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- Tétis, por favor. Tétis, quando é que isso vai acontecer? "O jovem implorava, gritando o nome da Ninfa ajoelhado à margem de um pequeno lago iluminado pela luz da lua. Os seus joelhos queimavam, rasgados pelas pedras. A garganta seca, e a voz esganiçada como uma criança, gritando por sua mãe. Tétis era uma mãe, mas não era a dele. Mais do que uma simples mulher, uma deusa. A sensação de dor era familiar para ele, tanto quanto a voz de um pai poderia ser. Não é surpresa, pois ambas estavam relacionadas a figura de seu pai, Patroclus ainda poderia se lembrar dos dias e noites na presença do Rei Menoécio. Ajoelhado no piso frio, após severas punições o jovem era tido como algo pior que o mais humilde dos servos, embora usasse todos os adornos comuns a um príncipe. Parecia que ele estava fadado, não para grandeza como alguns, mas para fornecer súplicas diante de alguém não importa para quem fosse. Bem, que assim seja , pensou ele. Desde que eu possa ter serventia para Aquiles.O bosque ficou silencioso, o vento parou como se temesse. Pátroclo também temeu. Sentindo o seu sangue gelar. Mas Aquiles valia muito mais. Para Pátroclo Aquiles era tudo, então preparando-se para gritar novamente, o jovem abriu a boca, entretanto nenhum som saiu. Lá estava ela, surgindo dentre as ondulações do lago enlameado. Tétis poderia até odiar a água doce, mas não havia nada que odiasse mais do que Pátroclo."Nunca mais. Ouse. Mencionar meu nome, mortal. "Pausadamente a Deusa sibilou cada palavra como uma serpente.O ar de repente faltava para Pátroclo, que mal conseguia respirar. Pois, longos dedos agora apertavam-lhe o pescoço, como uma enguia enrolando-se impiedosamente em uma presa menor. O jovem ofegou, seus pés mal tocavam o chão. Ele não ousou se mover. Nem se quer um centímetro, isso significaria ter a garganta rasgada como um tecido barato, pelas unhas pontiagudas da Ninfa. Não é como se Pátroclo temesse a morte. Dentre todas as coisas que se pode temer o jovem era assolado pela mais simples delas: o esquecimento. Para alguns, o esquecimento traria paz como um gentil acalento para a alma, recomeço. Mas para Pátroclo, recomeçar implicaria o fim de todas as coisas. Bastaria tocar as águas frias e profundas do Léthé para que ele não soubesse porque os figos são tão doces, ou porque o azul é sua cor favorita. Seria o fim de Aquiles e Pátroclo, não haviam reencontros assegurados.Ele ouviu contos sobre amantes separados pela morte, que não se reencontraram porque um deles já havia tomado do Lethe. Ele temia esquecer Aquiles mais do que a própria morte.É quase antinatural, para Patroclus pensar em uma vida sem Aquiles. Heróis e semideuses como ele estão predestinados a tornarem-se a objetos de inspiração para as musas em vida e ao findar dela repousar nos campos Elísios, onde seriam banhados com toda a glória eterna que lhes é devida. Com o melhor dos gregos, não seria diferente mas Pátroclo, era bem.. só Pátroclo. Então resignado, ele esperou pelas próximas ações da Deusa. Que provavelmente, não o mataria ainda. Caso ela realmente pretendesse já teria feito, quando Pátroclo caiu da figueira. E por consequência do penhasco, diretamente no oceano que cercava o Monte Pelião. Logo, sua teoria se provou verdadeira. O menino foi lançado ao chão, enchendo os pulmões com o recém-adquirido oxigênio, suas vestes outrora brancas ficaram manchadas pelo barro. "Por favor! "Persistiu o jovem ainda no chão. Sua voz era rouca tanto pelos gritos quanto pelo recente estrangulamento. Sua visão era turva, vislumbrando apenas uma mancha vermelha de seu próprio sangue nas pedras à margem do lago. "Como é persistente! Coisinha sem vergonha, agarrado a meu filho como um maldito parasita. Já que insiste tanto. "Disse irada a Ninfa, pelo atrevimento daquele jovem mortal. "Os outros Deuses não me disseram muito, tudo o que eu sei é que, Hector príncipe de Tróia irá perecer primeiro. E será Aquiles responsável por isso. "Hector? Por que Aquiles mataria Hector? O que Hector já fez pra ele? "Embora questionasse, Pátroclo bem sabia a resposta, nada . Mas isso pouco importa para os deuses. Tétis encarou o jovem por alguns segundos, sua boca se alargou em um sorriso macabro e então ela prosseguiu. "Por que age como se não soubesse o que os seus profetas disseram sobre o meu filho? "Talvez eu deva refrescar sua memória então. Diga para mim, o que disseram "Tétis utilizava um falso tom de compreensão, mas sua voz soava como ferro atingindo ferro agudo e estridente. Não desejando enfurecer a Ninfa, talvez ela ainda tivesse mais alguma informação. Pátroclo foi rápido a oferecer sua tréplica. Ele melhor do que ninguém conhecia tal profecia Aquiles vangloriava-se dela, um complemento a sua identidade tríplice: príncipe, semideus e herói. O jovem monarca a entoou nas mais diversas ocasiões, as mais memoráveis sem dúvida eram as noites. Com Aquiles e Pátroclo deleitando-se um no outro. De modo que o azeite misturava-se com o suor de ambos os corpos unidos em uma constante e interminável adoração à Afrodite. Em certa ocasião, o soberano murmurou em seus ouvidos. “"Que sorte a sua em ter o melhor dos gregos à sua disposição“ "enquanto seus quadris moviam-se de forma tão insaciável quanto um homem de sua fama poderia ser. Aquiles então o abraçaria quando estivesse finalmente saciado e diria algo como “Seria tão fácil Pat, eu poderia ter qualquer um, a mais bela das damas ou o mais famoso dos príncipes, mas foi você o meu escolhido. Não está grato por essa oportunidade?”, enquanto eles ainda estavam conectados um ao outro. Com Pátroclo de joelhos fracos e totalmente exausto demais para se importar com essas comparações. "Glória e fama, Aquiles será o maior herói de sua geração. O melhor dos Gregos. "Pátroclo respondeu sucintamente. Pátroclo não achava que fosse possível, mas assistiu ao perverso sorriso da deusa alargar-se. Sentido satisfação ao ver o jovem lançado a lama onde pertencia. "Exato, agora diga… como a fama pode existir sem sangue? Os mortais vêm e vão, mas as canções sobre os heróis são eternas. Um herói capaz de fazer cair o mais forte dos reinos sem sequer sofrer um arranhão. Meu filho vai ser eterno então e você não deveria estragar isso. "Eterno? Mas ele não é… "Pátroclo questionou confuso, já que Aquiles era um semideus e não uma divindade completa, até mesmo para ele a morte seria algo assegurado. "Cale a boca. Meu filho será honrado por tudo o que merece e não precisa de algo como você manchando sua reputação. "O que? Mas eu nunca faria algo assim "Murmurou o Jovem. Aquiles sempre foi excelente em tudo que se propunha em fazer, Patroclus não imaginava como ele poderia diminuir as conquistas de alguém tão excepcional. "Você, realmente, é tão previsível. Não ouse se fazer de inocente, acaso eu desconheço sobre os “afetos” entre vocês? "A sua pronúncia de afetos, foi realizada com tal aversão que um ouvinte menos atento poderia pensar que o termo era utilizado para se referir ao mais profano dos atos. O sangue de Pátroclo gelou, era quase como se ele pudesse sentir Aquiles sussurrando “Minha mãe não pode nos ver aqui”. Ele se manteve calado. Certo de que a Ninfa iria embora se ele levantasse a voz novamente. "Eu sei sobre a caverna. Embora eu preferisse que ele não se contaminasse com algo insignificante assim, já que ele poderia fazer melhor. "inconscientemente Pátroclo encolheu-se, lembrando do tipo de coisa que Aquiles dizia no calor do momento. “Eu poderia ter qualquer um”. A deusa prosseguiu como se não tivesse notado. "Quando uma criança demonstra apego desnecessário a um animalzinho, é natural que os seus pais o deixem se divertir um pouco. Por mais sujo e indigno que seja esse animal. Afinal, as vestes sempre podem ser lavadas e o brinquedo substituído por um melhor quando a criança se cansar dele. "a boca de Tétis torceu-se como se estivesse provando algo intragável, ao se referir ao relacionamento de Pátroclo com seu filho. "Os mortais existem para servir aos deuses, nada mais. Os deuses possuem uma tendência a serem respectivos a adoração, seja ela de quem for. Não ouse ter ilusões sobre o seu papel na vida dele, nunca será mais do que um servo, sem nome ou pai. "Eu poderia passar a noite dizendo o que acontece quando pessoas da sua laia se envolvem com aquilo que não deveriam. O copeiro ou aquele que virou uma flor, mas as histórias são infindáveis e minha paciência já está esgotada. Então não ouse corromper as conquistas do meu filho mortal. E a sua glória, já que isso é tudo o que vai sobrar dele. Tétis partiu logo em seguida, quando se deu por satisfeita em atormentar o pobre garoto. Antes mesmo que Pátroclo sequer abrisse a boca para responder, mas não faria diferença, ela estava certa. Pátroclo não tem pai, nunca teve. Mesmo antes de ser arrastado para ser o pretendente de Helena. Depois do incidente com os dados, quando ele verteu o sangue de outro garoto na terra. Quando ele foi levado para a posse de Peleu. Mas ele teve uma mãe, às vezes quando ninguém estava olhando. Momentos roubados com ela, sempre que se esgueirava pelas sombras do palácio e os olhos dela não estivessem perdidos na névoa. Não era muito, mas Pátroclo deleitava-se. Quanto pudesse ela acariciava seus cabelos e sussurrava ternamente sobre as lendas de seu antigo lar. Todos diziam que ela era uma mulher simples, porque ela nunca os olhava nos olhos e dizia coisas incompreensíveis, a verdade era que Núbia nunca entendeu a língua de seu marido e ele também não fez questão de ensinar. A mãe de Pátroclo era de outra terra, com outro sol Rá e venerava a Deuses diferentes, na calada da noite ela contaria histórias sobre outros heróis e pessoas que desenhavam com tinta sob a pele para sempre levar os outros consigo. “Nunca se esqueça do nosso sol, meu pequeno Radamés, a glória do seu pai ” Núbia tinha outro modo de chamar o garoto, como se isso fosse um segredo que apenas eles compartilhavam unidos por um fio inquebrável a sua cultura e seu povo. Seu nome era oculto até mesmo para Aquiles. Entretanto o jovem não refutou a Deusa, o que ela disse era verdade, bem.. majoritariamente. Ainda que difícil de engolir, era um fato. O destino de Aquiles estava para além do simples garoto, um herói e um qualquer… Não faltariam palavras para os poetas ao descrever as façanhas de seu Aquiles, e Pátroclo jamais passaria de um breve verso na canção de seu príncipe. Demorou alguns instantes para que Pátroclo se levantasse, o seu coração batia forte a ponto de ele quase não notar o frio da poça de lama a qual estava deitado. Ele cerrou as mãos como se tentasse se apegar a algo passageiro, uma corda para manter-se átona. Pátroclo refletia sobre as palavras de Tétis, que insistiam em ser reproduzidas cuidadosamente em sua cabeça como um decreto a fim de que sejam lembradas, não haveria segundas chances. Tudo será efêmero, repetiu ele para si mesmo.
A lua de Artemis em toda a sua glória adornava o céu, o jovem estava sozinho na mata. E com toda certeza não deveria demorar ali, ele deveria ser rápido, certo tempo havia se passado entre o jantar e aquela conversa. "Rogo por sua assistência, que a minha mensagem chegue até ele. "Pátroclo ofereceu a Hermes uma prece, e partiu correndo pela clareira enquanto pisoteava a densa vegetação do solo. Ele se foi, movido pela necessidade, aprofundando-se cada vez mais na mata sem notar serpentes que observavam às escondidas na folhagem de um arbusto próximo ao lago. Trêmulo, o jovem caminhou em direção aos aposentos de Aquiles. À medida em que se aproximava Pátroclo, pensava no que diria, talvez algo como Não mate Hector por favor. Isso só vai trazer ruína. Finalmente, diante da porta. Pátroclo, então suspirando profundamente fecha os olhos e a abre de uma só vez. "AQUILES! Você não vai acreditar no que.. "Aquiles? "O silêncio imperou. O príncipe não estava no quarto deles. As pernas desgastadas de Pátroclo finalmente cederam. Tudo bem. Ele precisou sair, deve ser algo importante. Não era típico de Aquiles sair sozinho, a menos que estivesse visitando sua mãe. Pátroclo se lembrava das ausências de Aquiles, como ele sempre voltava cheirando a salmoura e com as vestes úmidas. Mas eles não estavam juntos, porque Tétis esteve com ele a poucas horas.
Assim que ele chegar conversaremos.
Pátroclo, não pode deixar de se sentir inquieto. Ele serviu-se de um pouco de água para acalmar a sede, suas mãos tremiam um pouco com a ansiedade sobre a discussão porvir. Quíron uma vez disse, que quando eles estiverem ansiosos eles deveriam dedicar tempo a qualquer outra coisa. Que um coração inquieto é um dos maiores males para os guerreiros, no campo de batalha ela poderia ser a diferença entre ruína e vitória. Os olhos de Pátroclo vagaram pelo quarto deles, buscando qualquer coisa que pudesse ocupar a sua mente. E finalmente pararam na lira dourada, que outrora foi o dote de sua mãe. Relembrando-se momentaneamente do discurso de Tétis sobre a eternidade das canções, ele fantasiou.
Se fosse capaz, eu mesmo dedicaria uma canção para Aquiles.
O pai de Pátroclo não gostava de música, ele se lembrou. Ao caminhar em direção a lira. Mas como Tétis disse, Patroclus já não tinha mais um pai. Ele pensou de uma maneira brincalhona, fazendo piada de si mesmo para aguentar a tristeza. Com os lábios erguidos em um sorriso ele se aproximou do instrumento, sentou-se na cadeira e tocou com os dedos as cordas da lira.
Cantar para meu Aquiles… Essa canção não seria uma canção que louvasse seus feitos como os épicos dos heróis.
De fato, esta seria diferente de qualquer outra, uma canção dedicada a um príncipe… um garoto antes de mais nada.
Um garoto de fala mansa e doce, com longos fios de ouro que adornavam sua cabeça como o mais belo dos louros.
Dos longos braços capazes de colher a mais doce das frutas. Os seus lábios carnudos eram dos quais escorriam o suco dos figos.
Os dedos de Pátroclo escorregaram para a lira, dedilhando as cordas para formar a primeira nota.
Pátroclo cantou sobre os belos olhos de Aquiles azuis como as marés do mar, uma canção sobre a tonalidade de sua voz que o deixava hipnotizado e seduzido a se aproximar desse oceano impiedoso.
Ele mergulharia profundamente, se fosse isso o necessário para manter o peso de seu olhar sob ele. Ele estava disposto a se afogar.
Os olhos magnéticos de Aquiles, que o atraiam profundamente como uma isca na ponta de um anzol.
Cujo os abraços eram outrora afetuosos e às vezes poderiam tornar-se confusos, escorregadios – devido ao azeite da oliveira, o suor de ambos os corpos emaranhados uns nos outros –, marcados por suspiros que prestavam um longo culto a Afrodite.
Mas fato era que independente do que fosse, seja para a ternura e suavidade ou para a paixão desenfreada, Pátroclo estaria presente neste abraço. Logo que uma melodia preencheu a sala, seus dedos passeavam livremente pelo instrumento. Ele ousou acompanhar com a voz. Parecia que a cada cadência de notas mais do coração de Pátroclo era revelado. O ar tremia, ressoando com as notas. O seu pulso acelerou. Sua cabeça doía, Pátroclo queria parar mas seus dedos não o obedeciam. Continue. Algo estava o incitando, como se desafiasse a ver o quão ousado ele se tornaria. Como se estivesse possuído por algo, o jovem cantou pelo o que aos seus olhos pareciam horas. Ali tudo foi exposto, coisas grandes e pequenas sobre o seu Aquiles, sobre si mesmo que Pátroclo não ousaria dizer a ninguém. Seus pensamentos mais íntimos, Que se dane essa guerra idiota, Maldito Odisseu, Malditos homens e sua frágil honra. Medos e mais sombrios desejos. Você não deveria ir Aquiles, nenhuma honra vai valer a pena. Uma vez na vida faça algo sensato. Pátroclo fantasiava com a felicidade de um herói ou ainda com um príncipe loiro que idealmente nunca haveria de ser um herói. Tudo fluiu de seus lábios em ritmo imparável. Como uma oração, seja para quem fosse. Por favor não tire Aquiles de mim. E então ele viu. Os cavalos galopando ferozmente em um campo aberto levantando nuvens de poeira. Soldados organizados como formigas, o sangue, a carnificina. A armadura dourada, a lança que sempre acertaria o seu alvo. A lança de Aquiles . Pátroclo sentiu-se atordoado lançado em meio aquela batalha, o sol brilhava com vigor e castigava-lhe a pele. Estava quente demais, a armadura era abafada além de estar estranhamente larga e pesada. O suor escorrendo em suas mãos, dificultando o aperto de sua arma. Ele ouviu, os gritos de ambos os exércitos de soldados vindo em sua direção. Golpes de espada aproximando-se dele, o moreno se esquivou, mas não havia nada, era como se ele mesmo não estivesse ali. Tudo era muito rápido para ser acompanhado e compreendido, ele ainda viu a afronta de um rei a Deus. Bem como, contemplou os resultados da inação de um futuro rei. O jovem príncipe loiro, de modos semelhantes a um leão orgulhoso, recusando-se ao derramamento de sangue mas sedento por ele. Tomado por uma súbita tontura, o jovem desmaiou. Mas, não antes de observar uma corça tola que se dirigia ao leão. Um jovem tolo que ajoelhado implorava a seu herói e uma flecha que findava a vida de ambos. Seus olhos se fecharam, cansados, de maneira que o jovem finalmente caiu na escuridão. Desejando despertar para a realidade. Infelizmente tais coisas como realidade e destino conseguem ser mais cruéis que os próprios deuses. Sede e confusão, foi o que Pátroclo sentiu ao acordar. O jovem estava em meio aos tecidos lançados ao chão e a lira de Aquiles. Algo estranho havia acontecido naquele quarto. Isso poderia ser observado por fatos simples, primeiramente como lembrado por Quíron em várias ocasiões dentre ambos os garotos era Aquiles aquele abençoado com talento musical. Nem mesmo uma pequena parte de Pátroclo acreditava que merece crédito sobre as melodias derramadas ali. Sem sucesso, Pátroclo deixou seus olhos vagarem pelo quarto do príncipe buscando qualquer anormalidade aparente. A escuridão era densa, não havia sinal de luz apesar do calor que irradiava da pele de Pátroclo, era como se o tempo passasse de maneira vagarosa naquele ambiente. Ainda tonto o jovem inclinou-se para agarrar o odre de água e sorver um gole, entretanto sua caminhada era instável e suas pernas estavam fracas como a de uma corça. O odre escapou de seu toque, reduzido agora a cacos de argila espalhados pelo chão. O corpo do jovem pendeu para frente. Sem equilíbrio ele tremeu, fechando os olhos aguardando a inevitável queda. Entretanto, esta nunca ocorreu porque Pátroclo foi capturado rapidamente pela cintura por um forte par de mãos, claramente masculinos. Seu coração disparou. Ansiosamente, Pátroclo chamou por ele. “Aquiles?” Pátroclo não ouvir a porta abrir, o príncipe não havia acendido as tochas como de costume. "Aquiles? Quando você chegou? " Pátroclo perguntou novamente. Mais alto dessa vez, ainda sentindo o aperto firme em sua cintura. Mas apenas o silêncio o respondeu. Sua voz ecoou pelo quarto escuro. Tomou alguns segundos para que Pátroclo notasse, algo estava errado. Errado. Esse não era o toque de Aquiles. O homem que o agarrava exalava calor e cheirava como ozônio. Diferente da fragrância doce de Aquiles. Pátroclo soube então que aquele não era seu Aquiles. Pátroclo seria capaz de reconhecê-lo na completa escuridão. Pátroclo abriu os olhos, assustado. Que servo se atreveria a entrar, no meio da noite, nos aposentos do príncipe herdeiro? O que tal misteriosa figura poderia planejar? Nada bom. O jovem concluiu. Pátroclo torceu o corpo, libertando-se ansiosamente do aperto do estranho. Observando com cautela seu ‘Salvador’. E foi saudado pela visão de um homem, aterrorizantemente belo, vestido como um nobre. De constituição semelhante ao próprio Aquiles quando atingiu a maioridade. Embora fosse mais alto do que qualquer homem que Pátroclo houvesse visto, no palácio. Mas o mais notável de sua aparência eram os longos cabelos loiros que irradiavam luz própria. Pátroclo não pode deixar de fitar o homem por alguns segundos, ele parecia uma escultura. Como se notasse essa avaliação o homem lhe deu um olhar profundo e indecifrável. Com um sorriso que não chegava aos olhos respondeu em um tom nunca ouvido.
“Não é Aquiles”
De fato, Pátroclo estava na presença de nenhum outro senão o deus das músicas e profecias. Cujo, nenhuma de suas estátuas faziam jus à beleza. [Apolo.] Patroclo de repente sentiu como se as mãos que o agarravam estivessem quente demais, quase por queimar sua pele através da fina túnica. Ele tentou esgueirar-se para longe do toque ardente. Mas a divindade o segurava, com os olhos pairando em sua figura.
“Oh querido, o que temos aqui? Deixe-me ver… que comovente, cantando assim com tanta sinceridade.
É quase como se implorasse para ser visto por mim. Bem, agora você tem toda a minha atenção.”
"E-Eu.. "O jovem não sabia o que dizer, sua mente corria desenfreada e era como se o próprio ar o tivesse abandonado. A atenção de um deus, nunca era uma coisa boa para um mortal.
Apenas fale Pátroclo, não deveria ser tão difícil.
"Senhor, e-eu... não queria "O jovem já estava desgastado pelo confronto com Tétis, de maneira confusa tentava encontrar palavras para lidar com o segundo deus que encontrava na mesma noite.Dois deuses, bem mais do que a maioria dos mortais, é capaz de encontrar em uma vida inteira.
“Não queria? Assim como, não queria que seu príncipe abandonasse tudo por você? Ou saber o que o destino reserva para ele? Para vocês dois. Bem, Radamés creio que você quer… e quer tanto que sua própria alma cantou para mim.”
Apollo, encarava o jovem. Seus braços estavam cruzados sobre o peito, realmente toda a sua figura irradiava um brilho sobrenatural. Nada como Pátroclo houvesse visto anteriormente essa luz preenchia o cômodo de modo desorientador, não havia sombra que ousasse permanecer na presença do deus da luz.
“ Então, já que estava tão curioso com o destino dos outros, permita que eu lhe esclareça…”
Patroclus, observou o rosto de Apolo cada vez mais perto de seu espaço pessoal. Sentiu o deus passando a mão por sua nuca e agarrando-lhe para um beijo ardente e agressivo. Nada comparado ao que ele estava acostumado provindo de Aquiles. Era impossível para Patroclus afastar-se, o jovem moreno se sentiu indefeso enquanto a língua de Apollo saboreava-o como se fosse feito de ambrosia. Onde está Aquiles? Patroclus não pode evitar ansiar pela intervenção de Aquiles, ainda mais naquele momento em que pela segunda vez na noite o ar era roubado de seu pulmões por uma entidade superior. Foi uma luta intensa, entre presa e predador. Pátroclo debatia-se e Apolo manteve firme o seu aperto. Nesse ínterim ele foi movido. Apollo o carregava com facilidade, como um boneco de pano para a beirada da cama que compartilhava com a Aquiles. O coração do jovem batia acelerado como o de uma corça. Seus olhos vagavam pelo quarto perdidos. Enquanto cenários cada vez mais sombrios eram conjurados pela imaginação do jovem, totalmente consciente de que estava sendo colocado na cama por um deus. E pouco poderia fazer a respeito, caso o mesmo desejasse como Tétis disse anteriormente “ser servido”. Algo pelo qual, embora muitos estudiosos duvidassem, os deuses eram famosos. Pátroclo estava em choque, ao ter sido chamado por um nome o qual não deveria ser conhecido por ninguém. Mas nada supera o fato de o próprio Deus do Sol estar no seu quarto na calada da noite. Tudo tornou-se extremamente opressor, ele não entendia. Não entendia, porque aquele que era o símbolo do dia, havia aparecido em seu quarto em plena noite, não entendia o que Apollo quis dizer com a sua alma cantando para ele.
“Uhh… pronto, acho que já foi o suficiente. Eu, ah...
Sinto muito por isso, nossa conversa deveria fluir melhor sem que estivéssemos sendo assistidos por aquelas três”. Apolo afastou-se, quebrando o beijo entre eles e olhando para a figura atordoada do jovem mortal. Pátroclo o encarou de volta em silêncio. Afastando-se do deus solar, e agarrando uma das colchas de aquiles em volta de si mesmo como um casulo protetor. "Quem, como assim três? "Questionou Pátroclo, distante próximo a parede. "As tecelãs, responsáveis por tecer o destino. "Apolo afirmou, em um tom conspiratório. Ele levantou-se da cama, distanciando-se de Pátroclo e vagando por seu quarto. A figura do jovem deus era tão etérea que até mesmo os móveis luxuosos do quarto principesco pareciam simples em comparação. " Elas geralmente nos concedem certas indulgências quando comungamos com vocês mortais. Privacidade, talvez seja porque já saibam o resultado de um envolvimento entre o eterno e o efêmero. " Completou, Apollo fornecendo um olhar particularmente demorado em um vaso de Jacintos próximo ao espelho de bronze. Como se isso fosse infinitamente mais interessante que o jovem de visual bagunçado próximo a ele. "Embora eu seja o Deus das Profecias. Não dito as regras do jogo, são os outros quem decidem sobre a forma do destino. Mas eu pude sentir a sua sinceridade. "Apesar de sentir-se confuso, Patroclus pode notar a seriedade da divindade. Não parecia que Apolo desejava machucá-lo ou nada além de uma conversa. "Por que? "Questionou Patroclus, com rouquidão. Com o primeiro dentre tantos questionamentos pairando sobre a sua cabeça. "Talvez, porque eu esteja entediado. Sabe, eu deveria estar em Troia. E realmente partirei logo para fazer o sol erguer-se. "Apollo fitou o jovem, com grandes olhos amendoados. Ele suspirou, andando pelo quarto. Isso era um erro, o deus loiro sabia. Mas ele não podia evitar, de sentir uma leve compaixão, por aquele pequeno mortal. "Você, sua voz me atraiu, me fez lembrar de alguém. Já faz tempo desde que vejo alguém tão parecido com ele.. O fato é, o destino não pretende ser gentil com você Radamés, nem com seu Aquiles. Mas você tem meu favor, para equilibrar a balança. Pátroclo suspirou, em favor de um deus. Seu coração disparou, as suas mãos ficaram suadas. Isso poderia ser extremamente útil, mas com os deuses sempre havia um porém. Ele deveria proceder com cautela."Apollo, não é que eu não esteja agradecido, mas.. como exatamente você nos ajudaria? Os gregos são inimigos daqueles que você apoia. "Não tenho inimigos, o sol não se ergue para gregos e troianos? Comprometa-se comigo. E eu posso te fazer saber o necessário para poupar seu Aquiles da morte. "Ofereceu Apollo, aproximando-se do leito que Pátroclo costumava dividir com o príncipe. Com uma postura inofensiva e uma das mãos aberta para que o jovem pudesse apertar. Os olhos de Pátroclo se arregalaram com a sugestão, de ir contra o próprio destino. Era uma oferta tão tentadora. Caso o jovem concordasse, isso poderia ser um trunfo. Mas tal bênção poderia vir acompanhada de um preço muito alto. Ele precisava pensar melhor. "Eu… Eu vou contar para Aquiles, sobre o que está o aguardando em tróia. Ele vai entender, talvez… com alguma persuasão. "As palavras fluíam de seus lábios, buscando justificar a sua relutância. O jovem moreno, estava sugerindo que não aceitava de prontidão tal acordo pelo fato de que Aquiles lhe daria ouvidos. E a intervenção divina não se faria necessária para eles. O silêncio foi quebrado por uma risada. Apolo era a fonte do som, o deus estava rindo como se Pátroclo houvesse contado a mais divertida das anedotas em uma taberna.
"Seja sincero, Radamés. Acha que seu príncipe vai dar ouvidos ao seu alerta? Então… me diga onde ele está?
As mãos de Pátroclo cerraram-se apertando a colcha que cobria seu corpo, ele abaixou a cabeça sentindo-se ligeiramente envergonhado. Ele não sabia onde Aquiles estava e teve sorte de Apolo ser mais palatável que seu pai Zeus, caso contrário as coisas poderiam estar tomando um rumo totalmente assustador. Ele ainda sentia a ansiedade serpenteando por suas veias, embora quisesse negar. Apollo estava certo, ele estava sozinho e ainda que Aquiles o escutasse sobre diversos assuntos, nada poderia ficar entre o jovem semideus e sua profetizada glória. "Não está cansado de ter seus apelos ignorados? Seja meu profeta e suas palavras serão as de um deus garanto que ele ouvirá seu conselho. Vamos mortal… eu não tenho tempo para desperdiçar. "O que eu teria que fazer? Para me tornar o seu profeta… "Pátroclo perguntou, ainda cabisbaixo.
"Nada demais, é claro me ofereça sua voz.
O jovem ponderou por alguns momentos, não parecia ser um custo tão alto. E o conhecimento sobre o futuro poderia realmente salvar Aquiles de um destino obscuro. Não foi uma escolha tão difícil. Ele apertou a mão oferecida. Suas mãos parecem tão pequenas, comparadas às mãos de Apolo, quando postas lado a lado. Momentaneamente distraído, Pátroclo sente o aperto sutil de Apolo, que o puxa para os seus braços pela segunda vez essa noite. Ele sente os sente envolvendo-os em sua cintura, aproximando os seus troncos. De forma que não houvesse como o garoto escapar de sua captura. Seus olhares se cruzam, o tempo parece arrastar-se entre eles. Apolo rompe o silêncio.
"Sinto muito. Mas isso é necessário, então aguente firme."
Disse o deus, antes de tomar novamente os lábios de Pátroclo em um beijo, carregado de gentileza. Embora fosse gentil, Pátroclo não pode deixar de sentir-se arrebatado novamente por um calor indesejado. Ele sentiu como se houvesse traído toda a gentileza de Aquiles e odiava essa sensação. Sua garganta queima e ele sente como se houvesse lambido uma brasa com a língua. Por mais belo que fosse a divindade, loira. Ele não nutria nenhum sentimento de desejo em relação a ele. Inadvertidamente, lágrimas surgiram em seus olhos. Pátroclo sentia como se o fogo o estivesse devorando de dentro para fora. Ele se agitava nos braços firmes do deus como um animal que teve a pele marcada por ferro quente.O tempo parecia arrastar-se a cada momento, e então. Apollo interrompeu o beijo. "Pronto, está feito." Apolo finalmente afastou-se dele, soltando o seu aperto. Pátroclo caiu devastado sob os finos lençóis de Aquiles. Ele mal conseguiu lançar um olhar para o jovem deus, desorientado pelo calor que o consumia. "Shhh. Não chore. " Os dedos de Apolo passaram em seu rosto, varrendo para longe as teimosas lágrimas de dor. "Nada pode vir sem esforço garotinho." Apolo disse enquanto, sua mão acariciava suavemente os cachos castanhos do garoto. "Não seria justo, se não cobrasse algo. Seja grato que não tomei sua visão como aconteceu com Tindérias. Não sou misericordioso? Em permitir que você veja seu Philiatos?”Ele observou como os lábios de Apolo torceram-se em um sorriso sereno. Pátroclo congelou, com a afirmação. O que ele havia feito? O jovem tremia de terror. Ele estava certo em temer os deuses. Um grito angustiado deixou seus lábios, mas nada foi ouvido, exceto a calmaria noturna. "Foi um prazer fazer negócios com você, mas devo ir. Logo será dia. Nos veremos em breve" Afirmou Apolo enquanto sua figura desvanecia em uma luz dourada. Finalmente só, Pátroclo. Aliviado permitiu que seus olhos se fechassem. Levado por um sono pensado. O garoto não notou que, assim como Apolo havia afirmado, o sol já havia raiado. Sem que Aquiles tivesse retornado para o quarto que compartilhavam.
