninguém. A mãe morreu no parto e o pai deixou ela com a avó e caiu fora. - Zabini explicou - Eu sei porque ela morava na rua ao lado da minha. E as outras crianças… bem, elas costumavam se aproveitar do fato de ela não ter ninguém disposto a defendê-la… onde você vai? E as faturas?

- Confere para mim, Zabini. Eu assino depois. - Abernathy falou apressado.

Por sorte, ele havia usado seu cavalo, Beta, para fazer a ronda pela fazenda pela manhã junto com outros companheiros e ele ainda estava selado.

Foi fácil achar o rastro de Henrietta, ela havia tomado emprestado um cavalo muito velho, que andava bem devagar, muito diferente do cavalo de Abernathy, que era pequeno, ágil e esperto. Sem fazer barulho, ele a seguiu a distância por vários minutos, se surpreendendo quando ela atravessou por uma falha na cerca e invadiu a propriedade vizinha, pertencente aos Dumbledore.

Mais alguns minutos cavalgando pela mata fechada e Henrietta finalmente apeou junto a uma cabana que Abernathy calculou ser muito próxima da casa grande. Pelo nível do abandono, provavelmente ela havia servido como depósito ou algo do tipo, para depois ser desativada e esquecida.

Abernathy esperou pacientemente até que Henrietta entrasse na cabana para desmontar e se aproximar, sorrateiro, até a janela.

Ao olhar pelo vidro sujo e embaçado, nenhuma surpresa: como ele já esperava, lá estava Vogel, sentado numa cama improvisada, fazendo uma cara muito feia enquanto Henrietta trocava o curativo do seu braço.

- Ele deve entrar no cio em breve. - Abernathy a ouviu comentar ao colar o ouvido na fresta aberta da janela - O Sr. Grindelwald até se distanciou para não correr o risco de cruzar antes do tempo e o cio atrasar.

- Não tenho muito tempo então. - Vogel rebateu.

- Você ainda não se recuperou totalmente! - Henrietta argumentou enquanto enfaixava o seu braço - Por que não esquece tudo isso? O ômega vai ser marcado, não há mais o que fazer…

E ela não pôde mais falar porque a mão de Vogel apertou sua mandíbula com muita força, enquanto ele dizia num tom que só podia ser chamado de ameaçador:

- Cala a sua boca, Henrietta! Você não sabe de nada!

Ela gemeu e se debateu na sua mão por alguns segundos, mas Vogel não manteve o aperto por muito tempo.

- Você corre atrás dele, mas quem faz tudo por você sou eu! - ela choramingou, massageando a mandíbula assim que Vogel a soltou.

A face de Vogel pareceu se suavizar ao ouvir aquilo e ele até acariciou seu rosto, carinhoso:

- Eu sei disso muito bem, minha querida… e não pense que eu vou atrás do Albus para ter alguma coisa com ele, não, senhora! Tudo o que eu quero agora é vingança! Que ele e
Gellert paguem por tudo o que me fizeram.

- E depois que você conseguir sua vingança, o que vai fazer?

Vogel sorriu:

- Você me ajudou muito, Henrietta, não pense que eu não sei reconhecer isso. E agora que, graças a você, eu posso concluir a minha vingança, nós dois vamos fugir juntos para bem longe, pelo menos até as coisas esfriarem. E ninguém nunca vai conseguir nos encontrar.

- Promete? - ela perguntou, seus olhos brilhando de ansiedade.

- Eu mentiria para você? - Vogel perguntou em tom de reprimenda, tocando a ponta do nariz dela com o dedo.

Achando que já havia escutado o suficiente, Abernathy bateu a mão na cintura, em busca do seu revólver, somente para descobrir que não estava com ele. Aborrecido, o beta deu dois passos atrás, praguejando baixinho ao tropeçar num balde de plástico quebrado e quase cair no chão. Recuperado o equilíbrio, correu até o seu cavalo e partiu dali, disposto a avisar seu patrão o mais rápido possível.

Abernathy já havia se afastado bastante da cabana quando, para sua surpresa, uma explosão de dor tomou conta de todos os seus sentidos. Desnorteado, olhou para o próprio ombro e abriu a boca de horror ao ver que ele havia se transformado numa grande flor de carne viva e sangue.

E foi precisamente esta flor da morte a última visão de Abernathy antes de tudo se escurecer e ele cair, desacordado, sobre seu cavalo.

Ao ver aquela cena, Vogel praguejou baixinho, baixando a arma. Era especialmente difícil dar um tiro certeiro com o braço trocado.

- Quer que eu vá atrás dele? - Henrietta perguntou.

- Não é preciso… - Vogel respondeu, muito tranquilo - Logo, logo ele cai do cavalo ou o bicho se perde por aí enquanto ele sangra até morrer.

- É mesmo uma pena que isso tenha acontecido. - Henrietta lamentou - Eu gostava… gostava dele.

Vogel segurou o braço machucado:

- É só mais um beta. - comentou, fazendo os ombros de Henrietta se encolherem, antes de dar as costas e entrar novamente na cabana - Venha, vamos embora daqui. 
  
No preciso instante em que Aberforth ia puxar o gatilho, o barulho de um tiro muito próximo o assustou e fez a mão de Aberforth tremer:

- Escutou isso? - ele perguntou, nervoso.

- Sim. - Albus respondeu, virando a cabeça para trás - Bem perto daqui.

- Alguém deu um tiro! Alguém deu um tiro para cima! - ele falou, trêmulo, dando um passo para trás - Oh, meu Deus! O cavalo!  Vai assustar o cavalo! - a expressão de Aberforth de puro terror - Albus, faz alguma coisa, Albus! Ela vai morrer! Ela vai morrer! Ela vai morrer!

Aberforth se agachou, soluçando, com as mãos na cabeça, ainda segurando o revólver, agora apontado para cima. E Albus foi se aproximando devagar, com cuidado e, sem fazer qualquer barulho ou movimento brusco, se abaixou ao lado do irmão, envolvendo seu pulso com suavidade.

- Está tudo bem, Abe. - ele disse, suavemente.

- Não, você não entende! - Aberforth choramingou - O cavalo… aquele maldito cavalo…

- Não foi sua culpa. Foi uma fatalidade… - Albus se pegou repetindo as palavras consoladoras que Gellert havia dito a ele no cemitério, ao lado do túmulo de Ariana.

- Eu estraguei tudo! Destruí minha vida! - ele se queixou, só que agora num tom muito mais baixo, quase inaudível.

- Você ainda pode tentar consertar as coisas, Abe. - ele falou, suavemente. - Ainda dá tempo de consertar… mas não com o seu revólver, não dessa forma…

Aberforth apenas balançou a cabeça freneticamente, ainda olhando para baixo, como se a culpa o devorasse. Sem largar o seu pulso, Albus insistiu:

- Por muitos anos você carregou um peso grande demais… - falou - mas agora você está livre para recomeçar.

Aberforth levantou a cabeça, seus olhos azuis arregalados por detrás dos óculos:

- Mas a mamãe… Ariana… - Aberforth choramingou - … você…

- Tudo o que nós três queremos é te ver feliz. - Albus falou, suavemente, apertando um pouco mais o seu pulso, enquanto sua outra mão afrouxava os dedos de Aberforth e retirava a arma dele com cuidado.

Aberforth olhou para o irmão, com lágrimas ainda brilhando em seus olhos, e ele pareceu se perder no nada por alguns instantes, estremecendo antes de sussurrar, agora parecendo perfeitamente calmo:

- Ela está sorrindo para mim, Albus… eu juro! Ela está mesmo sorrindo para mim…
  
O cavalo branco de Gellert surgiu a distância, galopando ferozmente, bem a tempo de Albus dar as últimas instruções para Tina. O ômega não se alterou nem quando Gellert puxou as rédeas um pouco tarde, parando perto demais dele, enquanto levantava uma nuvem de poeira.

- Albus, você está bem? - ele perguntou, ofegante como se tivesse corrido junto com o cavalo.

- Estou sim. - Albus respondeu, muito tranquilo - Como sabia que eu estava aqui?

- Vinda me disse que você tinha partido com a Tina. Você tem certeza que está bem? Eu… eu estava com uma sensação horrível… e depois ouvi um tiro…

Albus sorriu, se perguntando se havia algum tipo de ligação entre eles, mesmo que seus lobos ainda não estivessem conectados.

- Vai ficar tudo bem agora. -  Albus respondeu - Aberforth não estava muito bem, mas agora está dormindo como um anjo. Nada como um bom banho e uma roupa limpa! O médico já deve estar chegando para cuidar dele.

Gellert olhou para o seu ômega, desconfiado:

- Ele tentou fazer alguma coisa com você, não foi?

Albus balançou a cabeça:

- Aberforth não pode fazer nada comigo. Eu não sou mais dele. - e abrindo um pequeno sorriso - Agora eu sou seu.

Gellert sorriu de volta para ele:

- Vamos para casa. 
  
Zabini finalmente havia acabado de conferir todas as faturas e, com um suspiro cansado, deixou os papéis de lado. Quando Vogel e Abernathy faziam aquele serviço, tudo parecia tão fácil, tão rápido… sentindo-se um pouco humilhado por demorar tantas horas fazendo com a calculadora o que aqueles dois resolviam com a cabeça, ele arquivou as faturas e deixou o galpão, cumprimentando colegas aqui e ali.

O sol começava a se pôr e Zabini se deixou admirar a paisagem avermelhada por alguns segundos, satisfeito por sentir uma brisa suave e refrescante bater no seu rosto. Mas sua atenção foi logo desviada ao ver o cavalo de Abernathy surgir a distância, andando devagar na direção dos estábulos. A princípio, ele até pensou que o animal estava sozinho, mas logo viu que Abernathy estava debruçado nele, parecendo adormecido.

- Êh, companheiro… que dureza, hein? Agora deu para dormir até em cima do cavalo?! - ele falou, animado, quando o animal finalmente chegou mais perto dele.

Zabini precisou de alguns segundos para perceber que a listra vermelha que descia pelo lado esquerdo do cavalo  de Abernathy não era um reflexo do sol.

- Merda! Alguém ajuda aqui! - ele berrou - o Abernathy tá ferido!!

Ao chegarem na fazenda, poucos minutos depois, Albus e Gellert encontraram uma enorme comoção, ambos surpresos ao ver quase todos os trabalhadores da fazenda debruçados em volta de alguma coisa, parecendo falar ao mesmo tempo:

- Ai, meu Deus do Céu!

- Rápido! Pressiona a ferida!

- Como esse pano sujo não, seu idiota! Usa isso aqui!

- Alguém chamou uma ambulância?

- Levanta os pés dele, levanta os pés dele!

- Alguém pega um cobertor? Ele tá tremendo!

- Ih, acho que ele não vai sair dessa não…

- Cala a boca, Kraft, cadê a merda ambulância?!

Percebendo que alguma coisa muito séria havia acontecido, eles desmontaram rapidamente e correram naquela direção, bem a tempo de interpelar Zabini, quando ele surgiu no meio do grupo, parecendo abatido e cansado.

- O que está acontecendo aqui? - Gellert perguntou.

- Patrão, isso não é visão muito bonita para ômega não. - Zabini falou, olhando na direção de Albus. Só aí o ruivo percebeu que suas duas mãos estavam sujas de sangue até o antebraço.

-  Não se preocupe comigo. - Albus se apressou a falar - Quem se machucou?

- Foi o Abernathy. - Zabini comentou - Alguém meteu um balaço nele…  e a coisa tá bem feia.

- O Abernathy? O que aconteceu? -  Gellert perguntou, tentando esticar o pescoço para vê-lo, sem sucesso - Chamaram o resgate?

- Eu chamei! - Vinda surgiu por detrás deles, vinda da Casa Grande - Chega em dez minutos.

- Quem foi que fez isso com ele? - Gellert perguntou, olhando na direção da aglomeração.

- Ninguém sabe… - Zabini respondeu - ele chegou desacordado em cima do cavalo.

- Pelo visto encontrou alguém pelo caminho. - Gellert comentou.

- Não é preciso muito esforço para imaginar quem foi esse alguém. - Albus completou, sombrio.

- Alguém sabe para onde ele tinha ido? - Gellert perguntou, intrigado - o Abernathy tava fazendo a ronda?

- Não, senhor. - Zabini respondeu - ele descobriu que a Fischer tava mentindo para sair mais cedo do trabalho e foi atrás dela. Voltou nesse estado aí.

- E onde está a Fischer?

- Não faço a menor ideia.

- Procurem. - Gellert ordenou - Algo me diz que, se acharmos ela, também achamos o Vogel.

- É pra já, patrão!

A ambulância chegou em menos de dez minutos e Abernathy foi cuidadosamente instalado dentro dela pelos paramédicos.

- Eu vou com ele na ambulância. - Gellert avisou antes que fechassem as portas do veículo.

- Me deixa ir com você? - Albus perguntou, segurando a sua mão.

- Não, Albus, é perigoso. Vogel pode tentar ir até o hospital para terminar o serviço. Quero você em casa, seguro. Dei ordens para montarem guarda na porta.

- Mas Gellert… e você?

- Eu vou ficar bem. - e apontando o indicador na direção do ômega - Peça para Vinda te arrumar um revólver.

Albus teve vontade de rir ao pensar no quão maluco um dia pode ser para, por motivos completamente diferentes, duas pessoas acharem que ele deveria estar com uma arma.

Quando Gellert procurou a delegacia para fazer o registro dos últimos acontecimentos, foi surpreendido com a notícia de que o novo delegado, recém-promovido após a aposentadoria do antigo, não era exatamente o seu melhor amigo.

Mas, ainda assim Theseus lhe deu toda a atenção e respeito que um Grindelwald merecia e, após ouvir seu relato e registrar a ocorrência pessoalmente, revirou alguns gavetões de metal a procura de um arquivo, para então jogá-lo em sua mesa, bem na frente de Gellert.

- Te apresento Anton Vogel. - o delegado falou, cruzando os braços enquanto esperava o outro alpha analisar o conteúdo do arquivo - Ao que parece, ele já era procurado por vários crimes no país dele antes mesmo de vir se estabelecer aqui.

Gellert não conseguia crer no que seus olhos viam. Eram vários registros, quase todos de crimes violentos, que incluíam até algumas denúncias de assédio contra ômegas.

- Eu nunca imaginei… - Gellert comentou, estarrecido. Era como se aquele homem fosse outra pessoa e não o Vogel que tanto ele quanto o seu pai haviam confiado tanto.

- Não se culpe. - Theseus comentou - Eu também sempre o considerei um sujeito decente até o dia em que ele tentou invadir a minha casa às suas ordens. Só quando eu o vi usar a voz de alpha num ômega que não pertencia a ele é que me dei conta que o sujeito não prestava…

- Espera um pouquinho… - Gellert o interrompeu - Eu nunca dei ordens para o Anton ir até a sua casa!

- Não foi o que ele disse quando veio atrás do seu ômega. - Theseus respondeu - E confesso que o meu respeito pelo senhor não melhorou muito depois que fui forçado a puxar uma arma para o seu empregado no meu próprio território.

Gellert já imaginava quando aquilo havia acontecido. No dia em que Albus havia fugido da consulta médica para ir até o cemitério visitar sua irmã. O que ele só agora estava percebendo era o perigo que Albus havia corrido naquele dia. Quanto ao respeito que Theseus tinha por ele… bem… nada poderia importar menos.

- Eu não dei ordens para o Anton vir atrás de ninguém, muito menos para usar a voz no ômega dos outros. - Gellert assegurou.

Theseus deu de ombros:

- De qualquer forma, aquele dia foi um divisor de águas para mim. - Theseus comentou - ver meu irmão com tanto medo de Vogel matar os animais dele me fez pensar que talvez aquela não fosse a primeira vez que ele tinha feito alguma coisa contra o Newt…

- … o ataque à clínica… - Gellert comentou, brandamente - Albus tinha razão quando suspeitou dele…

- Exato… Newt estava tão apavorado que não quis me contar nada a princípio. Mas, depois daquele dia, eu fiz ele me confessar tudo. Desde então eu tenho investigado o seu empregado…

- E o desgraçado ainda está rondando por ali, tenho certeza! - Gellert grunhiu - Um dos meus empregados está entre a vida e a morte por causa desse sujeito!

- Não por muito tempo. - Theseus garantiu - Vogel até já tem mandado de prisão expedido contra ele, tudo que eu preciso fazer é ir até lá com alguns homens e encontrá-lo.

- Faça isso, por favor. Se for possível, amanhã mesmo. - Gellert pediu, mal conseguindo conter um rosnado irritado - Porque se ele chegar perto do meu ômega de novo, eu juro que acabo com a raça dele!

Já era tão tarde da noite quando Gellert voltou para casa, que ele chegou a pensar que não encontraria Albus de pé, mas o
 doce perfume que sentiu ao atravessar o vestíbulo disse a ele que não, Albus não havia se recolhido ainda. Gellert pendurou seu chapéu e seu casaco e caminhou até a sala, onde o encontrou, acompanhado de Vinda.

- Como está o Abernathy? - Albus perguntou, colocando o livro no colo assim que o viu chegar.

- Bem mal. Perdeu sangue demais. - Gellert respondeu - Mas, se passar dessa noite, acho que tem chances. Deixei o Zabini de guarda.

- Ele vai conseguir! - Albus falou, esperançoso.

- E aqui? - Gellert perguntou - Como foram as coisas?

- Pegamos a Fischer. - Vinda tomou a palavra - Ela voltou para cá com as próprias pernas, provavelmente pensando que Abernathy estava morto e que não desconfiávamos dela.

- Ela abriu a boca?

- Até abriu. Disse que cuidou de Vogel numa cabana abandonada dentro da fazenda dos Dumbledore.

- Meu pai gostava muito de se isolar lá para trabalhar. Eram onde os livros da fazenda costumavam ficar - Albus explicou - Mas depois que ele morreu, Aberforth esvaziou a cabana e nunca mais quis voltar a pisar lá.

- Vogel uma vez me disse que prestou alguns serviços de contabilidade para o seu pai, num tempo em que ele estava precisando de dinheiro. Deve ser por isso que ele conhecia aquele lugar. - Gellert opinou, coçando o queixo - Mas, e aí? Conseguiram achar alguma coisa?

- Nada. - Vinda respondeu, desanimada - Fomos até lá, mas só achamos algumas bandagens ensanguentadas e muita poeira.

- Merda! - Gellert xingou - Não quero esse cara rondando por essas bandas! Passei na delegacia antes de vir para cá. Theseus vem aqui amanhã para ajudar nas buscas. Descobri que ele já está sendo investigado por depredar o consultório do Dr. Scamander.

Vinda soltou um suspiro, levantando-se do sofá aonde estava sentada.

- Se o senhor não precisar de mim, acho que vou me recolher. - ela falou - Foi um dia puxado para todos nós …

- Pode ir, Vinda. Obrigado. - Gellert respondeu.

Tanto Albus quanto Gellert observaram em silêncio enquanto Vinda se afastava devagar, na direção dos seus aposentos.

- Bom, eu acho que também vou dormir. - Gellert falou, assim se viu sozinho com Albus - Ou tentar. O colchão do quartinho é tão ruim que fez ter saudades até do chão do meu quarto. Boa noite, Albus…

- Gellert… - o ômega o chamou, mal ele havia dado as costas.

O alpha se virou, cheirando o ar por puro instinto e fechando os olhos ao sentir o aroma. Só então ele olhou na direção do ômega. Albus deixou seu livro de lado e levantou-se do sofá, olhando para ele intensamente.

- Fica comigo. - Albus pediu - Por favor.

Gellert respirou fundo:

- Albus… se eu ficar com você esta noite…

- Não vamos fazer nada! - Albus o interrompeu - Só… ficar juntos…

Gellert olhou para Albus por alguns segundos, hesitante, sem ter certeza se aquela era a decisão mais correta. Mas Albus parecia tão frágil e vulnerável que ele não encontrou forças para dizer não. Assentindo brevemente com a cabeça, ele sorriu ao ver os olhos do ômega cintilarem num tom mais brilhante de azul antes de ele estender a mão na sua direção.

Subiram as escadas devagar, de mãos dadas, caminhando devagar até o quarto.

- Como está seu irmão? - Gellert perguntou mais para se distrair do olhar intenso de Albus do que propriamente por se preocupar.

- Melhor… mais tranquilo. O médico o examinou, receitou alguns remédios… - Albus deixou escapar um suspiro cansado - talvez leve algum tempo para ele ficar realmente bem.

Gellert olhou para Albus por alguns segundos, intrigado:

- Você parece abatido…

- Foi… um dia difícil. - Albus respondeu, sentando-se na beirada da cama - Tudo o que aconteceu com Abernathy, com o meu irmão e…

- E… - Gellert o incentivou a completar a frase, enquanto se sentava ao lado dele e segurava sua mão.

- E também a proximidade do cio…

Sem conseguir resistir, Gellert se inclinou na direção de Albus e cheirou seu pescoço, fazendo o ômega estremecer:

- Cada vez melhor… cada vez mais forte… - o alpha confessou em meio a um suspiro - Mal posso esperar…

Albus gostaria de poder dizer que também estava ansioso por aquele momento, mas viu-se incapaz. Seus dedos compridos se embrenharam pelos cabelos dourados do alpha e uma mistura insólita de medo e ansiedade dominou seu coração.

- O cio não é um momento exatamente fácil para um ômega. - Albus explicou - Os meus sempre foram um pouco… intensos. Assustadores… até dolorosos.

Gellert olhou para Albus por alguns segundos, descobrindo nos seus olhos azuis um mar de insegurança e vulnerabilidade. E então seus dedos buscaram o rosto do ômega numa carícia suave.

- Desta vez será diferente. - garantiu - Você estará comigo. E quando o seu lobo finalmente despertar, o meu estará a sua espera. Eu vou cuidar de você.

Albus sorriu e assentiu com a cabeça em concordância, antes de pedir:

- Me abraça?

Gellert retribuiu o sorriso e envolveu o corpo esguio de Albus em seus braços, beijando seus cabelos delicadamente. Ainda abraçados, os dois se deitaram na cama, sendo embalados pelo cheiro um do outro. Sentindo as mãos de Albus descansarem no seu peito, Gellert fechou os olhos, experimentando uma sensação de relaxamento única, que só o seu doce ômega podia lhe proporcionar.
Envolvido pelos braços de Gellert, Albus sentia-se feliz e protegido, como se nada no mundo pudesse atingi-lo e seu corpo ficou mole quando o sono e a exaustão finalmente dominaram todos os seus sentidos. Era como se o lobo dentro de si reagisse à proximidade com o lobo de Gellert.

Adormeceram daquele jeito mesmo, ainda de roupa e com as luzes acesas.
  
Gellert foi o primeiro a acordar. Sentindo o braço dormente por haver aconchegado a cabeça de Albus durante toda a noite, ele se afastou devagar para não despertar seu companheiro e, após admirar sua beleza por alguns instantes, caminhou até o banheiro.

Tomou uma longa chuveirada, deixando seu corpo relaxar embaixo da água morna, já prevendo ter que enfrentar outro dia complicado. Depois de receber a visita de Theseus e coordenar as buscas por Vogel, ele ainda teria que ir até o hospital para acompanhar o estado de saúde de Abernathy. E tudo isso sem se descuidar de Albus.

Perdido em todo tipo de pensamentos, Gellert vestiu seu roupão azul escuro e saiu do banheiro e o cheiro intenso do ômega invadiu suas narinas como uma tortura, forçando-o a olhar na direção da cama, em busca da visão de Albus adormecido.

Mas, para sua surpresa, encontrou Albus muito acordado e quieto, sentado na cama como um cachorro faria, olhando para o nada.

- Já acordou? - Gellert perguntou, só para ser alvejado por um par de olhos rutilantes, quase selvagens - Está… tudo bem?

Ao invés de responder, Albus se levantou de um pulo da cama e se fechou no banheiro, batendo a porta atrás de si. Gellert apenas olhou para a porta fechada por alguns segundos, piscando, confuso, antes de desistir de entender e abrir o armário atrás de uma roupa para usar.

O barulho da água caindo do chuveiro se seguiu ao de um gemido estranho, muito parecido com um ganido, e Gellert se aproximou da porta, já começando a ficar preocupado com o que pudesse estar acontecendo com Albus.
Mais alguns instantes e o barulho de água cessou, restando apenas um longo silêncio durante o qual Gellert até pensou em perguntar se estava tudo bem, mas achou melhor esperar um pouco. Se afastando novamente para escolher a roupa que iria usar quando ouviu Albus choramingar novamente no banheiro.

- Albus? - bateu na porta, preocupado - Tá tudo bem?

- Tá… tá tudo bem… - a resposta veio do outro lado da porta num tom que deixava claro que não estava nada bem.

Mais sons baixos denunciando que Albus estava sentindo algum tipo de dor, alguma coisa.

- Albus? - Gellert insistiu - O que está acontecendo?

- Eu… eu não sei.

- Abre a porta?

Um segundo de silêncio se seguiu.

- Não posso.

- Pode sim. Abre. Eu vou te ajudar.

Um barulho lento de passos e a porta foi destrancada. Antes mesmo de Albus surgir, ofegante, enfiado no seu roupão branco, um perfume único fez Gellert entender perfeitamente o que estava acontecendo. O cheiro um pouco diferente do cheiro gostoso que Gellert vinha sentindo nos últimos dias, ainda mais forte, mais intenso.

- Gellert… me ajuda… - Albus suplicou  - eu… eu não…

Gellert mal podia acreditar que seu ômega estava finalmente no cio. Isso significava que o lobo adormecido dentro dele estava despertando para buscar algum outro lobo digno dele para cruzar.

- Vem, deita aqui um pouco. - Gellert falou, segurando o seu braço firmemente para sustentá-lo e só aquele toque bastou para fazer Albus rosnar num sinal de que o lobo dentro dele já estava começando a acordar e reagir à sua presença.

Ainda era cedo, contudo.

Gellert aliviou um pouco o aperto para não provocar o lobo, ajudando Albus a andar, até ele se jogar na cama de barriga para baixo, se encolhendo o quanto podia, encapsulado na própria angústia. Gellert se inclinou na direção dele, afagando seus cabelos e deslizando a mão pelas suas costas numa carícia, mas foi surpreendido pela reação instintiva do ômega de inclinar os quadris para cima, na direção dele, gemendo alto, excitado.

Se oferecendo para ele.

Ao vê-lo daquele jeito, Gellert não conteve um rosnado muito lupino. De pé, ao lado da cama,  arrancou o próprio roupão com impaciência e afastou o de Albus apenas o suficiente para expor suas nádegas e abri-las com os dedos sem muita gentileza. O membro de Gellert latejou ao ver Albus totalmente exposto diante dele, e ele precisou respirar fundo, por muito pouco não perdendo a cabeça diante daquela visão tentadora.

- Gellert… - Albus choramingou, empinando o corpo na direção dele o quanto podia, se oferecendo ainda mais, implorando.

O alpha deixou escapar um grunhido, sentindo o lobo dentro dele reagir mais e mais ao cheiro atrativo que Albus exalava. Sem pensar muito, ele se curvou e o cheirou inteiro, fungando como um animal, antes de segurá-lo pelos quadris e puxá-lo com força para si, ouvindo um curto rosnado de ameaça como resposta.

Indiferente, o alpha manteve a mesma firmeza nos dedos ao segurar os quadris de Albus nas mãos, fazendo o ômega virar a cabeça na direção dele, ainda rosnando, e foi quando Gellert percebeu que seus olhos brilhavam numa tonalidade de azul um pouco diferente. Um azul especial que só os ômegas possuíam. Não havia dúvidas: o lobo em Albus estava completamente desperto. Curioso, Gellert esticou o pescoço na direção de um espelho de parede próximo e viu que seus próprios olhos também estavam começando a mudar de cor, o tom muito claro de azul ficando avermelhado.

Era o lobo dentro dele despertando sob a influência da proximidade de um ômega no cio.

Agora era o momento em que o lobo ômega, agora desperto, procurava um lobo digno dele, quando Gellert teria que provar ser um alpha poderoso e forte o bastante para dominá-lo e forçá-lo a se submeter.

Não seria fácil. O lobo dentro de Albus não parecia nada dócil. Pelo contrário.

Ainda segurando os quadris de Albus firmemente, Gellert olhou para aquele ômega de quatro na cama e o desejou como nunca.

- Você é meu! - falou com sua voz de alpha, exigente - Submeta-se a mim!

Albus deixou escapar um ganido, por segundos impactado com a voz de Gellert, mas logo se recuperou e nada disposto a se submeter, rosnou alto, fazendo de tudo para escapar das suas mãos. Mas o alpha rosnou de volta, pronto para penetrá-lo, apesar de Albus não permitir e se afastar ainda mais dele.

- Não adianta tentar escapar! - Gellert avisou, agressivo, trazendo-o de volta pelos cabelos - Não vou deixar nenhum outro lobo tocar em você! Eu sou o seu dono!

Mas ao invés de se submeter, Albus avançou nele e Gellert gritou ao ser mordido com força no braço. Irritado, o Alpha se atirou sobre ele e seguiu-se uma pequena batalha, onde os dois rolaram na cama, rosnando um para o outro. Gellert arrancou o roupão de Albus com impaciência e tentou deixá-lo de quatro para ele novamente, mas Albus não facilitava as coisas, empurrando-o para longe sempre que Gellert tentava imobilizá-lo.

Cada vez mais bravo, o lobo dentro de Gellert tentou puxá-lo novamente para si e Albus mordeu seu ombro, tentou sentar em cima dele, mas Albus arranhou seus braços para escapar.

Uma fera muito difícil de domar.

Reunindo todas as forças que tinha, Gellert grunhiu e segurou Albus, empurrando-o de costas para o colchão e deitando em cima dele. O ômega ainda conseguiu arranhar suas costas com as duas mãos antes de Gellert o imobilizar por completo, pressionando os dentes levemente contra o seu pescoço, exigindo que o lobo se submetesse a ele.

Albus se debateu mais um pouco, rosnando ameaças, mas Gellert não permitiu que ele se mexesse dali, se inclinando para falar no seu ouvido:

- Sinta o meu cheiro! - exigiu - É o cheiro do alpha que vai te dominar, que vai te cobrir!

Albus hesitou por alguns segundos antes de começar a cheirar o pescoço de Gellert como um animal faria, reconhecendo o cheiro do seu alpha. Aos poucos, enquanto fazia isso, um dos olhos de Albus voltou a adquirir a tonalidade original, mostrando que lobo e homem agora estavam juntos, ambos entregues e submissos a ele naquela cama. Ao ver aqueles olhos, Gellert  já sabia que seu ômega permitiria que ele o colocasse de quatro novamente e assim o fez.

Dominado o lobo, Albus agora parecia desejá-lo mais do que nunca e Gellert não tinha tempo a perder. Dois dos seus dedos o invadiram de uma só vez, fazendo o ômega gemer alto. Satisfeito por encontrá-lo deliciosamente úmido, como apenas um ômega no cio poderia ficar, Gellert deixou Albus ofegar e se esfregar nos seus dedos por um algum tempo, antes de começar a movimentá-los, entrando e saindo daquele corpo, devagar, até concluir que ele já estava pronto e retirar os dedos, causando algo muito parecido com um ganido doloroso de protesto.

- Gellert… por favor… - Albus implorou, virando a cabeça para trás, sua mão tentando buscar a dele em desespero, querendo sentir mais daqueles dedos.

Mas o alpha apenas afastou a mão do ômega e o puxou pelos quadris, pressionando seu membro muito inchado contra as nádegas dele:

- É isso que você quer, não é? - ele perguntou, sensual, fazendo as coxas de Albus tremerem de pura expectativa.

- Sim, sim, sim. Por favor! Eu quero tanto! Tanto! - Albus respondeu, fazendo força para trás, tentando a todo custo pelo menos se esfregar nele. Gellert deixou escapar um rosnado, seus dedos apertando os quadris de Albus para obrigá-lo a ficar parado.

Mas o ômega simplesmente não conseguia parar de se oferecer para ele.

Gellert então respirou fundo e, usando sua voz de alpha, ordenou:

- Parado, Albus! Não se mexa!

Mas mesmo estando sob o efeito autoritário daquela voz, o esforço que Albus fez para ficar imóvel era tão notável que Gellert o recompensou imediatamente, encostando só a ponta do seu membro na entrada úmida do ômega. Desesperado de desejo, Albus tentou empurrar os quadris na direção dele, mas Gellert o impediu, segurando-o com ainda mais firmeza.

- Gellert… por favor…

- Calma… devagar… devagar…

- Eu quero você! - implorou.

- Eu sei… shhhh… - Gellert acariciou suas costas - Eu também te quero. Muito! Muito! Mais do que tudo. Fica paradinho agora..

Albus obedeceu, muito dócil, puxando o ar para os pulmões nervosamente.

O alpha então fechou os olhos e deslizou para dentro dele, fazendo-o soltar um longo gemido de alívio. Mordendo o lábio, Gellert sentiu seu ômega muito úmido e apertado, absolutamente pronto para ser tomado por ele e,
a partir daquele exato momento, o cérebro humano de Gellert se esvaziou e o lobo tomou conta dele por completo.

E então, como bom alpha que era, Gellert uivou e meteu fundo, com força, selvagem, seu lado animal tomando conta de cada movimento, cada grunhido. Albus puxou os lençóis da cama, sem ser capaz sequer de pensar, recebendo o seu alpha e gemendo de prazer a cada investida, cada célula do seu corpo voltada para as estocadas firmes, desejando mais e mais sentir o corpo de Gellert  bater contra as suas nádegas, a cada vez que ele entrava. Era como se ele tivesse nascido para aquele momento, como se toda a sua existência se prestasse a pertencer àquele homem e se tornar um com ele. Gellert o sustentava pelos quadris, puxando-o para si a cada investida, querendo mais e mais daquele corpo, entrando e saindo, como o animal que agora ele era, grunhindo, rosnando, resfolegando, todos os seus sentidos voltados para Albus, para aquele cheiro enlouquecedor.

Gellert fungou, sentindo os feromônios de alpha e ômega misturados, cheiro de sexo, cheiro de prazer. Excitado, ele puxou os cabelos do ômega para sentir mais do seu perfume, deixando escapar um grunhido, intensificando ainda mais as investidas contra o corpo de Albus que, a essa altura, só conseguia gemer e implorar.

Pois Albus só queria mais, mais, mais, muito mais.

O animal dentro de Gellert estava muito disposto a continuar assim, se enfiando daquele corpo delicioso sem parar, mas o desejo de ver o rosto de Albus contraído de prazer fez o humano reconquistar mais e mais espaço no seu cérebro até que homem e lobo se uniram no intenso desejo por aquele ômega.

E então Gellert diminuiu lentamente o ritmo e, não sem algum esforço, se retirou de dentro de Albus. Ignorando seus uivos frustrados, ele o virou de barriga para cima, sentindo-se imediatamente recompensado ao ver aquele par de olhos azuis cheios de desejo, implorando por ele.

Gellert então se deitou em cima de Albus e o ômega choramingou e abriu mais as pernas, puxando-o para ainda mais perto. Gellert beijou sua boca e se enfiou nele por inteiro novamente, embriagado pelo cheiro doce daquele ômega.

Ali, deliciosamente unido ao corpo de Albus, Gellert soube que finalmente havia chegado o momento de tomá-lo para si e formar com ele um laço inquebrável, eterno. Olhou para o ômega e ele imediatamente lhe mostrou a garganta, ofegante, num convite irrecusável:

- Eu te amo, Albus… - Gellert sussurrou antes de se inclinar para morder aquela carne macia.

Albus fechou os olhos, gemendo de dor e prazer, enlaçado. Gellert voltou a entrar e sair de dentro dele, agora bem devagar, sem tirar os dentes do seu pescoço.

Não havia exagero nenhum em dizer que aquele era o maior prazer que um alpha poderia sentir na vida. Por um instante, enquanto os dentes de Gellert se cravavam no pescoço de Albus com força, os dois eram uma pessoa só. Um só corpo, uma só alma. Gellert sentiu na pele a suavidade e a delicadeza de um ômega, e era como se seu espírito estivesse sendo acariciado por uma pétala de flor, Albus sentiu a rigidez de um Alpha, enquanto sua alma se abraçava ao grosso e áspero tronco de uma árvore.

Gellert o apertou mais em seus braços sentindo Albus tremer embaixo dele e duas lágrimas deslizarem pelo seu rosto, seus dedos compridos se embrenhando nos cabelos loiros de Gellert enquanto ele fechava os olhos, completamente entregue, sentindo seu alpha dentro dele.

Sentindo os dentes dele no seu pescoço.

Albus havia fantasiado aquele momento inúmeras vezes, sonhando acordado com os dentes de Gellert, mas agora que aquilo realmente estava acontecendo, ele percebia que nem nos seus mais criativos delírios poderia chegar perto de adivinhar qual seria a sensação de se enlaçar com outra alma daquele jeito. Era como se um pedaço dele tivesse sido sugado para fora do seu corpo e um pedaço de Gellert viesse tomar o seu lugar.

Fechando os olhos, Albus até conseguia sentir as batidas do coração de Gellert no seu próprio peito, como se a vida do seu alpha também pulsasse nele agora. E aos poucos, as batidas dos dois corações foram se sincronizando, até se transformarem novamente em uma coisa só.

Nem Albus, nem Gellert saberiam dizer quanto tempo permaneceram assim, presos um ao outro, se foram segundos, minutos ou horas, mas quando Gellert finalmente tomou coragem para parar de morder o pescoço de Albus, tratou de beijar e lamber carinhosamente a marca que havia deixado ali, símbolo do laço eterno entre eles, e dizer, possessivo e amoroso:

- Meu!

- Seu! Seu! - Albus confirmou, e em retribuição, Gellert aumentou o ritmo, estocando cada vez mais rápido e mais forte.

Sem ser capaz de falar, de pensar, de respirar, o corpo do ômega se movimentou por conta própria, buscando as estocadas do pênis do seu amante, e ele começou a gemer mais e mais alto, adorando o som repetitivo do seu Alpha entrando e saindo  dele. Os quadris de Albus procuraram os de Gellert com ainda mais intensidade, sentindo a outra mão do Alpha deslizar até o seu pênis e o estimular no ritmo certo. 
Menos de um minuto e Albus já estava gozando com um louco, enquanto o alpha aumentava mais e mais o ritmo até atingir o ápice também, se enfiando em Albus o mais fundo que podia e se jogando na cama em cima dele.

Por puro instinto, Gellert o abraçou com firmeza para mantê-lo parado e, no instante seguinte, um inchaço começou a invadir o ômega, fazendo-o gemer e se retorcer debaixo dele, numa frágil e inútil tentativa de escapar do nó que se formava entre eles, só para se perceber dolorosamente preso ao corpo de Gellert.

- Shhhh… - o alpha sussurrou gentilmente no seu ouvido - Você precisa ficar bem quietinho agora…

- Mas Gellert… tá doendo… - uma lágrima desceu de um dos olhos de Albus.

- Eu sei, eu sei… mas se você se mexer agora vai doer ainda mais. Aguenta só um pouco… logo vai melhorar, eu juro…. - Gellert falou docemente e então beijou o seu ombro e, abraçando a sua cintura, começou a elogiá-lo - você tava tão gostoso… tão apertado… quase me enlouqueceu…

Albus fechou os olhos e respirou fundo, se acostumando aos poucos ao nó que os mantinha juntos, deixando-se relaxar no abraço do Alpha. Gellert então beijou o pescoço de Albus e continuou a falar:

- Eu amo você, Albus… desde a primeira vez que coloquei os olhos em você, eu te quis… e agora… estou aqui, dentro de você… e é tão bom, tão bom…

- Sim… sim… - Albus respondeu fracamente, ainda muito trêmulo. A união entre um alpha e um ômega era intensa demais, profunda demais. Naquele momento, Albus sentiu que não havia nada que ele desejasse mais do que estar ali, naquela cama, ligado a Gellert. Ficaram os dois ali, parados, ofegantes, dois animais que haviam acabado de cruzar intensamente, presos um no outro, até o nó finalmente se desfazer e Gellert se retirar devagar daquele corpo, fazendo Albus choramingar a falta dele para ser consolado com beijos.

Albus agora era dele.

Ele agora era de Albus.

E só a morte poderia separá-los.

----- CHAPTER BREAK -----

Gellert abriu os olhos cerca de duas horas depois. Estava deitado de lado, abraçado às costas de Albus, com uma das pernas sobre o seu corpo. Suspirando de satisfação, deitou-se de barriga para cima na cama, com um sorriso bobo nos lábios. Mal podia acreditar que ele e Albus haviam cruzado pela primeira vez e que agora aquele ômega pertencia somente a ele. Gellert chegara a acreditar que isso nunca aconteceria, que Albus jamais entraria no cio e que, mesmo estando juntos, os lobos dentro deles nunca se uniriam. 
Ao seu lado, Albus fez um ruído satisfeito e também se virou na cama, ainda adormecido, ficando também de barriga para cima, os cabelos vermelhos espalhados pelo travesseiro. Gellert contemplou o seu rosto, reparando em cada detalhe e achando-o tão, tão lindo!

E só dele!

Desde o casamento, Gellert reprimiu com muito custo o impulso de tocar naquele ômega, mas agora seus dedos podiam deslizar livremente pelo rosto de Albus num carinho, sentir a textura macia dos cabelos brilhosos, e até traçar uma grande linha imaginária ligando as pintas dos seus ombros.

Gellert não podia acreditar que um dia havia achado Albus menos bonito do que Ariana, pois hoje ele o achava a criatura viva mais linda do mundo!

Porque ele estava perdidamente apaixonado.

Albus soltou um longo suspiro e abriu os olhos devagar, sorrindo ao encontrar o olhar amoroso de Gellert sobre si. 
Sem dizer nada, o loiro se inclinou na direção dele, beijando a sua boca com delicadeza. Albus retribuiu o beijo, feliz como nunca, e seus braços envolveram o pescoço do alpha.

O cio havia passado, Gellert podia sentir, mas Albus ainda estava deliciosamente perfumado. O alpha cheirou seu pescoço, de repente se perguntando se todo aquele desejo que o ômega sentira por ele antes era puramente hormonal ou se era mais do que isso.

Felizmente, havia uma forma fácil de descobrir:

- Te quero de novo… - Gellert sussurrou no seu ouvido - Você me quer?

Albus apenas assentiu com a cabeça, ainda abraçado ao pescoço do alpha. E então ele se debruçou sobre o ômega para beijá-lo de novo, desta vez um beijo bem mais intenso, cheio de sentimentos.

Sem a urgência dos feromônios para precipitar as coisas, Gellert agora podia explorar cada pedaço daquele corpo esguio com beijos, descobrir todos os pontos sensíveis que fizessem Albus abrir a boca e gemer de prazer embaixo dele, agora Gellert podia envolver aquele membro inchado com a boca e chupá-lo devagar, fazendo Albus se contorcer de prazer, enquanto os seus dedos abriam espaço por entre suas nádegas numa carícia muito íntima.

Antes, não havia tempo para adorar aquele corpo macio e saboroso. Agora, ele podia se enfiar nele bem devagar, indo e voltando, indo e voltando. E os olhos de Albus podiam cintilar para ele, por ele. 
Gellert podia fazer amor com seu ômega com cuidado, enquanto o enchia de elogios. Podia dizer o quanto ele ficava lindo gemendo de prazer e como era apertado e saboroso, doce e cheiroso. Como ele o amava e o amaria pelo resto da vida.

Albus gozou, gemendo e se contorcendo enquanto suas pernas o traziam ainda mais para  perto. Gellert se sentiu aquecido e confortável, envolvido naquele ninho de amor e gozou, gozou como nunca. Gozou como um alpha goza no ômega que lhe pertence.

Ficaram um bom tempo abraçados, muito juntos e ainda ofegantes, até Gellert beijar o rosto de Albus, acariciando seu ventre, suavemente:

- Será que ontem nós conseguimos? - Gellert perguntou, esperançoso.

- Hñ? - Albus perguntou de volta, ainda meio zonzo de prazer, mas a ligação entre eles logo lhe deu a resposta: o sonho de Gellert.

Albus sabia perfeitamente bem que os primeiros cios após a interrupção dos supressores eram inférteis, então, não, eles não haviam conseguido.

Sem ser capaz de mentir, Albus apenas olhou para Gellert, sentindo-se de repente triste por não poder lhe dar sequer uma palavra de esperança.

- O que foi? Você ficou triste, eu posso sentir. - Gellert perguntou - Você não quer falar sobre isso agora, né? Tudo bem… nós temos todo o tempo do mundo…

- Agora eu posso sentir… - Albus falou, em resposta - Posso sentir o quanto isso é importante para você.

Gellert sorriu, sonhador:

- Muitas famílias se extinguiram por completo no passado, mas os Grindelwald permaneceram firmes durante todos estes anos. - explicou - E é por isso que eu preciso dar continuidade ao legado que meu pai me deixou. Fazer valer todo o esforço que meus ancestrais fizeram para me colocar no mundo.

Antes, Albus considerava que todo aquele desejo de ter filhos não passava de um capricho orgulhoso de um alpha. Agora, contudo, ele podia sentir que era uma maneira de Gellert se ligar aos seus ancestrais e perpetuar a existência deles.

- Você vai realizar este sonho. - ele garantiu, acariciando o rosto do alpha - Comigo.

O alpha abriu a boca para responder, mas um ruído de porta batendo no andar debaixo chamou a sua atenção.

- Alguém chegou. -  Gellert constatou - Deve ser o Theseus.

- Será que ele vai conseguir encontrar o Vogel? - Albus perguntou, preocupado.

- Acho que sim. - Gellert respondeu, mais preocupado em enrolar uma mecha de cabelo vermelho nos dedos do que na existência de Vogel - Mais cedo ou mais tarde. - e então hesitou - Preciso ir até lá…

Os dois ouviram passos reverberarem pelo chão de madeira. Gellert soltou um suspiro, apoiando a cabeça loira no peito de Albus, não querendo sair dali.

- Desço em cinco minutos! - gritou para que Theseus o esperasse lá em baixo, mas não houve reposta.

- Você vai mesmo? - Albus perguntou, de repente esperançoso de que ele apenas ignorasse a existência de Theseus ou a de qualquer pessoa que estivesse lá embaixo.

- E eu tenho escolha? - Gellert respondeu e beijou rapidamente os lábios do marido antes de levantar-se da cama - Prometo que vou resolver isso o mais rápido possível.

Mas olhando Gellert se afastar dele, por algum motivo, Albus teve um pressentimento. Algo parecido com a mudança do rumo do vento, como se as coisas estivessem prestes a mudar para sempre.

- Não vai… - ele pediu, suavemente e Gellert lhe deu um sorriso, enquanto vestia uma roupa qualquer, fazendo uma careta quando o tecido da camisa raspou suas costas arranhadas.

- Não se preocupe, eu volto em um instante. - piscou - Me espera aqui.

Gellert terminou de se vestir e deu um beijo na testa de Albus antes de se encaminhar para a porta.

- Não… Gellert, por favor… - e vendo o seu alpha desaparecer do quarto, completou fracamente - … fica aqui…

Gellert desceu as escadas rapidamente e atravessou o corredor, já esperando que Theseus tivesse sido guiado por Vinda até lá. Mas, no meio do caminho, o espelho de uma cristaleira chamou sua atenção e ele parou para reparar que cada um dos seus olhos tinha uma cor diferente. Um efeito temporário da primeira cruza entre dois lobos. Agora um dos seus olhos não era mais azul e sim vermelho, a cor dos olhos dos lobos alpha.

Gellert se pegou desejando que aquela mudança fosse definitiva e que ele pudesse lembrar do momento em que se ligara a Albus sempre que se olhasse no espelho, exatamente como estava acontecendo agora, e u
ma lembrança nítida do exato momento em que ele havia pressionado os dentes na pele macia e perfumada do pescoço de Albus fez Gellert fechar os olhos, completamente envolvido por um sentimento morno.

Se forçando a desviar o olhar do espelho e os pensamentos de Albus, Gellert seguiu adiante, adentrando a sala para finalmente encontrar Theseus.

Mas quem ele encontrou parado no meio da sala não foi Theseus.

Com um grunhido, Gellert sacou seu revólver e o apontou na direção de Anton Vogel, mas, ao invés de se preocupar com a arma, ele apenas o olhou nos olhos, reparando na diferença de cores entre eles, sem, contudo, mover um único músculo.

- Pelo visto, cheguei um pouco tarde. - Vogel constatou, sombrio.

- Como entrou aqui? - Gellert perguntou, sem tirar Vogel da mira.

- O lado bom de ter desperdiçado boa parte da minha vida neste lugar é o privilégio de conhecê-lo como a palma da minha mão. - Vogel explicou, tranquilo - Conheço tudo isso melhor do que qualquer um dos idiotas que trabalham aqui, até melhor do que você.

Mas Gellert não parecia impressionado:

- E o que você veio fazer aqui, afinal? - inquiriu.

- Ah, nada demais… - Vogel respondeu, em tom casual - Só vim mesmo retribuir o tiro que você me deu - e como Gellert engatilhou sua arma, ele logo levantou os dois braços e se explicou - Não, não literalmente, não se preocupe.

Vogel então abaixou as duas mãos bem devagar e, sob o olhar atento de Gellert, retirou sua arma da cintura e a colocou no chão, chutando-a para longe.

- Estou desarmado. - ele falou - Podemos conversar com um pouco mais de tranquilidade agora?

Gellert recolheu o revólver de Vogel e o colocou na parte de trás da calça, pensando se deveria ouvir o que aquele homem tinha a dizer. Sua vontade, no momento, era de passar fogo naquele homem ali mesmo, mas se conteve e, pensando em ganhar tempo até Theseus chegar, ele baixou sua arma.

- O que você quer?

- Você pode não acreditar, Gellert, mas eu sempre gostei de você. - Vogel falou - Desde molecote, você tinha um brilho especial que só os alphas possuem. Em uma certa época, eu cheguei até a pensar em você como um filho, sabe?

Gellert deu uma risada sincera:

- Que espécie de pai rouba o seu próprio filho?

Vogel franziu as sobrancelhas, aborrecido como se tivesse acabado de ouvir uma frase extremamente ingrata.

- Eu tripliquei o seu patrimônio depois que seu querido pai morreu. Se não acredita em mim, pergunta para a sua nova contadora. Não vou me sentir culpado por tomar o justo pagamento pelos meus bons serviços.

- E quando ao Albus? - Gellert perguntou, quase rosnando de raiva - Por acaso o meu ômega também fazia parte do seu… pagamento?

- Ah, não, isso já é uma outra história. - Gellert coçou o queixo - Albus já era meu antes mesmo de você conhecê-lo, o canalha do irmão dele me prometeu.

- Levando-se em conta que você pretendia dar em troca uma parte das minhas terras… - Gellert comentou, fazendo questão de intensificar o tom de voz ao pronunciar a palavra “minhas” - eu diria que você não tem nenhum direito sobre Albus.

- Que seja… - Vogel deu de ombros, demonstrando indiferença - Não tenho mais nenhum interesse nesse ômega e, depois da nossa conversa, sei que você não vai querer saber dele também.

E a cara de descrença de Gellert foi tão grande que Vogel até deu um sorriso:

- Ah, você sempre teve esse defeito de confiar demais… - Vogel comentou, divertido - Mas nunca vi você confiar tanto em alguém como confia nesse ômega. E olha que eu te disse mais de uma vez que ômegas não são confiáveis. Pelo contrário, são ardilosos, cheios de mistérios e dominam a fina arte da mentira como ninguém. E Albus é com certeza um ômega… com todas as suas qualidades… e com todos os seus defeitos.

- Dobra a sua língua antes de falar do meu ômega! - Gellert rebateu, irritado.

- Mas eu estou até sendo elogioso! - Vogel se defendeu - Estou reconhecendo que ele tem qualidades! Albus é astuto, suave… até bonito… ele tem uma aura… algo inexplicável, que seduz… - Vogel reconheceu - o fato de você se recusar a enxergar os terríveis defeitos que ele tem é até compreensível, de verdade!

Gellert sorriu:

- Anton, não se esforce tanto. - disse - Eu o marquei e o nosso laço é inquebrável. Não tente fingir que não queria estar no meu lugar.

Com uma careta aborrecida, ao invés de responder, Vogel preferiu levar as mãos ao bolso do casaco e de lá puxar uma sacola de plástico.

- O que é isso? - Gellert perguntou.

Ao invés de responder, Vogel atirou a sacola na mesa de centro da sala com displicência, produzindo um ruído desagradável de vidro quebrado.

- Henrietta encontrou isso escondido atrás do armário do banheiro de vocês.

Gellert esticou o olho para as ampolas quebradas, reconhecendo o que eram antes de responder:

- Isso não prova nada. Você pode ter comprado essas ampolas em qualquer lugar.

Vogel balançou a cabeça, em tom de deboche:

- Gellert, Gellert, por favor, não me decepcione. Você sabe muito bem que ele estava usando supressores hormonais. Você sempre soube. Mas escolheu se enganar esse tempo todo.

Gellert não respondeu, apenas encarou Vogel, irritado:

- Se era só isso que você tinha para me mostrar, então já pode ir embora. Tendo usado supressores ou não, isso não faz diferença agora. Albus entrou no cio ontem a noite e agora ele é meu.

Vogel não conteve uma careta de desgosto ao ouvir aquelas palavras e Gellert até sentiu uma certa satisfação em vê-lo sofrer com a ideia de Albus estar definitivamente perdido para ele. Mas, ao contrário do que esperava, Vogel não demorou para retomar as rédeas dos próprios sentimentos.

- O fato de ele ter usado supressores nem é tão grave, concordo. - ele falou enquanto puxava um envelope do bolso interno do casaco - só mais uma mentira dentre tantas que um ômega como ele gosta tanto de contar. O que importa de verdade são os motivos para ele ter feito isso. Estes sim, eu considero imperdoáveis.

E Vogel atirou o envelope na direção de Gellert.

- Você roubou e violou uma carta destinada ao Albus? - Gellert perguntou ao ler o nome do destinatário da carta.

Vogel não demonstrou sequer um pingo de constrangimento:

- Faz algum tempo eu pedi para Henrietta me entregar todas as correspondências do Albus. Mas só por estes dias esta carta chegou.

- E o que tem nela, afinal?

- É uma carta assinada pelo diretor de Hogwarts em pessoa. - e quando Gellert olhou para ele, desconfiado, Vogel deu uma risadinha - Pode ler, eu espero.

Desconfortável, Gellert abriu o envelope e retirou a carta de dentro dele para só então baixar os olhos e prestar atenção no seu conteúdo.

- Você sabia que seu ômega tinha pedido ao diretor de Hogwarts uma bolsa de estudos integral para cursar Veterinária? - Vogel perguntou, maldoso, depois de dar a Gellert alguns segundos  - E, veja só, não é que a bolsa foi concedida? O velho caduco que dirige aquele lugar só foi obrigado a recusar o pedido de dispensa de autorização do alpha responsável por ele, claro.

Gellert não mexia um único músculo, não falava absolutamente nada. Apenas lia de novo e de novo a comunicação de que o pedido de Albus havia sido aprovado e também o formulário de autorização do alpha em anexo.

- Seu ômega só estava querendo ganhar tempo para fugir de você… - Vogel falou, parecendo saborear cada palavra  - Ele quis te enganar esse tempo todo. E quem sabe qual manipulação sórdida está planejando agora que conseguiu te amarrar para sempre?

- Não é verdade. - Gellert balançou a cabeça, incrédulo - Nada disso é verdade.

- Se não acredita nem nas provas, então sugiro que pergunte pra ele. - Vogel retorquiu, tranquilo -  A natureza é sábia e por isso o laço entre um ômega e um alpha existe. Para impedir o ômega de mentir.

Gellert precisava dar razão para Vogel em uma coisa: algo dentro dele doía como se ele realmente tivesse levado um tiro. Cego de ódio, completamente esquecido até de ganhar tempo para que o ex-feitor da fazenda fosse preso, ele apenas desejou não ver aquele desgraçado em toda a sua existência.

- Suma daqui! - exigiu - Antes que eu passe fogo em você!

Vogel deu um sorriso extremamente satisfeito antes de responder:

- Não se preocupe. Eu conheço o caminho. - falou, vitorioso, antes de se encaminhar na direção da saída.

Satisfeito, abriu a porta da frente, sem demonstrar nenhum sentimento ao se deparar com Theseus do lado de fora. Nem mesmo quando o policial sacou sua arma e a apontou na direção dele, Vogel se importou. Afinal de contas, sua vingança já estava concretizada.

- O senhor está preso. - Theseus avisou.

Vogel colocou as mãos para o alto e,
sem tirar o sorriso do rosto, perguntou:

- Como vai seu irmãozinho?

- Vai ficar bem melhor quando souber que o senhor vai passar muito, muito tempo atrás das grades. - Theseus respondeu, aborrecido.

- Pede para ele me visitar se sentir falta de um alpha de verdade. - Vogel provocou, fazendo a cara mais devassa que conseguiu.

- Cala a boca e vamos andando, antes que eu quebre a sua cara. - Theseus respondeu, empurrando as costas de Vogel na direção da sua viatura.

Gellert ainda estava olhando a carta de Hogwarts quando a voz suave de Albus por detrás dele fez seus ombros pularem.

- O Theseus já foi? - perguntou.

- Não era o Theseus. - Gellert respondeu friamente.

- Ah, não? - Albus perguntou, sentindo em Gellert nada mais do que pura animosidade - Que… quem era então?

Ao invés de responder a pergunta, Gellert atirou a carta e o envelope no chão, bem aos pés de Albus.

- Sua carta de Hogwarts chegou. - ele anunciou no momento em que Albus se abaixou e seus dedos tocaram o papel - Parabéns! Você ganhou sua bolsa.

Os dedos de Albus ficaram paralisados por alguns instantes, mas ele logo retomou os movimentos, pegando a carta do chão para ler. Gellert apenas observou as mãos de Albus ficarem trêmulas, e, contra a sua própria vontade, sentiu seu próprio peito reagir à felicidade que seu ômega agora sentia, apesar de não o demonstrar.

- Esta é a razão para você ter usado supressores este tempo todo, não é? - Gellert perguntou, gelado, fazendo Albus levantar seus olhos, agora em tons levemente diferentes de azul, na direção dele.

- Gellert…

- Não é?! - ele gritou com a sua voz de alpha, fazendo Albus se encolher de pavor, deixando cair os papéis que segurava no chão. Se antes a voz de alpha de Gellert já causava um imenso desconforto, agora, que ele havia sido marcado, era muito pior, Albus simplesmente não tinha forças para resistir.

- Si… sim. - gaguejou.

E ao ouvir aquela confissão, Gellert deu uma volta em torno de si mesmo, com as costas das duas mãos grudadas na testa:

- Então é verdade mesmo…

- Gellert… - Albus falou fracamente, ainda sob o impacto da voz daquele alpha - As coisas…
mudaram. Você precisa entender!

- Mudaram mesmo? - Gellert perguntou, furioso, enquanto pegava o formulário de autorização esquecido no chão - E se eu assinar este papel agora? O que você faria?

A pergunta mais terrível de toda sua vida havia acabado de ser feita, justamente pelo alpha que o havia marcado. A respiração de Albus ficou mais pesada. Escolher entre o amor e o sonho da sua vida.

- Eu iria. - ele falou muito baixo depois de longos segundos de silêncio.

Gellert assentiu com a cabeça ao ouvir aquilo, trincando os dentes. Tomando uma caneta, ele pegou o formulário de autorização e, sob o olhar assombrado de Albus, assinou.

- Nosso casamento acabou. - Gellert determinou ao deixar o papel na mesa e dar as costas para Albus.

A porta do quarto se abriu meia hora depois de Gellert se fechar nele. As cortinas estavam fechadas e, tirando as pequenas frestas de luz que teimavam em passar pelos cantos das janelas, tudo estava bem escuro.

Sem fazer barulho, Albus entrou devagar e a primeira coisa que viu foi o vulto de Gellert sentado numa poltrona no canto do quarto, olhando para o nada, suas mãos remexendo algum objeto que Albus não foi capaz de identificar. Em seguida, Albus olhou para a cama onde os dois estiveram juntos há menos de uma hora, estremecendo da cabeça aos pés.

Tocou a marca em seu pescoço, ainda estava dolorida.

Realmente, os ventos haviam mudado.

Foi com a cabeça baixa que Albus abriu o armário e retirou a mala da parte de cima dele antes de começar a separar os cabides das suas roupas.
Minutos inteiros de trabalho se seguiram antes de a voz rouca de Gellert preencher o quarto.

- Você vai para onde? - ele perguntou

Gellert nem estava usando sua voz de alpha, mas nunca antes Albus havia ficado tão impactado por aquela voz.

- Para a casa do meu irmão. - respondeu.

- Seu irmão não vai te deixar ir para Hogwarts.

- Ele não pode me impedir. - Albus respondeu, sem tirar a atenção das malas - Eu não sou dele.

Gellert suspirou. Na véspera, aquelas mesmas palavras haviam acendido uma fagulha de pura felicidade no espírito dele.

Mas agora, só provocavam angústia.

- Você vai precisar de algum dinheiro para se sustentar em Hogwarts. - insistiu.

- Eu vou dar um jeito. - Albus respondeu.

- Que jeito? Vai vender seu cavalo?

Albus entendeu perfeitamente a acusação por trás daquelas palavras. Quantas coisas que você diz amar serão trocadas por este seu sonho egoísta? Sentindo uma angústia que ele não tinha tanta certeza se era só sua, ele finalmente se voltou para Gellert.

- Não pretendo levar o cavalo. - revelou, com um sorriso triste - Conto contigo para cuidar bem dele daqui para frente.

Gellert não respondeu e Albus voltou a se dedicar às malas.

- Você precisará comprar novos supressores. - Gellert novamente interviu - Algo melhor, sem tantos efeitos colaterais, aproveitando que as que você tinha quebraram.

- Por enquanto, vou ver se Newt me empresta uma dose. - Albus respondeu.

- Você já pensou em tudo, não é mesmo?  - Gellert perguntou, em tom acusador.

- Eu sou um ômega. - Albus respondeu suavemente - Minha sobrevivência depende disso.

Gellert bufou.

Um silêncio quase palpável se seguiu enquanto Albus terminava de arrumar suas coisas, silêncio este apenas interrompido pelo clique tristonho do fecho da mala.

- Então é mesmo o fim… - Gellert constatou, fazendo o peito de Albus se apertar. Mas ele não tinha outra escolha além de pegar sua mala e dar as costas para Gellert e andar na direção da saída:

- E quem vai te amar agora, Dumbledore? - Gellert perguntou, parecendo terrivelmente desamparado - Você vai ficar sozinho…

Ao ouvir seu sobrenome de solteiro, Albus balançou a cabeça e deixou a mala no chão. Se aproximando de Gellert devagar, ele puxou um banco para sentar-se diante dele. Gellert desviou o rosto, mas agora que ele o olhava bem de perto, dava para perceber o quanto todo o seu corpo estava tenso.

Com um suspiro, Albus estendeu a mão para segurar a de Gellert, mas ele se afastou rapidamente:

- Se quer falar alguma coisa comigo, comece por não tentar me manipular.

- Eu não tinha essa intenção… - Albus se justificou.

- Eu não vou acreditar em nada do que você me disser. - Gellert avisou.

- Você vai acreditar sim. - Albus respondeu, muito tranquilo - Porque agora você pode me sentir, assim como eu posso sentir você.

- É você quem está acabando com tudo. - Gellert acusou.

- Gellert… nosso casamento não acabou. - ele falou, expondo a marca em seu pescoço com os dedos - nós estamos enlaçados pelo resto da vida. Para onde eu for, eu vou levar esta marca… e também um pedaço da sua alma.

Gellert apertou os lábios:

- Nada disso parece ser bom o bastante para você…

- Pelo contrário… não há nada que eu valorize mais do que o nosso laço.

- E ainda assim você vai embora! - acusou.

Albus suspirou. Como fazer um alpha, que sempre teve seu destino nas mãos, entender?

- Eu sonho em ir para Hogwarts desde criança. Mas nem mesmo meu pai achava que isso seria possível para alguém como eu. - contou - Nem mesmo quando o meu amigo Newt foi admitido, eu pude ter esperanças. Por muito tempo, eu me contentei apenas com a minha pequena criação de cavalos, mas Aberforth tirou até isso de mim… e me forçou a casar com você contra a minha vontade. Os supressores foram a forma que eu encontrei de me rebelar. Se eu não podia ter o que queria, então você também não teria.

Gellert apenas encarou Albus, sem contudo responder qualquer coisa. Ainda assim, o ômega continuou a falar:

- Mas as coisas mudaram com o tempo. Eu deixei de ser uma incubadora humana para você e você deixou de ser o meu algoz. E então eu me entreguei a você por completo. O humano e o lobo.

-  Mas ainda assim você vai embora.- Gellert insistiu.

- Eu preciso ir. - Albus respondeu - Não só por mim, mas por todos os ômegas. O Newt não pode ser um caso isolado, uma excentricidade de um diretor velho demais. É preciso ocupar este espaço e tantos outros. As coisas precisam mudar para os ômegas… Gellert… eu não quero correr o risco de ter um filho ômega para viver preso numa gaiola de ouro.

-É isso que eu sou para você? - Gellert perguntou, parecendo magoado - Uma gaiola de ouro?

Albus sorriu:

- Não mais. Porque você acaba de me dar algo muito valioso, algo que eu nunca tive: liberdade.

Gellert balançou a cabeça antes de dizer:

- Você vai realizar os seus sonhos. E eu vou te dar todo o apoio que você precisar. - garantiu - Mas eu não vou te esperar, Albus. Vou procurar alguém que possa me dar filhos.

- É justo. - Albus reconheceu, apesar de sentir seu coração se encolher ao ouvir aquelas palavras - Eu não poderia exigir nada diferente.

Os dedos de Gellert se apertaram com força no pente de ouro que pertencia a Albus. Ele sabia que era a hora de devolvê-lo ao seu dono, mas simplesmente não foi capaz. Albus então sorriu tristemente para ele e levantou-se, pegando sua mala no chão para partir dali sem que Gellert fizesse nada para impedir.

Gellert sabia que não seria capaz de deixá-lo partir para Hogwarts se Albus não fosse embora agora.

Duas semanas depois…

Ignorando os olhares reprovadores de Aberforth, Gellert buscou Albus na fazenda dos Dumbledore e o levou de carro até a estação de trem.

No caminho, reiterou todas as explicações que havia dado ao telefone durante as últimas semanas. Explicou que todos os seus gastos já estavam pagos e que ele mandaria dinheiro sempre que Albus precisasse.
Não havia dormitórios exclusivos para ômegas em Hogwarts, mas Gellert explicou que Theseus tinha o contato de um senhor que alugava um quarto numa cabana muito próxima à faculdade, e tanto ele quanto Newt lhe garantiram que ele era de total confiança. Então, isso também estava resolvido.

Por fim, entregou-lhe um estojo repleto de ampolas com os supressores hormonais mais caros que ele pôde comprar.

Ao chegarem na estação de trem, Gellert guardou todas as malas de Albus na cabine de primeira classe que ele mesmo havia reservado. Se informou sobre as paradas do trem, sobre o tempo de viagem e a que horas Albus finalmente estaria em Hogwarts. Conferiu se os papéis autorizando sua estadia estavam todos em ordem.

Somente quando o trem começou a apitar, ele fechou a pasta e entregou toda a documentação de viagem, assinada por ele, nas mãos de Albus:

- Eu acho que está tudo aqui. - Gellert falou, tentando transparecer o máximo de confiança possível, segurando as mãos do ômega antes de descer do trem - Mas se você precisar de qualquer assinatura minha…

- Sim… eu sei… - Albus falou fracamente, parecendo estar fazendo muita força para não chorar - … obrigado…

Gellert então não resistiu mais. Fechando os olhos, ele o abraçou longamente, sentindo Albus amolecer em seus braços. O abraço mais dolorido da sua vida.

- Preciso ir. - Gellert disse, beijando o pescoço do seu ômega exatamente no lugar onde ficava a cicatriz da marca que ele havia feito nele - Preciso mesmo ir…

Gellert se afastou, deixando Albus para trás e desceu rápido as escadinhas, bem a tempo de o trem começar a se movimentar.

Albus se segurou melhor quando o trem arrancou e pegou alguma velocidade, se perdendo na imagem do seu alpha começando a se afastar por dois breves segundos antes de não resistir e falar muito baixinho, querendo e não querendo que Gellert o escutasse:

- Eu amo você, Gellert… - e depois de mais alguns segundos, adicionou, se odiando por ser tão egoísta - Me espera!

Os lábios de Gellert se apertaram e a angústia que aquelas palavras produziram nele era tão visível que não deixava dúvida de que o alpha havia entendido tudo. Albus quis pedir desculpas por ser tão mesquinho, mas era tarde demais, o trem já estava deixando a plataforma e seu alpha já estava longe, pequeno, se perdendo no horizonte.

Só então as lágrimas deslizaram livremente, uma após a outra, pelo rosto de Albus, sem que  ele sequer tentasse contê-las.

Realizar seu sonho com certeza não seria nada fácil, mesmo com todo o apoio de Gellert, quem saberia o tipo de obstáculos que um ômega enfrentaria num ambiente totalmente dominado por alphas?  Por certo, ele teria que se provar a cada dia, que se dedicar mais do que todos, que fazer os maiores sacrifícios para conquistar o mínimo de respeito.

Mas Albus não temia nada disso porque a maior renúncia de todas, o maior sacrifício, ele já havia feito no exato momento em que o trem havia deixado a estação.

----- CHAPTER BREAK -----

Abernathy abriu os olhos devagar, tentando organizar os pensamentos ao ver um teto branco desconhecido.

- Onde estou? - perguntou, confuso.

E seu coração pulou de susto quando uma voz feminina lhe respondeu:

- No hospital, claro.

- Meu corpo tá todo doendo… - Abernathy gemeu ao tentar se virar na direção de Vinda.

- É o que você merece por dormir por duas semanas inteiras. - Vinda respondeu, insensível - Deixou todo mundo preocupado.

Abernathy fez uma cara muito estranha, como se Vinda tivesse acabado de dizer algo sem qualquer sentido.

- Se importa de levantar a parte de cima
da cama um pouco? - ele perguntou, desistindo de se mexer por conta própria.

Vinda levantou-se da sua cadeira e acionou o botão da cama hospitalar, inclinando a parte superior até que Abernathy ficasse quase sentado. E a primeira coisa que o beta reparou ao se ver na nova posição foi na quantidade de papéis vazios de chocolates, balas e bombons dispostos na mesinha bem na frente da sua cama.

- O que é isso? - Abernathy perguntou, fazendo Vinda dar de ombros.

- Isso daí são os presentes que você recebeu dos seus amigos enquanto estava desacordado. Ou melhor, foram. Infelizmente, você demorou tanto para acordar que as suas visitas acabaram comendo quase tudo… - e um tom discreto de vermelho tingiu o rosto delicado de Vinda antes de ela completar - para não estragar, claro.

- Pessoas me trouxeram presentes? - Abernathy perguntou, parecendo não entender - Depois vieram aqui… e comeram eles?

- Não olhe assim para mim, não sou a única culpada! - Vinda se defendeu antes mesmo de ser acusada - De fato, preciso dizer que foi o Albus o grande responsável por essa destruição. Sempre que ele vinha aqui te visitar, só se ouvia o barulho de papel de bala. Se ele não tivesse ido embora, acho que não teria sobrado nada nem para você e nem para ninguém. Ah! Tiveram muitas flores também. Mas a administração do hospital mandou jogar tudo fora.

Abernathy franziu as sobrancelhas por alguns segundos antes de comentar:

- Devo ter ficado muito mal mesmo…

- Ah, que nada, um ombro novo e meia dúzia transfusões e tudo certo. - Vinda ironizou enquanto Abernathy tocava o próprio ombro com a ponta dos dedos, fazendo uma careta de dor - Você teve muita sorte. Seu cavalo salvou a sua vida. Ele e os médicos, claro! Gellert fez questão de te levar para o melhor hospital da cidade.

- O patrão! - Abernathy se sobressaltou - Preciso falar com ele!

- Ah, não se preocupe com isso. - Vinda falou, muito tranquila - Vogel já está preso e vai ver o sol nascer quadrado por muito, muito tempo. Se bem que você não ajudou muito ao resolver não morrer, né? Graças a isso, a pena dele deve diminuir de duas vidas para somente uma.

- Muito engraçado. - Abernathy retrucou, apesar de a piada maldosa ter arrancado um sorriso dele.

- Desculpa aí. Só tô me vingando um pouco pelo o que você nos fez passar durante todo este tempo. - Vinda comentou, levantando as duas mãos em sinal de inocência.

- Sinto muito. - Abernathy falou, sincero.

- Dessa vez passa. - Vinda respondeu, tentando segurar o riso - Mas agora você fica aí bem quietinho que eu vou lá embaixo telefonar para fazenda e avisar que a Bela Adormecida acordou.

- Pode deixar. - Abernathy respondeu, obediente, enquanto pensava que seu corpo doía tanto que ele não poderia se mexer dali, mesmo que quisesse muito.

Vinda acenou para ele antes de partir e deixar Abernathy sozinho no quarto por exatos dez segundos antes de a porta se entreabrir novamente.

- Esqueceu alguma coisa? - Abernathy perguntou, achando que só poderia ser a própria Vinda.

Mas ao invés da sua amiga, Abernathy abriu a boca ao ver que a pessoa que estava na porta, quase tão assombrada quanto ele, era Henrietta Fischer.

- Ai, você acordou! - ela falou numa mistura de susto, alegria e alívio.

- Você estava do lado de fora? - Abernathy perguntou - O que quer de mim?

- Tá com medo de eu te matar? - Henrietta perguntou, amarga, ainda segurando a maçaneta da porta.

Abernathy balançou a cabeça:

- Acho que a senhora já teria feito isso se quisesse. -  respondeu, tranquilo - Quer me falar alguma coisa?

Henrietta encheu os pulmões de ar, finalmente tomando coragem para entrar no quarto e sentar-se na mesma cadeira em que Vinda estivera há poucos instantes.

- Eu vim… me desculpar. - ela falou, olhando para a ponta dos próprios sapatos.

- Mas não foi você quem me deu um tiro, foi?

- Não, não, claro que não! - Henrietta apressou-se a negar, balançando a cabeça com energia - Mas eu… eu ajudei ele esse tempo todo. Mesmo sabendo das coisas horríveis que o Anton fazia.

Duas lágrimas nasceram no canto dos olhos dela e deslizaram até a ponta do seu nariz.

- Por favor, não chore. - Abernathy pediu, imediatamente incomodado - A senhora não tem culpa de nada… e se tem, já deve estar pagando bem caro, apenas por gostar de quem a senhora gosta.

E, ao invés de diminuírem, as lágrimas da mulher só aumentaram:

- Ele… ele me usou. - gaguejou - A vida toda. Mas eu já deveria saber.. afinal de contas, não passo de uma beta…

Abernathy balançou a cabeça:

- Sabe de uma coisa? Eu perdi o amor da minha vida pensando exatamente desse jeito aí. - Abernathy confessou - Desisti dela antes mesmo de tentar porque ela era uma ômega e eu não passava de um beta. - ele riu de si mesmo - Tudo isso pra, menos de um ano depois, ela se casar justamente com um beta.

Henrietta apenas piscou mais um par de lágrimas, sem falar coisa alguma. Indiferente, Abernathy continuou:

- Desde então, todo dia eu me pergunto o que teria sido se eu tivesse me valorizado o suficiente para pelo menos tentar. - Abernathy continuou a falar - Claro, ela poderia ter me rechaçado, mas, mesmo que isso acontecesse, com certeza eu não me sentiria tão miserável.

- Certeza que ela ia gostar do senhor. - Henrietta comentou - Bom, pelo menos todo mundo lá na fazenda gosta.

- Essa é uma realidade que eu ainda vou precisar me acostumar, - Abernathy riu - mas o que eu tô querendo dizer, é que nós dois precisamos aprender a nos amar um pouquinho mais, sabe? Eu não sou só um beta. Eu sou o Abernathy.

Henrietta deixou escapar um sorriso minúsculo e muito tímido antes de falar:

- Eu… eu vou tentar me lembrar.

- Você só sabe desenhar uma coisa? - seu companheiro de cela perguntou ao ver Vogel dar os últimos retoques num enorme desenho com o lápis.

Vogel não se deu sequer ao trabalho de responder. Ressentido por não poder colorir as lindas mechas do cabelo de Albus de vermelho, ele continuou a pintar as sombras com o lápis preto.

- Este é o ômega que você tentou matar, não é? - o homem insistiu no assunto por puro tédio - É o que comentam por aí.

Vogel finalmente levantou os olhos do papel.

- É o que eu deveria ter feito. - falou, sombrio.

De fato,  às vezes Vogel gastava muito tempo apenas imaginando como teria sido se ele tivesse simplesmente matado Albus. E, enquanto acariciava seu próprio membro por cima da calça, criava os mais diversos cenários: na maioria das vezes, ele o matava com uma facada certeira no peito e, com mãos ainda sujas de sangue, o acariciava, sussurrando os mais doces elogios em seu ouvido até Albus parar de respirar. Outras vezes, ele o matava rapidamente, como se mata um passarinho, quebrando o seu lindo pescoço marcado por outro alpha num movimento só.

- Esse você vai ter que pendurar no banheiro. -
Karl comentou depois de olhar em volta, buscando, sem sucesso, um espaço livre na parede da cela - Mas vê se não cola na frente da privada, combinado?

Foi a vez de Vogel olhar em volta e reparar que não havia mais espaço livre de Albus naquele lugar. Nem nas paredes da cela, nem nos seus pensamentos. Tudo se resumia a Albus. Ele mordendo Albus, ele metendo em Albus, ele matando Albus… não fazia mais tanta diferença. Albus era a única grande constante na sua vida.

- Vogel, visita. - o carcereiro falou, antipático, enquanto abria a porta da cela.

Não era Albus.

- Henrietta, preciso de mais papel. - Vogel falou assim que viu a beta sentada do outro lado do vidro.

Henrietta não respondeu. Apenas esperou até Vogel se sentar na cadeira diante dela, enquanto penteava os cabelos para trás com os dedos:

- Você está com uma cara horrível… - Vogel comentou, cruel.

- O que você esperava? Eu trabalho limpando latrinas. - ela respondeu, dando de ombros - É o que alguém da minha idade consegue sem nenhuma carta de recomendação. - e, fazendo uma curta pausa - Você realmente destruiu a minha vida.

- Sua vida já estava destruída no momento em que você nasceu, meu bem. - Vogel respondeu, fazendo o rosto todo de Henrietta se crispar - E como estão as coisas no lado de lá? Novidades?

Henrietta sabia perfeitamente o que Vogel queria ouvir. E era exatamente isso que ela viera lhe dar. Mas tudo a seu tempo.

- Abernathy está fora de perigo. - ela falou - nós dois conversamos muito, quase todos os dias.

- Ele não é um pouco jovem para você? - Vogel perguntou, provocativo.

Os ombros de Henrietta se encolheram de puro desconforto:

- Gosto dele como gostaria de um filho. - ela explicou em tom ofendido.

Vogel deu uma risada:

- Não sabia que você tinha esse tipo de fetiche. - Vogel insistiu - Mas acho que isso não é da minha conta, não é mesmo? E o que mais?

- O Sr. Grindelwald está criando uma raça nova de cavalos pretos muito bonitos… - Henrietta comentou - Parece que está ganhando bastante dinheiro.

Vogel deu de ombros, pela primeira vez demonstrando algum desconforto:

- Deve demorar mais alguns anos para ele conseguir acabar com todo o bom trabalho que eu fiz por lá. - comentou, desdenhoso - E quanto a Albus?

Satisfeita por ver Vogel chegar ao ponto de deixar o orgulho de lado e perguntar por aquele ômega, Henrietta sorriu:

- Albus? Não sei bem… - falou.

- Tão ruim assim? - Vogel perguntou, parecendo satisfeito - Imagino que Gellert tenha jogado ele na rua só com a roupa do corpo depois da nossa conversinha… e não duvido nada que aquele irmão dele tenha se recusado a recebê-lo em casa, afinal, quem quer comprar um ômega usado? Deve estar na sarjeta.

O sorriso de Henrietta se tornou maior:

- Olha… parece que o Sr. Grindelwald não fez isso não. - ela falou em tom inocente - Pelo contrário, o Sr. Grindelwald assinou uma autorização para ele realizar o sonho da vida dele que era estudar. E dizem que ainda paga todos os gastos dele em Hogwarts.

- Aquele grande idiota… - Vogel grunhiu - mas eu o conheço bem… Gellert é orgulhoso. Com certeza fez o que fez por puro senso de obrigação, mas ele nunca vai aceitar Albus de volta.

- Sabe que eu duvido? - Henrietta perguntou - Acho mesmo que eles ainda vão ser muitos felizes juntos.

Vogel olhou para sua antiga amante por alguns segundos:

- Você só tá falando isso por despeito.

Henrietta deu de ombros:

- O tempo dirá se tenho razão. - falou - De qualquer forma, ambos estão livres de você e isso é o que importa.

Vogel riu:

- E você acha que agora vai ter alguma chance comigo?

- Não acho e nem quero. - ela reagiu imediatamente - E saiba que está é a última vez que venho te visitar.

Vogel deu de ombros de puro desdém:

- Quem você quer enganar, Henrietta? - perguntou, sorrindo debochado - Você pode dizer o que quiser, mas a verdade é que, todos esses anos, eu só precisei estalar meus dedos para você vir engatinhando.

As mãos de Henrietta começaram a tremer:

- É verdade, mas sabe de uma coisa? Eu me dei conta de que tenho a oportunidade de ouro de me libertar de uma vez de você, sabe? E é isso que eu vou fazer a partir de agora. Porque você é um lixo! Um pobre coitado que merece apodrecer na cadeia!

- Como você se atreve a falar comigo desse jeito? - Vogel grunhiu - Você é só uma beta!

Henrietta levantou-se da sua cadeira, altiva, mas antes de partir, olhou com desprezo para o homem que um dia ela amara tanto:

- Eu não sou só uma beta.. - ela falou, e havia orgulho sincero nas suas palavras - Eu sou a Henrietta!

Três anos depois…

Tina era uma ótima contadora. Gellert reconhecia isso. Apesar de ela ter um defeito muito grave.

Era alpha demais.

Toda vez que ela vinha trabalhar na contabilidade da fazenda, se criava em sua casa um clima de guerra fria, mesmo sendo o território de Gellert, repleto do cheiro dele. Nenhum dos dois falava nada, mas era possível sentir uma tensão quase palpável no ar.

- Hum… sexy… - Vinda comentou ao entrar no escritório com duas xícaras de café e sentir um cheiro fortíssimo de feromônios de alpha.

- Não tô para brincadeira hoje não, Vinda. - Tina logo avisou, com um lápis atravessado na boca.

- É, Vinda… faz o favor de deixar o café aí e ir andando porque a gente precisa trabalhar, vai? - Gellert completou

- Nossa, quanto mau humor… - Vinda se admirou - Normalmente vocês dois ficam bem insuportáveis quando se juntam, mas hoje está especial.

E o mau humor era tanto que os dois nem se preocuparam em responder. Apenas fecharam ainda mais a cara e baixaram a cabeça para o trabalho enquanto Vinda depositava duas xícaras perto de cada um deles.

- Sabe qual é o problema de vocês? - Vinda perguntou, nada amedrontada pela aura assassina que emanava do seu patrão e da contadora - Muito tempo sem namorar!

Foi o que bastou para os dois rivais se unirem contra um inimigo comum. Sem saber se a razão da animosidade era irritação pelo comentário impertinente ou simples inveja, os dois rosnaram sem disfarces, olhando para Vinda com um olhar assassino.

- O Gellert já sabemos que está há uns bons três anos na falta e, quanto a isso, não há muito o que fazer - Vinda comentou, cruelmente, ignorando os olhares ameaçadores e arrancando mais um grunhido do patrão -  mas, francamente, estou decepcionada com você, Tina. Eu sei que você ainda não se casou com o Newt, mas esperava que você tirasse pelo menos umas casquinhas dele de vez em quando..

E, pelo visto, Vinda havia acertado aonde mais doía.

- E eu tirava. - ela falou, infeliz - Até o irmão dele nos pegar no flagra. Desde então, o Theseus vigia cada um dos nossos movimentos. E isso já tem meses!

- Que dureza, hein? - Vinda comentou - Sinto muito.

- É o que você merece por não se casar logo. - foi a vez de Gellert atacar - Você enrola o pobre Newt há anos!

- Falta dinheiro! - Tina comentou, já começando a se exasperar - A padaria da Queenie e do Jacob só agora tá dando algum lucro, mas até chegarmos a este ponto, ela sugou toda a grana da família por meses! E não, não vamos conseguir nos casar tão cedo…

- Mas isso é fácil de resolver. - Vinda falou, tranquila - É só você mandar o Newt olhar para o outro lado e, quando ele virar o pescoço, você crava os dentes nele e pronto, problema resolvido!

Tina cruzou os braços:

- Como se fosse assim tão fácil…

Gellert olhou para Tina por alguns segundos:

- Seu problema é só dinheiro? - perguntou.

- Só dinheiro… - Tina rebateu em tom debochado - Sim, é… só… dinheiro.

Fazendo uma cara muito feia, Gellert abriu a primeira gaveta da escrivaninha, de onde puxou um talão de cheques e rabiscou nele uma quantia e sua assinatura antes de destacar a folha e jogá-la na direção de Tina.

- Isso aí dá para cobrir os gastos? - perguntou depois de segundos em que Tina apenas olhou para o cheque, sem reação.

- O que… que é isso? - Tina perguntou, chocada.

- Um empréstimo. Que você vai me pagar com anos de trabalho e subserviência. - Gellert respondeu, tranquilamente.

- É… muito dinheiro… - Tina comentou, uma gota de suor deslizando pela testa.

- Anos de trabalho e subserviência. - Gellert repetiu, no mesmo tom, desta vez dando um pouco mais de ênfase à palavra “anos”, enquanto ajeitava os óculos de leitura no nariz para enxergar melhor as letras muito miúdas de uma fatura.

Alguns segundos de silêncio se seguiram.

- Você… quer ser o padrinho? - Tina perguntou.

- Não. - Gellert respondeu, olhando por cima dos óculos por alguns segundos para logo em seguida voltar a dar atenção à fatura.

- Tá… bom.

- Bom, muito bom! - Vinda comemorou - nada  melhor do que diminuir ao máximo o número de pessoas na seca nesta fazenda.

E Gellert lhe direcionou um olhar tão assassino que ela não demorou muito a recolher a bandeja e ir embora. 
  
- Newt… - Theseus chamou enquanto batia na porta do seu quarto - Tina chegou.

E como sempre acontecia quando ouvia o nome da alpha, o coração de Newt começou a bater com força dentro do seu peito. Uma semana inteira longe dela era tempo demais! Mas, contendo o impulso de descer as escadas correndo para ver sua alpha, ele apenas parou na porta e olhou para Theseus:

- Posso te pedir uma coisa? - perguntou, olhando diretamente para a gravata do irmão.

Theseus soltou um suspiro, já imaginando o que viria:

- Pode, Newt…

E a cara de pidão que Newt fez logo em seguida comoveria até uma estátua:

- Você me deixaria… só um pouco sozinho com ela? - pediu - É que.. é que eu quero… você sabe, né? Namorar… só um pouco. Por favor? Juro que não vamos fazer nada de errado.

Theseus fez uma cara infeliz. Seu instinto protetor de alpha parecia gritar que deixar seu irmão sozinho com Tina era uma péssima ideia, mas a verdade era que ele já estava começando a ficar com muita pena do seu irmão e até um pouco ressentido consigo mesmo por não ter condições financeiras para ajudar a pagar aquele bendito casamento.

- Tá bom… - cedeu - quinze minutos! E vocês dois ficam na sala.

Um sorriso enorme nasceu no rosto de Newt e ele mal poderia esperar para sentir os braços de Tina o envolverem novamente pela cintura, como ela sempre fazia antes de beijá-lo mais intensamente. Quase pulando de alegria, ele agradeceu e correu para o andar debaixo.

No instante em que pôs os olhos em Tina, Newt  já sabia que alguma coisa diferente estava acontecendo. Ele a conhecia bem o suficiente para saber que sua alpha, sempre tão calma e segura de si, por algum motivo estava muito, muito nervosa.

- Er… eu acho que vou sair para comprar umas bebidas… - Theseus anunciou logo em seguida, cumprindo o combinado.

- Não, por favor, - Tina falou rapidamente - gostaria que você ficasse aqui…

Newt ficou absolutamente incrédulo por ouvir aquilo. Depois de tanto tempo de vigília incansável, Theseus finalmente havia concordado em dar um pouco de privacidade para eles e era assim que Tina reagia?

- Fico… fico sim, claro. - Theseus falou, sem saber o que dizer.

Newt olhou para a alpha contrariado, mas ela apenas sorriu para ele, parecendo ainda mais nervosa:

- É que eu… gostaria que você presenciasse… - Tina explicou, enquanto retirava uma caixinha do bolso da calça.

Os olhos de Newt se arregalaram de espanto e vergonha assim que ele viu sua alpha se ajoelhar diante dele ao mesmo tempo em que abria a caixinha de veludo para lhe mostrar um belíssimo anel.

- Casa comigo, Newt? - ela perguntou, seus olhos de salamandra brilhando tanto que Newt precisou tomar um pouco de ar para conseguir voltar a falar.

- Mas… mas… você já me pediu em casamento antes… - ele falou fracamente.

- Eu sei, mas isso foi há tanto tempo que agora eu me vejo na obrigação de pedir a sua mão de novo. - Tina explicou para logo depois perguntar num tom de voz bem mais suave - Aceita?

- Claro que aceito! - Newt respondeu, feliz da vida, ficando todo rosado quando Tina colocou o anel no seu dedo.

Foi a essa altura que Theseus se viu na penosa obrigação de intervir:

- Só uma dúvida… - falou, azedo - daqui a três anos você vai pedir a mão do meu irmão de novo? Quantos dedos ele vai precisar para colocar os anéis que você vai trazer para ele?

Newt olhou para o irmão horrorizado com a falta de tato, mas Tina apenas sorriu:

- Não se preocupe. Daqui a três meses eu estarei colocando uma aliança no dedo do seu irmão.

- Três meses?! - tanto Theseus quanto Newt perguntaram ao mesmo tempo.

- É isso mesmo que vocês ouviram. - Tina explicou - Gellert me emprestou a grana que faltava e isso quer dizer que Newt vai ganhar a festa mais linda de todas!

Newt mal poderia acreditar que aquilo finalmente estava acontecendo. Feliz da vida, esquecido do mundo, ele pulou nos braços de Tina, beijando todo o rosto dela.

Finalmente por poder ver toda aquela novela envolvendo seu irmão mais novo se aproximar do fim , Theseus deu um tapinha no ombro de Tina:

- Vê se faz o meu irmão feliz. - ordenou.

- Pode deixar comigo. - Tina garantiu, ainda abraçada ao ômega.

Pouco mais de três meses depois…

- Quase uma hora de atraso para servir o almoço. - Gellert resmungou assim que Vinda saiu da cozinha com a comida, ainda mais mal humorado do que o normal - Tem trabalho me esperando, sabia?

- Desculpe a demora. - Vinda falou, enquanto colocava as baixelas na mesa - Me atrasei um pouco porque sou boa empregada demais e resolvi passar na padaria do Jacob e da Queenie só para te trazer uma sobremesa especial. Quem sabe um pouco de chocolate a mais na dieta melhore um pouco este seu eterno mau humor?

Gellert não pareceu se comover com a justificativa:

- Cinco minutos de carro até a padaria, cinco minutos escolhendo e comprando a tal sobremesa, cinco minutos voltando. E os outros quarenta minutos?

Vinda desviou o olhar, ligeiramente aborrecida:

- Talvez eu tenha gastado um tempinho a mais olhando o álbum de casamento da Tina… - admitiu - Ela e Newt ainda estão em lua-de-mel, então mandaram as fotos para a Queenie.

- Sei…

- Nossa, foi uma pena o senhor não ter ido. A festa foi mesmo maravilhosa! Dancei a noite toda! - Vinda comentou, nostálgica, obrigando Gellert a espantar uma lembrança dele próprio dançando com Albus, há anos - E Queenie foi mesmo muito simpática, ela até me deu uma foto, quer ver?

- Quantas vezes eu preciso dizer que não quero saber nada desse casamento? - Gellert perguntou, aborrecido.

Ignorando a sua fala por completo, Vinda retirou uma fotografia do bolso da calça e estendeu para ele. Suspirando de impaciência, o alpha olhou entediado para cada um dos retratados, a começar pelos noivos com seus trajes nupciais. Tina exibia um sorriso satisfeito, de braço dado com Newt, que por sua vez chegava a estar até meio rosado de tanta felicidade. Ao lado do casal, estava Vinda, abraçando sua namorada possessivamente pela cintura.

- Bonita foto… - Gellert comentou, desinteressado.

- Ah, quase ia me esquecendo. Tem essa aqui também. - Vinda falou, puxando uma segunda foto do bolso.

Gellert fez uma careta de tédio, mas ainda assim pegou a segunda foto. Mal botou os olhos no papel brilhoso e seu interesse surgiu magicamente ao ver que nela estavam os noivos e seus padrinhos de casamento. Aproximando um pouco mais a foto dos olhos, Gellert viu Tina e Newt, ao centro, ainda mais radiantes do que na outra fotografia. Do lado direito deles, Jacob e Queenie sorriam, de braços dados, e, do lado esquerdo, também de braços dados e sorrindo, estavam Theseus… e Albus.

Com o coração batendo freneticamente no peito, Gellert reparou que Albus parecia ainda mais bonito do que da última vez em que ele o vira, há mais de três anos, na estação de trem. Livre dos efeitos colaterais dos supressores que usava antes, ele havia ganhado algum peso, embora ainda estivesse bem magro. No mais, usava os longos cabelos presos e uma túnica roxa muito bonita, sem nenhum lenço cobrindo a marca no seu pescoço. Olhando ainda mais atentamente, Gellert sentiu uma certa satisfação ao reparar que, ao contrário dele próprio, Theseus era bem mais baixo do que Albus, e que os dois formavam um par de padrinhos bastante esquisito.

- Eles dançaram juntos? - Gellert perguntou, sem tirar os olhos da foto.

- Pensei que você não quisesse saber nada desse casamento… - Vinda provocou.

- E não quero. - Gellert respondeu, aborrecido - Dançaram ou não dançaram?

Vinda respirou fundo:

- Albus nem sequer ficou para a festa. - explicou - Disse que precisava pegar o trem de volta para Hogwarts e foi embora logo depois das fotos.

- Melhor assim. Não vou com a cara desse sujeito… - Gellert comentou, fazendo Vinda olhar para ele com uma expressão divertida.

- Você não está com ciúmes, está? - ela perguntou.

- Não. - Gellert mentiu com naturalidade enquanto reparava bem no lindo sorriso de Albus.

- Você deveria ter ido, Gellert. - Vinda opinou, fazendo as sobrancelhas dele se juntarem.

- Eu estava trabalhando. - respondeu, seco.

- Pois perdeu uma chance de ouro de namorar um pouco. E Deus sabe o quanto você tá precisando.

Gellert fez uma cara muito feia:

- Eu e Albus não temos mais esse tipo de relação. - Gellert respondeu, guardando a foto no bolso do casaco, sem sequer se preocupar em pedir antes - Albus tem seus objetivos e eles são incompatíveis com os meus.

- Se é assim, então vê se se esforça mais em procurar um outro alguém. - Vinda respondeu - Porque até agora o seu empenho tem sido nenhum.

- Eu ando ocupado demais para esse tipo de coisa, mas você vai engolir essas palavras quando um belo dia eu aparecer aqui com uma pessoa.

- Mal posso esperar. - Vinda respondeu, sarcástica, dando as costas sem esperar por uma resposta, para andar na direção da cozinha.

Alguns anos depois…

- Os cavalos estão… estão todos muito saudáveis. - Newt falou enquanto guardava suas coisas na maleta - E a vacinação está toda em dia.

- Fico satisfeito em saber, Dr. Goldstein.

- O senhor insiste em me chamar… em me chamar de Goldstein… - Newt protestou fracamente.

- Só porque o senhor insiste em me chamar de Grindelwald. - Gellert rebateu.

- Tem razão, me desculpe. - Newt reconheceu, olhando para baixo  - Ah… antes que eu me esqueça… da última vez que eu estive em Hogwarts, Albus me pediu para entregar algo para o senhor. - Newt falou, remexendo sua maleta por alguns segundos até encontrar um envelope.

- O que é isso? - Gellert perguntou, olhando desconfiado para o papel ao ler o seu nome escrito nele com a delicada caligrafia de Albus.

- É um convite para… para a formatura dele. - Newt falou, animado - Albus pretendia enviar pelo correio, mas achou mais seguro me entregar.

Uma mistura esquisita de alegria e dor encheu o peito de Gellert ao olhar aquele envelope, afinal de contas, ele amava e odiava Hogwarts ao mesmo tempo.

- Albus deve estar muito feliz… - Gellert comentou, sentindo a textura do papel do envelope com a ponta dos dedos.

- Ah, ele não cabe em si de tanta felicidade. - Newt comentou, animado - Ainda mais agora que sabe que, seguindo o exemplo de Hogwarts, muitos outros ômegas começaram a ser aceitos em tantas universidades por toda a Europa. Até mesmo em Durmstrang.

- Isso… isso é ótimo! - Gellert respondeu, contente por saber que até mesmo a faculdade onde ele havia estudado estava aceitando ômegas. Com um sorriso maldoso, pensou em Vogel, que também havia estudado lá, e no quanto ele ficaria indignado com aquela notícia.

- E tem mais! - Newt adicionou, cada vez mais empolgado - parece que a Universidade de Ilvermorny, nos Estados Unidos, acabou de abrir uma vaga para uma especialização importante na nossa área. O diretor acha que eles têm planos são de contratá-lo para dar aulas em Ilvermony no futuro. Se isso for verdade, imagine só… o primeiro ômega dando aula numa universidade!

Gellert abriu a boca de puro espanto ao ouvir isso.

- É mesmo fantástico! - exclamou - E ele com certeza merece.

- Merece… isso e muito mais! Ele vai ser o veterinário mais conhecido do mundo! Acredite!!

- Eu tenho certeza disso… - Gellert comentou, distraído - Suponho então que logo chegará mais um pedido de autorização para eu assinar.

E ao ouvir isso, o sorriso de Newt aumentou ainda mais quando ele respondeu:

- Então… esta é a melhor parte! O senhor não vai precisar ter o trabalho de assinar nada porque Ilvermorny não exigiu autorização! O senhor pode imaginar uma coisa dessas?

Gellert ficou alguns segundos em silêncio:

- Newt - Gellert falou, chamando a atenção do ômega de imediato não só pela seriedade no tom, mas principalmente por usar o seu primeiro nome - Preciso te pedir um favor.

O dia estava ensolarado, perfeito para uma cerimônia em campo aberto.

Sentado numa das cadeiras de ferro reservadas aos convidados, Gellert assistiria à cerimônia de formatura de Albus, mal conseguindo conter o orgulho ao ver que ele havia sido escolhido como orador da turma.

Sem conseguir tirar os olhos do ômega nem por um minuto, Gellert se admirou ao vê-lo usar uma barba curta tão vermelha e brilhosa quanto seus cabelos compridos. Naquele momento, ao vê-lo discursar, o laço que havia entre eles pareceu mais apertado do que nunca, fazendo o coração do alpha doer de saudades daquele corpo esguio, daquele par de olhos cintilantes, daquela voz tão suave, daquele seu cheiro doce…

- Espero que, assim como eu, muitos outros ômegas possam frequentar os bancos de todas as universidades. - Albus falou ao final do seu discurso - Eu tive sorte de contar com o apoio do meu alpha, e sempre serei grato a ele por isso, mas, sinceramente, espero que, no futuro, todos os ômegas tenham autonomia para decidir seus próprios destinos e que não dependam mais dos alphas para realizar seus sonhos.

Gellert sabia que Albus estava falando da exigência de autorização de um alpha para estudar. Exigência esta que não existia para a especialização dos Estados Unidos.

Uma conquista e tanto para todos os ômegas.

Terminada a cerimônia, Gellert encontrou Albus tirando fotos animadamente com seus colegas logo após a formatura terminar. Os olhos do ômega brilharam ao vê-lo e ele balbuciou um pedido de desculpas antes de arrancar a toga, expondo seu terno cinzento muito bem alinhado, e andar ligeiro na direção do Alpha:

- Você está muito mudado. - Gellert falou, admirado - ganhou peso… suas roupas… e esta barba…

- Muito estranho? - Albus perguntou, preocupado.

- Não, não… apenas… diferente. - Gellert respondeu, sentindo como se o homem diante dele fosse e não fosse o Albus que ele conhecia.

- Apenas uma tentativa de passar desapercebido num mundo de alphas… - Albus explicou, sorrindo.

- Primeiro lugar da turma, vários artigos publicados, orador da turma… para quem queria passar desapercebido…

- Para minha sorte, as pessoas repararam nas coisas certas - Albus comentou, divertido - E como você sabe de tudo isso?

- Nós temos alguns bons amigos em comum. - Gellert respondeu, piscando para Albus.

Era uma meia verdade. Algumas coisas ele de fato soube por intermédio de Newt. Mas a grande maioria delas, Gellert descobriu por conta própria. Ele havia encontrado e lido cada artigo escrito por Albus e até aplicado em seu próprio dia-a-dia alguns dos seus trabalhos.

- Fico muito feliz que você tenha vindo… - Albus falou, seus olhos cintilantes de alegria - Significa muito para mim.

- Eu não poderia deixar de vir… - Gellert falou, reprimindo com custo a vontade de pelo menos segurar a mão de Albus - Precisava prestigiar você… realizando o sonho da sua vida.

Albus era só felicidade:

- E tudo isso graças a você!

- Não! Eu só assinei um papel idiota. Você fez todo o resto sozinho.

- Você assinou uma infinidade de papéis idiotas - Albus riu - e pagou todos os meus gastos durante todos estes anos. E eu ainda vou devolver tudo o que você gastou comigo.

- Isso não é necessário. - Gellert respondeu.

Os dois caminharam juntos pelo gramado, se distanciando cada vez mais do grupo de formandos e seus familiares.

- Você poderia ter vindo me visitar… - Albus cobrou depois de um certo tempo.

Gellert poderia ter dito que ele não o visitara simplesmente por morrer de medo de fraquejar no instante em que botasse os olhos em Albus de novo e perder a cabeça a ponto de exigir que Albus largasse tudo aquilo e voltasse para casa com ele. Mas não foi isso o que acabou dizendo:

- Eu estive muito ocupado. Cuidando da fazenda… e da minha família.

O rosto de Albus perdeu imediatamente a cor e seus olhos tão brilhantes se apagaram ao ouvir aquilo, mas ele se recuperou rápido e sua voz tremeu muito pouco quando ele perguntou:

- Você conseguiu? Arrumou alguém?

- Sim.

- E essa pessoa… te deu filhos?

- Dois. - disse - Mas quero muitos mais.

Albus fechou os olhos por um instante e depois esticou os braços para pegar suas mãos. Sentir aquele contato depois de tantos anos por muito pouco não fez Gellert desistir de tudo, mas ele aguentou firme.

- Que bom pra você, Gellert! - ele falou tão docemente que algo se retorceu na garganta do alpha - Você realizou o seu sonho… onde quer que seu pai esteja agora, deve estar muito satisfeito!

- Sim… -  falou, sentindo um gosto terrivelmente amargo na boca enquanto afastava as mãos de Albus
das dele delicadamente.

- Você tem fotos das crianças? Queria ver como são…

- Não estão comigo agora…

- Promete que vai me enviar por carta?

- Se eu tiver tempo… - Gellert falou - E, falando em tempo, eu preciso ir…

- Já? - Albus perguntou, parecendo chocado - Pensei que teríamos mais algum tempo para, você sabe… conversar.

Gellert também esperava ter algum tempo com Albus, que os dois passassem algumas longas horas juntos, conversando sobre a faculdade, a fazenda, cavalos ou coisa alguma, não importava. Mas ele simplesmente não conseguiria ficar perto de Albus por muito mais tempo, pois nem mesmo o afastamento de anos havia sido o bastante para enfraquecer em um único milímetro o laço que os dois possuíam. Mas, ao mesmo tempo, era tudo diferente...

E foi por isso que ele disse:

- Prometi… que ia voltar ainda hoje. - disse, fugindo do olhar triste de Albus, enquanto retirava algo do bolso do paletó - Ah, sim… estou para te devolver isso há muitos anos… aqui está.

Albus apenas olhou para o seu pente de ouro brilhando nas mãos de Gellert por alguns segundos, sem dizer coisa alguma:

- Perdi a conta do número de vezes que este pente me espetou através do tecido da minha camisa. - Gellert riu - É quase como se ele me pedisse o tempo todo para voltar para o seu dono… toma aqui.

Os dedos de Albus estavam trêmulos, mas, ainda assim, ele não se furtou a acariciar a mão de Gellert ao pegar a joia.

- Obrigado… - Albus falou suavemente ao ver o pente brilhar em sua mão, sentindo seu coração doer com o sentimento de que seu Alpha o estava abandonando para sempre.

- Então… acho que isso é um adeus. - Gellert disse.

Albus ficou alguns segundos calado antes de responder:

- É… acho que sim.

Gellert deu de ombros, sentindo-se a mais miserável das criaturas por saber que Albus agora estava sofrendo, mas convencido de que logo ele estaria feliz e realizado, fazendo o que mais amava nos Estados Unidos. Ele então tomou distância, levantando a aba do chapéu em despedida antes de dar as costas para sempre ao ômega da sua vida.
  
- Isso não está certo… não está nada bom. - Newt repetiu, olhado pela janela do Expresso de Hogwarts que os levaria de volta para casa.

Tina se viu na obrigação de perguntar:

- Faz meia hora que você repete a mesma coisa… não quer falar um pouco sobre isso?

- Eu… eu acho que você não entenderia… - Newt falou, tristemente.

- Não custa nada tentar. - Tina sugeriu, sorrindo para ele.

Newt sorriu de volta e assentiu com a cabeça, em concordância antes de limpar a garganta, procurando as melhores palavras:

- É o Sr. Grindel... é o Gellert… ele me pediu para mentir para o Albus.

- Mentir para o Albus? - Tina arregalou os olhos - Sobre o quê?

- Me pediu para confirmar… que ele estava com outra pessoa… e que tinha dois filhos.

- Minha nossa! - ela colocou as mãos sobre a boca, chocada - Mas por que ele está fazendo isso?

- Porque eu disse a ele que o diretor de Hogwarts conseguiu uma especialização muito importante nos Estados Unidos e que a vaga é especial para ômegas.

- E ele pensa que o Albus não vai aproveitar a oportunidade se descobrir que o Sr. Grindelwald ficou esperando por ele esse tempo… - Tina concluiu rapidamente.

- Bem… é isso.

- Consigo compreender muito bem os motivos dele.

- Mas Tina… isso não está certo…

- Por que não? É o melhor para o Albus…

- Não! É apenas o que o Sr. Grindelwald acha que é melhor para o Albus. - Newt respondeu suavemente, olhando para o teto do trem - Ele só está agindo co… como um alpha, decidindo tudo por conta própria. Mas quem deveria decidir sobre isso era o Albus, não ele.

- Mas… Albus tem escolha? - Tina perguntou - Você sempre me falou da importância de aproveitar esse tipo de oportunidade… abrir espaço para todos os ômegas. Albus não pode recusar isso.

Newt ficou alguns instantes, pensativo:

- Talvez… talvez ele tenha sim uma escolha… - disse, distraído com seus próprios pensamentos.

- Qual exatamente?

Newt hesitou um pouco:

- Tudo a seu tempo… - falou, misterioso - Tudo a seu tempo…

Tina segurou as mãos do seu ômega e as beijou docemente:

- Como você quiser, meu amor.

Um mês depois…

- Excelente trabalho com a fertilização das éguas, Abernathy. - Gellert elogiou assim que viu o feitor - Agora precisamos marcar as ultrassonografias sem falta.

- Senhor… - Abernathy falou hesitante e Gellert, que podia ler cada expressão de Abernathy só de bater os olhos, se preocupou porque essa… essa era realmente desconhecida - Tão te esperando lá na sala…

-  Estranho… pensei que todo mundo da cidade estivesse se preparando para ir a tal festinha de despedida dos Goldstein. - Gellert respondeu, agora realmente curioso, enquanto procurava sua agenda para anotar um lembrete sobre as ultras - Fornecedor de fora?

E a expressão esquisita de Abernathy se aprofundou:

- Melhor o senhor mesmo receber.

Gellert olhou de novo para Abernathy, ainda sem conseguir decifrar aquela cara. Não parecia má notícia, pelo contrário. Quem diabos estava esperando por ele na sala?

- Já sei que vou acabar me atrasando… - resmungou.

Contrariado, andou até a sala, já imaginando que espécie de aborrecimento estaria esperando por ele, ainda mais agora que Tina iria se mudar para sabe-se lá onde junto com seu ômega e ele ficaria sem contador e sem veterinário. Mal humorado, ele invadiu a sala, mas precisou se segurar no portal ao reconhecer a figura esguia de costas para ele, com as mãos apoiadas no peitoril da janela, os cabelos vermelhos esvoaçando levemente com o vento.

- A... Albus? - gaguejou.

Albus se virou. Sua barba estava um pouco mais comprida, Gellert logo reparou, mas, tirando este único detalhe, nada havia mudado e o ômega parecia lindo como nunca em sua belíssima túnica azul.

- Olá… - Albus se virou ao sentir a sua aproximação e olhou para Gellert, animado, seus olhos azuis brilhantes denunciando toda a alegria que sentia por revê-lo.

- Não achei que viria... - foi a resposta meio perdida de Gellert.

- Por nada no mundo eu perderia a festa de despedida do Newt e da Tina!

- Você deveria estar num avião. - Gellert retrucou - A caminho de ser o veterinário mais conhecido do mundo.

Albus franziu as sobrancelhas, por alguns segundos confuso:

- Oh, não… faz tempo que recusei esta vaga.- ele falou quando finalmente se deu conta que Gellert, de alguma forma, sabia da especialização no exterior.

O coração de Gellert bateu forte em seu peito ao ouvir aquilo, mas ele se segurou:

- Por que?

Albus sorriu:

- Talvez  porque eu nunca quis ser o veterinário mais conhecido do mundo.

- Mas… é uma oportunidade única para um ômega… - Gellert argumentou.

- Ah, mas o Newt é muito mais indicado do que eu para aproveitá-la. - Albus respondeu.

- O… o Dr. Goldstein?

- Sim, o Dr. Goldstein. - Albus riu - Você não sabia que ele e a Tina estão indo justamente para os Estados Unidos?

- Confesso que não me interessei pela vida deles a este ponto. Só sabia que eles iam se mudar para algum lugar. - Gellert respondeu, dando de ombros, para então mudar de assunto - Mas e agora? O que você pretende fazer daqui para frente?

- Ficar.

- Ficar? Ficar como?

-  Bom… o Newt me pediu para substituí-lo na clínica enquanto ele estiver fora. Acho que vou aceitar.

As sobrancelhas de Gellert se levantaram de pura surpresa:

- Isso… isso é ótimo! - ele disse, sem saber muito o que falar - E onde você vai morar?

Um tema espinhoso, Gellert podia adivinhar apenas pela expressão do ômega.

- Com o meu irmão. - Albus respondeu, logo em seguida emendando uma defesa - As coisas mudaram um pouco, ele… está feliz em me receber… e… eu acredito que, desta vez, as coisas vão ser diferentes.

A testa de Gellert se franziu inteira apenas por imaginar seu ômega tendo que conviver com Aberforth novamente.

- Eu sei o que você está pensando. - Albus falou suavemente antes mesmo que Gellert dissesse alguma coisa - Mas deixe isso comigo, não foi para te deixar preocupado que eu vim até aqui.

- E posso perguntar por que você veio então?

- Eu vim só para conhecer os seus filhos. - Albus sorriu, docemente - Desde que você me falou deles, não paro de pensar. De tentar imaginar como eles são…

Gellert abriu a boca por alguns segundos, espantado:

- Você quer… ver os meus filhos?

- Sim! Eles estão em casa? Quero muito conhecê-los.

Alguns segundos de silêncio se seguiram àquela pergunta, com Gellert olhando intensamente para Albus.

- Será possível? Que você não sente nada? - ele finalmente perguntou, quase ofendido.

Albus engoliu em seco. Pego de surpresa por aquela pergunta tão franca, ele se viu desarmado e totalmente vulnerável diante dela. E o olhar que dirigiu a Gellert transmitiu toda a dor que sentia por dentro:

- É claro que eu sinto! - confessou, finalmente - Como eu poderia não sentir? Você é meu alpha, nós temos um laço para toda a vida …

Gellert precisou respirar fundo, exasperado:

- E ainda assim você quer conhecer os meus filhos com outra pessoa?

Albus mordeu os lábios:

- Você fez questão de ir me ver realizar o maior sonho da minha vida. Ainda que te doesse… eu também quis ver a realização do seu maior sonho.

Gellert balançou a cabeça:

- O maior sonho da minha vida não é ter filhos.

Albus olhou para o alpha, surpreso:

- Pensei que fosse…

- O maior sonho da minha vida é ter filhos… com você.

Albus olhou para Gellert tão intensamente que era como se aqueles olhos azuis perfurassem a sua alma:

- Você me esperou. - ele finalmente falou. Não era uma pergunta, sua voz estava trêmula de emoção.

Foi a vez de Gellert olhar intensamente para Albus e encontrar seus olhos cintilantes como nunca.

- Meu ômega mandou.

Albus começou a rir. Uma lágrima deslizou pelo seu rosto.

- Isso que dizer que você me quer de volta?

Gellert respirou fundo, parecendo pensativo por alguns segundos:

- Estou precisando de um veterinário para cuidar dos cavalos. O Dr. Goldstein estava cuidando dos meus animais, mas agora que ele vai se mudar…

Mais duas lágrimas felizes correram pelo rosto de Albus:

- Você está me oferecendo um emprego, Sr. Grindelwald?

Gellert sacudiu a cabeça. Se aproximou de Albus devagar e secou delicadamente as lágrimas que haviam pousado no canto da sua barba antes de responder:

- Você já é dono de tudo aqui, Dr. Grindelwald.

Albus piscou, seu sorriso se tornou ainda mais intenso:

- Sou seu dono então? - perguntou, ansioso por uma resposta.

Gellert sorriu e se inclinou na direção dos lábios de Albus. O beijo foi lento, carinhoso, cheio de saudades, e, quando se afastaram, os dois riram ao se dar conta que ambos choravam. Só então, Gellert tomou as mãos de Albus para beijar seus pulsos suavemente, e responder:

- Desde o primeiro dia.
 
FIM

----- CHAPTER BREAK -----

Newt andava de um lado para o outro na sala, tentando, mas não conseguindo controlar seu próprio nervosismo. Respirou fundo e massageou a própria nuca por alguns segundos, mas nem mesmo isso parecia aliviar a tensão que sentia.

Somente ao ouvir um barulho de chave virando na fechadura é que Newt conseguiu respirar de novo.

- Você encontrou? - perguntou, ansioso.

- Claro que encontrei. - Theseus respondeu - Este é o único supressor vendido legalmente, afinal.

E então Theseus retirou uma ampolinha do bolso e a estendeu para Newt, que a segurou com todo o cuidado enquanto o irmão ia até o lavabo contíguo lavar as mãos.

- Mal posso acreditar que finalmente vou aplicar isso em você. - Theseus falou, satisfeito - Tenho certeza que nossos pais estariam muito orgulhosos se estivessem aqui.

Newt balançou o conteúdo rosado da ampola, curioso. Os supressores matrimoniais só eram vendidos a alfas que comprovassem que os ômegas sob sua responsabilidade se casariam nas próximas vinte e quatro horas. Além disso, tinham duração muito curta, funcionavam apenas por tempo suficiente para o ômega aproveitar a cerimônia de casamento e estar pronto para a noite de núpcias.

- Talvez tivesse sido melhor ter interrompido os seus supressores um pouco mais cedo. - Theseus opinou enquanto tomava a ampola das mãos do irmão para preparar a injeção - Você pode acabar tendo algum tipo de interação medicamentosa…

- Acho que não tem perigo de isso acontecer. - Newt respondeu enquanto inclinava o pescoço para que Theseus passasse um algodão com álcool no lugar da aplicação - Quando Albus aplicou… ele já estava usando supressores.

- Que loucura… - Theseus comentou, puxando a pele do pescoço do ômega - Inclina um pouco mais.

Newt inclinou o pescoço ainda mais para dar livre acesso ao irmão:

- Se ele não fizesse isso, o irmão dele poderia desconfiar de alguma coisa… - explicou, sem conter um gemido de desconforto ao sentir a agulha lhe espetar.

- Dói? - Theseus perguntou, preocupado.

- Não muito. - Newt respondeu, suavemente, acariciando o próprio pescoço.

- Muito bom. Agora tente descansar um pouco. - Theseus aconselhou, dando um tapinha no ombro do irmão - Amanhã será um dia e tanto.

Newt suspirou:

- Sonhei com este dia durante tantos anos e… agora que vai acontecer… não… não parece real. É como… como se ainda fosse um sonho.

Theseus sorriu:

- Não se preocupe… amanhã será muito real. Boa noite, Newt!

- Boa noite!

Queenie ajudou Newt a ficar pronto, amarrando sua túnica nupcial e enchendo seus cabelos de joias.

- Você está tão lindo, Newt! - ela comentou - Tina vai se derreter!

Newt olhava seu reflexo no espelho e não acreditava. Seu amigo e, muito em breve, padrinho de casamento, Albus Grindelwald, havia se oferecido para presenteá-lo com uma túnica especial, toda bordada à mão. Mas agora que se via com a tal túnica… ele nem parecia a mesma pessoa.

Uma onda de nervosismo incontrolável subiu pela sua garganta e Newt precisou respirar bem fundo para não começar a chorar. Felizmente, a porta do quarto se abriu e Theseus entrou, distraindo Newt de todo aquele nervosismo.

- Tudo pronto? - perguntou.

- Sim, tudo pronto! - Queenie respondeu antes de dar os últimos retoques no cabelo de Newt - Olha como ele está lindo!

- Você está mesmo ótimo! - Theseus elogiou, sincero, antes de mostrar seu terno e perguntar - E eu? estou bem?

- Sim, muito bem! - Newt respondeu automaticamente, sorrindo de puro nervoso, o que não passou desapercebido.

- Você está bem? - Theseus perguntou, tocando as costas do irmão - Nervoso?

E o sorriso tenso que Newt deu em resposta falou por si.

- Você foi o primeiro ômega do país a se graduar numa faculdade. - Theseus comentou, sorridente - Certeza que você tira de letra uma cerimônia de casamento. Vamos lá? 
  
O momento mais feliz da sua vida.

Foi quando Theseus o entregou à Tina e ele viu um amor infinito no fundo dos olhos dela. Ali, ao lado da sua Alpha, cercado de amigos queridos e do seu irmão, Newt sentiu-se nadando num verdadeiro mar de felicidade.

Dançou a noite toda, se deixando envolver pelos braços de Tina, enquanto os dois falavam todo o tipo de besteira e riam à toa. Os supressores só começaram a perder o efeito só bem depois do banquete.

Era hora de partir para a noite de núpcias.

Tina o fez entrar no quarto mais luxuoso do melhor hotel da cidade, sorrindo da expressão de deslumbramento do ômega.

- Enfim, sós! - ela comentou, divertida, enquanto fechava a porta.

- Peraí! Você tem mesmo certeza? - Newt perguntou, rindo - Acho melhor checar! Vai que meu irmão está escondido em algum lugar por aqui?

E começou a procurar por Theseus atrás das suntuosas cortinas do quarto, enquanto Tina apenas ria.

- Você não vai acreditar, mas estamos mesmo sozinhos! - Newt falou, divertido, após alguns segundos fingindo que procurava aqui e ali.

- Sim… - Tina respondeu, olhando profundamente para o ômega - não precisamos mais ter medo de nada.  Porque agora você é todo meu!

- Ainda não… - Newt falou muito baixo, fazendo Tina sorrir ao perceber que seus olhos estavam começando a adquirir um tom específico de azul.

- Vem aqui, vem? - ela ordenou, suavemente e Newt se aproximou dela devagar. A Alpha então se dedicou a desfazer o nó que fechava sua túnica, enquanto admirava o rosto levemente rosado do Ômega. Newt olhava para os dedos dela, acompanhando cada movimento, até toda a sua roupa estar no chão.

Era a primeira vez que Tina via Newt totalmente sem roupa. Os dois tinham namorado algumas vezes antes, é verdade, mas sempre de roupa, o tempo todo com medo de serem flagrados por Theseus. Só agora Tina podia finalmente  apreciar o corpo pálido de Newt, reparar em cada mínimo detalhe, devorá-lo com os olhos.

Newt não dizia coisa alguma e seu olhar era uma perfeita mistura de desejo e timidez.

- Você quer tirar a minha roupa? - Tina perguntou e os olhos dele se arregalaram levemente.

- Eu… eu posso? - Newt perguntou, inseguro.

Os dedos de Tina alcançaram uma mecha de cabelo de Newt numa discreta carícia antes de ela responder:

- O seu corpo é meu... - ela disse - E o meu corpo é seu.

Newt assentiu rapidamente e suas mãos tremeram de ansiedade quando ele começou a tirar as roupas dela; Tina apreciava a delicadeza com que ele abria os botões e se livrava de cada obstáculo. E, assim que se viu totalmente sem roupa, ela sorriu e o abraçou, apreciando o contato morno das peles nuas.

- Tá com vergonha? - Tina perguntou, ao sentir Newt se encolher nos braços dela. O omega começou a balançar a cabeça numa negativa, para, logo em seguida, mudar de ideia e assumir que ele estava sim, morrendo de vergonha.

Tina então tomou as mãos do seu ômega e o levou até a cama. Ela o fez deitar e posicionou travesseiros sob a sua cabeça, deixando-o confortável, antes de beijá-lo pelo corpo todo, a começar pelos pés e subindo pelas pernas, barriga, peito, até o pescoço. 
A princípio, Newt parecia bem nervoso e envergonhado, mas, aos poucos foi relaxando, se entregando às carícias e beijos. Isso, até o momento em que os lábios de Tina tocaram seu pescoço, lambendo-o de cima a baixo.

Newt quase uivou se ansiedade ao sentir sua alpha tocar aquela região tão sensível. Tina cheirou aquele pedaço de pele tão macio e, sorrindo, abandonou o pescoço tentador, beijando suavemente os seus protestos frustrados antes de voltar a se dedicar a dar prazer ao seu ômega. Explorou todo o seu corpo devagar, enquanto o via reagir a cada carinho, a cada beijo. E ao vê-lo novamente relaxado e entregue, Tina se dedicou a uma deliciosa caça aos pontos sensíveis do seu ômega. A parte interna das suas coxas, os mamilos, seu umbigo, os lóbulos das orelhas… todos eles provocavam gemidos de puro prazer, mas nada chegava perto à reação de Newt quando ela tocava o seu pescoço.

Os olhos de Newt foram ficando cada vez mais azuis à medida em que Tina o acariciava, até que o olhar sempre tão doce do ômega adquiriu um brilho selvagem. E foi só aí que ela soube que o lobo dentro dele estava completamente desperto.

Quantas vezes Tina se perguntara como o lobo de Newt reagiria a ela na primeira noite e como ela o submeteria? A maioria dos lobos ômegas eram bastante ferozes e davam trabalho para se curvar. Mesmo durante o cio, eles rosnavam, mordiam e arranhavam, exigindo dos Alphas muita força e paciência até o ponto da submissão.

Mas, para sua surpresa, o lobo de Newt não fez nada disso. Ele apenas se aproximou dela bem devagar e a cheirou inteira, parecendo feliz por estar ali.

- Consegue reconhecer a sua dona? - Tina perguntou suavemente. Newt parou de cheirá-la e a encarou por alguns instantes enquanto a alpha observava o azul dos seus olhos se intensificar ainda mais, fazendo a loba dentro dela reagir imediatamente ao lobo de Newt.

Naquele momento, uma lembrança do tempo em que os dois eram crianças invadiu a mente de Tina, e ela rememorou a época em que eles brincavam como dois filhotes de lobo que eram, rolando felizes pela relva em meio a mordiscadas e grunhidos. Desde aquele tempo, as brincadeiras entre eles sempre terminavam da mesma forma: com Newt rendido e mostrando a garganta para ela.

- Você não deveria mostrar a garganta dessa forma para os outros. - Tina reclamou certa vez, sem saber ainda que estava com ciúmes pela simples ideia de imaginar Newt brincando daquela mesma forma com qualquer outro filhote.

Newt a encarou brevemente, antes de responder:

- Eu não mostro a minha garganta para os outros! - protestou, para logo depois emendar, baixinho - Eu só mostro a minha garganta para você…

De volta ao presente, Tina sorria e aninhava o lobo de Newt em seus braços ao ouvi-lo ganir por ela, carente.

- Você sempre foi meu… - ela sussurrou no seu ouvido, acariciando-o e, como resposta, o lobo inclinou o pescoço novamente para ela, mostrando sua garganta em sinal de total submissão, enquanto gania de ansiedade.

E foi ali mesmo, diante da garganta de Newt, sentindo o cheiro doce do seu ômega e vendo a veia do seu pescoço saltar debaixo da sua pele, que Tina sentiu o lobo dentro dela despertar por completo. Grunhindo, ela o abraçou  possessivamente, decidida a não esperar nem mais um minuto sequer para tomar o que era dela por direito.

Newt apertou os olhos, sem ser capaz de emitir um único ruído ao sentir os dentes de Tina se fecharem no seu pescoço com força. Ela o tomou para si com confiança e todo o seu corpo foi dominado por um prazer inexplicável.

Uma vida de espera! Desde que eram filhotes, o lobo de Newt ansiava por aquele momento! Quantas vezes ele mostrou a garganta para Tina enquanto sentia um frio gostoso na barriga, adorando se submeter a ela! E agora que ele finalmente podia sentir os dentes da Alpha em seu pescoço, Newt não tinha forças para mais nada além de fechar os olhos e aproveitar aquele momento tão intenso. E ao senti-lo tão entregue, a loba apertou ainda mais os dentes na garganta do seu ômega, possessiva, fazendo Newt se contorcer de dor e prazer.  Naquele momento, ela não tinha certeza se estava mordendo ou sendo mordida, se Newt estava em seu colo sentindo os dentes dela ou se era ela que estava no colo dele, sendo marcada por ele.

O tempo parou enquanto o laço se formava e os cheiro dos dois se misturava, até
Tina finalmente largar o pescoço de Newt, ouvindo ele choramingar baixinho enquanto ela lambia o seu pescoço repetidas vezes.

Mas Newt não teve muito tempo para se lamentar porque, logo em seguida,
os dois já estavam cruzando. De quatro, com força, a maneira dos lobos. Dois animais selvagens encontrando prazer juntos. Grunhindo, resfolegando, mordendo, tremendo de prazer ao sentirem o corpo um do outro.

Transformados em um ser único pelo laço que os unia, naquele momento, o que menos importava era quem estava por cima ou por baixo. O corpo de Tina poderia estar de quatro na cama, com Newt em cima dela, metendo fundo, mas, na mente de ambos, era ela que o invadia, com muita força, cada vez mais rápido, resfolegando, gemendo, grunhindo.

Gozaram juntos, sentindo prazer em dobro, e despencaram na cama, ofegantes e exaustos. Newt fechou os olhos e sorriu como um bobo, Tina sentindo suas coxas trêmulas.

- Aconteceu! - Newt comentou, meio incrédulo - Realmente aconteceu!

Tina acariciou o rosto do seu ômega e o beijou carinhosamente antes de responder:

- Agora você é meu. Para sempre.

Aninhado aos braços da sua dona, lobo e homem se deixaram arrastar para o mundo dos sonhos, sabedores de que aquela era apenas a primeira noite de uma vida inteira juntos.

----- CHAPTER BREAK -----

Gellert não soube dizer como conseguiu alcançar o quarto. Alguma força sobrenatural com certeza o levou até lá de alguma maneira, após ele descartar a ideia de fazer seu ômega se debruçar em um móvel qualquer, ali na sala mesmo, e abrir espaço por sua túnica  para se enfiar nele.

De alguma forma, os dois haviam subido as escadas juntos e se fechado no quarto pela primeira vez depois de tantos anos; de alguma maneira, os dois arrancaram as roupas sem rasgá-las, em meio a beijos cada vez mais famintos; de algum jeito, eles conseguiram chegar até a cama.

E o autocontrole de Gellert acabou ali.

Estar dentro de Albus novamente depois de tantos, tantos anos, certamente exigiria algum romantismo. Beijos tórridos e carinhos por todo corpo, alguma preparação paciente e todo tipo de elogios e palavras de amor.

Mas Gellert não tinha condições de fazer nada daquilo. Deliciosamente encaixado entre as pernas abertas de Albus, tudo o que ele foi capaz de fazer foi respirar fundo e se enfiar nele de uma vez só, soltando um suspiro de prazer e alívio enquanto Albus gemia baixinho e se abraçava ao seu pescoço.

Gellert então se inclinou e seus dentes revisitaram a marca no pescoço de Albus, fazendo-o gemer de novo, desta vez bem mais alto, mesmo que os dentes só apertassem sua garganta bem suavemente, como se o convidasse a se lembrar da noite em que o havia marcado, há tantos anos.

Depois disso, Gellert não durou um minuto inteiro. Meteu algumas vezes, tentando desesperadamente se segurar, dar o máximo de tempo que pudesse a Albus, mas já sabendo que não obteria sucesso.

- Eu te amo, Albus! Eu te amo, Albus! Eu te amo, Albus! - ele repetiu em desespero enquanto estocava, sentindo os quadris do seu ômega buscarem por ele.

E aquelas palavras de amor surtiram efeito imediato em Albus. Conectados como estavam, o ômega podia sentir o prazer e a ansiedade do seu alpha enquanto entrava e saía. Tudo era intenso demais! Estar ali, com as pernas abertas para o seu alpha, senti-lo dentro dele, ouvi-lo dizer que o amava…

Era demais para ele.

O gozo de Albus pegou Gellert totalmente de surpresa e ele não aguentou nem mais um
segundo. Gemeu alto, se enfiando fundo no seu ômega e sendo abraçado por ele, sentindo-se acolhido por aquele cheiro doce que ele amava tanto.

Ofegantes, os dois ficaram abraçados e em silêncio por um longo tempo, apenas aproveitando o calor e o cheiro um do outro.

- Sonhei tantas vezes com este exato momento. - Albus falou suavemente ao se ver envolvido pelos braços de Gellert.

- Dizem que alphas e ômegas unidos sonham juntos. - Gellert respondeu, cheirando uma mecha de cabelos vermelhos - Se isso for mesmo verdade, então eu te visitei muitas vezes durante todas essas noites em que estivemos separados.

Albus fechou os olhos, querendo acreditar que era verdade que os dois de alguma forma estiveram juntos por alguns momentos durante todos aqueles anos. Deitado naquela cama, ao lado de Gellert, ele poderia finalmente sentir a felicidade plena, por ter realizado todos os seus desejos e ambições.

Era hora de realizar os sonhos de Gellert.

- Faz algum tempo que parei de tomar meus supressores… - Albus explicou, seus dedos deslizando pelo peito nu de Gellert - e tive alguns cios bem… difíceis antes de vir para cá.

Gellert olhou para Albus, divertido:

- Por acaso você tinha a intenção de seduzir um homem casado? - perguntou - Vir até aqui me provocar com seu cheiro de ômega…

Albus franziu imediatamente as sobrancelhas:

- Você é casado comigo. - ele falou, ranzinza.

- É verdade… mas você pensava que eu até tinha filhos com outra pessoa e ainda assim…

- Eu juro que não era a minha intenção te seduzir… - Albus o interrompeu - Mas depois de tantos anos mergulhado de cabeça num mundo de alphas, tudo que eu queria era voltar a ser um ômega. Me vestir como um ômega, cheirar como um ômega…

- Amar como um ômega… - Gellert continuou, puxando Albus para um beijo.

- Esta parte foi uma agradável surpresa. - Albus reconheceu após os lábios se separarem - Mas, agora que estamos aqui, espero que os seus feromônios me façam entrar no cio logo…

Os olhos de Gellert procuraram os de Albus, encontrando um brilho especial neles:

- É o que você quer? - Gellert perguntou.

- Mais do que qualquer coisa. - Albus garantiu.

E ao ver o sorriso confiante de Albus, Gellert se sentiu feliz como nunca antes.
  
Gellert realmente pensou que o fato de ele já tê-lo marcado, há tantos anos, faria com que o lobo de Albus se entregasse sem oferecer qualquer resistência.

Ele estava errado.

Mesmo em pleno cio, o lobo de Albus ainda assim rosnou ameaçadoramente no momento em que Gellert o tocou e ele precisou se esforçar muito para fazê-lo se submeter e acasalar com ele.

Da primeira vez em que isso aconteceu, o Alpha até imaginou que a reação desconfiada do lobo se devia a todo o tempo em que os dois estiveram longe.

Errado de novo.

Não demorou muito para Gellert aprender que o lobo de Albus não gostava nenhum pouco de se submeter e só o fazia depois de ser totalmente imobilizado e sentir os dentes de Gellert pressionarem o seu pescoço. Era quase como se ele também fosse um Alpha, sempre lutando ferozmente pela dominância.

Mas quando o lobo de Albus finalmente se submetia… ele se tornava tão dócil! Ávido por Gellert, ansioso para acasalar.

Gellert então imaginou que Albus não engravidaria tão facilmente e que os dois talvez até passassem pelas mesmas dificuldades que seus pais tiveram para conseguir.

Errado mais uma vez.

Gellert nunca esqueceria o sorriso e o brilho no olhar de Albus quando ele pegou sua mão e a encostou na sua barriga. E ele não precisou de mais do que isso para saber que seria pai.

- Você tem certeza? - Gellert perguntou, duvidando que toda a felicidade que sentia era real.

Albus apenas assentiu com a cabeça antes de ser envolvido pelos braços do seu alpha.

- Você realmente acredita nisso? - Albus perguntou quando Gellert lhe estendeu a fruta.

- Este é um truque infalível para descobrir o segundo sexo do bebê. - Gellert respondeu, indiferente à expressão de descrença de Albus - Tudo que você precisa fazer é morder. Se a semente dentro da fruta for enrugada, será um ômega, se for lisa, é alpha.

Albus revirou os olhos:

- Gellert… isso é bobagem…

- Morda. - foi a resposta curta que o alpha lhe deu.

Albus fez uma careta e pegou a fruta, mordendo-a de má vontade.

- Um pouco azeda demais, eu diria. - Albus opinou, devolvendo a fruta para Gellert, que já estava com uma faca na mão, pronto para abri-la - Não me diga que seu pai fez a mesma coisa  para descobrir se você era alpha.

- Sim, ele fez. - Gellert respondeu enquanto abria a fruta com todo o cuidado - E adivinha?

- Não é como se a probabilidade de acerto fosse baixa…

- Já disse que este método é infalível e… - Gellert finalmente conseguiu visualizar a semente - q.. quê isso?

Intrigado, o alpha arrancou a semente da fruta e a limpou no próprio casaco com energia antes de olhar de novo para ela, virando-a para todos os lados, sem acreditar nos próprios olhos. Curioso, Albus se aproximou para espiar.

- Infalível, né? - o ômega questionou assim que pôs os olhos na semente

- Metade da semente está lisa… e a outra metade… enrugada… - Gellert falou, confuso, ignorando Albus por completo - o que isso significa?

- … que será um beta? - Albus sugeriu.

- Nada disso… quando é um beta, a semente da fruta vem com alguma rachadura. Isso é… diferente…

Albus balançou a cabeça, condescendente, antes de massagear os ombros tensos do alpha.

- Gellert, é só uma fruta…  - ele falou, divertido - não leve isso tão a sério…

Dessa vez, o errado era Albus.

O grande mistério da semente foi solucionado quando o médico parabenizou Gellert durante a primeira ultrassonografia:

- Ora, veja só… parece que seu ômega vai te dar gêmeos! - o médico falou, espantado - uma verdadeira raridade!

- São.. são… dois?! - Gellert perguntou, boquiaberto, trocando um olhar de espanto com Albus, radiante de felicidade.

E a partir do momento em que ouviu aquela frase, Gellert parecia ter sido içado ao paraíso por uma legião de anjos, de tão deslumbrado com a ideia de ter dois filhotes de uma só vez.

Mas Albus não estava tão fascinado:

- Não gosto nada do jeito que as pessoas me olham sempre que ficam sabendo que estou esperando gêmeos… - ele comentou, aborrecido - e, como se não fosse estranho o bastante, todos te parabenizam não pelos bebês, mas por mim.

- Albus, você não imagina a honra que é para um Alpha possuir um ômega que lhe dê dois filhos de uma só vez! - Gellert respondeu,empolgado - Eles só estão me parabenizando por você ser um ômega tão especial!

Albus apenas suspirou, nada impressionado, afastando o sanduíche que Vinda havia feito para ele com uma careta.

Foram meses tendo que lembrar Gellert que ele não estava doente e que não precisava de ajuda, mesmo quando talvez realmente precisasse de alguma ajuda mesmo. Mas todo o protecionismo foi automaticamente transferido no momento em que Gellert colocou os olhos nos bebês pela primeira vez. A dedicação do alpha pelos filhotes era tamanha que quando Vinda se juntava a ele Albus quase sentia saudades dos filhos. Nenhum dos dois deixava ninguém se aproximar dos bebês e Albus desconfiava que a má vontade se estendia até mesmo a ele.

- Gellert…  - Albus insistiu - meu irmão já está na sala… a sua espera.

Mas Gellert não se movia do lugar:

- Que bom para ele. - o alpha respondeu, indiferente, ainda segurando sua linda princesa no colo.

Albus então olhou na direção de Vinda, que segurava o menino no colo, como se implorasse a ela que desse o exemplo e o colocasse no berço e, quem sabe assim, Gellert a imitasse e fosse receber a visita, mas ela fingiu não perceber e imediatamente deu as costas, cantarolando uma música de ninar para o pequeno.

Com um suspiro impaciente, Albus se aproximou do marido, ignorando por completo quando ele lhe mostrou os dentes num rosnado curto e segurou seu braço suavemente:

- Aberforth não dispõe de muito tempo para conhecer os gêmeos. - explicou - Isso não vai demorar mais do que cinco minutos.

- Ele deveria ir cuidar do filho dele ao invés de vir até aqui incomodar… - Gellert respondeu, mal humorado.

Albus fez força para não revirar os olhos; ele já sabia que os alphas podiam ser um pouco superprotetores com seus filhotes, mas Gellert estava claramente exagerando. Tanto que o quarto dos bebês estava impregnado com o cheiro do Alpha, como se Gellert quisesse reforçar para qualquer um que ali entrasse que aquele território pertencia a ele.

- Poderíamos levá-los conosco para a sala então… - Albus sugeriu ao ver que Gellert se recusaria a se afastar dos bebês, sem deixar de reparar nos dois passos discretos que Vinda deu para mais longe dele.

- Esquece, Albus. Meus filhos não vão sair daqui. - Gellert respondeu e, como se fosse possível, seu cheiro tornou-se ainda mais intenso, como se ele quisesse reforçar ainda mais a proteção daquele território.

- Gellert, você não me deixa outra escolha… - Albus falou - Vou ser forçado a pedir para o meu irmão vir até aqui.

- Tanto faz. - Gellert deu de ombros, mal humorado - Mas já aviso que ele não vai pegar meus filhos no colo.

- Está bem, está bem… - Albus respondeu, aceitando a pequena concessão sem grandes protestos.

Felizmente, Aberforth se mostrou bastante compreensivo quando Albus lhe explicou toda a situação:

- Quando Aurelius nasceu, eu não permiti que ninguém além da mãe dele se aproximasse por pelo menos uma semana. - explicou- Pelo visto, esta fase está demorando um pouco mais para passar com seu marido.

Albus deu um sorriso cansado em resposta, mas, no seu íntimo, ele se perguntava seriamente se a tal “fase” um dia passaria. Uma imagem mental de um Gellert careca e com uma longa barba branca, mas ainda assim se recusando a sair de perto dos filhos já crescidos, o divertiu por alguns segundos.

- É aqui. - Albus falou antes de abrir a porta do quarto devagar e Aberforth fazer uma careta ao sentir o cheiro intenso de Alpha que dele emanava.

Aberforth hesitou, parado na porta do quarto ao ver Gellert e Vinda segurando os bebês no colo, parecendo igualmente hostis à sua presença.

- Entre, entre. - Albus convidou, animado, ignorando os olhares ameaçadores de Gellert e Vinda enquanto se aproximava primeiro do menino - Este é Gellen, o mais velho dos gêmeos…

Aberforth olhou para o minúsculo bebê de cabelos vermelhos que dormia placidamente nos braços de Vinda. Num impulso, ele estendeu o braço para tocar o rostinho do menino, mas o olhar terrível que Vinda lhe deu foi aviso suficiente para impedi-lo de continuar.

- Eu realmente pensei que você optaria por colocar o seu nome nele, Gellert... - Aberforth comentou enquanto trocava olhares agressivos com Vinda.

- Dei a ele o nome do meu pai. - Gellert respondeu, antipático.

- Entendo... - Aberforth respondeu, olhando Vinda dar as costas para ele, levando o bebê consigo, mas, antes que tivesse a oportunidade de protestar, Albus se apressou a continuar com as apresentações.

- E esta… é a pequena Ariana.

Aberforth olhou para a menininha, também ruiva e ainda menor do que o menino, e lembrou-se dele próprio, muito criança, segurando sua irmã bebê nos braços e, de tão enternecido, ele acariciou o delicado rostinho de Ariana, sem sequer se dar conta de que Gellert o olhava como se a qualquer momento fosse arrancar o braço dele com os dentes.

- Puxaram aos Dumbledore, os dois. - Aberforth comentou, orgulhoso.

Gellert fez uma cara muito feia, mas, ainda assim, não foi capaz de discordar. Por mais que procurasse, não conseguia encontrar semelhanças entre ele e os dois bebês. Ambos eram cópias perfeitas de Albus.

E também por isso ele amava tanto os seus pequenos lobos.

- Os pés deles são idênticos aos do Gellert. - Albus garantiu, animado, fazendo Aberforth dar uma risada desdenhosa.

- É possível. - Aberforth concedeu, por pena.

- E como vai Aurelius? - Gellert perguntou mais para lembrar o irmão de Albus de que ele tinha o que fazer em casa do que por simples curiosidade.

- Está muito bem com a mãe dele. - Aberforth respondeu, mais preocupado em admirar o rosto da menina em todos os seus detalhes - já está engatinhando e, graças a isso, precisamos salvar a vida dele a cada três minutos.

Para surpresa de Albus, que sempre imaginou que seu irmão jamais se relacionaria com alguém que não fosse um ômega, Aberforth havia conhecido uma beta na cidade e, de alguma forma, se apaixonado por ela.

Ou talvez Aberforth realmente não quisesse ser responsável por nenhum outro ômega, Albus não tinha muita certeza.

O fato é que o novo relacionamento havia transformado Aberforth. Agora seu irmão parecia muito mais… leve.

- Sabe… - Aberforth confessou enquanto ele o acompanhava até a saída, com uma de suas mãos apertando ombro de Albus - você não imagina o quão orgulhoso eu estou! Dois filhotes saudáveis! Na cidade não há quem não me parabenize por eu ter sido o Alpha de um ômega tão bom!

Albus precisou se esforçar para não fazer uma careta. Aberforth sequer havia aparecido na sua formatura, jamais lhe deu os parabéns pela sua conquista e muito menos se disse orgulhoso por ter sido o Alpha de um dos poucos Ômegas do país a se graduar. O orgulho só veio por ele ganhar numa estúpida loteria genética…

- Ah… que bom… - Albus respondeu, apesar de estar sinceramente farto de toda aquela história de gêmeos.
  
- O que aquele tosco do seu irmão disse a você? - a voz aborrecida sobressaltou Albus enquanto ele escovava os pelos de Fawkes, distraído com seus próprios pensamentos.

Albus olhou para trás rapidamente, surpreso por ver Gellert ali e não por perto dos seus amados filhotes.

- Ele me elogiou, na verdade. - Albus respondeu, carrancudo.

- Te elogiou? - Gellert perguntou, descrente.

- Sim… - Albus confirmou, voltando sua atenção para a crina do seu cavalo.

- E, por qual motivo você está tão chateado?

- Não estou chateado…

- Albus… - Gellert falou o seu nome em tom de repreensão, sem querer ser forçado a lembrá-lo do laço de almas que os unia.

- Não é nada, de verdade… - Albus respondeu, suavemente.

Os braços de Gellert o envolveram por trás, pela cintura, no instante seguinte, e Albus se deixou envolver naquele abraço protetor. O alpha beijou a marca no seu pescoço suavemente antes de falar no seu ouvido:

- Eu sou seu alpha e a única opinião que deveria importar para você é a minha.

Albus estremeceu ao ouvir aquela frase tão possessiva, antes de responder:

- Ele realmente me elogiou… - o ômega insistiu.

- Então ele te elogiou pelos motivos errados.

- Você provavelmente concordaria com ele.

- O que ele disse afinal? Que tem orgulho de você? Que você é um bom ômega?

- Por aí…

- Você é… - e apertando a cintura de Albus com mais firmeza - Você sempre foi. Não há alpha no mundo que tenha um ômega como você…

O peito de Albus subiu e desceu numa risada:

- Eu não sou o único ômega que engravidou de gêmeos, Gellert…

- Não estou falando só dos gêmeos… - Gellert garantiu - Você sabe que eu continuaria sendo seu mesmo se eles não existissem.

Albus sorriu:

- Gosto quando diz que é você é meu.

Gellert virou Albus para si e se inclinou para beijá-lo suavemente antes de responder:

- Seu alpha te ama.

↑ Top · Fandoms